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Ano III - novembro 2000 - nº 27

Sua revista com a cara e a alma brasileira


SUMÁRIO - EDIÇÃO 27
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA

Alceu Maynard Araújo descreve costumes e práticas que cercam a morte, enterro e luto.

"Quando o corpo sai de casa, o relógio é parado e as cadeiras são viradas, para que o espírito do morto não fique sentado em algumas delas." Costumes relativos ao enterro, no vale do Itajaí.

Cerimônia dos funerais no Rio de Janeiro do século XIX, por Ferdinand Denis.

COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE

 

 

PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...


CERIMÔNIA DOS FUNERAIS NO RIO DE JANEIRO

Ferdinand Denis


Os funerais são quase sempre objeto de uma cerimônia pomposa no Brasil. Os de pessoas que ocuparam posição elevada na sociedade, se fazem ordinariamente á noite, á luz das tochas de cera que assistentes levam. Não são somente os parentes e amigos do defunto que acompanham o caixão; todo indivíduo, vestido com decência, que passa diante da casa mortuária é convidado a pegar uma tocha e assim a seguir o enterro.

A ataúde vai adiante e os portadores de tochas e seguem formando uma longa procissão até igreja em que o ofício fúnebre terá lugar. Em geral, nota-se certa magnificência na eça que, de antemão, se preparou e sobre a qual o corpo é depositado. Há alguns anos, era costume vestir o defunto com hábito de uma das ordens religiosas e expô-lo com o rosto descoberto. Este uso prevalece ainda em alguns lugares. Se tratasse de um Cavaleiro da Ordem de Cristo, envolvia-se o seu corpo em uma espécie de armadura e sobre a eça se viam as insígnias desta ordem que foi célebre na origem, e que sucedeu aos templários. Por pouco que o morto tenha exercido algum cargo de distinção o órgão acompanha o ofício fúnebre e há certos músicos agregados á igreja que formam se é necessário, uma orquestra completa e que cantam uma missa. Malgrado o exemplo dado pelas grandes nações européias, o uso dos cemitérios ainda não prevaleceu no Rio de Janeiro. Tão logo terminado o ofício, uma das lajes da igreja é levantada e o corpo depositado numa cova feita de antemão, que é recoberta por uma enorme quantidade de cal. Algumas vezes, é o corpo levado ás galerias de um claustro, onde espécies de criptas são abertas na parede. Estas sepulturas exteriores recebem também uma quantidade considerável de cal, o que, mais tarde, permitirá a retirada das ossadas. Sucede então necessariamente o que acontecia nos ossários de nossas grandes cidades: novos enterros incessantemente fazem descobrir ossadas que nem sempre são recolhidas com o respeito devido aos mortos. Fomos muitas vezes testemunhas destas espécies de profanação que o hábito torna em breve insensível. Algumas vezes, como relata o Sr. Walsh, o solo tem sido com tanta frequência revolvido que é impossível achar um lugar intato, de modo que a cova que se chega a fazer não é suficiente para conter o cadáver. Uma parte do corpo então excede o nível do solo, e o coveiro é obrigado a usar de um instrumento semelhante ao maço de calceteiro para fazê-lo entrar na sepultura. A multidão olha isso com a mais perfeita indiferença; esta disposição pode-se explicar, a rigor, pela idéia religiosa, que considera o corpo dado à terra como sendo a própria terra. Contra semelhante costume, muitas vozes se tem levantado no Brasil; e apesar das precauções tomadas, sente-se tudo o que ele pode ter de pernicioso.

Os enterros de crianças fazem-se, no Brasil, com uma pompa entre nós ignorada, e que nada tem de fúnebre. A idéia geralmente admitida de que uma criança não abandona a terra senão para voar a uma morada mais ditosa, faz esquecer todas as demonstrações de dor. Com frequência encontram-se, nas ruas do Rio ou nas de São Salvador, uma dessas pequenas criaturas rodeadas de flores artificiais repousando num pequeno ataúde que um pano bordado envolve. A parte dos claustros onde vão depositá-las é de uma asseio extremo e oferece um elegante aspecto. As pinturas das arcadas são frequentemente renovadas, e quase sempre este cemitério abrigado é contíguo a um pequeno jardim, onde crescem flores que se cultivam com cuidado, e que perfumam esta última morada da infância.

Mas, sem contradita, a cerimônia fúnebre mais tocante que teve lugar no Rio de Janeiro, neste últimos anos, foi a que se observou nas exéquias da jovem imperatriz. Sua vida não havia sido marcada senão por uma série de ações benéficas e de bondade; profundas saudades se misturam a este cerimonial, cujo caráter não permanece mais a nossa época e que renovou, no Século XIX, os extintos ritos da Idade Média.

Era ao tempo da guerra contra as províncias do sul; a jovem imperatriz estava grávida e a sua saúde havia sido abalada por pesares domésticos, que já não são segredos no Brasil. Em pouco tempo, o mal fez progressos; todos os recursos da Medicina foram postos, em vão, em prática; e quando sua impotência foi admitida, recorreu-se ás praticas religiosas, que os costumes do Brasil recomendam. Todas as corporações todas as ordens religiosas fizeram procissões; visitaram-se as imagens havidas como santas, e, no meio dessas tristes cerimônias diz um viajante a quem devemos parte destas particularidades, há uma que involuntariamente excita um melancólico sorriso, e que nos relatos do tempo se acha mencionada: "A protetora da jovem imperatriz aquela a quem esta não cessara, durante o tempo de sua vida de pegar um tributo de adoração, Nossa Senhora da Glória foi mais particularmente implorada de emoção de piedade esta santa imagem, que antes não teria deixado sair de sua capela marchar processionalmente não obstante a chuva, para ir visitar a princesa que, outrora antes da doença, não deixava passar uma Segunda feira sem que fosse prostrar-se ao pé de seu altar".

A 2 de dezembro sobrevieram dores prematura; a imperatriz trouxe ao mundo, muito antes do tempo, um filho varão; depois do parto houve um momento de esperança de que os mais perigosos sintomas iam ceder; mas estes reapareceram com uma violência que não deixou logo mais esperança. Então manifestou ela o desejo de receber os últimos socorros da igreja. Mandou chamar os criados de sua casa, e, enquanto todo mundo rodeava seu leito, derramando lágrimas , sobre cuja sinceridade ninguém poderia levantar tivesse ofendido; que não queria deixar este mundo com a idéia de quem um só indivíduo tivesse motivo de queixa de sua conduta e sem que fizesse quanto lhe fosse possível para dar reparação: apenas lágrimas lhe responderam.

Dizem que, nessa ocasião, a pessoa que fora causa de todos os seus pesares domésticos quis penetrar nos aposentos da imperatriz para ali cumprir a sua obrigação de camareira; que ela resistiu às mais enérgicas observações e que foi indispensáveis nada menos que a firmeza de alguns assistentes para evitar que prosseguisse no seu intento.

Foi a 11 de dezembro de 1826, às dez horas da manhã que a jovem imperatriz cessou de sofrer: com a aparência de mais vigorosa saúde, ela morreu aos vinte e um anos.

Como se pratica desde tempo imemorial foi o corpo revestido com as vestimentas e exposto numa câmara ardente. Uma cerimônia que se tornou célebre na Europa, por causa, certamente, das trágicas circunstâncias de que foi acompanhada mas que se executa por ocasião do falecimento de cada soberano em Portugal, teve lugar no palácio. Último vestígio da feudalidade ela não se repetirá mas, sem dúvida, mas executou-se ainda esta vez. A mão da falecida imperatriz ficou descoberta e todos os oficiais da casa, assim como os dignatários do Império foram beijá-la. Mas o que teria sido outrora uma cerimônia odiosa, imposta pelo cerimonial praticou-se esta vez em circunstância mais tocantes. Os que tinham amado e respeitado esta jovem senhora durante a sua vida, não hesitaram em pagar este derradeiro tributo de afeição a seus restos mortais.

Nesta ocasião diz um viajante a quem todas estas circunstâncias foram referidas pouco tempo depois do acontecimento, os filhos se aproximaram para prestar esta devoção a sua mãe; cada um era conduzido por um camarista até junto da eça onde haviam de beijar-lhe a mão que se encontrava estendida eram, porém, bastante jovens para que pudessem sentir uma veemente impressão à vista deste espetáculo. Somente a mais velha, a Senhora D. Maria, hoje rainha de Portugal, deu prova de uma sensibilidade extraordinária para a sua idade; chorava, soluçando, de maneira dilacerante, e apresentava todos os sinais de uma dor profunda ante os restos mortais de sua mãe.

A procissão fúnebre desfilou durante a noite, à luz das tochas, como se pratica no País em relação a todas as pessoas distintas. Sete altares foram erigidos sob a varanda do palácio e sete oficiantes celebraram a missa. Todas as ruas pelas quais devia passar o cortejo apresentavam uma fileira de eclesiásticos pertencentes ás diversas comunidades religiosas.

Ás 11 horas, chegou ao convento da Ajuda, onde o corpo foi recebido pelas freiras, que o depositaram, não em mausoléu, mas sobre um canapé. Foi colocado assim que um viajante viu recentemente a ataúde, no cemitério do convento, que não poderia conter, dizia ele, os restos de uma mulher ao mesmo tempo mais pura e mais excelente.


(DENIS, Ferdinand. Brasil. Ed. Itatiaia)

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