
"O meio que a gente desprevenida
encontrou para livrar-se desses sobressaltos e dar uma solução à freqüência dos casos
foi recorrer à crendice..." Espinha de peixe, por Osvaldo
Orico.
"Pelo norte do Brasil (Ceará, Piauí, Maranhão) havia e continua
havendo a tradição de oferecer um jantar aos cachorros em homenagem a São Lázaro ou a
São Roque..." Promessa de jantar aos cachorros, por Luís
da Câmara Cascudo.
A casa das almas. A visão de João do Rio sobre a religião dos
minas no Rio de Janeiro do começo do século XX.
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| PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre
plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos;
orações; devoções; magia e feitiçaria... |
No cardápio de todos os hotéis e casas de família, o peixe tem uma saliência real. Há
sempre grande abundância de pescado, relacionando-se nos restaurantes as variedades mais
conhecidas e apreciadas. Fazendo do peixe seu alimento favorito, a gente da Amazônia
procurou resolver o pior empecilho criado ao seu paladar: a espinha.
Os caboclos levaram a perfeição a sua técnica a isolar completamente o peixe da
espinha, valendo-se dos lábios e dos dentes para essa operação, que realizam com
incrível agilidade.
Nós outros já não fazemos o mesmo. E somos, por isso, freqüentemente vítimas de
surpresas pouco agradáveis. De vez em quando lá uma espinha pérfida se insinua pela
garganta, provocando-nos momentos bem penosos e situações bastante críticas.
O meio que a gente desprevenida encontrou para livrar-se desses sobressaltos e dar uma
solução à freqüência dos casos foi recorrer à crendice. Quando uma pessoa engole uma
espinha e se vê "aperreada" com os incômodos por ela provocados, o remédio é
este que vou narrar, trazendo o meu próprio depoimento.
Visitava eu a cidade de Soure, quando fui convidado a almoçar em casa de um amigo lá
residente. Fazia parte do cardápio um excelente apaiari, peixe muito apreciável, mas que
requer uma infinita cautela, por motivo do perigo das espinhas.
Mal familiarizado com ele, fui eu a vítima do almoço. Vi-me em papos de aranha com uma
espinha sorrateira, que me entrou pela garganta. Retirei-me da mesa para não fazer figura
triste. E iniciava os primeiros vômitos para livrar-me daquela enrascada, quando o dono
da casa ordenou: "Girem os pratos". Cada um dos convivas começou a rodar o seu.
Foi a conta. A espinha do peixe pulou, rápida, a tempo que eu visse ainda o movimento
cabalístico com que, na Amazônia, o povo resolve uma das situações mais delicadas em
que se pode encontrar quem não possue a mesma arte dos nativos para separar o peixe da
espinha.(Orico, Osvaldo. Vocabulário
de crendices Amazônicas. Companhia Editora Nacional, 1937) |
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