
Do cultivo e
preparo do tabaco no Brasil colonial, por André João Antonil.
"Há
dois tipos de fotógrafo trabalhando nas áreas de lazer em São Paulo. Um é a figura
conhecidíssima do lambe-lambe e a outra é a do fotógrafo jovem que anda de um lado para
outro, carregando duas ou mais máquinas a tiracolo..." Lambe-lambe.
O mutirão e a traição, formas de cooperação na zona rural, por
Hernani de Carvalho.
|
|
|
|
| OFICINA
- Nesta seção, textos sobre profissões; ferramentas; técnicas; agricultura, pecuária;
artesanato; vendedores ambulantes; pregões... |
Mutirão, muxirão, muxirã, muchirom, motirão ou boi-de-cova é uma
manifestação de solidariedade humana entre o homem rural brasileiro.
Consiste, na prática., o mutirão: determinado homem rural precisa de realizar a
semeadura ou a colheita do seu roçado. Então, este lavrador ou roceiro convida os seus
colegas e vizinhos para um mutirão. Nesse dia, mata-se um cabrito e manda-se comprar na
venda próxima um garrafão de saborosa cachaça para o ajantarado. E põe-se mão à
obra, trabalhando, rindo, pilheriando, de sol a sol. No fim do dia, a tarefa está pronta.
E todos os conividados, então, regressam aos seus lares alegres e satisfeitos, porque
colaboraram com o colega, saborearam e elogiaram o cabrito assado e a cachaça saborosa.
O mutirão é gratuito e o trabalho é a troca do apetitoso ajantarado. Os roceiros
sentem-se honrados com um convite para um mutirão, porque é oportunidade para trocar
idéias e estreitar as relações de amizade entre eles.
Na zona rural campista é muito comum entre os roceiros fazerem casebres-de-sopapos, isto
é, de paredes barreadas e cobertas de follhas de uma gramínea conhecida por sapé. E,
num dia, o mutirão levanta uma habitação rústica para uma família roceira.
O mutirão oferece oportunidade para os nossos sociólogos estudarem no seu habitat o
homem rural brasileiro. Mas, acontece que os nossos sociólogos são homens-do-asfalto,
isto é, sociólogos-da-cidade...
Nos mutirões aparece sempre um "poeta" que faz versos mexendo com a
"turma".
Na zona rural campista, onde possui uma fazendola, havia um roceiro chamado pelo apelido
de Bizunga, que era um gozo nos mutirões, fazendo "versos" e acompanhado de
pandeiro, numa linguagem estropiada de roceiro.
As alusões referidas pelo roceiro Bizunga passaram-se de época, mas visou-se a citação
foi tão-só focalizar o espírito de crítica do roceiro, na sua linguagem estropiada, de
quem não lê jornais... Essas alusões têm somente significado folclórico. Ouçamo-lo:
Seu Getúlio Varga
É homem bão para os trabaiadô.
Mas, Getúlio Varga
Ajudou só trabaiadô da cidade.
* * *
Seu Getúlio Varga
É homem bão para os trabaiadô.
Mas, Getúlio Varga
Esqueceu que o roceiro é filho de Deus.
* * *
Nóis agora temos esperança de João Goularti
Fazendo arguma coisa para nóis,
Proquê o roceiro já esgotou a paciência
Tanto é o sofrimento de nóis.
* * *
Gularti, Gularti,
Chegô a nossa ora,
Proquê Fideli dá adeus pra nóis
E Chico Julião fais cósca em nóis.
** *
"Seu Amará lá do Palace do Ingá
Tomem enrolou nóis
E nada fêis pra nóis
E inté abraçava nóis..."
* *
"Amará, Amará,
Se vancê, vortá,
Trabaia pra nóis
Proquê iremo votá em vancê...
* * *
O Tenoru de lá de Caxia
Tá cum vontade de ingoli o Governadô Badigé mas não conseguirá,
Proquê Badigé tem santo forte...
* * *
E a "turma" do mutirão ria, às escâncaras:
Quá, quá, quá, o Bizunga tem razão!
Quá, quá, qué, basta de enrôlo!
* * *
A traição é uma modalidade de solidariedade humana, é um modo de cooperar com
um vizinho que está em dificuldade, pois o seu roçado está no mato ou então a sua
colheita está por fazer.
* * *
A traição é uma modalidade de mutirão invertido, porque aqui a ajuda aos
lavradores da redondeza é que assume a atitude de cooperação, espontaneamente.
Reúnem-se de madrugada e partem para a roça do vizinho e começam a tarefa-surpresa,
levando no bornal o alimento do dia.
O beneficiário é conhecido por atraiçoado e recebe a "turma" risonho e
feliz.
Durante o "serviço" os roceiros cantam, distraindo-se. Vamos reproduzir um
"verso" da cantoria:
Eu sou passarinho,
Eu sou sabiá,
Eu quero fazê meu ninho
No fundo do teu quintá,
Da limeira no gainho
Pra podê te namorá.
À tardinha, a tarefa está terminada: cooperação gratuita e espontânea. E a
"turma" parte, dando vivas ao vizinho atraiçoado.
Em Goiás, a "traição e mais freqüente.
Linda cooperação de solidariedade humana!
(Carvalho, Hernani. No mundo maravilhoso do folclore. Rio de
Janeiro, Tipografia Batista de Souza, 1966) |
|