Dois tipos distintos de enterro na cidade de Piaçabuçu: o "daqueles que podem"
e "dos que não podem". Para os "os que podem" o sino bate. O caixão
vai à igreja, o padre à frente do enterro após a missa de corpo presente vai até o
cemitério e os sinos dobram a finados ininterruptamente. No caso de pessoas pobres, o
"caixão da misericórdia" vai buscá-los. Aparecem alguns homens, poucos. Levam
o caixão diretamente ao cemitério. Lá despejam o corpo e voltam com o caixão à espera
de servir outro pobre.
Antigamente havia aqui um costume: embora não se mandando encomendar o corpo segundo o
ritual católico romano, passavam com ele por frente da igreja. Era o suficiente. Só isto
bastava, estava encomendado. O prefeito Galvão, disse um informante, acabou com tal
hábito, usando habilmente suas relações políticas com o padre, partindo do pároco a
proibição. Daí por diante acabou-se tal costume dos pobres. Foi nessa época que o
padre pediu ao delegado de polícia para acabar com as "sentinelas". Vários
informantes recordavam-se de uma sentinela feita na Paciência de Baixo em que a polícia
surrou todo mundo até o defunto.
Ao morrer uma pessoa desde que seja de certo destaque social, bem aquinhoada
economicamente, o sino bate o dia todo, isto é "o sinal". E foi há bem pouco
que as famílias ricas deixaram o hábito de enterrar na igreja seus membros falecidos,
passando a sepultá-los no cemitério. Há catorze pessoas das famílias importantes, dos
"grandolas", enterradas na igreja. Certo padre, ao reformar a igreja, teve que
remover um desses "enterrados" para o cemitério, o que causou certo
descontentamento e forte reação política por parte dos seus familiares, sendo preciso o
padre sair da cidade e ir "pregar noutra freguesia", como nos informou um
descendente desse enterrado. Os pais de dona Camaroa estão sepultados na capela de Santo
Antônio. Capela onde é zeladora há 60 anos; há também um padre e sua mãe, enterrados
nessa exígua capela na cidade.
Quando um indivíduo pobre morre, se a morte ocorreu pela manhã enterram à tarde.
Porém, se morre à tarde ou à noite, passam cantando a noite toda e por ocasião de
levá-lo ao cemitério, a certa altura, eles surram o defunto para que se torne mais leve
para ser carregado. Isso é comum quando a rede vem do meio rural para a cidade.
Várias são as observações que devem ser feitas nessa ocasião: a lavagem do defunto
deve ser feita, às vezes, pela pessoa que o falecido pediu, é a ablução, observância
da lei mosaica. Ao sair o enterro, duas pessoas, nunca uma só, devem varrer a casa e
lançar os ciscos na direção que seguiu o enterro. Há ainda muita choradeira na hora da
despedida, porém, não há mais carpideiras.
Criança que morre sem batizar enterra-se nas encruzilhadas, não se enterra no
"sagrado", isto é, o cemitério. Enterra-se na encruzilhada das estradas e não
se coloca cruz, é o "cemitério dos pagãos". Enterra-se também na biqueira da
casa, o que é realmente comum em Piaçabuçu, principalmente nas pontas de rua, na zona
suburbana e rural.
Manuel das Dores informou que tem "um filho enterrado na biqueira de sua casa"
(mora na cidade, perto do "Quadro", isto é, praça da matriz). "Minha
mulher matou ele de desejo. Ela estava com desejo de comer feijão com carne de
ceará. Não tinha ceará em casa. Ela quando cheguei estava em
cima da cama com dores. Nasceu de cinco meses. Eu peguei e enterrei na biqueira da
casa". A biqueira da casa é onde a chuva cai. Quando é batizada só se enterra no
lugar sagrado, onde o padre benzeu, no cemitério.
Quando morre uma criança, depois de se ter tentado os remédios da medicina rústica e
mesmo, quando as posses econômicas o permitem, terem chamado o médico, é comum ouvir-se
frases como estas registradas por M. Rodrigues de Melo (1): "Era um anjinho... Deus quis... faça-se a vontade de Deus.
Se era de ficar grande e dar desgosto à família, ser um ladrão, um valentão,
arruaceiro, bebedor de cachaça, jogador, fazendo vergonha à família, era melhor
assim... que Deus o levasse". O que muitas vezes pudemos registrar, através da
conformação com a morte da criança, podia-se ler, no fundo daquelas almas amarguradas,
uma desculpa para consigo mesmo pela falta de recursos materiais. Pobreza que, na falta de
assistência à infância, dá aos pais uma atitude de conformação e leva-os a falar de
destino, de Deus...
LUTOQuando morre alguém na família, todos
colocam luto. Se é o pai ou a mãe, até crianças de braço são trajadas de preto.
Mesmo quando morrem crianças, os pais usam luto. É, portanto, muito comum tal uso.
Tingem todas as peças de roupa - as de cima e as de baixo. É impressionante o número de
pessoas de luto: pessoas de idade mulheres e crianças. Guardam luto de parentes e até de
compadre.
De pai e mãe - luto fechado durante um ano, aliás, não há luto aliviado. O luto é
camisa e calças pretas. As mulheres de vestido todo preto. Acreditamos que seja também
uma roupa mais prática, pois a sujeira pouco aparece...
Luto por parte de filho, sendo casado ou maior, guardam seis meses. De filhos antes dessa
idade, apenas três. De tio, avós, três meses. De irmão, seis meses. De compadre que se
quer bem, três meses. Quanto aos pobres também é assim. Ultimamente há outro uso de
luto, homens só trazem um fumo na lapela, braço e chapéu. Afirmam que aprenderam isso
tal uso com a gente que voltou de São Paulo ou lá morou. Em casa as mulheres andam com
outro vestido, só põem o de luto para sair. Os pobres não, é a mesma roupa o dia todo.
Nossa lavadeira está de luto de seu irmão de 18 anos que morreu afogado no rio; informou
que todas as peças de roupa da família são tingidas no dia imediato após o enterro do
membro falecido.
[1]. Melo, M.
Rodrigues de. Cavalo-de-pau. Rio de Janeiro, Ed. Pongetti, 1953, p. 88.
(ARAÚJO, Alceu Maynard. Medicina
rústica. Instituto Nacional do Livro, 1977) |