
As cerimônias
feitas pelos índios tupinambás ao enterrarem seus mortos, no Brasil do século XVI, descritas por Gabriel Soares de Souza.
Incelências, excelências ou incelenças são cantos
entoados à cabeceira dos moribundos, e crê-se que facilitam a entrada no céu. Leia: Velório e sentinelas, por Alceu Maynard
Araújo.
Cinqüenta crendices e superstições ligadas à morte, recolhidas no Estado do Espírito Santo.
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| PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre
plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos;
orações; devoções; magia e feitiçaria... |
Para cada instante, fase ou aspecto da vida humana, criou a imaginação popular, na sua
eterna ingenuidade um punhado de superstições, transmitidas de geração a geração,
séculos afora. Desde a concepção passando pela gestação, nascimento, batismo,
dentição, engatinhamento, fala, doença da infância, anos da meninice, puberdade,
namoro, noivado, casamento, viuvez, até à morte e além da morte - todas essas etapas
por que passa o pobre ser humano estão marcadas por um caudal infindo de crendices.
Nesta breve comunicação, desfilaremos as mais comuns, ligadas diretamente à morte.
Todas elas foram colhidas cuidadosamente, através da via oral, em terras do Espírito
Santo. Para melhor exposição, estudo e confronto, vamos reuni-las em ordem alfabética,
marcando com breves notas finais, aquelas que são correntes em outras plagas, segundo
nosso conhecimento.
Afogado
- Quando morre alguém afogado, o mar engrossa (Manguinho)
- Para se achar o corpo do afogado, põe-se uma vela benta, dentro de uma cuia sobre as
águas: onde ela parar e rodar, aí está o corpo do morto. (Vitória, Caçaroca,
Manguinho)
Água
- Sonhar com água suja, morte na família. (Serra)
- Quando morre alguém num lugar (aldeia, vila, povoação, etc.), no dia seguintes todos
os potes, garrafas, filtros e vasilhas de água devem ser esvaziados, porque o defunto
tomou banho em todos eles. (Manguino)
Amora
- Pé de amora com a raiz debaixo da casa - morte do dono. (Manguinho)
Anjo
- Beija-flor entrando em casa de manhã cedo - morte de anjo. (Manguinho)
- Precisando-se de alguma graça, quando morre um anjinho, coloca-se dentro do caixão um
bilhete para Nossa Senhora. A graça será alcançada. (Serra)
Anum
- Anum chorando morte. (Cachoeiro de Itapemirim)
- Anum branco cantando - sinal de morte. (Serra)
Besouro
- Besouro preto dentro de casa - sinal de morte. (Ibituba)
Braços
- Abrir os braços na porta - "gora" a mãe. (Cachoeiro do Itapemirim)
Cachorro
- Uivo de cachorro - morte do dono. (Santa Leopoldina)
- Cachorro em baixo da cama - morte do dono. (Santa Leopoldina)
- Cachorro quando cava o chão, está fazendo a sepultura para o dono. (Cachoeiro do
Itapemirim)
Cama
- Dormir com os pés da cama virados para a rua - sinal de morte. (Vitória, Serra)
- Doente que muda de cabeceira na cama - morre. (Serra)
Caixão de defunto
- O defunto deve sair com os pés para a rua, senão vai outra pessoa da casa.
(Manguinho)
- As pessoas que pegarem o defunto na saída da casa deverão pegá-lo novamente na
entrada do cemitério, senão morrerão logo após. (Conceição da Barra)
- Quando o corpo do defunto fica mole, está chamando outro. É preciso então tirar a
medida do corpo e colocá-la no caixão. (Serra)
- As lágrimas das velas devem ir no caixão do defunto, senão - morte de outras pessoas
da família. (Vitória, Conceição da Barra)
Castanheira
- Pé de castanha com raiz debaixo da casa - morte do dono. (Manguinho)
Cobra
- A pessoa mordida de cobra não deve chorar, nem seus parentes, mesmo que aquela
venha a morrer, senão morrem as pessoas que choraram. (Manguinho)
- Se derem talho numa cobra, ele seca, e, no mesmo lugar, fica a cobra esperando quem a
feriu. Se o picar, morte imediata. (Manguinho)
- Mordida de cobra - Se a gente beber água primeiro que ela, morre a cobra. Se a cobra
beber primeiro, a gente é que morre. (Cachoeiro do Itapemirim)
Coruja
- Canto de coruja em cima ou perto da casa - morte do dono. (Manguinho)
Dentes
- Sonhar com dentes - morte de parente. (Vitória, Santa Leopoldina, Cachoeiro do
Itapemirim)
- Sonhar que tira dente - morte. (Vitória)
Enterro
- Quem vai ao enterro de alguém deve, na volta, tirar toda a terra do sapato, senão
o morto vem buscá-lo. (Manguinho)
- Quando o enterro pára perto ou defronte de alguma casa, é sinal de morte ou casamento
naquela família. (Serra)
- Ao jogar os três punhados de terra na cova, sobre o caixão, deve-se dizer de cada
vez: "Viva lá muito tempo sem nós". (Conceição da Barra)
Estremecimento
- Quando uma pessoa "estremece" - a morte passou por perto. (Vitória)
Galinha
- Galinha cacarejando em cima da casa - morte. (Manguinho)
- Cacarejando de madrugada - morte (Manguinho)
Galo
- Galo cantando fora de hora - morte de parente. (Cachoeiro do Itapemirim)
Gavião
- Passarinho gavião cantando perto de casa - aí vai morrer alguém. (Cachoeiro do
Itapemirim)
Guarda-chuva
- aberto dentro de casa - morte, ou agoro de morte. (Vitória, Manguinho)
Lixo
- Apanhar o lixo quando o sol entra, morre o chefe da família. (Serra)
Mala
- Deixar a mala aberta - morte próxima (sepultura aberta). (Vitória, Manguinho
Guarapari, Cachoeiro do Itapemirim)
Mãos
- Pôr as mãos atrás da nuca - morte ou agouro mãe. (Vitória, Cachoeiro do
Itapemirim)
Nomes
- Colocar na criança o nome do pai - um dos dois morre logo. (Serra)
- Ouvir chamar pelo nome, fora de casa, na mata, sem saber quem foi não se deve
responder; procurar-se ver quem foi, pois pode ter sido a morte. (Manguinho)
Orelhas
- Quem tem orelha pequena - morre cedo; quem a tem grande vive muitos anos. (Serra)
Palito
- Tirar o último palito do paliteiro - fica-se viúvo ou viúva. (Vitória)
Palmas
- Palmas à parte sem aí ter ninguém - sinal de morte. (Manguinho)
Pé
- Esfregar um pé contra o outro - morrem os pais. (Serra)
Piolho
- Sonhar com piolho - morte. (Serra)
Procissão
- Se na procissão se começa o terço, ou se o andor da Santa pára em frente de uma
casa - é morte ou casamento na família. (Serra)
Retrato
- Queda de retrato - sinal de morte do dono da casa. (Vitória)
Roupa
- Quando se cose a roupa no corpo, deve-se dizer: "Eu te coso vivo e não
morto". (Vitória)
A lista de crendices de morte é infinita. Por ora bastam essas cinqüenta, que comprovam
a verdade daquela afirmação de mestre João Ribeiro: "O povo não vive só de pão
nem tão pouco de verdades, cultiva as suas mentiras úteis e os seus cândidos embustes.
Quem quiser que o desengane." (O folk-lore, p. 138)
(NEVES, Guilherme Santos. Folclore) |
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