Praticamente em desuso na cidade está o velório, chamado popularmente de
"sentinela". Feito durante a noite, quando velam o corpo do falecido, cantando
rezas e benditos, é a maneira popular de encomendar o defunto.
A sentinela é a missa laica de encomendação de defunto feita pelos pobres. A severa
repressão policial inspirada pelos próprios padres vem contribuindo para o
desaparecimento dessa usança, encontrada apenas nos lugares mais distantes da comunidade.
Na cidade raramente após a morte de uma pessoa costumam fazer novena, sendo porém comum
nos bairros rurais, onde moram aqueles que não podem pagar missas de sétimo dia.
Na "sentinela", a família do morto oferece umas garrafas de cachaça e alguma
cousa para se comer. Através da noite, alternam os cantos religiosos com uns goles de
cachaça para "melhorar a voz". Não raro ao amanhecer há muita gente
embriagada, sendo difícil para os que passaram a noite nestas libações e
"guardamento" carregarem o defunto até o cemitério. Ele está muito pesado,
daí possivelmente o costume de surrar o defunto para ficar mais leve.
Ainda é uso transportar do bairro rural até a cidade o defunto em rede, caso a caminhada
seja feita por terra, porque, quando trazem das ilhas ou povoados marginais, vêm em barco
ou enterram por lá mesmo, nos casos de afogamento. Durante a viagem, os acompanhantes
vêm cantando rezas apropriadas. A "pisa" (surra) no defunto é dada com vara ou
cipó no caso de ficar muito pesado para atravessar o riacho. Dizem que, ao transportar as
águas do rio, se sente mais o peso, pois o defunto não quer atravessar as divisas da sua
moradia.
A reza de "sentinela" é "puxada" ou "tirada", isto é,
dirigida por um capelão leigo. Há homens e mulheres que de desincumbem de tal mister,
basta apenas ter um bom cabedal de conhecimentos das rezas apropriadas para a ocasião. As
"sentinelas" são um cantochão que se tornou rústico, guardando porém a
melodia religiosa que enternece. As palavras, não raro incompreensíveis, se deturpam ao
serem transmitidas de geração a geração ou de rezador a outro.
Quando estão no velório e passa alguém perto, uma das pessoas grita: "chegai
irmão das almas!" Há também um canto dirigido às pessoas que auxiliam na
"sentinela". É comum dirigirem-se ao defunto na hora em que o estão arrumando
na esteira ou no chão. Ao vestirem, às vezes, mandam "endurecer o braço",
"amolecer a perna". Há uma série grande de observâncias postas em prática
quando morre alguém. No final da "sentinela", quando o defunto será levado
para ser enterrado há um canto de despedida cantado pelo "tirador de rezas".
Presenciamos uma reza de despedida a um moço que morreu, em Piaçabuçu, por causa dos
espancamentos da polícia de Igreja Nova, por motivos políticos. Nessa reza, o
"puxador" dirigia-se à mãe do morto, único parente que deixara.
No decorrer da noite cantam as "incelências".
Cantam sempre doze "excelências", número dos apóstolos. É um dever do bom
cristão participar de uma "sentinela", por isso, ao ouvirem chegai irmão
das alma, ninguém deixa de atender, ainda mais que é crença de que defunto
enterrado sem ter cantado para ele as "doze incelência"
não terá salvação. Para criança não há velório, e os pais não devem chorar para
que as lágrimas não molhem as asas do anjo da guarda que virá buscá-la.
Há tanto respeito quando se canta a "sentinela" que os participantes dessa
"missa de encomendação dos pobres" o fazem de joelhos ou em pé, e os que a
escutam não devem permanecer sentados ou deitados, mas genuflexos.
SENTINELAS
(Cantos de velório)
Incelências
Uma incelência
Ô mãe amorosa,
Seu filhinho vai morto
Na vida saudosa.
Duas incelências, etc...
Cantam até doze "excelências". Enquanto estão cantando as
"sentinelas", caso passe alguma pessoa, um daqueles que ali está grita:
"Chegai irmão das alma!"
Sendo pequeno o número de participantes do velório chamam os irmãos das almas para
cantar "sentinelas", ou cantam esta reza para ver aumentado o número de
guardadores do defunto:
Chegai pecadô que há de morrê,
Chama por Jesuis para tê valê.
Chama por Jesus enquanto é tempo
Quando a morte vem, mata de repente.
Quando a morte vem, calada, sozinha,
Dizendo consigo, esta hora é minha.
Chama por Jesuis que Ele mandará
Um anjo da guarda para te ajudá.
Torna a chamá, que ele vem também,
Com o seu ao lado, para sempre. Amém.
Eu ofereço esta reza
Ao sinhô que tá na cruz,
Que nos livre do infermo
Para sempre. Amém Jesus.
REZA
Nos Domingo e dia santo
Que as igreja tão chamando,
Que nós no nosso batuque
É tu é que Jesus crama.
E tu é que deu a morte
Tanta morte arrepentina
Tanto castigo que vorta.
Castigo havemo tê,
Raio, curioso e trovão
Tudo isso é de se vê.
Essas arma que morreu,
Não se salvaro nenhuma
Selada este mistério
Talvez que salvasse alguma.
Valei-me Santa Teresa,
Valei-me Santa Isabel,
Valei-me meu anjo da Guarda,
Me acuda São Gabrié.
Quem rezá este bendito
Com toda sua famia
As portas do céu se abre
E o inferno treme de dia,
Que nos livre do inferno
Para sempre, Amém Jesus.
DESPEDIDA
Cantam como se fosse o defunto que estivesse despedindo-se:
Sua bençã mãe,
Nos queria butá,
Os anjo me chama
Não posso esperá.
Não posso esperá
Esta dispidida,
Hoje é o dia
Da minha partida.
Meus irmão não chore
Que eu não posso,
Peço que me reze
Outro padre-nosso.
Si forim rezado
De bom coração,
Peço que me ofereça
Em minhintenção.
Dê a ismola aos cego
E aos filho sem pai,
Quem faz pra Jesuis Cristo
Merecemo mais.
Adeus minha mãe,
Meu povo também,
Eu vô pra eternidade
Para sempre. Amém.
(ARAÚJO, Alceu Maynard. Medicina
rústica. Instituto Nacional do Livro, 1977)
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