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Ano IV - novembro 2001 - nº 39

Sua revista com a cara e a alma brasileira


SUMÁRIO - EDIÇÃO 39
FESTANÇA
As reminiscências de Jorge Americano e os enterros na São Paulo daquele tempo.

"O jongo é uma dança de origem africana da qual participam homens e mulheres..." O jongo e o jongo de Taubaté, por Alceu Maynard Araújo. Com partituras e arquivos MIDI.

"Os indigentes iam para a vala comum, hoje para a cova rasa. Os mais bem aquinhoados pela fortuna sepultavam-se nas catacumbas, hoje carneiros, pela semelhança com esse animal, pelo revestimento da cova em cal ou mármore." Finados, por Marisa Lira.
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE

 

FESTANÇA - Nesta seção, textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...


ENTERRO

Jorge Americano


- Você viu que fulano morreu?

- Vi. Vou ao enterro.

- Você vai com esse fraque azul?

- Por que não?

- Não fica bem. Toda gente vai de preto.

- Está bem. Eu saio mais cedo do serviço e venho vestir o fraque preto.

- Eu vou mandá-lo escovar e passar, parece que está meio amassado.

- Está amassado de preconceitos. Eu bem podia ir de fraque azul mesmo.

- Quando voltar, você encontra tudo pronto. Não esqueça de encomendar a coroa. A Loja Flora tem ótimas, por dez mil réis.

- E os dizeres da fita?

- Já estão neste papelzinho. Prenda na corrente do relógio para não perder.

- Pode ficar sossegada.

- É bom encomendar logo que chegar à cidade. Na volta passe na loja com o carro e receba a coroa. Pára aqui para trocar o fraque e já leva até a casa. Lá o pessoal do Rodovalho põe no carro do enterro.

- Eu venho de tílburi.

- Não fica bem. Não tem lugar para a coroa.

- Então venho de carro.

- Quando você chegar já encontra tudo pronto.


* * *

Naquele tempo os enterros eram diferentes. Começava pela notícia da morte. Não se dizia só, como hoje, no caso de grã-finos, que o falecido era de "tradicional família paulista".

Além da viúva, pais, filhos e netos, mencionavam-se os avós, bisavós, e quando a pessoa era muito importante, os trisavós e o indispensável Amador Bueno. Os tios, suas esposas, os irmãos e irmãs, as cunhadas, os cunhados, as sobrinhas e sobrinhos-netos. Quando havia um primo importante, era mencionado o primo.

Isto, na notícia do falecimento.


* * *

Aparecia no dia seguinte a notícia do enterro. Referia, um por um, todos os que acompanharam. Uma por uma, todas as coroas de flores e os respectivos dizeres. (Diga-se de passagem: Havia coroas feitas em flores de "biscuit". As outras murchavam, aquelas não. Na primeira chuva desaparecia a dedicatória grudada à fita. Na terceira chuva a fita estava podre. Mas a coroa de "biscuit" durava três anos).

O jornal mencionava quem segurou as alças do caixão à saída da casa, quem segurou à saída da capela.

Tudo isto, para um enterro do tipo fino.

Abaixo, os de tipo médio. Citavam-se os que estiveram presentes e as coroas.

Ainda abaixo, só os que assinaram a lista de presença.

Para a missa de sétimo dia, havia, como hoje, convites pela imprensa. Publicava-se quem esteve presente e a quem deu pêsames. Media-se a importância pelas colunas do jornal.

Afinal, a notícia da missa do trigésimo dia. Agora só se o defunto era importante, publicavam-se os nomes dos presentes.


(Americano, Jorge. São Paulo naquele tempo. São Paulo, Edição Saraiva, 1957)

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