
Do cultivo e
preparo do tabaco no Brasil colonial, por André João Antonil.
"Há
dois tipos de fotógrafo trabalhando nas áreas de lazer em São Paulo. Um é a figura
conhecidíssima do lambe-lambe e a outra é a do fotógrafo jovem que anda de um lado para
outro, carregando duas ou mais máquinas a tiracolo..." Lambe-lambe.
O mutirão e a traição, formas de cooperação na zona rural, por
Hernani de Carvalho.
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| OFICINA
- Nesta seção, textos sobre profissões; ferramentas; técnicas; agricultura, pecuária;
artesanato; vendedores ambulantes; pregões... |
LAMBE-LAMBE E FOTÓGRAFO AMBULANTE |
Maria Rita da Silva
Lubatti |
Há dois tipos de fotógrafo trabalhando nas áreas de lazer em São Paulo. Um é a figura
conhecidíssima do lambe-lambe e a outra é a do fotógrafo jovem que anda de um lado para
outro, carregando duas ou mais máquinas a tiracolo.
O lambe-lambe tem ponto fixo para fotografar; tem licença para trabalhar em áreas
estabelecidas pela prefeitura. O outro é um fotógrafo ambulante que trabalha onde quer,
nos fins de semana e nos dias festivos, para obter um ganho extra.
O trabalho de ambos é folclórico, pois decorre de aprendizado espontâneo. A venda e a
promoção de seus serviços decorrem da experiência de vida, adquirida no dia-a-dia.
Os lambe-lambes são aposentados sem qualificação profissional, descendentes de
italianos e de espanhóis. Os que trabalham com máquinas modernas procedem de vários
estados do Brasil; há predominância de mineiros, nortistas e nordestinos. Trabalham como
operários assalariados; nos fins de semana e feriados fotografam empregadas domésticas,
casais de namorados e crianças que costumam passear em logradouros públicos. Alguns
atendem também chamados a domicílio, para fotografar batizado, aniversário, noivado e
casamento.
Os dez lambe-lambes que trabalham nos logradouros públicos em São Paulo não gostam de
se identificar nem de falar sobre a profissão. São homens carrancudos, esquivos ao
diálogo. O mais jovem (cinquenta anos) e menos retraído que encontrei foi Ângelo
Morales, o termo lambe-lambe provém do velho costume de colocar a chapinha de vidro, que
continha o formato da fotografia a ser batida, entre os lábios, de modo que o fotógrafo,
na hora de bater a fotografia, reconhecesse facilmente verso e anverso. Afirma que era
necessário fazer essa prova, porque a chapa era e ainda é colocada na máquina com o
lado sensível para a frente da pessoa que vai ser fotografada. Hoje usa-se a chapa de
plástico rígido, para fotografias; para se reconhecer avesso e frente é só colocar o
polegar sobre a chapinha. O lado emulsionado marco o dedo. Desse modo, o fotógrafo evita
bater fotografias erradas.
Ângelo conta que por volta de 1930 a 1940, o Jardim da Estação da Luz e o Parque Dom
Pedro II, eram freqüentados por moças ricas da Avenida Paulista e Jardim Europa. Hoje,
diz ele: "Só dá gente de fora, gente esquisita, às vezes, chego ter medo de
trabalhar por essas bandas (Jardim da Estação da Luz), pois aqui tem um vaivém
terrível; gente que namora, que toca violão e canta debaixo das árvores, largada no
gramado ou sobre os banquinhos.
Outros trazem crianças e animais para brincar e passear. Há marreteiros que vendem de
tudo, fazendo uma gritaria dos diabos. Mas o problema é que nós fomos esquecidos, desde
que surgiram os jovens com as máquinas fotográficas modernas e as lojas. As lojas, essas
sim, são nossas concorrentes e tiram o pão da boca da gente. Foram elas que liquidaram
com o lambe-lambe, pode crer". Apesar dos concorrentes, é procurado para fotografar
noivas antes de ir à igreja e até mesmo para fazer todas as fotografias do casamento.
Segundo explica, há uma posição certa para fixar a máquina-caixote num parque; é
fixada numa área ou ângulo, levando-se em conta a posição do sol, da paisagem, do
trânsito e da circulação de pedestres e carros. Escolhido o local, monta-se a máquina
sobre um tripé e ela está pronta para fotografar.
A máquina dos lambe-lambes é conhecida entre eles por máquina-caixote, por ser
semelhante a um pequeno caixote.
Máquina Caixote
As máquinas são externamente revestidas com couro cru, madeira ou metal. Na parte
interna, há um tanque onde são colocados os líquidos para revelar as fotos. Há ainda a
camisa preta, espécie de saco negro dependurado para máquina, com três aberturas: dois
orifícios para os braços e um para enfiar a cabeça, na hora de bater e revelar as
fotografias. A função da camisa é proteger as fotografias de qualquer tipo de
claridade.
A máquina é usada para tirar fotografias e para mostruário. Suas laterais são cobertas
de fotos. É comum chegar um freguês dizendo que precisa de tantas fotografias, cujas
dimensões não sabe precisar; nesse caso, o fotógrafo chama-lhe a atenção para o
mostruário.
Todo fotógrafo lambe-lambe estende próximo à máquina uma cordinha, onde coloca as
fotos para secar. Num balde de plástico contendo água limpa, ela dá banho de água doce
nas fotografias, lava-as quando retiradas do fixador e revelador. Uma tesoura é essencial
para separar uma fotografia da outra e acertar o tamanho a gosto do freguês. Há ainda um
paletó e uma gravata, para serem emprestados aos jovens que não dispõem dessas peças,
para tirarem fotografia de carteira de reservista.
Freguês
Os fregueses dos fotógrafos ambulantes são pessoas humildes ou provenientes das cidades
interioranas. Destacam-se as empregadas domésticas, elementos da classe operária,
moradores dos subúrbios que se encontram em São Paulo a passeio ou em busca de trabalho.
Estória contada por Ângelo Morales
Há mais de um século, um operário que trabalhava numa mina de prata, na França,
aquecia todos os dias sua marmita, na hora do almoço e, em seguida, a levava para fora
sobre uma tábua. Gostava de almoçar sentado sobre uma grande pedra, para contemplar o
céu e a paisagem. Um dia, notou que a tábua que usava para transportar a marmita quente
tinha duas cores diferentes. O espaço que ficava livre estava preto e onde permanecia a
marmita havia se conservado branco. Surpreendeu-se com a descoberta e passou a notar as
tábuas que estavam dentro da mina e o que acontecia quando eram expostas à luz natural.
Inquieto com a descoberta, começou a contar sua observação há muitas pessoas e também
a alguns farmacêuticos e químicos do lugar. Foi aconselhado a ler uns livros de química
que explicavam o fenômeno, e descobriu, assim, que existia um produto químico que fixa a
cor branca e a preta. Assim, diz Ângelo Morales, um operário chamar Lumier fez o
mundo conhecer a fotografia, contribuindo para que surgisse uma nova profissão.
Anedota de fotógrafo
Em 1940, um fotógrafo dava ínicio à profissão de lambe-lambe, depois de haver
trabalhado muito para comprar uma máquina-caixote. Quando a recebeu, pegou-a e foi
imediatamente ao Parque Dom Pedro II. Lá preparou a máquina, colocou a cadeira à frente
e começou a andar cantarolando para baixo e para cima. De repente, apareceu um senhor
muito bem trajado e lhe disse: "Moço, preciso que tire meu retrato, mas veja lá,
tem que ficar muito bonito, pois vou oferecê-lo a uma dama". Era a primeira vez que
o coitado ia bater uma fotografia e ficou emocionadíssimo. Suas mãos tremiam, sua voz
não saía, o suor descia de seu rosto, a respiração tornava-se difícil, a cada minuto
que passava. Com esforço, pediu ao cliente, que se sentasse, arrumasse o paletó e a
gravata, enquanto ele preparava a máquina. Mexeu, remexeu, colocou a máquina em várias
posições, mas em vão. Não conseguiu enquadrar o freguês, na máquina. Desesperado,
chegou a ele e disse: "Desculpe, seu doutor, o senhor é grande demais, não cabe
inteiro na minha máquina".
Propaganda e venda
Os fotógrafos ambulantes, para arrumarem fregueses, precisam de muita astúcia. A
concorrência entre eles é grande e, além dela, têm que enfrentar a concorrência dos
fotógrafos amadores.
Para chamar a atenção dos transeuntes, os fotógrafos expõem fotografias em galhos de
árvores, em cordas amarradas a estacas improvisadas, em barracas, nas laterais das
máquinas-caixote, no chão e até nos botões das próprias roupas.
Entre as técnicas de venda e de promoção encontradas destacam-se a dos monóculos. Há
fotógrafos que amarram uma fileira de monóculos nos botões da camisa e saem a oferecer
fotografias já prontas ou usando-as como mostruário. Uma outra técnica muito usada é
aquela de aplicar fotografias de pessoas e de paisagens sobre pedaço de papelão branco,
de aproximadamente cinquenta centímetros por quarenta. Esses cartazes são fixados a um
tripé exposto em ângulos bem visíveis. Sobre os cartazes são postos espelhos, para que
os interessados se penteiem e se ajeitem. É comum também encontrar nos cartazes os
preços das fotografias ali expostas, bem como onde achar o fotógrafo.
No Parque do Ipiranga há duas barracas armadas na área próxima ao Museu; ali estão
expostos chapéus de feltro, de vaqueiro, revólveres de plástico, cartucheiras vazias,
cinturões de couro, porta-retratos com fotografias de personalidades do mundo artístico.
Esse material é para ser vendido ou usado pelos clientes que desejam ser fotografados
vestidos à moda de vaqueiro.
Os fotógrafos andam entre os transeuntes, a fim de oferecer seus préstimos, para
promoverem e venderem porta-retratos e fotografias já prontas. Durante esses contatos,
oferecem serviços a domicílio e vão distribuindo folhetos promocionais. Enquanto
caminham dizem: "Olha a foto. Quem vai fazer fotografia? Olha a fotografia! O moço
trabalha bem e baratinho! Olha a fotografia para mandar para a namorada!
(LUBATTI, Maria Rita da Silva. Vendedor
ambulante, profissão folclórica: pesquisa nas ruas, parques e jardins de São Paulo.
Escola de Folclore: Secretária de Estado da Cultura, 1982) |
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