
"Esta certeza de que ninguém escapa
à morte no dia marcado se consubstancia também numa história sertaneja..." A lenda da morte, por Gustavo Barroso.
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Um carro de enterro parar logo aqui, e isso em dia de casamento!... É mau
agouro!..." O carro de enterro, um causo de Viriato
Padilha.
"Mandou
o dono que Malazarte levasse o carro de bois e o metesse numa sala sem passar pelas
portas. Malazarte despedaçou o carro, partiu os bois em quatro e jogou tudo pela
janela." Seis aventuras de Pedro Malazarte, registradas
por Luís da Câmara Cascudo.
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| IMAGINÁRIO
- Nesta seção, textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas;
narrativas populares; seres fantásticos... |
Era num sábado. Estava em festas o elegante e suntuoso palacete do visconde, a mais rica
habitação que havia no Rio Comprido.
Casava-se a formosa Matilde, filha predileta do dono da casa, e ele festejava esse
acontecimento o mais ruidosamente possível.
O palácio achava-se todo ornado por dentro e fora; uma esplêndida banda de música
executada no saguão trechos escolhidos das óperas mais em moda, e a criadagem vestida
com suas finas librés, circulava de um lado para outro, dispondo os últimos preparativos
da ornamentação.
O cortejo havia partido às duas horas da tarde para a igreja, e na rua apinhava uma
multidão curiosa de assistir à chegada dos noivos, ao regressarem da cerimônia nupcial.
* * *
Enquanto assim se dispunham as coisas para a folgança no suntuoso palacete do visconde,
uma cena muito diferente se desenrolava em uma casa de mais que modesta aparência da
mesma rua.
Em cima de uma mesa que havia na sala dessa casa, que era então um pardieiro, quase em
ruínas, via-se, num caixão dos mais baratos que a Santa Casa fabrica, o corpo de uma
moça amortalhada. Duas velas alumiavam-na, e em redor permaneciam as pessoas da família
e alguns vizinhos, todos gente pobre.
Pai e mãe e irmãos dessa criatura morta desfaziam-se em amargo pranto e sentiam a alma
rasgar-se pela mais fina das dores, nesse momento em que se ia fechar o caixão e levá-lo
a um carro fúnebre parado à porta.
Pobre gente! Essa de quem iam separar-se para sempre era a sua boa Lúcia, filha e irmã
mais velha, que todos estimavam tanto! Pobre Lúcia! Ela era o braço direito daquela
família. Do seu trabalho vinham os minguados mil réis com que se pagava à venda, depois
que o pai ficara aleijado e a mãe entisicara. A boa Lúcia sempre alegre, sempre
resignada! Como não deviam sofrer os pobrezinhos, naquele terrível transe por que
passavam.
* * *
O pai de Lúcia era um rude operário de obra grossa, um carpinteiro e tivera a
infelicidade de quebrar uma perna, caindo de um andaime em que trabalhava.
Essa desventura foi o início de todas as desgraças que assaltaram a família. Conduzido
para a Santa Casa, lá esteve quatro longos meses, entre a vida e a morte; e a mulher e os
filhos começaram a curtir duras necessidades, pois o pai nada ganhava.
O taverneiro já fechava a cara quando iam às compras, e por mais que a mulher do
carpinteiro e Lúcia, sua filha, se matassem numa tina a lavar roupa, o dinheiro não
chegava para coisa alguma.
A mãe de Lúcia era uma mulher franzina e muito disposta para moléstias do peito. Com o
trabalho excessivo que fazia, logo começou a deitar escarros de sangue pela boca, e
dentro em breve nada mais pôde fazer. O carpinteiro tivera alta do hospital, mas não
podia ainda trabalhar. Assim a pobre família achou-se na mais negra miséria.
No entanto Lúcia trabalhava cada vez mais. De dia não se arredava da tina de lavar
roupa, de noite costurava até o galo cantar. Não pôde resistir por mais tempo à
semelhante canseira, e também caiu enferma.
Uma circunstância veio ainda agravar o estado dos infelizes.
A casa em que Lúcia morava pertencia ao mesmo visconde a que já nos referimos, e ele
ordenara ao carpinteiro que se mudasse, já que não podia pagar os aluguéis. O visconde,
apesar de opulento, era inflexível em questões de dinheiro. De nada valeram os rogos do
pobre carpinteiro que a ele se dirigiu, arrastando as muletas e com as lágrimas nos
olhos. O visconde manteve a sua ordem.
"Se fosse a ouvir a choradeira de todos", dizia o titular, "bem depressa
estaria reduzido a pedir esmola. Não era ele quem fazia as desgraças: era Deus.
Pedissem-lhe contas".
O carpinteiro teve que desocupar a casa e fora meter-se no pardieiro de que já falamos e
que por piedade lhe cedera um outro carpinteiro, seu amigo e compadre.
Era uma casa de todo imprópria para habitação humana: suja, úmida, acanhada.
Nela os padecimentos de Lúcia foram a mais, e no fim de quinze dias a pobre rapariga
entregava a alma a Deus.
* * *
No entanto o cortejo nupcial tinha regressado da igreja, e de uma extensa fila de carros
apearam os noivos, radiantes de felicidade, e bem assim a multidão dos convidados, homens
e mulheres, abafados nas suas toaletes
de uma rigorosa etiqueta.
Logo que os carros despejavam a luxuosa carga que traziam, foram manobrados pelos
cocheiros, muito tesos nas suas boléias, soberbos nas suas sobrecasacas de casimira cor
de camurça e nas suas finas botas de canhão, e entraram na porta-cocheira, aberta de par
em par.
Noivos e convidados começaram a subir os degraus do vestíbulo. A noiva ia de olhos
baixos, deliciosa, no seu vestido de seda branca, linda como uma tentação, debaixo de
uma grinalda de flores de laranjeira. Da fisionomia do noivo, um guapo mancebo de vinte e
poucos anos, transpirava a maior ventura, parecendo tonto pela felicidade.
Quando porém já tinham todos subido os três degraus do vestíbulo, o carro de enterro
que transportava a pobre Lúcia ao cemitério chegava bem defronte ao palacete do
visconde.
Era um carro dos de ínfima classe, todo preto e de cortinas esmolambadas, guiado por um
cocheiro negro, de cartola de oleado amarrotada, libré sebosa, tendo a fisionomia
aguardentada, e que, encarrapitado na boléia, chupava com a maior indiferença deste
mundo em cigarro de papel.
Aquela mísera seguia para o cemitério sem o menor acompanhamento.
O carro vinha descendo a rua tranqüilamente, ao trote cansado de dois cavalos magros,
ossudos. Quando, porém, chegou bem defronte ao palacete, os cavalos que pareciam
incapazes de qualquer resistência, encabritaram-se e recusaram avançar. O cocheiro, que
não esperava essa revolta dos pacíficos rocins, quase foi levado ao chão; e exasperado,
vibrou o pinguelim no dorso das magras cavalgaduras, proferindo as mais cruas
obscenidades.
Noivos e convidados, todos voltaram o rosto para ver o que se passava na rua. Os cavalos
do coche fúnebre persistiram em não avançar, e o cocheiro, levado ao maior auge da
exasperação, desandava os bichos com cabo do pinguelim.
Aquilo parecia mandado pelo diabo. Os cavalos pinoteavam, escouceavam, o cocheiro
praguejavam como um possesso. Afinal dando os animais um violento arranco, a poder de
pancadas, embicaram o coche para o lado do palacete, e nele o esbarraram. A lança do
carro entrou pelo gradil do jardim que adornava a frente do edifício, e ali ficou a
traquitana.
Foi preciso que a criadagem do visconde desembaraçasse o carro e auxiliasse o cocheiro a
conduzi-lo.
Esse fato impressionou desagradavelmente a todos que faziam parte do cortejo nupcial, e
uma senhora já idosa que entre eles se achava, exclamou aterrorizada:
- "Um carro de enterro parar logo aqui, e isso em dia de casamento!... É mau
agouro!..."
* * *
Sem que ninguém pudesse explicar a razão, o festim realizado em casa do visconde correu
frio.
Os próprios noivos sentiam-se tristes. O fato de ter parado um carro de enterro à porta
do palacete, e naquele dia, roubava a alegria a todos. Como que se adivinhava uma grande
desgraça.
E esse mal-estar aumentou quando à meia-noite circulou na sala a notícia de que Matilde,
a formosa noiva, tinha repentinamente adoecido.
Logo cessaram as danças. As bandas de música calaram-se, e os convidados foram pouco a
pouco retirando-se. Daí a meia hora só se achavam no palacete os parentes e amigos mais
íntimos.
Matilde estava realmente doente. Subitamente acometera-a uma violenta dor de cabeça, uma
aflição, e dentro de uma hora ardia em febre intensa.
O noivo ficou alucinado. O visconde, já terrivelmente impressionado com o caso do coche
fúnebre, despachou criados em todas as direções para chamar médicos, que acudiram
pressurosos.
No entanto por mais esforços que empregassem os facultativos, não puderam aniquilar a
enfermidade que acometera a inditosa moça. Consumia-se a olhos vistos. No dia seguinte
já parecia um cadáver, tão pálida e abatida se achava. No terceiro dia não conhecia
mais ninguém. No quarto havia perdido a fala. E na manhã do quinto dia, quando os
pássaros começaram a trilhar sobre o arvoredo, cujas ramagens adornavam a janela do seu
aposento, a pobre moça exalando um suspiro despediu-se da vida.
Bem dissera a respeitável matrona que fizera parte do cortejo nupcial. O carro fúnebre
esbarrando no gradil do palacete fora um mau agouro.
O cadáver de Lúcia, a pobre filha do carpinteiro aleijado, viera chamar para a paz do
sepulcro a filha do potentado, do opulento, que tirara um teto a seu pai, em momento de
aflição e pobreza. Deus assim o quis. Tanto houve luto no casebre esburacado como no
rico solar. Era preciso que o desumano titular também sentisse rasgar-lhe a alma o
espinho da dor.
(Padilha, Viriato. O
livro dos fantasmas. Rio de Janeiro, Spiker, 1956) |
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