
As reminiscências de Jorge Americano e os enterros
na São Paulo daquele tempo.
"O jongo é uma dança de
origem africana da qual participam homens e mulheres..." O
jongo e o jongo de Taubaté, por Alceu Maynard Araújo. Com partituras e arquivos
MIDI.
"Os
indigentes iam para a vala comum, hoje para a cova rasa. Os mais bem aquinhoados pela
fortuna sepultavam-se nas catacumbas, hoje carneiros, pela semelhança com esse animal,
pelo revestimento da cova em cal ou mármore." Finados,
por Marisa Lira. |
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| FESTANÇA - Nesta seção, textos sobre
festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas;
instrumentos musicais... |
O culto católico do Dia de Finados remonta ao ano 998, quando o santo e piedoso Odilon,
abade de Cluny, decretou que em todos os mosteiros da Ordem de São Bento fosse celebrado,
depois das vésperas de 1º de novembro, o ofício dos mortos.
Parece incrível, mas até no morrer e no ser sepultado tem havido mudanças radicais.
A tradição de colocar as sepulturas à margem dos caminhos já era conhecida dos
romanos, estendendo-se à península ibérica e sendo transferida pelos portugueses para o
Brasil, onde persiste até hoje, nas cruzes e oratórios à beira das estradas do
interior.
O uso dos cemitérios data do tempo do Papa Gregório o Grande, falecido em 604.
Naquela época remota, já os cemitérios e mesmo os sepulcros isolados só eram
permitidos fora do perímetro central das vilas e povoados.
O uso dos enterramentos nos aglomerados de população já fora proibido pelo cânone 18º
do Concílio de Braga, de 563. Malgrado a condenação dos cientistas, permitia-se ainda o
sepultamento nos adros das igreja, pois lê-se em um cânone de um Concílio do 7º
século: - Ninguém se enterre na igreja, mas, sim, no adro; o mesmo se repetindo
em um Concílio de Ailes, em outro de Mogúncia e nos Capitulares de Carlos Magno.
Foi assim que surgiu o costume de se cavarem sepulturas nas paredes externas das capelas
ou nas suas dependências, formando as chamadas catacumbas. Isso era, sem dúvida,
lembranças dos arcossólios das catacumbas cristãs.
Em Portugal, foram levantados "na parte exterior das igrejas", segundo Viterbo,
no seu Elucidário, arcos, isolados dos templos, que eram chamados de mosteiros.
Muitos desses arcos ou "marmoriais" foram destinados a sepulturas.
Na terra lusitana, foram muito comuns as sepulturas abertas na rocha e de forma
antropomórfica, e datam dos tempos medievais, lembrando a dominação moura.
No Brasil, também foi hábito enterrarem-se cadáveres nas paredes das capelas e nos
próprios adros das igrejas. Mas isso era para gente graúda.
Aí por 1600, os cativos eram sepultados no cemitério do Rossio da cidade, chamado
cemitério dos Mulatos, nos terrenos em frente ao Convento dos Carmelitas e nas faldas do
morro de Santo Antônio, próximo ao Convento dos Fransciscanos.
Só em 1694, devido a uma tremenda epidemia de varíola, ficou deliberado que daí em
diante a Santa Casa de Misericórdia tivesse obrigação de sepultar e mandar dizer missas
pelo escravo que morresse e cujo senhor não pudesse pagar os 960 réis de taxa,
caríssima na época, pois, na Bahia, a taxa era de 400 réis, embora não houvesse
obrigação de missa.
Desde então a Santa Casa tem o monopólio do serviço funerário. E os enterramentos
passaram a ser feitos "no antigo e pequeno campo-santo existente junto ao morro do
Castelo e por trás do Hospital da Santa Casa", conforme nos diz Vieira Fazenda.
Na segunda década de 1700 havia o cemitério dos Negros, no atual largo de Santa Rita.
Nos fins de 1839 é que foi comprada, por Rs.10:000$000, a chácara de João Goulart, no
arrabalde do Caju, para ser aí o cemitério popular, enquanto, até 1850, as pessoas
livres eram sepultadas nas igrejas.
Mais ou menos nessa época, o senhor José Francisco de Paula e Silva proclamava a
necessidade de serem criados dois panteões, - um no mosteiro de São Bento e outro no
Convento da Ajuda, ambos para a Família Imperial, - e mais quatro cemitérios fora da
cidade: o da Penitência, o de São Domingos, o de Santa Cruz, para as pessoas mais
destacadas, e o da Humildade, para os pobres e falecidos no hospital.
Até então os enterramentos eram feitos somente de noite, numa impressionante e fúnebre
procissão.
Conta-nos o norte-americano Ewbank, que nos visitou nessa época, que certa vez se viu de
um momento para outro envolvido no cortejo de um enterro, pois recebeu, como imposição
de tornar-se acompanhante, uma vela acesa da mão de um escravo expressamente destacado
para esse mister!
Os caixões dos pobres e dos escravos eram chamados "lanchas" ou
"rabecões", persistindo esta última denominação até hoje para designar os
carros que transportam cadáveres.
Os indigentes iam para a vala comum, hoje para a cova rasa. Os mais bem aquinhoados pela
fortuna sepultavam-se nas catacumbas, hoje carneiros, pela semelhança com esse animal,
pelo revestimento da cova em cal ou mármore.
Vieira Fazenda descreve as disposições taxativas de um enterro de há um século atrás:
"Diante, irá um homem do serviço da Casa, com sua capa azul à maneira de
balandrau, e levará uma campainha manual; junto dele irá um irmão ofícial com uma vara
preta na mão, e logo irá a bandeira da Misericórdia com doze tocheiros às ilhargas,
levados por homens tomados para este efeito, com suas vestes preta; depois irá um irmão
nobre com sua vara preta, em traje comum, com um capelão da casa com sobrepeliz; no
remate irá a tumba, levada por seis homens com vestes pretas, do mesmo feitio que as
outras de que forem vestidos os que levarem a bandeira e tocheiros, e a tumba irá
acompanhada com quatro tocheiros, levados por quatro homens vestidos da mesma maneira.
Detrás da tumba, a distância conveniente, irá outro homem do serviço, com capa de pano
azul, do mesmo feitio que a do da campainha, com uma caixinha na mão, pedindo para as
obras da Misericórdia, em voz alta; e nesta mesma forma irão no enterramento, dando
somente lugar a bandeira e a tumba aos clérigos, regulares, confrarias e pobres que com
cera acompanharem o corpo do defunto."
Se o falecido pertencia a várias confrarias, o préstito tomava o aspecto de uma
verdadeira procissão, despertando a curiosidade dos viajantes que por vezes visitavam o
Rio de Janeiro.
Faziam parte do cortejo as célebres carpideiras, que, mediante pequena retribuição,
derramavam verdadeiras "lágrimas de crocodilo, atroando os ares com suspiros e
aís".
Com o correr do tempo, tudo se vem modificando.
Vieram os carros fúnebres puxados a burros ou cavalos, conforme a classe social, ou
melhor, a "classe financeira". O caixão era, quando havia dinheiro, de veludo
lavrado e agaloado de dourados. Havia cores: para os meninos azul; rosa para as meninas;
roxo para as moças solteiras. Os ricos tinham direito a carros com vistosas cortinas,
puxado por cavalos cobertos com redes e enfeitados com plumas, tudo negro. Os pobres iam
em caixões pretos de paninho, em carros simples puxados por burros magros e fatigados. Um
tipo pitoresco era o do "cocheiro de carro fúnebre". Nos enterros pobres, a
vestimenta era a mesma, só que a casaca era surradíssima e a cartola já perdera a cor,
o pêlo arrepiado pelo uso. Pobre frangalho humano.
Com a chegada dos bondes, houve "bondes mortuários", bondes-salão, com a essa
no meio e os lugares em torno, lugubremente negro, semelhante aos vagões dos trens usados
para transportar defuntos.
Tudo mudou. Já é quase proibido morrer nos apartamentos. Não se chora mais, nem se
grita de dor! Nem se tem ataque, nem há lamentações!
Agora, encosta, silenciosa, uma "assistência mortuária", toda branca: o
defunto é carregado em silêncio... As expansões ficam para as capelas particulares e a
sacristia das igrejas, ou para os depósitos de cadáveres dos cemitérios, sendo
preferido o da rua Real Grandeza, chamado pelo povo de "cassino dos defuntos",
onde, em salões especiais, fica o morto com suas flores e parentes, estes servidos por
atenciosos garçons.
Finados é o dia em que se cultuam os mortos. A visita aos cemitérios não arrefeceu com
o progresso, tornou-se até tão intensa, com o crescimento da população, que se
estendeu ao dia primeiro de novembro, - Dia de Todos os Santos.
Antigamente, nesses dias, o cemitério transformava-se em lugar de piqueniques. Havia
gente que passava acampada junto das sepulturas, comendo guloseimas, interrompendo as
comedorias apenas para derramar lágrimas ao encontro de algum conhecido que passava ou de
um visitante que chegava.
A moçada ia para namorar, tal qual hoje. E os aduladores, que sempre houve, deixavam um
"cartãozinho" na sepultura dos parentes das pessoas em evidência, nomes que
eram publicados nos jornais pela reportagem dos cemitérios. Esse costume ridículo já
caiu em desuso.
Entre os "ritos de passagem", a morte é, talvez, o que comporta maior
observação.
Só os epitáfios dariam uma coleção psicológica formidável, como gritos de almas
dilaceradas pela saudade ou expansões hipócritas de puro fingimento.
(Lira, Marisa. Calendário
folclórico do Distrito Federal. Rio de Janeiro, Prefeitura do Distrito Federal /
Secretaria Geral de Educação e Cultura, 1956. Coleção Cidade do Rio de Janeiro, 2) |
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