
"Na choupana da finada Xica os que
estavam de sentinela ao cadáver, assombrados com a tormenta, deitando-se de bruços com a
boca colada no chão..." O enterro, um
conto de Manuel Ambrósio.
Um
homem que tinha tantos filhos que não achava mais quem os batizasse, então decidiu ser o compadre da morte.
Conheça
o lobisomem, ente infeliz, que em certas noites cumpre seu
horrível fadário até livrar-se do encantamento.
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| IMAGINÁRIO
- Nesta seção, textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas;
narrativas populares; seres fantásticos... |
Morreu a Xica da Cruz!
Noite de inverno, escuríssima.
Chuva grossa, abundante, empanturrava as grotas das chapadas, despejando dos altos
barrentas enxurradas para as águas do ribeirão.
A ventania tormentosa gritava na floresta, estorcendo, estalando, esfarinhando os velhos
robles.
Relâmpagos alagavam o céu com fulva luz, sucedendo-se fortes, tremendos, rápidos com a
trovoada a fragorar, roncando nos Geraes.
Na choupana da finada Xica os que estavam de sentinela ao cadáver, assombrados com a
tormenta, deitando-se de bruços com a boca colada no chão, batiam nos peitos pedindo -
Senhor Deus - e em voz baixa, amedrontados, rezavam o ofício de Nossa Senhora.
Quando mais tarde amainou-se a fúria da tormenta, aquela rude gente não sabia a que
atinar-se, e necessário era vestir a defunta; mas a defunta não tinha roupa; era muito
pobre.
Que fazer?
- Aqui, quem sabe de tudo, é a veia Demetra qué a sujona do logá.
- Pois bamo na casa dela.
- Bamos!
E dois caipiras foram batendo lama a procura da Demetria, a doutora curandeira de
feitiços e mandraculas dos arredores.
Sono de pedra, custou muito acordar e abrir a porta; enfim, abriu sempre, recebendo a
embaixada e as dificuldades da morte, não deixando de resmungar:
- Um! Que noite escura cuma breu! Noit assim é máo agouro prá quem morre.
- Vocês são de corage! Não seio cumo a tafula da Xica não veio encontrar com vocês no
camim. Ela era muito inzoneira, (Deus te perdoe)! Agora, cês senta aí, deixe acabá de
me vesti.
E a Demetria retirou-se um instante, reaparecendo logo a consertar e a amarrar na nuca uns
simulacros de óculos que, despencados, de asas caídas, escangalhavam, escarrapachavam-se
na ponta de um nariz de borraina.
- Já vestiro a defunta?
- Nhar não!
- Oxé! Pru via de que? Que stão fazeno?
- Ninguém sabe cumé ... não hai roupas, não hai nada sem vancê.
- Ora, ora, ora... sisto não seráes... cruis! Roupa não precisa; não hai um
vestido preto?
- Nada! nam tem nada, nada mêmo! nem tempo se tem de se metê argum quaparecê na
tinta, e stá choveno... Agora as muié arranjaro lá um vestido, mas porém, é de chita
e de chita fais má.
- Eh! e fais má mêmo; e prela não pená nas penas do purgatório; agora mêmo
bamos metê o vestido no aní curina que é bão prá não largá a tinta.
- Ora, o mió é qu ance mêmo fosse arrumá, pois ninguém sabe aperpará.
- Isso não tem que sabê e neste causo bamos pra lá.
E a Demetria trancou a porta e partiu para a casa da defunta, onde começou a dar ordens.
- Cadê-lo o vestido?
- Sta aqui; respondeu uma das mulheres.
- Venha ca gamela, co ani socado, cum mocado durina; dá cá pra
cá.
Instantes mais, e a Demetria ensopava um velho e esfarrapado vestido de chita na esquisita
mistura da gamela, e, remoendo grossa lasca de fumo, cospinhando toda a sala, indagou:
- Já rezaro vocês o ufriço pra defunta?
- Nhar não que não sabemo. Vancê, que é a tiradeira, só vancê é quem sabe.
- Vão rezano, em contoeu vou meteno a roupa na tinta.
E uma vozeria rompeu o ofício de Nossa Senhora, cantando também a Demetria.
Enquanto isto, acendeu-se na sala um bom fogo para enxugar a mortalha.
- Cadê-lo o sapato? Bradou a Demetria, interrompendo bruscamante a reza. - E sapato,-
continuou ela, - só seno de oreia de couro de muié. Outro não sirve. Quem tem?
- Eh! também isso não hai. Nóis temo aqui é um sapatão.
- Apois, defunta que não leva sapato e nem xale não entra no céu. Cadê-lo o xale?
- Aqui tem um.
- Venha prá tinta. Cadê-lo o cordão de S. Francisco? O Pedo Boteio anda
muit acesso e lutrido.
- Nam tem.
- Antão dá cá um novelo virge de fio.
E o novelo foi apresentado.
Cavaram em seguida um sapato na vizinhança; mas, não sendo possível encontrá-lo, o
remédio único foi servir-se do sapatão.
Vestiu-se a defunta às pressas; ia-se esquecendo a carapuça que foi imediatamente
arranjada do mesmo modo que o vestido e enfiada à cabeça do cadáver.
O enterro deveria ser ao raiar do sol e o cemitério distava mais de meia légua dali.
Cinco horas da manhã.
Luz suave ia aclarando aquele fúnebre aparato, horrível de ver-se.
A carapuça, então, uma obra prima que levou uma das mulheres a exclamar a uma outra:
- Que diabo é isso daquilo?... Ei! e fez beiço.
- Moça, que nome é esse do xujo que stá daí a falá? Mãi Demetra se uvi pode raiá.
Ela que fêis é pruque sabe.
- Seio mêmo! - ralhou a matreira velha que tudo ouvira. - Quem não leva carapuça não
soda a Nó sinhô, condo entra no céu. Quem não soda é macreado, e macreado não entra
lá. Bamos, minha gente; bamos proveitá a chuva que parou e o tempo que stá bão. Oia,
que quem morre da malestra ruim (ave-maria - ave-maria), cumela morreu, se não se
enterrá antes do sol saí, não entra no céu, nem a pau.
E a Demetria religiosamente obedecia viu o cadáver metido em uma rede, enfiada a um
comprido caibro de pereiro.
Hora de partir.
- Tira o bendito da viage! - gritou ela.
- Só vancê tirano premêro a ladainha.
- Tu né qué a sabona dindagora? Apois tire lá.
- Nhar sim! (Que qui qué, canguêra veia)?
- E depressa!
- Nhar sim! (Hum! hum! Cruis! Diabo da baguassu!)
Seguiu-se a ladainha cantada!
- Deus no dijitoro meu intento.
Coro - Kiristé ai de nois! Kiristé ai de nois!
Patra de coeli Deó,
Fio Redemptô, mãi de Deus,
Espírito Santo é Deus,
Santa Triníta ãi-nos Deus,
Santa Maria,
Santa Degena,
Santa Virga Virgenôos,
Matere Christié,
Matem Diviné Gracis,
Matem Puríssima,
Matem Castíssima,
Matem Violata,
Matem Nontemberada,
Matem é Amabilé,
Matem Indimirave,
Matem Creatoro,
Matem Sarvatoro,
Virgo Prudentíssima,
Virga ó Venerandia,
Verga o Pé de cana,
Vergó Pote,
Vergó Creme,
Vergó Fidelio,
Espeque na justiça,
Sede Sapiência,
Causa na Estrela triste,
Vais Espirituale,
Vais in é norabe,
Vois ensina Devociona,
Roza é a mística,
Torre é de Davidia,
Torre na Buna,
Domi é nos are,
Fredelis arca,
Jonna na sela,
Estrela matutina,
Salo Zenfermoro,
Refugio Pescatoro,
Consolaste os aflitoro,
Oxilio Christionoro,
Rege no Angeloro,
Rege no Patriorchoro,
Rege no Prophetoro,
Rege no Postoloro,
Rege na Martirois,
Rege na Confessoro,
Rege na Virge,
Rege na Santaruãona,
Rege na Sacratíssima meu rosaro,
Rege na Maculada Conceiciona,
Senhô SantAntonio,
Agé nos Deus qui tanos pecado é mundo.
Coro - Pais é nois é Dominé.
- Agué nos Deus que tanos pecado é mundo.
- Ai de nois é Dominé.
- Agué nos Deus qui tanos pecado é mundo.
- Misasere é nobre.
- Óia, por esta vêis passa, mas, da outra, não caia noutra. Pra defunto nem se
pede Senhô Deus, nem Água é nos Deus, pruque tem-se visto o defunto salevantá
pra batê nos peitos; ralhou a Demetria e acrescentou com voz de comando:
- Bamos-nos embora minha gente. Já passano da hora. Cantemos agora o da viage da
despedida, mas, sunga a rede premeiro.
Dois vigorosos pulsos agarravam o pau da rede e puseram-se a caminho todos os camponios e
mulheres da vizinhança, cantando o bendito da viage da despedida:
A premeira cantada do galo,
Onde o galo se cantou,
Sencontrou São Bertolameo,
Sencontrou e se carçou.
Coro
Vai, pexão!
Vai unstá Nó Sinhô!
Pexão!
Onde vai, Pedro, onde vai?
Eu vou convosco, Sinhô!
Chegou lá mais adiante
Com S. Pedro sencontrou.
Vai, pexão! etc.
Eu bem disse a Pai Mané,
Que não fosse turiá,
Agora, pru sê temoso,
Pai Mané vai senterrá.
Aqui o coro foi interrompido pela viagem. A defunta pesava extraordinariamente.
- Dê uma surra nela, ordenou a Demetria. Corta umas varas bem verde. É ela cos
pecados dela.
Um feixe de varas foi cortado, e sem perda de tempo dada a surra.
- Caminha pro sagrado, Xica da Cruis!
- Caminha pro sagrado, Xica da Cruis! Caminha! Caminha!
Após dez minutos dessa surra o coro entoou:
Vai, pexão!
Vai un stá Nó Senhô,
Pexão!
Nossa Senhora pedio
E deixou po espriença,
Quó dispois do corpo morto,
Não vale mais penitença.
Vai pexão, etc.
E assim chegaram ao cemitério, onde ajoelhados, assistiram abrir a cova e nela sumir-se o
cadáver da Xica da Cruz.
(AMBRÓSIO, Manuel. Lendas
e fatos da minha terra) |
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