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Ano III - novembro 2000 - nº 27

Sua revista com a cara e a alma brasileira


SUMÁRIO - EDIÇÃO 27
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA

"Eu vinha vindo com o frescor da manhã por aquele trecho da praia de Santa Luzia, tão suave e tão formoso, onde se amontoam as cousas lúgubres da cidade - a Santa Casa, o Necrotério, o serviço de enterramentos..." Os urubus, uma crônica de João do Rio.

O ritual do Nosso-pai, a comunhão levada ao moribundo, descrito por Melo Morais Filho.

Um funeral moçambique em 1830, por Melo Morais Filho.

PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE

 

OFICINA - Nesta seção, textos sobre profissões; ferramentas; técnicas; agricultura, pecuária; artesanato; vendedores ambulantes; pregões...

OS URUBUS

João do Rio


- Estou esperando!

- Não quero!

- Deixá-lo passar!

- Naufragou!

Eu vinha vindo com o frescor da manhã por aquele trecho da praia de Santa Luzia, tão suave e tão formoso, onde se amontoam as cousas lúgubres da cidade - a Santa Casa, o Necrotério, o serviço de enterramentos. Entre as árvores fronteiras ao hospital vendedores ambulantes vociferavam os pregões de canjica, de mingau, de pães doces; dos bondes pejados de gente saltavam criaturas doentes, paralíticas algumas, de óculos outras. Pelas escadas de pedra lavada formigava constantemente a turba doente, mostrando as mazelas, como um insulto e uma afronta aos que estavam sãos, entre os enfermeiros do hospital, de calça de zuarte azul e dólmã pardo, nédios e sadios. Eu vinha precisamente pensando como gozam saúde os enfermeiros, e aquelas frases maçônicas fizeram-me mal. Parei, consultei o relógio. Os quatro tipos não se ralavam mais com a minha presença. Dois olhavam com avidez os bondes que vinham da rua do Passeio; dois estavam totalmente voltados para o lado da Faculdade. Ao aparecer um bonde, um magrinho bradou:

- Largo!

Prestei atenção. Do tramway em movimento saltou um cavalheiro defronte do Necrotério.

- De cima! bradou outro tipo.

- Última! Regougou o terceiro.

E cercaram o cavalheiro.

- Vossa senhoria há de aceitar um cartãozinho da nossa casa. Não precisa de se incomodar. Tratamos de tudo! Faça negócio comigo!

A um tempo falavam todos, e o cavalheiro, coberto de luto, com o lenço empapado de suor e de lágrimas, murmurava, como se estivesse a receber pêsames:

- Muito obrigado! Muito obrigado!

Aproximei-me de um dos funcionários do serviço mortuário.

- Que espécie de gente é essa?

- Oh! não conhece? São os urubus!

- Urubus?

- Sim, os corvos... É o nome pelo qual são conhecidos aqui os agenciadores de coroas e fazendas para o luto. Não é muito numerosa a classe, mas que faro, que atividade!

Totalmente interessado, tive uma dessas exclamações de pasmo que lisonjeiam sempre os informantes e nada exprimem de definitivo. Ele sorriu, tossiu e falou. Foi prodigioso.

- Os agenciadores de coroas levantam-se de madrugada e compram todos os jornais para ver quais os homens importantes falecidos na véspera. Defunto pobre não precisa de luxo, e coroa é luxo. Logo que tomam as notas disparam para a casa do morto e propõem adiantar o que for necessário para o enterro, com a condição de se lhes comprarem as coroas. Algumas casas têm mesmo nos cartões os seguintes dizeres - encarregam-se de tratar de enterros sem cobrar comissão de espécie alguma. E os títulos dessas casas davam para um tratado de psicologia recreativa. Há os poéticos, os delicados, os floridos, os babosos, os fúnebres - Tributo da Saudade, Coroa de Violetas, Flor de Lis, Bogari, A Jardineira, Coroa de Rosas...

- Mas... e estes homens aqui?

- Estes homens, são os urubus de Santa Luzia, serviço especial e maçônico. Três ficam à entrada principal da Santa Casa. Quando avistam um tipo, brada o primeiro: estou esperando!

Se o tipo não tem casa de enterro: não quero! Deixá-lo passar. Se o homem vem de tílburi, correm até aqui a acompanhá-lo... Se o tílburi segue, bradam: naufragou! E voltam ao lugar donde não saíram os outros. É interessante ouvir-lhes o diálogo. Tu é que não correste! Conheço o homem; Antes fosse, era meu o negócio...

- Mas é horrível!

- É a vida, meu caro. Aqui estacionaram sete agentes; o assalto ao freguês vai pela vez, como aos sábados, nos barbeiros. Quatro oferecem grinaldas aos passageiros que saltam dos bondes; três aos que vêm a pé. Ao ver o bando ao longe há a frase: De cima! que é o sinal. Do lado de lá quando ele salta do lado oposto. Última! Quando salta no Necrotério. Se um dos urubus acerta, grita: Estou empregado! E feito o negócio o outro avança dizendo: Grinalda! Para obter como resposta: A tua é minha... Quando aparece por acaso algum freguês conhecido de um do agenciadores dá-se o combate. Os três que ficaram desempregados, desejando furar o agenciador amigo, quando não conseguem convencê-lo, arranjam meio de o cacetear até que o negócio não se realize. Nessa ocasião assistimos a cenas calorosas, a conflitos sérios, em que se faz sentir a intervenção da polícia. Mas à noite, graças aos deuses, acabado o trabalho, vão todos para a venda do Antônio, à rua da Misericórdia, beber cerveja.

- São estes então? fiz, voltando-me.

- Estes só, não. Há outros, os que fazem ponto no largo da Batalha e rendem estes à hora do almoço e que só têm o posto depois de ter todas as notas dos tipos que estão na secretária e tratar de enterros.

- Como os agentes de polícia?

- Tal qual. E terminam sempre com a nota policial: quarenta anos presumíveis...

Rimos ambos. O sol está brilhante e o céu, inteiramente azul, dá-nos desejos de viver e de compreender a vida pelos seus mais ridentes aspectos.

- Os urubus devem ter nome?

- Têm, são urubus urbanos. Vê o senhor aquele? É o Chico Basílio. Há cerca de trinta anos exerce a profissão. Esta vendo aquele grupo? Encontra lá o Brasilino, o Caranguejo, o Bilu, o Espanhol da Saúde, o Mangonga. Os outros são o Joaquim, o Tatuí, o Paulino, o Cá e Lá, o Buriti, o Manduca...

Neste momento um mocinho de lápis e linguado de papel na mão indagou, entrando:

- Alguma cousa de novo?

- Sim, pode entrar...

O mocinho desapareceu. O complacente informante sorria.

- Outro urubu.

- Outro?

- São os que parecem reporters. Vêm para a secretaria da Santa Casa munidos de tiras de almaço para copiar dos livros os nomes e residências das pessoas mortas, isto é, só copiam os daquelas cujo o enterro custar mais de 100$. Saem daqui para o lugar indicado e ficam às portas à espera que o corpo saia, um, dois, cinco às vezes. Quando o cadáver sai e a família ainda está aos soluços, embarafustam com as amostras de luto. Contaram-se que chegam à concorrência, a ver quem faz o luto em 24 horas mais em conta. Neste serviço conheço o Ferraz, o Saul, o Guedes, o Matos, o Araújo, o Campos, o Mesquita.

Eu ouvia o meu informante um pouco melancólico. Que diabo! Por que urubus, naquele pedaço da cidade que cheira a cadáveres e a morte?

Não há terra onde onde prospere como nesta a flora dos sem-ofício e dos parasitas que não trabalham. Esses sujeitinhos vestem bem, dormem bem, chegam a ter opiniões, sistema moral, idéias políticas. Ninguém lhes pergunta a fonte inexplicável do seu dinheiro. Aqueles pobres rapazes, lutando pela vida, naquela ambiente atroz da Morte, vestindo a libré das Pompas Fúnebres, impingindo com um sorriso à tristeza coroas e crepes, só para ganhar honestamente a vida, eram dignos de respeito. Por que urubus? Maçonaria da má sorte, pelotão dos tristes, seres sem o conforto de uma simpatia, no limite do nada, encarregados de fornecer os símbolos de uma dor que cada vez a humanidade sente menos.

Despedi-me, comecei a andar devagar. Um dos urubus aproximou-se.

- Estiveram contando coisas a nosso respeito?

- Não, absolutamente.

- Que se há de fazer? A comissão é tão pequena! Quando quiser uma coroa...

- Deus queira que não! Fiz assustado.

E apertei a mão do homem urubu com um tremor de superstição e de susto.


(RIO, João do. A alma das ruas. Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Cultura, 1987. Biblioteca Carioca, 4)

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