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| PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a
casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e
costumes; tipos populares... |
IGREJAS - CERIMÔNIAS DE BATISMO E DE FUNERAIS |
Existem quatro igrejas paroquiais da cidade, sendo que delas a mais antiga é a de São
José, situada exatamente nos fundos do Paço, na rua a que se deu seu nome. O edifício
é volumoso, porém baixo, escuro e úmido; sua entrada principal fica a oeste. O altar
não é nem proporcionado nem belo; as paredes são pintadas a cores sombrias e de aspecto
pesado, se bem que a elas se misturem o vermelho, o azul e o dourado.
Existe ali uma pia batismal de grande capacidade, a mais usada, talvez, de toda a cidade.
Fiquei admirado de ver criancinhas completamente nuas mergulhadas em suas santas águas. O
padre recebe a criança e, segurando-a por ambos os tornozelos com a mão esquerda,
enquanto que com a direita lhe sustém o peito, mergulha-a de rosto para baixo. Benze-a em
seguida com uma cruz na testa, e assim fica ela garantida contra as garras do maligno.
No mesmo local, vi pela primeira vez, no Rio, os funerais de um adulto. O corpo foi
trazido pelas ruas numa espécie de liteira aberta, ou antes, tabuleiro, coberto de veludo
negro, enfeitado de fitas douradas e munido, como os féretros europeus, de oito alças. A
maceira ou ataúde têm cerca de dois pés e meio de largo, seis de comprido e seis a oito
polegadas de fundo, de tal maneira que o corpo, posto de costas, fica inteiramente exposto
à vista. Como neste clima quente os músculos não se tornam rígidos e como os funerais
se realizam poucas horas depois da última cena da vida, enquanto o defunto é levado pela
mão ou sobre os ombros, ele executa certos movimentos que muito se parecem com aquilo que
se poderia esperar de um sujeito vivo em grau de estrema debilidade. Por outro lado, não
o levam nesse passo lento e solene em perfeita procissão, tal como lehor parece quadrar
com uma dor profunda, mas sim numa pressa indecente, uma espécie quase que de corrida, em
meio de alto vozerio e com ar de grosseira alegria. Os míseros depojos do homem vão
cobertos de todos os galantes atavios de um dia de festa, o rosto pintado, os cabelos
empoados, a cabeça enfeitada com uma guirlanda de flores ou coroa de metal; não havendo
para essa faceirice outros limites além do que lhe impõe a habilidade dos amigos
sobreviventes. Fica assim o defunto em condições de comparecer perante o guarda das
chaves dos céus e de ser por este apresentado ao Juiz das almas, que dele terá, ao que
nos asseguram seus delegados terrenos, uma excelente impressão.
Diante da porta da igreja o defunto foi colocado no chão, continuando por algum tempo
ainda exposto à vista do público. Não tinha adquirido esta fisionomia cadavérica que
os mortos em geral assumem entre nós; mesmo porque a doença age com tal rapidez aqui, o
enterro segue tão de perto à morte, que não sobra tempo para isso. Pareceu-me costume
excelente essa exposição do corpo, num país em que o assassínio é tão comum, por dar
assim à multidão presente uma oportunidade de verificar se o fim sobreveio por processo
natural ou por violência, a menos que se tivesse usado de veneno, de modo a não levantar
suspeitas, ou que houvesse um ferimento escondido por debaixo dos guapos enfeites. De
qualquer maneira é certo que torna mais difícil esconder um assassínio. No devido
momento, os padres recebem o corpo, executam por cima dele os ritos da igreja e
entregam-no aos que têm por encargo as cerimônias supremas. De uma feita, vi esses
homens despojarem por completo um defunto de todos os enfeites que trazia e que eram
excepcionalmente ricos; a coisa foi feita com amanha frieza que dava a impressão ou de
que eles tinham algum direito de proceder assim ou que a isso se haviam acostumado desde
muito. Em geral, limitam-se a cortar fora ou rasgar as correias que serviam para sujeitar
o corpo ao tabuleiro e impedi-lo de se despejar; em seguida atiram-no à sepultura que,
para gente branca, é sempre no interior dalgum edifício sagrado; jogam uma certa
quantidade de cal virgem, pòem a terra e socam tudo com grandes pilões de madeira.
Pareceu-nos esta última prática mais desumana e chocante do que quantas presenciei num
enterro, levando-me até a pensar que não ficava muito aquém do próprio canibalismo.
A gente mais pobre, ou pelo menos os pretos, é tratada com muito menos cerimônia nestes
ritos supremos. Logo em seguida ao falecimento, costura-se o corpo dentro de uma roupa
grosseira e envia-se uma intimação a um dos dois cemitérios a eles destinados para que
enterre o corpo. Aparecem dois homens na casa, colocam um defunto numa espécie de rede,
dependuram-na num pau e, carregando-o pelas extremidades, levam-no através das ruas tal
como se estivessem a carregar uma qualquer coisa. Se acontece de pelo caminho encontrarem
com mais um ou dois que de forma idêntica estejam de partida para a mesma mansão
horrível, põe-nos na mesma rede levam-nos juntos para o cemitério. Abre-se
transversalmente, ali, uma longa cova, com seis pés de largo e quatro ou cinco de fundo;
os corpos são nela atirados sem cerimônia de espécie alguma, de atravessado e em
pilhas, uns por cima dos outros, de maneira que a cabeça de um repousa sobre os pés do
outro que lhe fica imediatamente por baixo e assim vai trabalhando o preto sacristão, que
não pensa nem sente até encher a cova, quase que por inteiro; em seguida, põe terra
até para cima do nível. Quase não é preciso acrescentar-se que nesses cemitérios
assistiam às mais repugnantes cenas aqueles que entendiam de escolhê-los para campos de
suas observações, sendo o mau cheiro intolerável, e pondo eles em sério perigo a
saúde da cidade, enquanto não houver uma reforma.
A desumanidade de alguns desses costumes funerários podem talvez parecer até certo ponto
redimidos por um outro em que tomei involuntariamente parte. Estava eu parado junto ao
portão de uma capela, quando, trazido por quatro pessoas, chegou um estrado contendo o
que já tinha sido uma menina linda, prazeirosamente vestida e, como de costume,
inteiramente à vista. No momento em que passou por mim o primeiro à esquerda dos que
pegavam nas alças, tomou-me ele a mão e colocou-a onde tinha estado a dele; a coisa foi
feita tão de súbito que me encontrei nessa posição, quase que sem tomar consciência
disso. Como eu então desconhecia as suas cerimônias e tinha medo de ofendê-los, não
cumprindo exatamente com elas, tirei partido do fato de ter surgido um certo embaraço,
provocado pela estreiteza da entrada, para render a alça a uma pessoa que já se achava
no interior da capela. Verifiquei depois que se eu tivesse prosseguido, isso se teria
considerado uma homenagem à finada e uma atenção para com os amigos dela.
Não será demais acrescentar que, em anos subseqüentes, a rudez costumeira do cerimonial
fúnebre de muito se adoçou. Tornou-se hábito entre a gente fidalga, usar por cima do
ataúde de uma coberta solta, fácil de retirar-se; o corpo não fica exposto ao público
nas ruas, sendo visto, no máximo, apenas pelos padres dentro da igreja. Recebem o corpo
no dia do falecimento, conduzem-no à sepultura e procedem ao enterro; um ou dois dias
após, levanta-se na igreja um grande altar, coloca-se em cima um caixão vazio, coberto
com uma mortalha em que se vê bordada uma cruz; sobre ele se canta o réquiem e se
exceutam as cerimônias maiores.
[1808-1818]
(LUCCOCK, John. Notas
sobre o Rio de Janeiro e partes meridionais do Brasil. Belo
Horizonte / São Paulo, Editora Itatiaia / Editora da Universidade de São Paulo, 1975.
Reconquista do Brasil, 21) |
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