EDIÇÕES ANTERIORES
Ano IV - novembro 2001 - nº 39

Sua revista com a cara e a alma brasileira


SUMÁRIO - EDIÇÃO 39
FESTANÇA
As reminiscências de Jorge Americano e os enterros na São Paulo daquele tempo.

"O jongo é uma dança de origem africana da qual participam homens e mulheres..." O jongo e o jongo de Taubaté, por Alceu Maynard Araújo. Com partituras e arquivos MIDI.

"Os indigentes iam para a vala comum, hoje para a cova rasa. Os mais bem aquinhoados pela fortuna sepultavam-se nas catacumbas, hoje carneiros, pela semelhança com esse animal, pelo revestimento da cova em cal ou mármore." Finados, por Marisa Lira.
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE

 

FESTANÇA - Nesta seção, textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...


FINADOS

Marisa Lira


O culto católico do Dia de Finados remonta ao ano 998, quando o santo e piedoso Odilon, abade de Cluny, decretou que em todos os mosteiros da Ordem de São Bento fosse celebrado, depois das vésperas de 1º de novembro, o ofício dos mortos.

Parece incrível, mas até no morrer e no ser sepultado tem havido mudanças radicais.

A tradição de colocar as sepulturas à margem dos caminhos já era conhecida dos romanos, estendendo-se à península ibérica e sendo transferida pelos portugueses para o Brasil, onde persiste até hoje, nas cruzes e oratórios à beira das estradas do interior.

O uso dos cemitérios data do tempo do Papa Gregório o Grande, falecido em 604.

Naquela época remota, já os cemitérios e mesmo os sepulcros isolados só eram permitidos fora do perímetro central das vilas e povoados.

O uso dos enterramentos nos aglomerados de população já fora proibido pelo cânone 18º do Concílio de Braga, de 563. Malgrado a condenação dos cientistas, permitia-se ainda o sepultamento nos adros das igreja, pois lê-se em um cânone de um Concílio do 7º século: - Ninguém se enterre na igreja, mas, sim, no adro; o mesmo se repetindo em um Concílio de Ailes, em outro de Mogúncia e nos Capitulares de Carlos Magno.

Foi assim que surgiu o costume de se cavarem sepulturas nas paredes externas das capelas ou nas suas dependências, formando as chamadas catacumbas. Isso era, sem dúvida, lembranças dos arcossólios das catacumbas cristãs.

Em Portugal, foram levantados "na parte exterior das igrejas", segundo Viterbo, no seu Elucidário, arcos, isolados dos templos, que eram chamados de mosteiros.

Muitos desses arcos ou "marmoriais" foram destinados a sepulturas.

Na terra lusitana, foram muito comuns as sepulturas abertas na rocha e de forma antropomórfica, e datam dos tempos medievais, lembrando a dominação moura.

No Brasil, também foi hábito enterrarem-se cadáveres nas paredes das capelas e nos próprios adros das igrejas. Mas isso era para gente graúda.

Aí por 1600, os cativos eram sepultados no cemitério do Rossio da cidade, chamado cemitério dos Mulatos, nos terrenos em frente ao Convento dos Carmelitas e nas faldas do morro de Santo Antônio, próximo ao Convento dos Fransciscanos.

Só em 1694, devido a uma tremenda epidemia de varíola, ficou deliberado que daí em diante a Santa Casa de Misericórdia tivesse obrigação de sepultar e mandar dizer missas pelo escravo que morresse e cujo senhor não pudesse pagar os 960 réis de taxa, caríssima na época, pois, na Bahia, a taxa era de 400 réis, embora não houvesse obrigação de missa.

Desde então a Santa Casa tem o monopólio do serviço funerário. E os enterramentos passaram a ser feitos "no antigo e pequeno campo-santo existente junto ao morro do Castelo e por trás do Hospital da Santa Casa", conforme nos diz Vieira Fazenda.

Na segunda década de 1700 havia o cemitério dos Negros, no atual largo de Santa Rita.

Nos fins de 1839 é que foi comprada, por Rs.10:000$000, a chácara de João Goulart, no arrabalde do Caju, para ser aí o cemitério popular, enquanto, até 1850, as pessoas livres eram sepultadas nas igrejas.

Mais ou menos nessa época, o senhor José Francisco de Paula e Silva proclamava a necessidade de serem criados dois panteões, - um no mosteiro de São Bento e outro no Convento da Ajuda, ambos para a Família Imperial, - e mais quatro cemitérios fora da cidade: o da Penitência, o de São Domingos, o de Santa Cruz, para as pessoas mais destacadas, e o da Humildade, para os pobres e falecidos no hospital.

Até então os enterramentos eram feitos somente de noite, numa impressionante e fúnebre procissão.

Conta-nos o norte-americano Ewbank, que nos visitou nessa época, que certa vez se viu de um momento para outro envolvido no cortejo de um enterro, pois recebeu, como imposição de tornar-se acompanhante, uma vela acesa da mão de um escravo expressamente destacado para esse mister!

Os caixões dos pobres e dos escravos eram chamados "lanchas" ou "rabecões", persistindo esta última denominação até hoje para designar os carros que transportam cadáveres.

Os indigentes iam para a vala comum, hoje para a cova rasa. Os mais bem aquinhoados pela fortuna sepultavam-se nas catacumbas, hoje carneiros, pela semelhança com esse animal, pelo revestimento da cova em cal ou mármore.

Vieira Fazenda descreve as disposições taxativas de um enterro de há um século atrás:

"Diante, irá um homem do serviço da Casa, com sua capa azul à maneira de balandrau, e levará uma campainha manual; junto dele irá um irmão ofícial com uma vara preta na mão, e logo irá a bandeira da Misericórdia com doze tocheiros às ilhargas, levados por homens tomados para este efeito, com suas vestes preta; depois irá um irmão nobre com sua vara preta, em traje comum, com um capelão da casa com sobrepeliz; no remate irá a tumba, levada por seis homens com vestes pretas, do mesmo feitio que as outras de que forem vestidos os que levarem a bandeira e tocheiros, e a tumba irá acompanhada com quatro tocheiros, levados por quatro homens vestidos da mesma maneira. Detrás da tumba, a distância conveniente, irá outro homem do serviço, com capa de pano azul, do mesmo feitio que a do da campainha, com uma caixinha na mão, pedindo para as obras da Misericórdia, em voz alta; e nesta mesma forma irão no enterramento, dando somente lugar a bandeira e a tumba aos clérigos, regulares, confrarias e pobres que com cera acompanharem o corpo do defunto."

Se o falecido pertencia a várias confrarias, o préstito tomava o aspecto de uma verdadeira procissão, despertando a curiosidade dos viajantes que por vezes visitavam o Rio de Janeiro.

Faziam parte do cortejo as célebres carpideiras, que, mediante pequena retribuição, derramavam verdadeiras "lágrimas de crocodilo, atroando os ares com suspiros e aís".

Com o correr do tempo, tudo se vem modificando.

Vieram os carros fúnebres puxados a burros ou cavalos, conforme a classe social, ou melhor, a "classe financeira". O caixão era, quando havia dinheiro, de veludo lavrado e agaloado de dourados. Havia cores: para os meninos azul; rosa para as meninas; roxo para as moças solteiras. Os ricos tinham direito a carros com vistosas cortinas, puxado por cavalos cobertos com redes e enfeitados com plumas, tudo negro. Os pobres iam em caixões pretos de paninho, em carros simples puxados por burros magros e fatigados. Um tipo pitoresco era o do "cocheiro de carro fúnebre". Nos enterros pobres, a vestimenta era a mesma, só que a casaca era surradíssima e a cartola já perdera a cor, o pêlo arrepiado pelo uso. Pobre frangalho humano.

Com a chegada dos bondes, houve "bondes mortuários", bondes-salão, com a essa no meio e os lugares em torno, lugubremente negro, semelhante aos vagões dos trens usados para transportar defuntos.

Tudo mudou. Já é quase proibido morrer nos apartamentos. Não se chora mais, nem se grita de dor! Nem se tem ataque, nem há lamentações!

Agora, encosta, silenciosa, uma "assistência mortuária", toda branca: o defunto é carregado em silêncio... As expansões ficam para as capelas particulares e a sacristia das igrejas, ou para os depósitos de cadáveres dos cemitérios, sendo preferido o da rua Real Grandeza, chamado pelo povo de "cassino dos defuntos", onde, em salões especiais, fica o morto com suas flores e parentes, estes servidos por atenciosos garçons.

Finados é o dia em que se cultuam os mortos. A visita aos cemitérios não arrefeceu com o progresso, tornou-se até tão intensa, com o crescimento da população, que se estendeu ao dia primeiro de novembro, - Dia de Todos os Santos.

Antigamente, nesses dias, o cemitério transformava-se em lugar de piqueniques. Havia gente que passava acampada junto das sepulturas, comendo guloseimas, interrompendo as comedorias apenas para derramar lágrimas ao encontro de algum conhecido que passava ou de um visitante que chegava.

A moçada ia para namorar, tal qual hoje. E os aduladores, que sempre houve, deixavam um "cartãozinho" na sepultura dos parentes das pessoas em evidência, nomes que eram publicados nos jornais pela reportagem dos cemitérios. Esse costume ridículo já caiu em desuso.

Entre os "ritos de passagem", a morte é, talvez, o que comporta maior observação.

Só os epitáfios dariam uma coleção psicológica formidável, como gritos de almas dilaceradas pela saudade ou expansões hipócritas de puro fingimento.


(Lira, Marisa. Calendário folclórico do Distrito Federal. Rio de Janeiro, Prefeitura do Distrito Federal / Secretaria Geral de Educação e Cultura, 1956. Coleção Cidade do Rio de Janeiro, 2)

Jangada Brasil © 1998-2002