
As reminiscências de Jorge Americano e os enterros
na São Paulo daquele tempo.
"O jongo é uma dança de
origem africana da qual participam homens e mulheres..." O
jongo e o jongo de Taubaté, por Alceu Maynard Araújo. Com partituras e arquivos
MIDI.
"Os
indigentes iam para a vala comum, hoje para a cova rasa. Os mais bem aquinhoados pela
fortuna sepultavam-se nas catacumbas, hoje carneiros, pela semelhança com esse animal,
pelo revestimento da cova em cal ou mármore." Finados,
por Marisa Lira. |
|
|
|
| FESTANÇA - Nesta seção, textos sobre
festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas;
instrumentos musicais... |
- Você viu que fulano morreu?
- Vi. Vou ao enterro.
- Você vai com esse fraque azul?
- Por que não?
- Não fica bem. Toda gente vai de preto.
- Está bem. Eu saio mais cedo do serviço e venho vestir o fraque preto.
- Eu vou mandá-lo escovar e passar, parece que está meio amassado.
- Está amassado de preconceitos. Eu bem podia ir de fraque azul mesmo.
- Quando voltar, você encontra tudo pronto. Não esqueça de encomendar a coroa. A Loja
Flora tem ótimas, por dez mil réis.
- E os dizeres da fita?
- Já estão neste papelzinho. Prenda na corrente do relógio para não perder.
- Pode ficar sossegada.
- É bom encomendar logo que chegar à cidade. Na volta passe na loja com o carro e receba
a coroa. Pára aqui para trocar o fraque e já leva até a casa. Lá o pessoal do
Rodovalho põe no carro do enterro.
- Eu venho de tílburi.
- Não fica bem. Não tem lugar para a coroa.
- Então venho de carro.
- Quando você chegar já encontra tudo pronto.
* * *
Naquele tempo os enterros eram diferentes. Começava pela notícia da morte. Não se dizia
só, como hoje, no caso de grã-finos, que o falecido era de "tradicional família
paulista".
Além da viúva, pais, filhos e netos, mencionavam-se os avós, bisavós, e quando a
pessoa era muito importante, os trisavós e o indispensável Amador Bueno. Os tios, suas
esposas, os irmãos e irmãs, as cunhadas, os cunhados, as sobrinhas e sobrinhos-netos.
Quando havia um primo importante, era mencionado o primo.
Isto, na notícia do falecimento.
* * *
Aparecia no dia seguinte a notícia do enterro. Referia, um por um, todos os que
acompanharam. Uma por uma, todas as coroas de flores e os respectivos dizeres. (Diga-se de
passagem: Havia coroas feitas em flores de "biscuit". As outras murchavam,
aquelas não. Na primeira chuva desaparecia a dedicatória grudada à fita. Na terceira
chuva a fita estava podre. Mas a coroa de "biscuit" durava três anos).
O jornal mencionava quem segurou as alças do caixão à saída da casa, quem segurou à
saída da capela.
Tudo isto, para um enterro do tipo fino.
Abaixo, os de tipo médio. Citavam-se os que estiveram presentes e as coroas.
Ainda abaixo, só os que assinaram a lista de presença.
Para a missa de sétimo dia, havia, como hoje, convites pela imprensa. Publicava-se quem
esteve presente e a quem deu pêsames. Media-se a importância pelas colunas do jornal.
Afinal, a notícia da missa do trigésimo dia. Agora só se o defunto era importante,
publicavam-se os nomes dos presentes.
(Americano, Jorge. São
Paulo naquele tempo. São Paulo, Edição Saraiva, 1957) |
|