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Ano IV - novembro 2001 - nº 39

Sua revista com a cara e a alma brasileira


SUMÁRIO - EDIÇÃO 39
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA

Velórios e sentinelas. Os ritos funerários no interior do Estado de Sergipe por volta de meados da década de 1960, descritos por Deda Carvalho.

As igrejas e as cerimônias de batismo e de funerais no Rio de Janeiro de início do século XIX descritas pelo comerciante inglês John Luccock.

Cemitérios e enterros no Rio de Janeiro de outrora, por Gastão Cruls.

COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE

 

PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...


IGREJAS - CERIMÔNIAS DE BATISMO E DE FUNERAIS

John Luccock


Existem quatro igrejas paroquiais da cidade, sendo que delas a mais antiga é a de São José, situada exatamente nos fundos do Paço, na rua a que se deu seu nome. O edifício é volumoso, porém baixo, escuro e úmido; sua entrada principal fica a oeste. O altar não é nem proporcionado nem belo; as paredes são pintadas a cores sombrias e de aspecto pesado, se bem que a elas se misturem o vermelho, o azul e o dourado.

Existe ali uma pia batismal de grande capacidade, a mais usada, talvez, de toda a cidade. Fiquei admirado de ver criancinhas completamente nuas mergulhadas em suas santas águas. O padre recebe a criança e, segurando-a por ambos os tornozelos com a mão esquerda, enquanto que com a direita lhe sustém o peito, mergulha-a de rosto para baixo. Benze-a em seguida com uma cruz na testa, e assim fica ela garantida contra as garras do maligno.

No mesmo local, vi pela primeira vez, no Rio, os funerais de um adulto. O corpo foi trazido pelas ruas numa espécie de liteira aberta, ou antes, tabuleiro, coberto de veludo negro, enfeitado de fitas douradas e munido, como os féretros europeus, de oito alças. A maceira ou ataúde têm cerca de dois pés e meio de largo, seis de comprido e seis a oito polegadas de fundo, de tal maneira que o corpo, posto de costas, fica inteiramente exposto à vista. Como neste clima quente os músculos não se tornam rígidos e como os funerais se realizam poucas horas depois da última cena da vida, enquanto o defunto é levado pela mão ou sobre os ombros, ele executa certos movimentos que muito se parecem com aquilo que se poderia esperar de um sujeito vivo em grau de estrema debilidade. Por outro lado, não o levam nesse passo lento e solene em perfeita procissão, tal como lehor parece quadrar com uma dor profunda, mas sim numa pressa indecente, uma espécie quase que de corrida, em meio de alto vozerio e com ar de grosseira alegria. Os míseros depojos do homem vão cobertos de todos os galantes atavios de um dia de festa, o rosto pintado, os cabelos empoados, a cabeça enfeitada com uma guirlanda de flores ou coroa de metal; não havendo para essa faceirice outros limites além do que lhe impõe a habilidade dos amigos sobreviventes. Fica assim o defunto em condições de comparecer perante o guarda das chaves dos céus e de ser por este apresentado ao Juiz das almas, que dele terá, ao que nos asseguram seus delegados terrenos, uma excelente impressão.

Diante da porta da igreja o defunto foi colocado no chão, continuando por algum tempo ainda exposto à vista do público. Não tinha adquirido esta fisionomia cadavérica que os mortos em geral assumem entre nós; mesmo porque a doença age com tal rapidez aqui, o enterro segue tão de perto à morte, que não sobra tempo para isso. Pareceu-me costume excelente essa exposição do corpo, num país em que o assassínio é tão comum, por dar assim à multidão presente uma oportunidade de verificar se o fim sobreveio por processo natural ou por violência, a menos que se tivesse usado de veneno, de modo a não levantar suspeitas, ou que houvesse um ferimento escondido por debaixo dos guapos enfeites. De qualquer maneira é certo que torna mais difícil esconder um assassínio. No devido momento, os padres recebem o corpo, executam por cima dele os ritos da igreja e entregam-no aos que têm por encargo as cerimônias supremas. De uma feita, vi esses homens despojarem por completo um defunto de todos os enfeites que trazia e que eram excepcionalmente ricos; a coisa foi feita com amanha frieza que dava a impressão ou de que eles tinham algum direito de proceder assim ou que a isso se haviam acostumado desde muito. Em geral, limitam-se a cortar fora ou rasgar as correias que serviam para sujeitar o corpo ao tabuleiro e impedi-lo de se despejar; em seguida atiram-no à sepultura que, para gente branca, é sempre no interior d’algum edifício sagrado; jogam uma certa quantidade de cal virgem, pòem a terra e socam tudo com grandes pilões de madeira. Pareceu-nos esta última prática mais desumana e chocante do que quantas presenciei num enterro, levando-me até a pensar que não ficava muito aquém do próprio canibalismo.

A gente mais pobre, ou pelo menos os pretos, é tratada com muito menos cerimônia nestes ritos supremos. Logo em seguida ao falecimento, costura-se o corpo dentro de uma roupa grosseira e envia-se uma intimação a um dos dois cemitérios a eles destinados para que enterre o corpo. Aparecem dois homens na casa, colocam um defunto numa espécie de rede, dependuram-na num pau e, carregando-o pelas extremidades, levam-no através das ruas tal como se estivessem a carregar uma qualquer coisa. Se acontece de pelo caminho encontrarem com mais um ou dois que de forma idêntica estejam de partida para a mesma mansão horrível, põe-nos na mesma rede levam-nos juntos para o cemitério. Abre-se transversalmente, ali, uma longa cova, com seis pés de largo e quatro ou cinco de fundo; os corpos são nela atirados sem cerimônia de espécie alguma, de atravessado e em pilhas, uns por cima dos outros, de maneira que a cabeça de um repousa sobre os pés do outro que lhe fica imediatamente por baixo e assim vai trabalhando o preto sacristão, que não pensa nem sente até encher a cova, quase que por inteiro; em seguida, põe terra até para cima do nível. Quase não é preciso acrescentar-se que nesses cemitérios assistiam às mais repugnantes cenas aqueles que entendiam de escolhê-los para campos de suas observações, sendo o mau cheiro intolerável, e pondo eles em sério perigo a saúde da cidade, enquanto não houver uma reforma.

A desumanidade de alguns desses costumes funerários podem talvez parecer até certo ponto redimidos por um outro em que tomei involuntariamente parte. Estava eu parado junto ao portão de uma capela, quando, trazido por quatro pessoas, chegou um estrado contendo o que já tinha sido uma menina linda, prazeirosamente vestida e, como de costume, inteiramente à vista. No momento em que passou por mim o primeiro à esquerda dos que pegavam nas alças, tomou-me ele a mão e colocou-a onde tinha estado a dele; a coisa foi feita tão de súbito que me encontrei nessa posição, quase que sem tomar consciência disso. Como eu então desconhecia as suas cerimônias e tinha medo de ofendê-los, não cumprindo exatamente com elas, tirei partido do fato de ter surgido um certo embaraço, provocado pela estreiteza da entrada, para render a alça a uma pessoa que já se achava no interior da capela. Verifiquei depois que se eu tivesse prosseguido, isso se teria considerado uma homenagem à finada e uma atenção para com os amigos dela.

Não será demais acrescentar que, em anos subseqüentes, a rudez costumeira do cerimonial fúnebre de muito se adoçou. Tornou-se hábito entre a gente fidalga, usar por cima do ataúde de uma coberta solta, fácil de retirar-se; o corpo não fica exposto ao público nas ruas, sendo visto, no máximo, apenas pelos padres dentro da igreja. Recebem o corpo no dia do falecimento, conduzem-no à sepultura e procedem ao enterro; um ou dois dias após, levanta-se na igreja um grande altar, coloca-se em cima um caixão vazio, coberto com uma mortalha em que se vê bordada uma cruz; sobre ele se canta o réquiem e se exceutam as cerimônias maiores.

[1808-1818]


(LUCCOCK, John. Notas sobre o Rio de Janeiro e partes meridionais do Brasil. Belo Horizonte / São Paulo, Editora Itatiaia / Editora da Universidade de São Paulo, 1975. Reconquista do Brasil, 21)

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