
"Eu vinha
vindo com o frescor da manhã por aquele trecho da praia de Santa Luzia, tão suave e tão
formoso, onde se amontoam as cousas lúgubres da cidade - a Santa Casa, o Necrotério, o
serviço de enterramentos..." Os urubus, uma crônica de João do Rio.
O ritual do Nosso-pai, a comunhão levada ao moribundo, descrito por Melo Morais Filho.
Um funeral moçambique em 1830, por Melo Morais
Filho.
|
|
|
|
| OFICINA
- Nesta seção, textos sobre profissões; ferramentas; técnicas; agricultura, pecuária;
artesanato; vendedores ambulantes; pregões... |
Alexandre José de Melo
Morais Filho |
A vida é uma viagem. Atirado no oceano do destino, o homem tem necessidade de estrelas
fixas que dirijam-lhe o rumo ao porto de além-túmulo.
A bússola da ciência é variável; os arrecifes em que as vagas da sorte quebram-se
lamentosas surgem aqui e ali, e sem os astros da fé que iluminem-lhe a noite dalma,
o mísero viajor veria a sua nau sossobrar, com o leme partido e os panos rotos.
Mas Deus, que fez o santelmo para o topo dos mastros, fez a esperança para as alturas da
razão.
Pensar deste modo é traduzir o sentimento dos nossos maiores, que viviam e morriam na
convicção de suas piedosas superstições, tão simples e consoladoras de uma
existência melhor.
Felizes entes! Viviam como morriam, isto é no seio da religião e da família, não
pressentindo na hora extrema o vulto infecundo do aniquilamento encher-lhes o sepulcro de
asfixia e de vermes!
Na pureza de suas intenções, no idealismo de sua compreensão do outro mundo, eles
tinham o túmulo como um portão por onde se passa a eternidade.
À semelhança do pescador que, aplicando ao ouvido o búzio que encontra na praia, escuta
os rumores das vagas longínquas, os nossos pais apercebiam a eternidade pela consciência
de suas boas obras e de seus deveres lealmente cumpridos para com a igreja.
E na pluralidade dos casos uma agonia serena prenunciava-lhes a morte plácida, como o
aproximar lento e resplandecente de um anjo na vigília de um santo.
* * *
Antigamente, quando à cabeceira do enfermo o padre devia substituir o médico, e o
derradeiro suspiro daquele que ia entrar na paz dos céus parecia querer exalar-se, a
família reunida decidia sobre as ministrações místicas, para o que rápido expediente
e singelos aprestos tornavam-se de estilo.
De antemão, a pessoa mais velha, ou a mais considerada, predispunha o doente para receber
o sacramento; e palavras confusas rolavam no ambiente de um quarto que em breve se
empalideceria aos reflexos lívidos de círios ardentes.
Lá dentro, nos aposentos mais retirados, o choro e as evocações - a angústia de quem
sofre e a dor que não finda...
E dois escravos, batendo as ruas, seguiam apressados, dobravam esquinas, e sumiam-se em
direções opostas.
Mas onde iam eles, enxugando na manga arregaçada da camisa lágrimas insensatas?
Um, à freguesia próxima dar aviso ao vigário, e o outro às chácaras das cercanias
buscar folhas de canela, de cravo e de laranjeira, para estendê-las na calçada da rua e
na escada da casa de seus bons senhores.
E as badaladas da agonia caíam da torre pedindo orações pelo moribundo... e alva
toalha cobrindo uma banqueta, um grande cálice de prata cheio dágua, quatro
castiçais com velas cobrindo de cera alumiando a imagem do Cristo dominavam no recinto do
leito mortuário, que naquele instante se afigurava, pelo sombrio caráter, a um pedaço
de ogiva.
E a coruja, trepada na asa da morte que planava por sobre aqueles tetos, abria no
crepúsculo as pálpebras de ouro, soltando um grito fúnebre e prolongado...
À porta da matriz, de altares acesos, o andador vibrava a campainha que anunciava a
saída do Santíssimo, descia, andava de lá para cá, badalando uma vez, muitas vezes.
Na sacristia, o vigário ou o coadjutor, de costas para os gavetões dos paramentos, com
os cotovelos apoiados à beirada dessa espécie de cômoda de entalhe, observava paciente
os acompanhadores do viático que chegavam, que escancaravam o armário fronteiro,
escolhendo opas, que guardavam chapéus e bengalas, tomando tochas.
Completo o pessoal, não sendo preciso que viessem soldados preencher número, o homem da
campa voltava, tendo-a pendente pelo martelo, chegava o fogo de um rolo de cera encardida
às velas das lanternas de vara, colocava o pálio em seu lugar, enquanto o padre,
auxiliado pelo sacristão, revestia-se.
À casa do enfermo, os vizinhos e amigos acudiam trajados de preto, consternados
visivelmente.
Às janelas, um molecote ou uma cabra velha, calculando distâncias, fincava pregos nas
portadas, botava lanternas ou globos, que reverberavam suas luzes na rua alastrada de
folhas odoríferas e verde-negras.
Na igreja, ordenando o préstito, o sineiro subia à torre, e curto repique palhetava os
ares de tinidos metálicos: - Nosso-Pai saía.
A tarde, que escurecera de todo, pedira à noite o véu mais carregado para envolver o
cadáver do dia. De pé, sobre pilastras ou irrompendo dos muros, os lampiões balançavam
levemente os braços de ferro, escorrendo ao longo das paredes e no além, luares
avermelhados.
E a campa soava...
Ao ouvi-la, as mães acordavam os filhinhos tomando-os ao ombro, por trás das rótulas e
às janelas os castiçais com velas apareciam súbitos, as mucamas prendiam aos batentes e
às sacadas colchas de seda da Índia; aos cantos das grades de pau ou de ferro as
serpentinas e as mangas de vidro cintilavam profusas.
Os passantes, descobrindo-se, ajoelhavam-se, batiam nos peitos. Um coro verdadeiramente
harmônico e religioso enchia o espaço e avizinhava-se volumoso.
Depois... o coro calava-se, e o toque da campainha feria isolado o silêncio iluminado.
Na casa onde esperavam o viático, uma calma aparente sucedia às lágrimas ardentes; a
família, rodeando o enfermo, o confortava; as crias, entristecidas, encolhiam-se,
circulando os umbrais das portas; as pretas idosas, magras de vigília e de pesadumes,
deitavam flores na banqueta, serviam em salvas de prata copos dágua, amparavam com
a mão trêmula o galhinho de arruda de detrás da orelha.
E por aqueles lábios da cor dos lírios roxos as rezas pelo moribundo subiam às alturas,
- lá onde Deus acolhe, como pássaros, a prece do escravo e o soluço do desgraçado.
E Nosso-Pai, que vinha à distância, chegava-se mais perto, o badalar da campa era mais
forte e as luminárias que se alongavam escondiam a cauda na treva, ao passo que se
avivavam adiantando-se.
O viático passava... Uma atmosfera sagrada fazia-se em torno do docel de brocados que
abrigava o senhor do universo.
Os acompanhadores, de opas encarnadas, marchavam lentos; das tochas acesas sacudiam
abundantes gotas de cera fundida, e abriam, cantando, a boca que recebia de chapa o
clarão das luzernas, ao mesmo tempo que lhes afulvava a barba e o semblante.
* * *
Então, o povo em tropa e a ranchada de moleques que fechavam o cortejo entoavam o Bendito
e louvado seja O Santíssimo Sacramento da Eucaristia, cujos sons propagavam lúgubres
os ecos da noite.
Até a primeira metade das salas, as pessoas da família ajoelhavam-se, e nas casas onde
havia doentes, alguém suspendia-os do travesseiro, e, quando possível, os sentava na
cama.
As crianças choramingavam despertas, a negraria ajoelhada nas cozinhas e portas de
cocheira, batia nos peitos e Nosso-Pai seguia morada tranqüila e santificada do pescador
contrito.
A procissão, precedida do tocador de campainha, atravessava a cidade, majestosa e
completa.
Depois deste personagem, o crucífero, vestido de opa, levava a cruz alçada guarnecida de
círios. Por entre alas de irmãos do Santíssimo, com tochas acesas, várias figuras
precediam o pálio: a primeira trazia uma toalha presa com alfinetes nas costas da opa; a
segunda, a umbela fechada; a terceira, o baldaquino, espécie de nicho em forma de livro,
com a âmbula ou cibório; depois, os oito portadores do pálio ladeado por lanternas de
vara, e na retaguarda pedestres com chibatas, e soldados destacados na ocasião dos corpos
de guarda.
O vigário, de sobrepeliz e estola branca, com a chave do sacrário pendente do galão de
ouro, ajustava o véu de ombros, que resguardava a âmbula e o relicário.
Aos lados, dois acólitos de sobrepeliz e batina, levavam, um a cadeirinha dágua
benta e o outro o vaso da extrema-unção.
Chegando a seu destino, a multidão curiosa e movente aguardava, postada ao acaso, o
santíssimo; as janelas estavam atopetadas de gente, as luzes brilhavam e a casa do doente
conhecia-se de pronto.
Imediatamente que o préstito parava, as lanternas, a cruz e o pessoal de aparato ficava
fora; o pálio encostavam-no à parede defronte; e os soldados guardavam a porta.
Apenas o padre entrava e pronunciava Pax huic domi, depositava o santíssimo sobre
a banqueta, aspergia os quatro cantos, e dirigia ao enfermo algumas palavras.
O grande mistério ia consumar-se; um só homem, erguendo a hóstia, dominava a multidão
ajoelhada, desde o leito do agonizante até os últimos degraus da casa. No meio do
recolhimento geral, os cantos dos salmos eram repetidos baixinho, e às vezes a voz quase
extinta do moribundo acompanhava o Confiteor, que absolvia aquele espírito
alentado de fé.
Quando a extrema-unção havia premunido a esse novo viajante dos pólos para a derradeira
viagem, o padre descia, o cortejo incorporava-se, voltando sempre por itinerário
diferente.
À exceção das luminárias e do Bendito cantado, quando o sacramento saía de dia
as pompas eram as mesmas.
As famílias mais ricas, se chovia, mandavam o seu carro para conduzir Nosso-Pai, não
dispensando a freguesia de colocar na boléia um negro sem chapéu e descalço, que batia
a campa.
* * *
Quanta poesia tem a religião nos momentos extremos da vida! Como é sublime o ritmo que
nos faz preludiar, como David, e cantar, como o cisne, nas agonias da morte!...
(MORAIS FILHO, Alexandre José de Melo. Festas e tradições populares do
Brasil. Belo Horizonte, Editora Itatiaia, 1979. Reconquista do Brasil, 55) |
|