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Ano IV - novembro 2001 - nº 39

Sua revista com a cara e a alma brasileira


SUMÁRIO - EDIÇÃO 39
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA

Velórios e sentinelas. Os ritos funerários no interior do Estado de Sergipe por volta de meados da década de 1960, descritos por Deda Carvalho.

As igrejas e as cerimônias de batismo e de funerais no Rio de Janeiro de início do século XIX descritas pelo comerciante inglês John Luccock.

Cemitérios e enterros no Rio de Janeiro de outrora, por Gastão Cruls.

COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE

 

PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...


OS VELÓRIOS

Deda Carvalho


No interior de Sergipe, chama-se "sentinela" o ato de passar a noite em claro velando um defunto.

O rito funéreo é ainda uma coisa medonha na zona rural, em todo o Estado.

Antes mesmo da morte do enfermo, começam os preparativos da "sentinela" Compra-se cachaça, fumo e bolachão.

Quando o doente entra em agonia, chama-se a "exortadeira", de ordinário uma megera, cuja função é "ajudar a morrer".

A "exortadeira" fica sentada na cabeceira do doente, vigilante com a vela e a caixa de fósforos prontas para o derradeiro momento.

Como se fosse um médico assistente, vai acompanhando os transes, fornecendo, de momento a momento uma espécie de "boletim" falado: - Já apareceu o "cirro da morte"! – um chiado longínquo na garganta do doente.

- Fez o primeiro termo!

O "termo" é o sinal positivo do fim que se aproxima. Ao verificar o primeiro "termo", a "exortadeira" põe a vela na mão do moribundo e começa a monótona exortação:

- Vá com Deus!
Lembre-se do nome de Jesus!
Olhe para a vela que alumia seu caminho!

E, numa cadência pungente, como se fosse o próprio moribundo, vai recitando, repetidamente:

- Aflita se viu Maria,
Aflita aos pés da Cruz;
Aflito me vejo eu,
Valei-me, Mãe de Jesus!

Uma outra informação é dada pela vigilante "exortadeira":

- Fez o segundo termo!...

Se, entre o primeiro e terceiro termo, o enfermo cobra repentina melhora, o "boletim" é divulgado baixinho, em cochichos, para que o doente não perceba: - É a visita da morte!...

Realmente a agonia reaparece. O "cirro" recrudesce na garganta do agonizante, e a "exortadeira" recomeça no invariável diapasão:

- Aflita se viu Maria...

Nos olhos vidrados e já mortos do quase finado reflete-se numa miniatura, a tocha da vela.

Verificado o desenlace, a "exortadeira" apaga a vela, fecha os olhos do morto, cruza-lhe os braços na altura do peito, coloca sobre o mesmo uma cruz ou crucifixo, e toma as derradeiras providências para a sentinela.

Onde houver um espelho, vira-se o vidro para a parede, evitando que a alma se recorde das vaidades do mundo. Todos os instrumentos de trabalho do finado são expostos no terreiro da casa: machados, enxadas, foices, facões, etc. Se for mulher, a tesoura, a almofada de bilros, agulhas, alfinetes, pentes, etc.

Começa-se o velório ou "sentinela", cantando-se o "Ofício".

Todas as rezadeiras e rezadores da redondeza comparecem, num gesto de piedade.

Uma voz cavernosa de homem puxa um "responso" triste, que se ouve longe:

- Repouso eterno, dai-lhe, Senhor!..

E as rezadeiras respondem, num coro plangente:

- Da luz perpétua, o resplendor...

Depois do "repouso eterno", cantam-se as "excelências", que são repetidas, obrigatoriamente até doze, entremeadas de versos. Uma rezadeira vai "solando" as "excelências":

Uma excelência vai "com vós";
Uma excelência da Virgem da Piedade.
Que é nossa Mãe,
Bendita, Dolorosa, Imaculada.

E o coro responde, alto:

- Alma, ó alma!
Que estás esperando?
Por uma excelência?
Já estamos cantando...

Repete.se o solo:

- Duas excelências "vai com vós"...

Seguem-se as "excelências" até doze, sempre respondidas pelo coro, com diferentes versos:

- Pai eterno, que sofreu,
Pelo nosso pranto e nossa dor;
Fazei que ela se apresente,
No espaço redentor!

- Santo Mariano,
Aonde ela nasceu,
Com as excelências,
Da Santa Mãe de Deus?

- Ó meu bom São Miguel,
Ouça a voz de quem vos chama:
Vem buscar esta alma,
Que a três dias reclama

Depois das "excelências", cantam-se rezas avulsas:

Solo:
- Pecador arrependido,
Pobrezinho pecador;
Vem abraçar-te comigo,
Sou teu pai, teu criador.

Cheio:
- Piedade, Senhor!
Piedade, Senhor!
Ai de nós pecador!

No terreiro, no corredor e na cozinha, a garrafa de cachaça não pára, correndo de mão em mão e de boca em boca. A fumaça dos cachimbos e cigarros somam-se, no ar, à dos "fifós" de querosene, tornando o ambiente mais tétrico.

Formam-se os pequenos grupos isolados, mexericando em cochichos. Se o defunto é a dona da casa, inventa-se casamento para o viúvo: - Casa logo... o homem tem dois gostos na vida: quando casa e quando a mulher morre...

Se foi o marido que morreu, o mexerico com a viúva é o mesmo, mas em trova debochada e de pé quebrado:

- Negócio bom, de-devéra
É plantar em arrancador;
Casar com dona viúva,
Comer o que o besta deixou...

Pela manhã, depois de rezado o "Ofício", sai o enterro. Cavaleiros e pedestres a passo vagaroso. Dir-se-iam estafados pelo sono da noite perdida.

As mulheres também acompanham, cantando rezas avulsas até a primeira encruzilhada, quando se faz a despedida. Posto o esquife no chão, todos se ajoelham em redor, e, pela última vez, é cantado o "Ofício".

Depois desta cerimônia, as mulheres se dispersam e o préstito prossegue; agora, porém, numa carreira desenfreada dos pedestres carregando o defunto. Uma pressa que quase dá galope aos cavaleiros.

Um dos acompanhantes é encarregado de distribuir cachaça, aos goles, para "espalhar o sangue" e "espantar o sono".

O resto da cachaça é consumido no ato do sepultamento.

* * *

Quando a sentinela é de criança, o rito muda um pouco.

Em sentinela de criança não se reza o "Ofício", e as "excelências" são acompanhadas de versos alusivos aos anjos do céu:

- Minha mãe, eu vou pró céu.
Os anjos vão me levando.
Do mundo não quero nada,
Só de Deus vou me lembrando.
- Uma excelência vai com vós...

. . . . . . . .

- Era um pinguinho de sangue
Que na terra apareceu.
Ó que povo tão ingrato!
Inda não se arrependeu!

- São Miguel, São Miguel,
Leve este anjinho prá guia!
Vem buscar este anjinho
Para vossa companhia.

- Que anjo tão lindo
Jesus mandou buscar!
Ó mãe do anjo, mãe do anjo,
Por que tanto chorar?!

Ao amanhecer, canta-se esta reza:

- Lá vem a barra do dia,
Lá vem José e Maria
Desceram os anjos do céu
Para a sua companhia.

Coro:
No primeiro dia
Os anjos cantam na glória,
Os anjos cantam na glória.
Dolorosa e sagrada Maria,
Nos alumie neste dia,
Nos alumie neste dia...

Se a criança morreu pagã, não será enterrada em cemitério bento, mas numa encruzilhada, onde, durante sete anos, nos dias de sexta-feira, à meia-noite, o defuntinho chorará, reclamando o seu batismo. que poderá ser feito em qualquer tempo, com água benta e rezas. Somente depois do batismo, a alminha deixará de chorar.


(Carvalho, Deda. Brefaias e burundangas do folclore sergipano. Aracaju, Livraria Regina, 1967)

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