Os funerais são quase sempre objeto de uma
cerimônia pomposa no Brasil. Os de pessoas que ocuparam posição elevada na sociedade,
se fazem ordinariamente á noite, á luz das tochas de cera que assistentes levam. Não
são somente os parentes e amigos do defunto que acompanham o caixão; todo indivíduo,
vestido com decência, que passa diante da casa mortuária é convidado a pegar uma tocha
e assim a seguir o enterro.
A ataúde vai adiante e os portadores de tochas e seguem
formando uma longa procissão até igreja em que o ofício fúnebre terá lugar. Em geral,
nota-se certa magnificência na eça que, de antemão, se preparou e sobre a qual o corpo
é depositado. Há alguns anos, era costume vestir o defunto com hábito de uma das ordens
religiosas e expô-lo com o rosto descoberto. Este uso prevalece ainda em alguns lugares.
Se tratasse de um Cavaleiro da Ordem de Cristo, envolvia-se o seu corpo em uma espécie de
armadura e sobre a eça se viam as insígnias desta ordem que foi célebre na origem, e
que sucedeu aos templários. Por pouco que o morto tenha exercido algum cargo de
distinção o órgão acompanha o ofício fúnebre e há certos músicos agregados á
igreja que formam se é necessário, uma orquestra completa e que cantam uma missa.
Malgrado o exemplo dado pelas grandes nações européias, o uso dos cemitérios ainda
não prevaleceu no Rio de Janeiro. Tão logo terminado o ofício, uma das lajes da igreja
é levantada e o corpo depositado numa cova feita de antemão, que é recoberta por uma
enorme quantidade de cal. Algumas vezes, é o corpo levado ás galerias de um claustro,
onde espécies de criptas são abertas na parede. Estas sepulturas exteriores recebem
também uma quantidade considerável de cal, o que, mais tarde, permitirá a retirada das
ossadas. Sucede então necessariamente o que acontecia nos ossários de nossas grandes
cidades: novos enterros incessantemente fazem descobrir ossadas que nem sempre são
recolhidas com o respeito devido aos mortos. Fomos muitas vezes testemunhas destas
espécies de profanação que o hábito torna em breve insensível. Algumas vezes, como
relata o Sr. Walsh, o solo tem sido com tanta frequência revolvido que é impossível
achar um lugar intato, de modo que a cova que se chega a fazer não é suficiente para
conter o cadáver. Uma parte do corpo então excede o nível do solo, e o coveiro é
obrigado a usar de um instrumento semelhante ao maço de calceteiro para fazê-lo entrar
na sepultura. A multidão olha isso com a mais perfeita indiferença; esta disposição
pode-se explicar, a rigor, pela idéia religiosa, que considera o corpo dado à terra como
sendo a própria terra. Contra semelhante costume, muitas vozes se tem levantado no
Brasil; e apesar das precauções tomadas, sente-se tudo o que ele pode ter de pernicioso.
Os enterros de crianças fazem-se, no Brasil, com uma
pompa entre nós ignorada, e que nada tem de fúnebre. A idéia geralmente admitida de que
uma criança não abandona a terra senão para voar a uma morada mais ditosa, faz esquecer
todas as demonstrações de dor. Com frequência encontram-se, nas ruas do Rio ou nas de
São Salvador, uma dessas pequenas criaturas rodeadas de flores artificiais repousando num
pequeno ataúde que um pano bordado envolve. A parte dos claustros onde vão depositá-las
é de uma asseio extremo e oferece um elegante aspecto. As pinturas das arcadas são
frequentemente renovadas, e quase sempre este cemitério abrigado é contíguo a um
pequeno jardim, onde crescem flores que se cultivam com cuidado, e que perfumam esta
última morada da infância.
Mas, sem contradita, a cerimônia fúnebre mais tocante
que teve lugar no Rio de Janeiro, neste últimos anos, foi a que se observou nas exéquias
da jovem imperatriz. Sua vida não havia sido marcada senão por uma série de ações
benéficas e de bondade; profundas saudades se misturam a este cerimonial, cujo caráter
não permanece mais a nossa época e que renovou, no Século XIX, os extintos ritos da
Idade Média.
Era ao tempo da guerra contra as províncias do sul; a
jovem imperatriz estava grávida e a sua saúde havia sido abalada por pesares
domésticos, que já não são segredos no Brasil. Em pouco tempo, o mal fez progressos;
todos os recursos da Medicina foram postos, em vão, em prática; e quando sua impotência
foi admitida, recorreu-se ás praticas religiosas, que os costumes do Brasil recomendam.
Todas as corporações todas as ordens religiosas fizeram procissões; visitaram-se as
imagens havidas como santas, e, no meio dessas tristes cerimônias diz um viajante a quem
devemos parte destas particularidades, há uma que involuntariamente excita um
melancólico sorriso, e que nos relatos do tempo se acha mencionada: "A protetora da
jovem imperatriz aquela a quem esta não cessara, durante o tempo de sua vida de pegar um
tributo de adoração, Nossa Senhora da Glória foi mais particularmente implorada de
emoção de piedade esta santa imagem, que antes não teria deixado sair de sua capela
marchar processionalmente não obstante a chuva, para ir visitar a princesa que, outrora
antes da doença, não deixava passar uma Segunda feira sem que fosse prostrar-se ao pé
de seu altar".
A 2 de dezembro sobrevieram dores prematura; a imperatriz
trouxe ao mundo, muito antes do tempo, um filho varão; depois do parto houve um momento
de esperança de que os mais perigosos sintomas iam ceder; mas estes reapareceram com uma
violência que não deixou logo mais esperança. Então manifestou ela o desejo de receber
os últimos socorros da igreja. Mandou chamar os criados de sua casa, e, enquanto todo
mundo rodeava seu leito, derramando lágrimas , sobre cuja sinceridade ninguém poderia
levantar tivesse ofendido; que não queria deixar este mundo com a idéia de quem um só
indivíduo tivesse motivo de queixa de sua conduta e sem que fizesse quanto lhe fosse
possível para dar reparação: apenas lágrimas lhe responderam.
Dizem que, nessa ocasião, a pessoa que fora causa de
todos os seus pesares domésticos quis penetrar nos aposentos da imperatriz para ali
cumprir a sua obrigação de camareira; que ela resistiu às mais enérgicas observações
e que foi indispensáveis nada menos que a firmeza de alguns assistentes para evitar que
prosseguisse no seu intento.
Foi a 11 de dezembro de 1826, às dez horas da manhã que
a jovem imperatriz cessou de sofrer: com a aparência de mais vigorosa saúde, ela morreu
aos vinte e um anos.
Como se pratica desde tempo imemorial foi o corpo
revestido com as vestimentas e exposto numa câmara ardente. Uma cerimônia que se tornou
célebre na Europa, por causa, certamente, das trágicas circunstâncias de que foi
acompanhada mas que se executa por ocasião do falecimento de cada soberano em Portugal,
teve lugar no palácio. Último vestígio da feudalidade ela não se repetirá mas, sem
dúvida, mas executou-se ainda esta vez. A mão da falecida imperatriz ficou descoberta e
todos os oficiais da casa, assim como os dignatários do Império foram beijá-la. Mas o
que teria sido outrora uma cerimônia odiosa, imposta pelo cerimonial praticou-se esta vez
em circunstância mais tocantes. Os que tinham amado e respeitado esta jovem senhora
durante a sua vida, não hesitaram em pagar este derradeiro tributo de afeição a seus
restos mortais.
Nesta ocasião diz um viajante a quem todas estas
circunstâncias foram referidas pouco tempo depois do acontecimento, os filhos se
aproximaram para prestar esta devoção a sua mãe; cada um era conduzido por um camarista
até junto da eça onde haviam de beijar-lhe a mão que se encontrava estendida eram,
porém, bastante jovens para que pudessem sentir uma veemente impressão à vista deste
espetáculo. Somente a mais velha, a Senhora D. Maria, hoje rainha de Portugal, deu prova
de uma sensibilidade extraordinária para a sua idade; chorava, soluçando, de maneira
dilacerante, e apresentava todos os sinais de uma dor profunda ante os restos mortais de
sua mãe.
A procissão fúnebre desfilou durante a noite, à luz
das tochas, como se pratica no País em relação a todas as pessoas distintas. Sete
altares foram erigidos sob a varanda do palácio e sete oficiantes celebraram a missa.
Todas as ruas pelas quais devia passar o cortejo apresentavam uma fileira de
eclesiásticos pertencentes ás diversas comunidades religiosas.
Ás 11 horas, chegou ao convento da Ajuda, onde o corpo
foi recebido pelas freiras, que o depositaram, não em mausoléu, mas sobre um canapé.
Foi colocado assim que um viajante viu recentemente a ataúde, no cemitério do convento,
que não poderia conter, dizia ele, os restos de uma mulher ao mesmo tempo mais pura e
mais excelente.
(DENIS, Ferdinand. Brasil.
Ed. Itatiaia) |