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Ano III - novembro 2000 - nº 27

Sua revista com a cara e a alma brasileira


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SUMÁRIO - EDIÇÃO 27
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO

"Na choupana da finada Xica os que estavam de sentinela ao cadáver, assombrados com a tormenta, deitando-se de bruços com a boca colada no chão..." O enterro, um conto de Manuel Ambrósio.

Um homem que tinha tantos filhos que não achava mais quem os batizasse, então decidiu ser o compadre da morte.

Conheça o lobisomem, ente infeliz, que em certas noites cumpre seu horrível fadário até livrar-se do encantamento.

OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE

 

IMAGINÁRIO - Nesta seção, textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas; narrativas populares; seres fantásticos...

O ENTERRO

Manuel Ambrósio


Morreu a Xica da Cruz!

Noite de inverno, escuríssima.

Chuva grossa, abundante, empanturrava as grotas das chapadas, despejando dos altos barrentas enxurradas para as águas do ribeirão.

A ventania tormentosa gritava na floresta, estorcendo, estalando, esfarinhando os velhos robles.

Relâmpagos alagavam o céu com fulva luz, sucedendo-se fortes, tremendos, rápidos com a trovoada a fragorar, roncando nos Geraes.

Na choupana da finada Xica os que estavam de sentinela ao cadáver, assombrados com a tormenta, deitando-se de bruços com a boca colada no chão, batiam nos peitos pedindo - Senhor Deus - e em voz baixa, amedrontados, rezavam o ofício de Nossa Senhora.

Quando mais tarde amainou-se a fúria da tormenta, aquela rude gente não sabia a que atinar-se, e necessário era vestir a defunta; mas a defunta não tinha roupa; era muito pobre.

Que fazer?

- Aqui, quem sabe de tudo, é a veia Demetra qu’é a sujona do logá.

- Pois bamo na casa dela.

- Bamos!

E dois caipiras foram batendo lama a procura da Demetria, a doutora curandeira de feitiços e mandraculas dos arredores.

Sono de pedra, custou muito acordar e abrir a porta; enfim, abriu sempre, recebendo a embaixada e as dificuldades da morte, não deixando de resmungar:

- Um! Que noite escura cuma breu! Noit’ assim é máo agouro prá quem morre.

- Vocês são de corage! Não seio cumo a tafula da Xica não veio encontrar com vocês no camim. Ela era muito inzoneira, (Deus te perdoe)! Agora, cês senta aí, deixe acabá de me vesti.

E a Demetria retirou-se um instante, reaparecendo logo a consertar e a amarrar na nuca uns simulacros de óculos que, despencados, de asas caídas, escangalhavam, escarrapachavam-se na ponta de um nariz de borraina.

- Já vestiro a defunta?

- Nhar não!

- Oxé! Pru via de que? Que stão fazeno?

- Ninguém sabe cum’é ... não hai roupas, não hai nada sem vancê.

- Ora, ora, ora... s’isto não seráes... cruis! Roupa não precisa; não hai um vestido preto?

- Nada! nam tem nada, nada mêmo! nem tempo se tem de se metê argum qu’aparecê na tinta, e stá choveno... Agora as muié arranjaro lá um vestido, mas porém, é de chita e de chita fais má.

- Eh! e fais má mêmo; e pr’ela não pená nas penas do purgatório; agora mêmo bamos metê o vestido no aní c’urina que é bão prá não largá a tinta.

- Ora, o mió é qu’ ance mêmo fosse arrumá, pois ninguém sabe aperpará.

- Isso não tem que sabê e n’este causo bamos pra lá.

E a Demetria trancou a porta e partiu para a casa da defunta, onde começou a dar ordens.

- Cadê-lo o vestido?

- St’a aqui; respondeu uma das mulheres.

- Venha c’a gamela, c’o ani socado, c’um mocado d’urina; dá cá pra cá.

Instantes mais, e a Demetria ensopava um velho e esfarrapado vestido de chita na esquisita mistura da gamela, e, remoendo grossa lasca de fumo, cospinhando toda a sala, indagou:

- Já rezaro vocês o ufriço pra defunta?

- Nhar não que não sabemo. Vancê, que é a tiradeira, só vancê é quem sabe.

- Vão rezano, em conto’eu vou meteno a roupa na tinta.

E uma vozeria rompeu o ofício de Nossa Senhora, cantando também a Demetria.

Enquanto isto, acendeu-se na sala um bom fogo para enxugar a mortalha.

- Cadê-lo o sapato? Bradou a Demetria, interrompendo bruscamante a reza. - E sapato,- continuou ela, - só seno de oreia de couro de muié. Outro não sirve. Quem tem?

- Eh! também isso não hai. Nóis temo aqui é um sapatão.

- Apois, defunta que não leva sapato e nem xale não entra no céu. Cadê-lo o xale?

- Aqui tem um.

- Venha prá tinta. Cadê-lo o cordão de S. Francisco? O Ped’o Boteio anda muit’ acesso e lutrido.

- Nam tem.

- Antão dá cá um novelo virge de fio.

E o novelo foi apresentado.

Cavaram em seguida um sapato na vizinhança; mas, não sendo possível encontrá-lo, o remédio único foi servir-se do sapatão.

Vestiu-se a defunta às pressas; ia-se esquecendo a carapuça que foi imediatamente arranjada do mesmo modo que o vestido e enfiada à cabeça do cadáver.

O enterro deveria ser ao raiar do sol e o cemitério distava mais de meia légua dali.

Cinco horas da manhã.

Luz suave ia aclarando aquele fúnebre aparato, horrível de ver-se.

A carapuça, então, uma obra prima que levou uma das mulheres a exclamar a uma outra:

- Que diabo é isso daquilo?... Ei! e fez beiço.

- Moça, que nome é esse do xujo que stá daí a falá? Mãi Demetra se uvi pode raiá. Ela que fêis é pruque sabe.

- Seio mêmo! - ralhou a matreira velha que tudo ouvira. - Quem não leva carapuça não soda a Nó sinhô, condo entra no céu. Quem não soda é macreado, e macreado não entra lá. Bamos, minha gente; bamos proveitá a chuva que parou e o tempo que stá bão. Oia, que quem morre da malestra ruim (ave-maria - ave-maria), cum’ela morreu, se não se enterrá antes do sol saí, não entra no céu, nem a pau.

E a Demetria religiosamente obedecia viu o cadáver metido em uma rede, enfiada a um comprido caibro de pereiro.

Hora de partir.

- Tira o bendito da viage! - gritou ela.

- Só vancê tirano premêro a ladainha.

- Tu né qué a sabona dindagora? Apois tire lá.

- Nhar sim! (Que qui qué, canguêra veia)?

- E depressa!

- Nhar sim! (Hum! hum! Cruis! Diabo da baguassu!)

Seguiu-se a ladainha cantada!

- Deus no dijitoro meu intento.

Coro - Kiristé ai de nois! Kiristé ai de nois!
Patra de coeli Deó,
Fio Redemptô, mãi de Deus,
Espírito Santo é Deus,
Santa Triníta ãi-nos Deus,
Santa Maria,
Santa Degena,
Santa Virga Virgenôos,
Matere Christié,
Matem Diviné Gracis,
Matem Puríssima,
Matem Castíssima,
Matem Violata,
Matem Nontemberada,
Matem é Amabilé,
Matem Indimirave,
Matem Creatoro,
Matem Sarvatoro,
Virgo Prudentíssima,
Virga ó Venerandia,
Verga o Pé de cana,
Vergó Pote,
Vergó Creme,
Vergó Fidelio,
Espeque na justiça,
Sede Sapiência,
Causa na Estrela triste,
Vais Espirituale,
Vais in é norabe,
Vois ensina Devociona,
Roza é a mística,
Torre é de Davidia,
Torre na Buna,
Domi é nos are,
Fredelis arca,
Jonna na sela,
Estrela matutina,
Salo Zenfermoro,
Refugio Pescatoro,
Consolaste os aflitoro,
Oxilio Christionoro,
Rege no Angeloro,
Rege no Patriorchoro,
Rege no Prophetoro,
Rege no Postoloro,
Rege na Martirois,
Rege na Confessoro,
Rege na Virge,
Rege na Santaruãona,
Rege na Sacratíssima meu rosaro,
Rege na Maculada Conceiciona,
Senhô Sant’Antonio,
Ag’é nos Deus qui tanos pecado é mundo.

Coro - Pais é nois é Dominé.

- Agu’é nos Deus que tanos pecado é mundo.

- Ai de nois é Dominé.

- Agu’é nos Deus qui tanos pecado é mundo.

- Misasere é nobre.

- Óia, por esta vêis passa, mas, da outra, não caia n’outra. Pra defunto nem se pede Senhô Deus, nem Água é nos Deus, pruque tem-se visto o defunto s’alevantá pra batê nos peitos; ralhou a Demetria e acrescentou com voz de comando:

- Bamos-nos embora minha gente. Já passano da hora. Cantemos agora o da viage da despedida, mas, sunga a rede premeiro.

Dois vigorosos pulsos agarravam o pau da rede e puseram-se a caminho todos os camponios e mulheres da vizinhança, cantando o bendito da viage da despedida:

A premeira cantada do galo,
Onde o galo se cantou,
S’encontrou São Bertolameo,
S’encontrou e se carçou.

Coro
Vai, pexão!
Vai un’stá Nó Sinhô!
Pexão!

Onde vai, Pedro, onde vai?
Eu vou convosco, Sinhô!
Chegou lá mais adiante
Com S. Pedro s’encontrou.

Vai, pexão! etc.

Eu bem disse a Pai Mané,
Que não fosse turiá,
Agora, pru sê temoso,
Pai Mané vai s’enterrá.

Aqui o coro foi interrompido pela viagem. A defunta pesava extraordinariamente.

- Dê uma surra nela, ordenou a Demetria. Corta umas varas bem verde. É ela c’os pecados dela.

Um feixe de varas foi cortado, e sem perda de tempo dada a surra.

- Caminha pro sagrado, Xica da Cruis!

- Caminha pro sagrado, Xica da Cruis! Caminha! Caminha!

Após dez minutos dessa surra o coro entoou:

Vai, pexão!
Vai un stá Nó Senhô,
Pexão!

Nossa Senhora pedio
E deixou p’o espriença,
Qu’ó dispois do corpo morto,
Não vale mais penitença.

Vai pexão, etc.

E assim chegaram ao cemitério, onde ajoelhados, assistiram abrir a cova e nela sumir-se o cadáver da Xica da Cruz.


(AMBRÓSIO, Manuel. Lendas e fatos da minha terra)

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