
"Esta certeza de que ninguém escapa
à morte no dia marcado se consubstancia também numa história sertaneja..." A lenda da morte, por Gustavo Barroso.
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Um carro de enterro parar logo aqui, e isso em dia de casamento!... É mau
agouro!..." O carro de enterro, um causo de Viriato
Padilha.
"Mandou
o dono que Malazarte levasse o carro de bois e o metesse numa sala sem passar pelas
portas. Malazarte despedaçou o carro, partiu os bois em quatro e jogou tudo pela
janela." Seis aventuras de Pedro Malazarte, registradas
por Luís da Câmara Cascudo.
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| IMAGINÁRIO
- Nesta seção, textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas;
narrativas populares; seres fantásticos... |
A crença na fatalidade da morte produziu no sertão a mesma
lenda que existe no Oriente, com pequena diversidade de forma e nenhuma de substância.
Onde quer que a alma popular pense do mesmo modo, se manifesta de idêntica maneira e,
como ensina Van Gennepp, a qualquer momento em tema lendário bem localizado será achado
num ciclo de contos populares em outro extremo do mundo.
Conta Paul de Saint-Vitor que, na Turquia, em certa época, todo o dia que Alá dava ao
mundo um dos mais queridos pachás do sultão vinha saudá-lo na Sala do Divã e
suplicar-lhe para ser nomeado governador duma cidade distante. Justificava o pedido com
uma desculpa qualquer.
O soberano não o queria atender e até já estava se aborrecendo com aquela insistência,
quando o velho servidor do trono confessou o verdadeiro motivo do seu desejo de deixar
Istambul. Todas as manhãs, ao sair de seus aposentos, encontrava a Morte que lhe cravava
olhos de espanto. Já não podia mais com essa obsessão. O sultão tomou a narrativa como
caduquice, teve pena do pachá e mandou-o para onde tanto queria ir.
Semanas depois, passeando a noite pelo jardim do palácio, o sultão encontrou a Morte e
interpelou-a:
- Porque perseguias o meu velho pachá, fitando-o diariamente com olhos de espanto?
E ela respondeu:
- Porque recebi ordem de matá-lo na cidade para onde foi nomeado governador e me admirava
de ainda vê-lo por aqui ...
Esta certeza de que ninguém escapa à morte no dia marcado se consubstancia também numa
história sertaneja:
Um caçador armou um mondéu por trás dum cemitério, a fim de pegar um tatu que
costumava andar por ali. Numa noite de luar, topou com o maior espanto a Morte presa
naquela armadilha, cujo pesado tronco lhe caíra sobre uma das tíbias. O corpo
esquelético se estirava no chão, envolto no branco lençol e a foice rolara por uma
ribanceira, ficando dependurada numa raiz de angico. Gelado e imobilizado de pavor, o
matuto ouviu a Morte chamá-lo:
- Venha cá! Livre-me deste mondéu e o recompensarei.
Cobrou algum ânimo, aproximou-se e, aproveitando o ensejo, pediu-lhe, como recompensa
para libertá-la, o direito de viver sadio e forte até avançada idade, que somente diria
depois dela lhe revelar quanto teria de vida, se não fosse aquela ocasião de prestar-lhe
um favor. Ela respondeu sinceramente que isso não lhe era possível revelar e nem seria
preciso para que dissesse quantos anos desejava de existência.
- Cento e vinte! Exigiu o caçador.
A Morte acedeu e ele a libertou. Viveu sempre rijo e feliz, assombrando o sertão e vendo
o desfile das gerações, aquele longo período. No dia em que se completava o prazo
obtido com o acordo, teve medo de morrer e resolveu enganar a Morte. Raspou completamente
barba, bigode, cabelos e até sobrancelhas, de modo a se tornar irreconhecível e se meteu
num baile que davam no lugar onde morava.
Perto da meia-noite, que era quando terminava o prazo, a Morte, que o procurava por toda a
parte sem o achar, veio ter a festa, perguntando se o tinham visto; mas ninguém lhe dava
a menor notícia dele. Aproximava-se a hora fatal. Então, ela examinou um por um os
convivas e, ao bater a primeira badalada das doze horas, disse, segurando o nosso caçador
pelo braço:
- Como não tenho mais tempo de procurar o velhaco e não quero me retirar de mãos
vazias, levo comigo este pelado!...
(Barroso, Gustavo. Ao
som da viola; nova edição correta e aumentada. Rio de Janeiro, 1949) |
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