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Ano IV - novembro 2001 - nº 39

Sua revista com a cara e a alma brasileira


SUMÁRIO - EDIÇÃO 39
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA

Do cultivo e preparo do tabaco no Brasil colonial, por André João Antonil.

"Há dois tipos de fotógrafo trabalhando nas áreas de lazer em São Paulo. Um é a figura conhecidíssima do lambe-lambe e a outra é a do fotógrafo jovem que anda de um lado para outro, carregando duas ou mais máquinas a tiracolo..." Lambe-lambe.

O mutirão e a traição, formas de cooperação na zona rural, por Hernani de Carvalho.

PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE

 

OFICINA - Nesta seção, textos sobre profissões; ferramentas; técnicas; agricultura, pecuária; artesanato; vendedores ambulantes; pregões...

LAMBE-LAMBE E FOTÓGRAFO AMBULANTE

Maria Rita da Silva Lubatti


Há dois tipos de fotógrafo trabalhando nas áreas de lazer em São Paulo. Um é a figura conhecidíssima do lambe-lambe e a outra é a do fotógrafo jovem que anda de um lado para outro, carregando duas ou mais máquinas a tiracolo.

O lambe-lambe tem ponto fixo para fotografar; tem licença para trabalhar em áreas estabelecidas pela prefeitura. O outro é um fotógrafo ambulante que trabalha onde quer, nos fins de semana e nos dias festivos, para obter um ganho extra.

O trabalho de ambos é folclórico, pois decorre de aprendizado espontâneo. A venda e a promoção de seus serviços decorrem da experiência de vida, adquirida no dia-a-dia.

Os lambe-lambes são aposentados sem qualificação profissional, descendentes de italianos e de espanhóis. Os que trabalham com máquinas modernas procedem de vários estados do Brasil; há predominância de mineiros, nortistas e nordestinos. Trabalham como operários assalariados; nos fins de semana e feriados fotografam empregadas domésticas, casais de namorados e crianças que costumam passear em logradouros públicos. Alguns atendem também chamados a domicílio, para fotografar batizado, aniversário, noivado e casamento.

Os dez lambe-lambes que trabalham nos logradouros públicos em São Paulo não gostam de se identificar nem de falar sobre a profissão. São homens carrancudos, esquivos ao diálogo. O mais jovem (cinquenta anos) e menos retraído que encontrei foi Ângelo Morales, o termo lambe-lambe provém do velho costume de colocar a chapinha de vidro, que continha o formato da fotografia a ser batida, entre os lábios, de modo que o fotógrafo, na hora de bater a fotografia, reconhecesse facilmente verso e anverso. Afirma que era necessário fazer essa prova, porque a chapa era e ainda é colocada na máquina com o lado sensível para a frente da pessoa que vai ser fotografada. Hoje usa-se a chapa de plástico rígido, para fotografias; para se reconhecer avesso e frente é só colocar o polegar sobre a chapinha. O lado emulsionado marco o dedo. Desse modo, o fotógrafo evita bater fotografias erradas.

Ângelo conta que por volta de 1930 a 1940, o Jardim da Estação da Luz e o Parque Dom Pedro II, eram freqüentados por moças ricas da Avenida Paulista e Jardim Europa. Hoje, diz ele: "Só dá gente de fora, gente esquisita, às vezes, chego ter medo de trabalhar por essas bandas (Jardim da Estação da Luz), pois aqui tem um vaivém terrível; gente que namora, que toca violão e canta debaixo das árvores, largada no gramado ou sobre os banquinhos.

Outros trazem crianças e animais para brincar e passear. Há marreteiros que vendem de tudo, fazendo uma gritaria dos diabos. Mas o problema é que nós fomos esquecidos, desde que surgiram os jovens com as máquinas fotográficas modernas e as lojas. As lojas, essas sim, são nossas concorrentes e tiram o pão da boca da gente. Foram elas que liquidaram com o lambe-lambe, pode crer". Apesar dos concorrentes, é procurado para fotografar noivas antes de ir à igreja e até mesmo para fazer todas as fotografias do casamento. Segundo explica, há uma posição certa para fixar a máquina-caixote num parque; é fixada numa área ou ângulo, levando-se em conta a posição do sol, da paisagem, do trânsito e da circulação de pedestres e carros. Escolhido o local, monta-se a máquina sobre um tripé e ela está pronta para fotografar.

A máquina dos lambe-lambes é conhecida entre eles por máquina-caixote, por ser semelhante a um pequeno caixote.


Máquina Caixote

As máquinas são externamente revestidas com couro cru, madeira ou metal. Na parte interna, há um tanque onde são colocados os líquidos para revelar as fotos. Há ainda a camisa preta, espécie de saco negro dependurado para máquina, com três aberturas: dois orifícios para os braços e um para enfiar a cabeça, na hora de bater e revelar as fotografias. A função da camisa é proteger as fotografias de qualquer tipo de claridade.

A máquina é usada para tirar fotografias e para mostruário. Suas laterais são cobertas de fotos. É comum chegar um freguês dizendo que precisa de tantas fotografias, cujas dimensões não sabe precisar; nesse caso, o fotógrafo chama-lhe a atenção para o mostruário.

Todo fotógrafo lambe-lambe estende próximo à máquina uma cordinha, onde coloca as fotos para secar. Num balde de plástico contendo água limpa, ela dá banho de água doce nas fotografias, lava-as quando retiradas do fixador e revelador. Uma tesoura é essencial para separar uma fotografia da outra e acertar o tamanho a gosto do freguês. Há ainda um paletó e uma gravata, para serem emprestados aos jovens que não dispõem dessas peças, para tirarem fotografia de carteira de reservista.


Freguês

Os fregueses dos fotógrafos ambulantes são pessoas humildes ou provenientes das cidades interioranas. Destacam-se as empregadas domésticas, elementos da classe operária, moradores dos subúrbios que se encontram em São Paulo a passeio ou em busca de trabalho.


Estória contada por Ângelo Morales

Há mais de um século, um operário que trabalhava numa mina de prata, na França, aquecia todos os dias sua marmita, na hora do almoço e, em seguida, a levava para fora sobre uma tábua. Gostava de almoçar sentado sobre uma grande pedra, para contemplar o céu e a paisagem. Um dia, notou que a tábua que usava para transportar a marmita quente tinha duas cores diferentes. O espaço que ficava livre estava preto e onde permanecia a marmita havia se conservado branco. Surpreendeu-se com a descoberta e passou a notar as tábuas que estavam dentro da mina e o que acontecia quando eram expostas à luz natural. Inquieto com a descoberta, começou a contar sua observação há muitas pessoas e também a alguns farmacêuticos e químicos do lugar. Foi aconselhado a ler uns livros de química que explicavam o fenômeno, e descobriu, assim, que existia um produto químico que fixa a cor branca e a preta. Assim, diz Ângelo Morales, um operário chamar Lumier fez o mundo conhecer a fotografia, contribuindo para que surgisse uma nova profissão.


Anedota de fotógrafo

Em 1940, um fotógrafo dava ínicio à profissão de lambe-lambe, depois de haver trabalhado muito para comprar uma máquina-caixote. Quando a recebeu, pegou-a e foi imediatamente ao Parque Dom Pedro II. Lá preparou a máquina, colocou a cadeira à frente e começou a andar cantarolando para baixo e para cima. De repente, apareceu um senhor muito bem trajado e lhe disse: "Moço, preciso que tire meu retrato, mas veja lá, tem que ficar muito bonito, pois vou oferecê-lo a uma dama". Era a primeira vez que o coitado ia bater uma fotografia e ficou emocionadíssimo. Suas mãos tremiam, sua voz não saía, o suor descia de seu rosto, a respiração tornava-se difícil, a cada minuto que passava. Com esforço, pediu ao cliente, que se sentasse, arrumasse o paletó e a gravata, enquanto ele preparava a máquina. Mexeu, remexeu, colocou a máquina em várias posições, mas em vão. Não conseguiu enquadrar o freguês, na máquina. Desesperado, chegou a ele e disse: "Desculpe, seu doutor, o senhor é grande demais, não cabe inteiro na minha máquina".


Propaganda e venda

Os fotógrafos ambulantes, para arrumarem fregueses, precisam de muita astúcia. A concorrência entre eles é grande e, além dela, têm que enfrentar a concorrência dos fotógrafos amadores.

Para chamar a atenção dos transeuntes, os fotógrafos expõem fotografias em galhos de árvores, em cordas amarradas a estacas improvisadas, em barracas, nas laterais das máquinas-caixote, no chão e até nos botões das próprias roupas.

Entre as técnicas de venda e de promoção encontradas destacam-se a dos monóculos. Há fotógrafos que amarram uma fileira de monóculos nos botões da camisa e saem a oferecer fotografias já prontas ou usando-as como mostruário. Uma outra técnica muito usada é aquela de aplicar fotografias de pessoas e de paisagens sobre pedaço de papelão branco, de aproximadamente cinquenta centímetros por quarenta. Esses cartazes são fixados a um tripé exposto em ângulos bem visíveis. Sobre os cartazes são postos espelhos, para que os interessados se penteiem e se ajeitem. É comum também encontrar nos cartazes os preços das fotografias ali expostas, bem como onde achar o fotógrafo.

No Parque do Ipiranga há duas barracas armadas na área próxima ao Museu; ali estão expostos chapéus de feltro, de vaqueiro, revólveres de plástico, cartucheiras vazias, cinturões de couro, porta-retratos com fotografias de personalidades do mundo artístico. Esse material é para ser vendido ou usado pelos clientes que desejam ser fotografados vestidos à moda de vaqueiro.

Os fotógrafos andam entre os transeuntes, a fim de oferecer seus préstimos, para promoverem e venderem porta-retratos e fotografias já prontas. Durante esses contatos, oferecem serviços a domicílio e vão distribuindo folhetos promocionais. Enquanto caminham dizem: "Olha a foto. Quem vai fazer fotografia? Olha a fotografia! O moço trabalha bem e baratinho! Olha a fotografia para mandar para a namorada!


(LUBATTI, Maria Rita da Silva. Vendedor ambulante, profissão folclórica: pesquisa nas ruas, parques e jardins de São Paulo. Escola de Folclore: Secretária de Estado da Cultura, 1982)

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