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Ano III - novembro 2000 - nº 27

Sua revista com a cara e a alma brasileira


SUMÁRIO - EDIÇÃO 27
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA

As cerimônias feitas pelos índios tupinambás ao enterrarem seus mortos, no Brasil do século XVI, descritas por Gabriel Soares de Souza.

Incelências, excelências ou incelenças são cantos entoados à cabeceira dos moribundos, e crê-se que facilitam a entrada no céu. Leia: Velório e sentinelas, por Alceu Maynard Araújo.

Cinqüenta crendices e superstições ligadas à morte, recolhidas no Estado do Espírito Santo.

CATAVENTO
ALMANAQUE

 

PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...


AS CERIMÔNIAS FEITAS PELOS ÍNDIOS TUPINAMBÁS
AO ENTERRAREM SEUS MORTOS

Gabriel Soares de Souza


Que trata das cerimônias que os tupinambás fazem quando morre algum, e como os enterram


É costume entre os tupinambás que, quando morre qualquer deles, o levam a enterrar embrulhado na sua rede em que dormia, e o parente mais chegado lhe há de fazer a cova, com os cabelos soltos sobre o rosto, estão-no pranteando até que fica bem coberto de terra; de onde se tornam para sua casa, onde a viúva chora o marido por muitos dias; e se morrem as mulheres destes tupinambás, é costume que os maridos lhes façam a cova, e ajudem a levar às costas a defunta, e se não tem já marido o irmão ou parente mais chegado lhe faz a cova.

E quando morre algum principal da aldeia em que vive, e depois de morto alguns dias, antes de o enterrarem fazem as cerimônias seguintes. Primeiramente o untam com mel todo, e por cima do mel o empenam com penas de pássaros de cores, e põem-lhe uma carapuça de penas na cabeça e todos os mais enfeites que eles costumam trazer nas suas festas; e tem-lhe feito mesma casa e lanço onde ele vivia, uma cova muito funda e grande, com sua estacada por derredor, para que tenha a terra que não caia sobre o defunto, e armam-lhe sua rede em baixo, de maneira que não toque o morto no chão; na qual rede o metem assim enfeitado, e põem-lhe junto da rede seu arco e flechas, e a sua espada, e o maracá com que costumava tanger, e fazem-lhe fogo ao longo da rede para se aquentar, e põem-lhe de comer num alguidar, e água num cabaço, como galinha; e como esta matalotagem está feita, e lhe põem também sua cangoeira de fumo na mão, lançam-lhe muita soma de madeira igual no andar da rede de maneira que não toque no corpo, e sobre esta madeira muita soma de terra, com ramas debaixo primeiro, para que não caia terra sobre o defunto; sobre a qual sepultura vive a mulher como dantes. E quando morre algum moço, filho de algum principal, que não tem muita idade, metem-no em cócoras, atados os joelhos com a barriga, em um pote em que ele caiba, e enterram o pote na mesma casa debaixo do chão, onde o filho e o pai, se é morto, são chorados muitos dias.


Que trata do sucessor principal que morreu, e das cerimônias que faz sua mulher e as que se fazem por morte dela também

Costumam os tupinambás, quando morre o principal da aldeia, elegerem entre si quem suceda em seu lugar, e se o defunto tem filho que lhe possa suceder, a ele aceitam por seu cabeça; e quando não é para isso, ou o não têm, aceitam um seu irmão em seu lugar; e não os tendo que tenham partes para isso, elegem um parente seu, se é capaz de tal cargo, e tem as partes atrás declaradas.

É costume entre as mulheres dos principais tupinambás, ou de outro qualquer índio, a mulher cortar os cabelos por dó, e tingir-se toda de jenipapo. As quais choram seus maridos muitos dias, e são visitadas de suas parentes e amigas; e todas as vezes que o fazem, tornam com a viúva a prantear de novo o defunto, as quais deixam crescer o cabelo até que lhes dá pelos olhos, e se não casa com outro, logo faz sua festa com vinhos, e torna-se a tosquiar para tirar o dó, tinge-se de novo do jenipapo.

Costumam os índios, quando lhes morrem as mulheres, deixarem crescer o cabelo, no que não tem tempo certo, e tingem-se do jenipapo por dó; e quando se querem tosquiar, se tornam a tingir de preto à véspera da festa dos vinhos, que fazem a seu modo, cantando toda a noite, para a qual se ajunta muita gente para estes cantares, e o viúvo tosquia-se à véspera, à tarde, e ao outro dia há grandes revoltas de cantar e bailar, e beber muito; e o que neste dia mais bebeu fez maior valentia, ainda que vomite e perca o juízo. Nestas festas se cantam as proezas do defunto ou defunta, e do que tira o dó, e o mesmo dó tomam os irmãos, filhos, pai e mãe do defunto, e cada um por si faz sua festa, quando tira o dó apartado, ainda que o tragam por uma mesma pessoa; mas este sentimento houveram de ter os vivos dos mortos, quando estavam doentes; mas são tão desamoráveis os tupinambás que, quando algum está doente, e a doença é comprida, logo aborrece a todos os seus, e curam dele muito pouco; e como o doente chega a estar mal, é logo julgado por morto; e não trabalham os seus mais chegados por lhe dar a vida, antes o desamparam, dizendo que pois há de morrer, e não tem remédio que para que é dar-lhe de comer, nem curar dele; e tanto é isto assim que morrem muitos ao desamparo; e levam a enterrar outros ainda vivos, porque como chega a perder a fala dão-no logo por morto; e entre os portugueses aconteceu muitas vezes fazerem trazer de junto da cova escravos seus para casa, por as mulheres os julgarem por mortos, muitos dos quais tiveram saúde e viveram depois muitos anos.


(SOUZA, Gabriel Soares de. Tratado descritivo do Brasil em 1587. 4ª ed. São Paulo, Companhia Editora Nacional e Editora da USP, 1971. Brasiliana, v. 117)

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