
"... dizem, quando se principia a
cantar uma excelença Nossa Senhora se ajoelha para só se levantar quando
terminam..." Excelências e benditos cantados no nordeste
brasileiro em meados do século XX.
"Vilela
era natural / Do sertão pernambucano, / E ele, desde o princípio / Que tinha o gênio
tirano: / Comete o primeiro crime / Com a idade de dez ano." A versão do cantador
Simfrônio da Cantiga do Vilela romance popular no nordeste
brasileiro.
20
de novembro, dia da consciência negra. A história de Zumbi e os
quilombos dos Palmares, cordel de José Francisco Borges.
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| CANCIONEIRO: Nesta seção, textos sobre
música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios;
romances; cantos religiosos; quadras, pasquins... |
Por não ter confiança na sua fé, uma parte da humanidade tem verdadeiro horror à
morte.
A hora da morte é esperada com agonia. Uma ânsia enorme assalta quem está prestes a
deixar a vida para a viagem do desconhecido que assalta também aos parentes, pela
incerteza do além.
O Céu é inacessível. Nele só podem entrar os santos, os purificados pelos sufrágios
em que se empenham os parentes cuidadosos da sorte do parente morto. O Purgatório está
com as estradas desbravadas, limpas de tropeços, até as suas bocas hiantes, devido à
persistência dos hóspedes diários, em levas, pois, conforme os ensinamentos recebidos
é muito difícil o acesso ao Céu.
A hora última de um vivente racional é cheia de apreensões. Por esse motivo., a
confissão se impõe para aliviar o peso dos pecados. Por ela os pecados são perdoados.
Os nossos campônios acreditam nisso e desse modo de proceder não se afastam.
No momento do desenlace, os ajudadores, de ordinário mulheres, colocam-se junto ao leito
mortuário e, compenetradas, desfiam, numa dolente toada, as palavras que, repetidas pelos
agonizantes, os tornam mais leves e arrependidos das faltas cometidas. Inda mesmo que eles
tenham sido confessados, nunca deixam de ajudá-lo a morrer, como dizem. Repetem
lancinantemente enquanto seguram entre as mãos do que lentamente morre uma vela acesa:
- Jesus!... Jesus!... Jesus vai comigo!... Eu vou com Jesus!...
Ou ainda:
- Jesus, Maria e José, a minha alma vossa é!
Em alguns lugares, cantam o seguinte bendito de ajudar a morrer:
Pecador repara
que hás de morrer, chama por Jesus
que Ele há de valer.
Chama por Jesus
enquanto é tempo,
quando a morte chega
mata de repente.
Quando a morte chega,
calada, sozinha
dizendo consigo:
esta alma é minha
Não conheço os teus
que contigo estão
com ânsia tão grande
no teu coração?
Mudando de cores,
o sangue fugindo,
nesta mesma ânsia
estais te indo e vindo.
Morto o doente, vão fazer o quarto, velar o corpo durante a noite, até o momento de ser
conduzido à morada final.
Fazer quarto, vigília a um defunto, entre pessoas de educação, é um ato de piedade e
entre os ignorantes é um esplêndido passatempo.
No quarto reúnem-se todos os vizinhos. As mulheres para ter oportunidade de, reunidas,
saberem notícias uma das outras, censurando-se e falando mal das que não estão
presentes. E os homens, pelo prazer de passarem a noite proseando, bebericando café, e
bebendo gostosamente a aguardente que alguém da casa compra pra fazê o quarto.
No quarto, rezam e cantam benditos e excelença para facilitar a entrada no Céu, do
espírito que deixou o corpo presente.
Os benditos são um verdadeiro amontoado de sandices e as excelenças também.
As excelenças são frases rimadas, indo sempre do número um até o número doze, deste
modo:
Uma excelença que Nossa Senhora deu a Nosso Sinhô, esta excelença é de grande valô.
Duas excelença que Nossa Senhora deu a Nosso Sinhô, esta excelença é de grande valô.
Três excelença que, etc.
Assim até doze excelença que Nossa Senhora deu a Nosso Sinhô...
Outra excelença muito conhecida e muito cantada é a seguinte:
Já é uma hora, e os anjo viero te vê
e ele vai, e ele vai, e ele vai também com você.
Já é duas hora, os anjo viero te vê.
e ele vai, e ele vai, e ele vai também com você.
Já é três hora, os anjo viero, etc.
Cantam até "doze hora e os anjo viero te vê... Essas excelenças são cantadas com
uma entonação terrivelmente tétrica; é música de trazer medo às crianças e até aos
adultos.
Da mesma maneira são cantados os benditos. Felizmente, nas cidades, as autoridades vêm
ponto termo a essa manifestação de doentia sentimentalidade que tanto incomoda os
vizinhos e notívagos.
Consegui em um serão, num quarto a que assisti, escrever o seguinte bendito que então se
cantava:
Bendito louvado seja
um coração amoroso,
nos deu alma, nos deu vida
o todo sempre Poderoso.
Todo sempre Poderoso
deu Jesus seu coração
que nos remiu no seu sangue
no prêmio da salvação.
Madalena escreveu
uma carta ao seu sinhô
essa carta tem resposta
no dia do grande horrô.
Madalena escreveu
uma carta a Jesus Cristo,
o portadô que levava
era o padre São Francisco.
Madalena escreveu
pro Sinhô do paraíso,
essa carta tem resposta
lá no dia de juízo.
Maria Madalena
ofrecida ao Pai Eterno,
pediu sua virgindade
pra servi seu abeterno.
Deixa de ódio aos outros,
fazei pra não no tê,
que no dia de juízo
todos nós havemo vê.
Chega para ali
cadeira de má casado,
chega Cordêro Divino
contra ele muntirado.
Disse a igreja a meu Jesus:
- Eu pelo mundo fiquei
crama o sino, crama a terra,
meu Jesus eu bem chamei.
Perguntou o anjo da guarda:
- Cadê a alma que eu te dei?
essa alma em tempo de vida
sempre eu acompanhei.
Sempre eu acompanhei
ela cum sua maldade,
ela em tempo de vida,
nunca pra mim rezava.
As almas que foram vivas
suba ao meu lado direito;
grande febre tem teu corpo,
abraça o corpo barbuleta.
Esse corpo abraçarei
não é por minha maldade,
por causa dos meus penares
foi sua variedade.
Valei-me Nossa Sinhora,
São Domingo de Bismão,
vamo acudi essa alma
cum seu rosário na mão.
Ofrecemo este bendito
Ao Sinhô do paraíso,
que nos dê consolação
lá no dia de juízo.
Com benditos dessa ordem é que os nossos campesinos pensam em elevar urna alma para o
céu, esquecidos dos seus desmandos, maldades, falta de penitência, de amor a Deus e de
obediência aos seus mandamentos.
Uma particularidade interessante: - Retirando-se o cadáver para o enterro no momento em
que estão cantando uma excelença, as cantadeiras acompanham o cortejo até terminá-la,
porque, dizem, quando se principia a cantar uma excelença Nossa Senhora se ajoelha para
só se levantar quando terminam, e não sendo terminada ela ficará de joelho e, o
espírito, devido a esse desrespeito, não ganhará a salvação.
(César, Getúlio. Crendices do nordeste. Rio
de Janeiro, Irmãos Pongetti Editora, 1941, p. 137-142. Em Dantas, Paulo (org.). Estórias
e lendas do norte e nordeste São Paulo, Literat, sd. Antologia Ilustrada do
Folclore Brasileiro, 3) |
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