
"Até mui pouco tempo não se dizia
um jantar. Nas casas ricas, se anunciava: A janta está na mesa. A gente de
menos trato dizia: o di-comer está botado...." Outrora,
no Ceará.
O
reverendo americano Daniel Parish Kidder escreve sobre o mate e a
carne-seca no sul do país, em meados do século XIX.
O
viajante americano Thomas Ewbank escreve sobre o uso do mate no
Brasil.
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| COLHER DE PAU - Nesta seção, textos
sobre receitas tradicionais; bebidas típicas; alimentos brasileiros; costumes à mesa;
horta, pomar e criação; crenças, costumes e tabus relacionados à alimentação e
alimentos... |
Até mui pouco tempo não se dizia um jantar. Nas casas ricas, se anunciava: A
janta está na mesa. A gente de menos trato dizia: o di-comer está botado.
Janta, e di-comer, eram o mesmo no fundo; na forma, porém, coisa diversa.
Um almoço de rico, nos sertões, era antes da 7 horas da manhã, o jantar às 12 horas, a
ceia ao cair da noite.
O primeiro consistia principalmente em carne com pirão, o segundo idem, o terceiro
idem, com esta diferença que no jantar havia, de ordinário, um assado com
molho chamado de "ferrugem", e vinha por último, para cada um, a sua tigela de
caldo da mesma panela. Seguia-se a sobremesa, que era melaço com farinha, ou doces de
frutas da terra em mel de rapadura, ou queijo com a dita, melancia, melão, etc.
A ceia, no inverno, era uma tigela de coalhada, que se lapeava com uma colher de
ferro ou de latão.
Como epílogo, a cada uma dessas refeições, rezava-se o bendito, e tomava-se a
benção ao chefe de família.
Uma coisa bem entendida: as mulheres não vinham à mesa no copiar. Comiam no fundo da
casa, em companhia da dona. Mulher não aparecia entre homens; até do sol fugia, porque
era macho.
Os escravos não partilhavam da panela da família.
De envolta com isto, havia nos refeitórios do sertão bem bons petiscos. As nossas avós,
justiça lhes seja feita, carregavam a mão no alho e na pimenta-do-reino; mas, em todo
caso, eram muitos quituteiras.
O que não havia então, era o café, tampouco o chá.
Matutos havia que, não se sabe porque, embirravam até com o nome!
Um, vimos nós, há cinqüenta anos, que, indo a uma mesa de vila, mui prevenido e receoso
de fraudes, para lhe meterem no bandulho algum café, não quis participar duma torta;
porque, com muita franqueza e desembaraço, declarou a dona da casa: Ela o queria
enganar... aquilo era café!...
Um sujeito que, há largos anos, tinha ido à Bahia, falava com acento de admiração e
ainda deslumbrado de um baile de militares, a que tinha tido a súbita honra de assistir.
Contava que ali tinha aparecido um vinho tão bom e tão grosso, que se trinchava a faca e
garfo!...
Que diabo lhe disseram ou lhe deram a comer, não se pode adivinhar.
* * *
Não há sessenta anos, F... na vila de Pajeú, precisando sair pela manhã, mandou que,
na sua ausência, servissem o almoço a alguns jurados, que se lhe tinha ido meter em
casa.
Posta a mesa, os matutos consultaram entre si, como começariam a servir-se do café, do
açúcar, do pão e da manteiga, que estavam à vista...
Resolveram comer primeiramente o pão e, em seguida, o açúcar, para finalmente beberem o
café.
Mas o que fazer da manteiga?
Um deles disse que aquilo era uma papa; outro que uma coisa de se comer com farinha, e um
terceiro se propôs a pedi-la.
Um derradeiro, porém, mais avisado em etiquetas e cerimônias de vila, opôs-se, dizendo:
Você está doido? Já viu pedir-se farinha na casa alheia?... Então, assentaram todos de
comer aquilo, como estava; meteram-lhe as colheres, e foi um dia... manteiga.
Não podemos prosseguir...
Está-nos aí o leitor a fazer sinais de dúvida!
* * *
Quando em 1799 se separou de Pernambuco a Capitania do Ceará, que até então lhe estava
subordinada, quem fazia mais figura na terra, era José Alves Feitosa, rico e faustoso
capitão-mor dos Inhamuns, o mais rico talvez do Ceará. Ele era o fiador da Câmara de
Fortaleza, o factotum da quadra. Os Feitosas sempre tinham sido chefes de grande
respeitabilidade, e se impuseram pela ostentação. Quando aparecia um deles no Aracati ou
no Forte, fazia-se acompanhar da sua banda de música, como soíam os potentados do
tempo. Eram escravos, que tocavam charamelas, trompas, caixas e outros instrumentos de
então.
Uma estada do capitão-mor José Alves, no forte era um sucesso, e uma derrama de
patacões. O dinheiro dele andava adiante de tudo , e havia em palácio comezaina pesada,
a que chamavam comidas carregadas, tudo com vinhaça, etc.
Em mesas de pernas grossas, como de elefante, sobre toalhas de linho, em louça do Porto,
deitavam-se carnes e gorduras, doces, queijos e mil coisas da terra, e tudo se comia
atribuladamente, de colher, ou fazendo da faca uma colher. Negros e negras retintas
serviam à mesa, de toalha ao ombro, com roupas de algodão e os pés descalços; pois que
era malcriação negro andar de chinelas.
Os talheres, os copos e as bandejas eram de prata fina, obtida do Porto ou da Bahia, e já
havia alguns serviços de porcelana dourada, procedente da Índia.
O luxo do tempo era caro, mas era sólido.
Como ainda agora, quando se acabavam as comedorias e bebedorias, podiam engordar-se
porcos nos ladrilhos; das toalhas escorria vinho, tudo ficava em desordem.
Em um desses jantares de palácio assistidos por José Alves, os convivas saltaram para
cima da mesa, e em pé, furibundos, bebendo e sapateando, quebraram pratos, copos,
garrafas e quanto lhes ficava pelos pés.
A prática ainda era a mesma em 1830.
Em um jantar palaciano, foi tal a bebedeira, que à noite os convivas andavam de gatinhas
pela casa, e nem podiam dizer cachorro. O célebre tenente Chaves, derreado, dizia
para o padre-mestre Manuel Severino Duarte: Mulatinho, neto do velho Dornelas, vai buscar
meus chinelos!
Por baixo das janelas de palácio, corria um tablado, onde se tinha de executar uma cena,
comédia ou farsa, que chamavam naquele tempo baile. Muitas senhoras, da nobreza,
estavam assentadas em fila, pimponas, com os seus cocós e babados, roupas finas e lós.
Veio de lá uma súcia de bêbados, debruçou-se para contemplar aquelas deidades, e toca
a despejar-lhes a carga, aqui e ali, acabando por dissolver o Olimpo.
Muita fidalga não mais se arriscou a festas, por baixo das janelas de palácio, em noites
de jantar.
(Brígido, João. Em Cascudo, Luís da Câmara. Antologia da alimentação no Brasil; Rio de
Janeiro, Livros Científicos Técnicos, 1977) |
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