EDIÇÕES ANTERIORES
Ano IV - novembro 2001 - nº 39

Sua revista com a cara e a alma brasileira


SUMÁRIO - EDIÇÃO 39
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA

"O meio que a gente desprevenida encontrou para livrar-se desses sobressaltos e dar uma solução à freqüência dos casos foi recorrer à crendice..." Espinha de peixe, por Osvaldo Orico.

"Pelo norte do Brasil (Ceará, Piauí, Maranhão) havia e continua havendo a tradição de oferecer um jantar aos cachorros em homenagem a São Lázaro ou a São Roque..." Promessa de jantar aos cachorros, por Luís da Câmara Cascudo.

A casa das almas. A visão de João do Rio sobre a religião dos minas no Rio de Janeiro do começo do século XX.

CATAVENTO
ALMANAQUE

 

PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...


ESPINHA DE PEIXE

Osvaldo Orico


No cardápio de todos os hotéis e casas de família, o peixe tem uma saliência real. Há sempre grande abundância de pescado, relacionando-se nos restaurantes as variedades mais conhecidas e apreciadas. Fazendo do peixe seu alimento favorito, a gente da Amazônia procurou resolver o pior empecilho criado ao seu paladar: a espinha.

Os caboclos levaram a perfeição a sua técnica a isolar completamente o peixe da espinha, valendo-se dos lábios e dos dentes para essa operação, que realizam com incrível agilidade.

Nós outros já não fazemos o mesmo. E somos, por isso, freqüentemente vítimas de surpresas pouco agradáveis. De vez em quando lá uma espinha pérfida se insinua pela garganta, provocando-nos momentos bem penosos e situações bastante críticas.

O meio que a gente desprevenida encontrou para livrar-se desses sobressaltos e dar uma solução à freqüência dos casos foi recorrer à crendice. Quando uma pessoa engole uma espinha e se vê "aperreada" com os incômodos por ela provocados, o remédio é este que vou narrar, trazendo o meu próprio depoimento.

Visitava eu a cidade de Soure, quando fui convidado a almoçar em casa de um amigo lá residente. Fazia parte do cardápio um excelente apaiari, peixe muito apreciável, mas que requer uma infinita cautela, por motivo do perigo das espinhas.

Mal familiarizado com ele, fui eu a vítima do almoço. Vi-me em papos de aranha com uma espinha sorrateira, que me entrou pela garganta. Retirei-me da mesa para não fazer figura triste. E iniciava os primeiros vômitos para livrar-me daquela enrascada, quando o dono da casa ordenou: "Girem os pratos". Cada um dos convivas começou a rodar o seu. Foi a conta. A espinha do peixe pulou, rápida, a tempo que eu visse ainda o movimento cabalístico com que, na Amazônia, o povo resolve uma das situações mais delicadas em que se pode encontrar quem não possue a mesma arte dos nativos para separar o peixe da espinha.

(Orico, Osvaldo. Vocabulário de crendices Amazônicas. Companhia Editora Nacional, 1937)

Jangada Brasil © 1998-2002