
"Eu vinha
vindo com o frescor da manhã por aquele trecho da praia de Santa Luzia, tão suave e tão
formoso, onde se amontoam as cousas lúgubres da cidade - a Santa Casa, o Necrotério, o
serviço de enterramentos..." Os urubus, uma crônica de João do Rio.
O ritual do Nosso-pai, a comunhão levada ao moribundo, descrito por Melo Morais Filho.
Um funeral moçambique em 1830, por Melo Morais
Filho.
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| OFICINA
- Nesta seção, textos sobre profissões; ferramentas; técnicas; agricultura, pecuária;
artesanato; vendedores ambulantes; pregões... |
- Estou esperando!
- Não quero!
- Deixá-lo passar!
- Naufragou!
Eu vinha vindo com o frescor da manhã por aquele trecho da praia de Santa Luzia, tão
suave e tão formoso, onde se amontoam as cousas lúgubres da cidade - a Santa Casa, o
Necrotério, o serviço de enterramentos. Entre as árvores fronteiras ao hospital
vendedores ambulantes vociferavam os pregões de canjica, de mingau, de pães doces; dos
bondes pejados de gente saltavam criaturas doentes, paralíticas algumas, de óculos
outras. Pelas escadas de pedra lavada formigava constantemente a turba doente, mostrando
as mazelas, como um insulto e uma afronta aos que estavam sãos, entre os enfermeiros do
hospital, de calça de zuarte azul e dólmã pardo, nédios e sadios. Eu vinha
precisamente pensando como gozam saúde os enfermeiros, e aquelas frases maçônicas
fizeram-me mal. Parei, consultei o relógio. Os quatro tipos não se ralavam mais com a
minha presença. Dois olhavam com avidez os bondes que vinham da rua do Passeio; dois
estavam totalmente voltados para o lado da Faculdade. Ao aparecer um bonde, um magrinho
bradou:
- Largo!
Prestei atenção. Do tramway em movimento saltou um cavalheiro defronte do
Necrotério.
- De cima! bradou outro tipo.
- Última! Regougou o terceiro.
E cercaram o cavalheiro.
- Vossa senhoria há de aceitar um cartãozinho da nossa casa. Não precisa de se
incomodar. Tratamos de tudo! Faça negócio comigo!
A um tempo falavam todos, e o cavalheiro, coberto de luto, com o lenço empapado de suor e
de lágrimas, murmurava, como se estivesse a receber pêsames:
- Muito obrigado! Muito obrigado!
Aproximei-me de um dos funcionários do serviço mortuário.
- Que espécie de gente é essa?
- Oh! não conhece? São os urubus!
- Urubus?
- Sim, os corvos... É o nome pelo qual são conhecidos aqui os agenciadores de coroas e
fazendas para o luto. Não é muito numerosa a classe, mas que faro, que atividade!
Totalmente interessado, tive uma dessas exclamações de pasmo que lisonjeiam sempre os
informantes e nada exprimem de definitivo. Ele sorriu, tossiu e falou. Foi prodigioso.
- Os agenciadores de coroas levantam-se de madrugada e compram todos os jornais para ver
quais os homens importantes falecidos na véspera. Defunto pobre não precisa de luxo, e
coroa é luxo. Logo que tomam as notas disparam para a casa do morto e propõem adiantar o
que for necessário para o enterro, com a condição de se lhes comprarem as coroas.
Algumas casas têm mesmo nos cartões os seguintes dizeres - encarregam-se de tratar de
enterros sem cobrar comissão de espécie alguma. E os títulos dessas casas davam para um
tratado de psicologia recreativa. Há os poéticos, os delicados, os floridos, os babosos,
os fúnebres - Tributo da Saudade, Coroa de Violetas, Flor de Lis, Bogari,
A Jardineira, Coroa de Rosas...
- Mas... e estes homens aqui?
- Estes homens, são os urubus de Santa Luzia, serviço especial e maçônico. Três ficam
à entrada principal da Santa Casa. Quando avistam um tipo, brada o primeiro: estou
esperando!
Se o tipo não tem casa de enterro: não quero! Deixá-lo passar. Se o homem vem de
tílburi, correm até aqui a acompanhá-lo... Se o tílburi segue, bradam: naufragou! E
voltam ao lugar donde não saíram os outros. É interessante ouvir-lhes o diálogo. Tu é
que não correste! Conheço o homem; Antes fosse, era meu o negócio...
- Mas é horrível!
- É a vida, meu caro. Aqui estacionaram sete agentes; o assalto ao freguês vai pela vez,
como aos sábados, nos barbeiros. Quatro oferecem grinaldas aos passageiros que saltam dos
bondes; três aos que vêm a pé. Ao ver o bando ao longe há a frase: De cima! que é o
sinal. Do lado de lá quando ele salta do lado oposto. Última! Quando salta no
Necrotério. Se um dos urubus acerta, grita: Estou empregado! E feito o negócio o outro
avança dizendo: Grinalda! Para obter como resposta: A tua é minha... Quando aparece por
acaso algum freguês conhecido de um do agenciadores dá-se o combate. Os três que
ficaram desempregados, desejando furar o agenciador amigo, quando não
conseguem convencê-lo, arranjam meio de o cacetear até que o negócio não se realize.
Nessa ocasião assistimos a cenas calorosas, a conflitos sérios, em que se faz sentir a
intervenção da polícia. Mas à noite, graças aos deuses, acabado o trabalho, vão
todos para a venda do Antônio, à rua da Misericórdia, beber cerveja.
- São estes então? fiz, voltando-me.
- Estes só, não. Há outros, os que fazem ponto no largo da Batalha e rendem estes à
hora do almoço e que só têm o posto depois de ter todas as notas dos tipos que estão
na secretária e tratar de enterros.
- Como os agentes de polícia?
- Tal qual. E terminam sempre com a nota policial: quarenta anos presumíveis...
Rimos ambos. O sol está brilhante e o céu, inteiramente azul, dá-nos desejos de viver e
de compreender a vida pelos seus mais ridentes aspectos.
- Os urubus devem ter nome?
- Têm, são urubus urbanos. Vê o senhor aquele? É o Chico Basílio. Há cerca de trinta
anos exerce a profissão. Esta vendo aquele grupo? Encontra lá o Brasilino, o Caranguejo,
o Bilu, o Espanhol da Saúde, o Mangonga. Os outros são o Joaquim, o Tatuí, o Paulino, o
Cá e Lá, o Buriti, o Manduca...
Neste momento um mocinho de lápis e linguado de papel na mão indagou, entrando:
- Alguma cousa de novo?
- Sim, pode entrar...
O mocinho desapareceu. O complacente informante sorria.
- Outro urubu.
- Outro?
- São os que parecem reporters. Vêm para a secretaria da Santa Casa munidos de
tiras de almaço para copiar dos livros os nomes e residências das pessoas mortas, isto
é, só copiam os daquelas cujo o enterro custar mais de 100$. Saem daqui para o lugar
indicado e ficam às portas à espera que o corpo saia, um, dois, cinco às vezes. Quando
o cadáver sai e a família ainda está aos soluços, embarafustam com as amostras de
luto. Contaram-se que chegam à concorrência, a ver quem faz o luto em 24 horas mais em
conta. Neste serviço conheço o Ferraz, o Saul, o Guedes, o Matos, o Araújo, o Campos, o
Mesquita.
Eu ouvia o meu informante um pouco melancólico. Que diabo! Por que urubus, naquele
pedaço da cidade que cheira a cadáveres e a morte?
Não há terra onde onde prospere como nesta a flora dos sem-ofício e dos parasitas que
não trabalham. Esses sujeitinhos vestem bem, dormem bem, chegam a ter opiniões, sistema
moral, idéias políticas. Ninguém lhes pergunta a fonte inexplicável do seu dinheiro.
Aqueles pobres rapazes, lutando pela vida, naquela ambiente atroz da Morte, vestindo a
libré das Pompas Fúnebres, impingindo com um sorriso à tristeza coroas e crepes, só
para ganhar honestamente a vida, eram dignos de respeito. Por que urubus? Maçonaria da
má sorte, pelotão dos tristes, seres sem o conforto de uma simpatia, no limite do nada,
encarregados de fornecer os símbolos de uma dor que cada vez a humanidade sente menos.
Despedi-me, comecei a andar devagar. Um dos urubus aproximou-se.
- Estiveram contando coisas a nosso respeito?
- Não, absolutamente.
- Que se há de fazer? A comissão é tão pequena! Quando quiser uma coroa...
- Deus queira que não! Fiz assustado.
E apertei a mão do homem urubu com um tremor de superstição e de susto.
(RIO, João do. A alma
das ruas. Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Cultura, 1987. Biblioteca
Carioca, 4) |
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