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Ano IV - novembro 2001 - nº 39

Sua revista com a cara e a alma brasileira


SUMÁRIO - EDIÇÃO 39
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA

Velórios e sentinelas. Os ritos funerários no interior do Estado de Sergipe por volta de meados da década de 1960, descritos por Deda Carvalho.

As igrejas e as cerimônias de batismo e de funerais no Rio de Janeiro de início do século XIX descritas pelo comerciante inglês John Luccock.

Cemitérios e enterros no Rio de Janeiro de outrora, por Gastão Cruls.

COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE

 

PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...


CEMITÉRIOS E ENTERROS

Gastão Cruls


CEMITÉRIOS


Referimos acima que para substituir o cemitério existente nos fundos da Santa Casa em 1839 fora aberto outro na Praia de São Cristóvão. E foi este o primeiro campo-santo organizado em bases regulares que se estabeleceu na cidade. Dizemos o primeiro porque aqui não fica compreendido o Cemitério dos Ingleses, descrito páginas atrás, e que se destinava apenas aos protestantes.

Mas mesmo aquele Cemitério do Caju e outros que depois se abriram só começaram a ser procurados quando, em 1850, por motivo da primeira epidemia de febre amarela, o governo proibiu os enterramentos em igrejas. É que até então para os mortos de categoria havia sempre uma catacumba no claustro dos conventos ou uma campa no chão dos templos.

Assim, os cemitérios existentes na cidade, e eram quatro, serviam apenas para recolher o rebotalho social. O da Santa Casa era para os falecidos no seu próprio hospital, os justiçados e os escravos. O de Santo Antônio, zelado pelos franciscanos, e ao sopé do morro do mesmo nome, isto é, no largo da Carioca de hoje, tinha as mesmas finalidades. Os dois restantes eram ainda piores. O dos pretos novos, no antigo largo de Santa Rita, onde até 1825 houve um cruzeiro; e o dos mulatos, no campo do Rossio da Cidade, depois largo de São Domingos, já desaparecido. Estes eram mais ou menos clandestinos e as covas, feitas à flor da terra, deixavam os corpos quase insepultos. Não raro, chuvas violentas bolsavam-lhe as podridões. E não foi por outro motivo que o marquês de Lavradio fez remover o cemitério dos prêtos novos para uma parte do Valongo, a rua do Cemitério por isso, atual rua da Harmonia.

Nos primeiros tempos, da Santa Casa até o seu novo cemitério na praia de São Cristóvão, primitivamente conhecido por Cemitério do Caju, para depois chamar-se Cemitério de São Francisco Xavier, os enterramentos eram feitos por mar. A partir, porém, de 1840, começaram-se a usar carros, para fazer os transportes por terra.

Foi por volta de 1850 que se fundaram os outros cemitérios mais importantes da cidade. O de São Francisco de Paula, no largo de Catumbi, em 1849; o da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência, na Praia de São Cristóvão, em 1858; o da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo, ainda na Praia de São Cristóvão, em 1859. Todos são privativos das respectivas Irmandades. Quanto ao Cemitério de São João Batista, à rua General Polidoro, é de 1852, e veio substituir outro, pequeno, o Cemitério de Dom Pedro II, que existira junto ao Hospício. Este último, muito próximo da praia, várias vezes viu-se invadido pelo mar, com sério prejuízo dos seus túmulos. Nele tivera sepultura, em 1852, o poeta Álvares de Azevedo, cujos restos foram trasladados depois para aquele. Tanto o Cemitério de São João Batista como o de São Francisco Xavier, ambos pertencentes à Santa Casa, são públicos.


ENTERROS


Até 1840, quase todos os enterros se realizavam à noite e eram dos espetáculos mais tristes da cidade. Assistindo a tão lúgubres cerimônias, muitos viajantes estrangeiros se impressionaram vivamente e deles falam com minúcia nos seus livros.

"Cada paróquia tem sua irmandade do Santíssimo, encarregada de escoltar o padre que vai levar a extrema-unção a um doente. Essa assistência religiosa é solicitada na sacristia onde se encontra sempre um irmão de plantão a quem cabe despachar imediatamente um sineiro que percorre as ruas adjacentes e reúne os irmãos disponíveis para esse dever religioso. Não conseguindo número suficiente apelam para os soldados do posto militar mais próximo o que faz com que a cruz, os candelabros e o pálio sejam quase sempre carregados por soldados vestidos com a opa carmesim. O cortejo mais decente comporta sempre um destacamento militar de oito homens, comandados por um oficial, todos de boné na mão, precedidos por um tambor e uma trombeta ou de um pífaro, conforme a arma. Quando isso ocorre num dia de festa celebrada especialmente na igreja cuja assistência é solicitada, o cortejo é acrescido solenemente da banda de música de negros, estacionada fora do pórtico e que se transforma então, numa vanguarda composta de duas clarinetas, um triângulo, uma trombeta, um tambor e um bumbo. Nesse caso o destacamento militar fecha a marcha. Sigamos agora o cortejo. É difícil, confesso, ter uma idéia da horrível algazarra produzida pela música estridente e desafinada desses seis negros executando com entusiasmo valsas, alamandas, lundus, gavotas, recordações de baile, militarmente entrecortada pela trombeta da retaguarda que domina tudo com uma marcha cadenciada. A esse conjunto revoltante de melodias e ritmos contrários, junta-se ainda o movimento mais lento de um coro de vozes esganiçadas e fanhosas de uns trinta negros devotos entoando as litanias intermináveis da Virgem. Essa inexplicável e indecisa mistura de instrumentos e vozes humanas acompanha-se ainda de um baixo contínuo de outro gênero: o carrilhão de cada uma das igrejas diante das quais passa o cortejo, ruído que se extingüe aos poucos, gradualmente, na medida em que os sineiros perdem de ouvido o som da sineta argentina do irmão encarregado de dar uma dupla badalada de minuto em minuto. O cortejo chega finalmente à porta da casa do doente; permite-se a entrada somente às pessoas necessárias. Os portadores encostam no muro o pálio dobrado e a cruz; a escolta militar enfileira-se do outro lado da rua. A música dos negros e os cantores colocam-se de lado e recomeçam com todas as forças a executar suas contradanças, enquanto outros cantam ao mesmo tempo as litanias da Virgem. Afirma-se que muitas vezes a eloqüência feliz e caridosa do padre vale-se desse barulho embora bárbaro para persuadir o moribundo de que já o céu se abre para recebê-lo e os anjos o anunciam com seu concerto harmonioso!" (In Jean-Baptiste Debret, Viagem pitoresca e histórica ao Brasil, trad. de Sérgio Milliet, p. 170-171)


Os cortejos, por muito tempo a pé, à luz de archotes e numerosos círios, faziam-se entre o lamento das carpideiras e o choro ruidoso, mas nem sempre muito sentido, dos parentes.

Ewbank, um americano nosso visitante lá por 1845, estava uma vez na rua à passagem de um desses saimentos fúnebres e confessa a entaladela em que se viu metido. É que entre os interessados num enterro havia sempre um ou mais escravos incumbidos de distribuir velas pelas pessoas encontradas em caminho, e isso importava num convite para que as mesmas se juntassem aos acompanhantes. E foi assim que, de um momento para outro, tanto Ewbank como um seu companheiro se viram de velas já acesas à mão e tiveram de engrossar o cortejo, seguindo até a igreja onde ia ser depositado o corpo.

Mas havia também aspectos ridículos e até festivos em certos atos fúnebres.

Debret fala nos "anjinhos" que viu expostos nos templos, à espera da última bênção, antes que fossem fechados nos seus nichos. Com as faces vivamente coradas a carmim e uma coroa de latão dourado sobre a cabeleira postiça e muito loura, descansavam de mãos postas e entre flores, sobre um coxim de tafetá rosa ou azul-celeste.

Há quem descreva ainda um enterro de escravo importante, filho de algum soba africano. O espetáculo tinha qualquer coisa de passeata circense. Enquanto o morto era levado ao balouço de uma rede, um negralhão, à frente do préstito, soltava bombas e foguetes, e outros faziam cabriolas e dançavam, cantando e emitindo gritos estrídulos.


(Cruls, Gastão. Aparência do Rio de Janeiro; notícia histórica e descritiva da cidade. 2 v. Rio de Janeiro, Livraria José Olímpio Editora, 1965. Coleção Rio Quatro Séculos)

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