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Ano IV - novembro 2001 - nº 39

Sua revista com a cara e a alma brasileira


SUMÁRIO - EDIÇÃO 39
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA

Do cultivo e preparo do tabaco no Brasil colonial, por André João Antonil.

"Há dois tipos de fotógrafo trabalhando nas áreas de lazer em São Paulo. Um é a figura conhecidíssima do lambe-lambe e a outra é a do fotógrafo jovem que anda de um lado para outro, carregando duas ou mais máquinas a tiracolo..." Lambe-lambe.

O mutirão e a traição, formas de cooperação na zona rural, por Hernani de Carvalho.

PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE

 

OFICINA - Nesta seção, textos sobre profissões; ferramentas; técnicas; agricultura, pecuária; artesanato; vendedores ambulantes; pregões...

MUTIRÃO

Hernani Carvalho


Mutirão, muxirão, muxirã, muchirom, motirão ou boi-de-cova é uma manifestação de solidariedade humana entre o homem rural brasileiro.

Consiste, na prática., o mutirão: determinado homem rural precisa de realizar a semeadura ou a colheita do seu roçado. Então, este lavrador ou roceiro convida os seus colegas e vizinhos para um mutirão. Nesse dia, mata-se um cabrito e manda-se comprar na venda próxima um garrafão de saborosa cachaça para o ajantarado. E põe-se mão à obra, trabalhando, rindo, pilheriando, de sol a sol. No fim do dia, a tarefa está pronta. E todos os conividados, então, regressam aos seus lares alegres e satisfeitos, porque colaboraram com o colega, saborearam e elogiaram o cabrito assado e a cachaça saborosa.

O mutirão é gratuito e o trabalho é a troca do apetitoso ajantarado. Os roceiros sentem-se honrados com um convite para um mutirão, porque é oportunidade para trocar idéias e estreitar as relações de amizade entre eles.

Na zona rural campista é muito comum entre os roceiros fazerem casebres-de-sopapos, isto é, de paredes barreadas e cobertas de follhas de uma gramínea conhecida por sapé. E, num dia, o mutirão levanta uma habitação rústica para uma família roceira.

O mutirão oferece oportunidade para os nossos sociólogos estudarem no seu habitat o homem rural brasileiro. Mas, acontece que os nossos sociólogos são homens-do-asfalto, isto é, sociólogos-da-cidade...

Nos mutirões aparece sempre um "poeta" que faz versos mexendo com a "turma".

Na zona rural campista, onde possui uma fazendola, havia um roceiro chamado pelo apelido de Bizunga, que era um gozo nos mutirões, fazendo "versos" e acompanhado de pandeiro, numa linguagem estropiada de roceiro.

As alusões referidas pelo roceiro Bizunga passaram-se de época, mas visou-se a citação foi tão-só focalizar o espírito de crítica do roceiro, na sua linguagem estropiada, de quem não lê jornais... Essas alusões têm somente significado folclórico. Ouçamo-lo:

Seu Getúlio Varga
É homem bão para os trabaiadô.
Mas, Getúlio Varga
Ajudou só trabaiadô da cidade.

* * *

Seu Getúlio Varga
É homem bão para os trabaiadô.
Mas, Getúlio Varga
Esqueceu que o roceiro é filho de Deus.

* * *

Nóis agora temos esperança de João Goularti
Fazendo arguma coisa para nóis,
Proquê o roceiro já esgotou a paciência
Tanto é o sofrimento de nóis.

* * *

Gularti, Gularti,
Chegô a nossa ora,
Proquê Fideli dá adeus pra nóis
E Chico Julião fais cósca em nóis.

** *

"Seu Amará lá do Palace do Ingá
Tomem enrolou nóis
E nada fêis pra nóis
E inté abraçava nóis..."

* *

"Amará, Amará,
Se vancê, vortá,
Trabaia pra nóis
Proquê iremo votá em vancê...

* * *

O Tenoru de lá de Caxia
Tá cum vontade de ingoli o Governadô Badigé mas não conseguirá,
Proquê Badigé tem santo forte...

* * *

E a "turma" do mutirão ria, às escâncaras:

Quá, quá, quá, o Bizunga tem razão!
Quá, quá, qué, basta de enrôlo!

* * *

A traição é uma modalidade de solidariedade humana, é um modo de cooperar com um vizinho que está em dificuldade, pois o seu roçado está no mato ou então a sua colheita está por fazer.

* * *

A traição é uma modalidade de mutirão invertido, porque aqui a ajuda aos lavradores da redondeza é que assume a atitude de cooperação, espontaneamente.

Reúnem-se de madrugada e partem para a roça do vizinho e começam a tarefa-surpresa, levando no bornal o alimento do dia.

O beneficiário é conhecido por atraiçoado e recebe a "turma" risonho e feliz.

Durante o "serviço" os roceiros cantam, distraindo-se. Vamos reproduzir um "verso" da cantoria:

Eu sou passarinho,
Eu sou sabiá,
Eu quero fazê meu ninho
No fundo do teu quintá,
Da limeira no ‘gainho
Pra podê te namorá.

À tardinha, a tarefa está terminada: cooperação gratuita e espontânea. E a "turma" parte, dando vivas ao vizinho atraiçoado.

Em Goiás, a "traição e mais freqüente.

Linda cooperação de solidariedade humana!


(Carvalho, Hernani. No mundo maravilhoso do folclore. Rio de Janeiro, Tipografia Batista de Souza, 1966)

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