
"Na choupana da finada Xica os que
estavam de sentinela ao cadáver, assombrados com a tormenta, deitando-se de bruços com a
boca colada no chão..." O enterro, um
conto de Manuel Ambrósio.
Um
homem que tinha tantos filhos que não achava mais quem os batizasse, então decidiu ser o compadre da morte.
Conheça
o lobisomem, ente infeliz, que em certas noites cumpre seu
horrível fadário até livrar-se do encantamento.
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| IMAGINÁRIO
- Nesta seção, textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas;
narrativas populares; seres fantásticos... |
O lobisomem, que no
maravilhoso da imaginação popular é o homem extremamente pálido, magro e de feia
catadura, é produto, ou de um incesto, ou nasceu depois de uma série de sete filhos.
Ente infeliz, condenado pela sua desventura a divagações noturnas, até quebrar-se o seu
encantamento, cumpre o seu fadário em certos dias, saindo de noite, e ao encontrar um
lugar onde um cavalo ou um jumento se espojou, espoja-se também, toma a sua forma, e
começa a divagar em vertiginosa carreira.
Nesse seu tristíssimo fadário, que começa à meia-noite e se prolonga até quase ao
amanhecer do dia, ao ouvir o cantar do galo, percorre o lobisomem sete cidades e chegando,
de volta já ao lugar do seu encantamento, espoja-se de novo, retorna a sua forma humana e
recolhe-se à casa, abatido e extenuado de forças, entregando-se a um sono reparador, que
por isso é prolongadíssimo.
A passagem do lobisomem é pressentida desde longe pelo ladrar de cães, que em matilha o
acompanham em perseguição, dando tempo, quase sempre, a cada um fechar a sua porta pelo
horror que ele infunde aos tímidos. Mas, se houver alguém de coragem, que se enfrente
com o lobisomem, e lhe faça um ferimento qualquer que produza derramamento de sangue, por
pouco mesmo que seja, tira-lhe o encantamento e tomando ele imediatamente a sua forma
humana, acaba por uma vez o seu triste fadário.
O lobisomem aparece freqüentemente nos nossos contos populares como um monstro horrível,
que infunde terror às crianças, conseguindo-se com as suas narrativas aquietá-las em
suas travessuras. D um desses contos que vogam entre nós e tem por título - O
lobisomem e a menina - consigna Sílvio Romero estas estrofes, por não se lembrar
mais do seu todo, e nem lhe ser possível mesmo conseguir da tradição popular uma
lição completa:
- Menina, você onde vai?
"Eu vou à fonte.
- Que vai fazer?
"Vou levar de comer
À minha mamãezinha.
- O que leva nas costas?
"É meu irmãozinho.
- O que levas na boca?
"É cachimbo de cachimbar.
. . . . . . . . . . . .
"Ai! meu Deus do céu
O bicho me quer comer!
O galo não quer cantar
O dia não quer amanhecer
Ai, meu Deus do céu!
Quase que deste mesmo gênero, figura ainda no ânimo popular um outro mito, igualmente
sob a forma de um monstro quadrúpede - a mula, geralmente, metamorfose da barregã do
padre, e que, como o lobisomem, cumpre também o seu fadário em certas noites,
sentindo-se mesmo a sua passagem pelo tropel vertiginoso da carreira com que caminha, e o
lúgubre tilintar das cadeias que arrasta, apavorando imensamente a quantos pressentem
tudo isso.
Do fatigante percurso dessas suas periódicas peregrinações, deixa ver a mula, no outro
dia, já tornada ao seu natural estado, veementes sinais no seu corpo, produzido pelas
cadeias que arrastara, e a languidez do cansaço pela sua vertiginosa carreira a vencer e
regressar de longínquas paragens nesse seu tristíssimo fadário, que é como que se
penitenciando do seu pecaminoso viver; e o padre, para purificar-se dos seus pecados,
amaldiçoa a barregã no ato da celebração da missa, antes de tocar na hóstia para a
consagrar!
Tratando o padre Lopes Gama das superstições e crendices populares do seu tempo, diz o
seguinte, sobre o assunto:
"Entre nós, hoje mesmo, (1842) qual é a velha, qual é o pai senhor, que não crê
na existência de lobisomem? E como a respeito do maravilhoso quase toda a gente gosta de
mentir, não falta quem jure ter visto os tais lobisomens. Um afirma que fulano de tal
virava-se em burro, e assim corria seu fado; outro, que conhecera certa amásia de um
vigário, a qual tinha a boca sempre esverdeada, porque mudava-se em mula e andava
pastando; outro diz que conhecera um homem que era lobisomem, e transfigurava-se em porco.
Certa mulher contou-me com toda a seriedade, que já vira uma sujeita, que em certos dias
não se arredava da cama, sem ter moléstia alguma e toda coberta, porque estava virada em
burra, e não queria que lhe vissem os cascos, as orelhas, etc. Dizem além disto, que
toda a pessoa que se muda em lobisomem, vive amarela e espantada."
E o populacho ingênuo repete tudo isso com inabalável convicção.
(COSTA, Pereira da. Folclore
pernambucano; subsídios para a história da poesia popular em Pernambuco. Recife,
Arquivo Público Estadual, 1974) |
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