No Rio, e em muitas cidades do Brasil, o dia dos mortos é objeto de uma cerimônia
verdadeiramente imponente, durante a qual é impossível não se experimentar alguma
comoção. É sobretudo a grande de São Francisco de Paula que mais se distingue nesta
solenidade.Esta igreja, que também se chama Caritas,
é célebre entre as do Brasil, não só pelos milagres atribuídos à imagem do seu
patrono, que se supõe restituir a vida aos moribundos mas é também afamada pela
espécie de proteção que São Francisco concede aos ossos dos mortos que não pode
salvar. Se quiserdes entrar na capela tereis de passar por uma longa galeria, cujas
muralhas estão cobertas de tabuletas votivas e de quadros representando pessoas enfermas
em seus leitos, ou indivíduos sofrendo diversos acidentes. A todos São Francisco
aparece, descendo do céu sobre uma nuvem. Consta que ele livra sempre do perigo aqueles a
quem desta maneira se mostra; e, em baixo de cada tabuletas vê-se escrito: "Milagre
que fez São Francisco de Paula". Uma destas tabuletas votivas representa um
cálculo extraído por operação da pedra. Nada é mais variado aliás, que estes
ex-votos. Pernas, braços, cabeças. Seios e outras partes do corpo humano, executamos em
cera com espantosa veracidade, estão pendurados nas paredes e entre estas
representações anatômicas, há verdadeiramente algumas de excelente imitação. Um
grande retrato do santo, pintados com as feições de um velho com uma comprida barba,
aparece por entre estas tabuletas votivas. Sua única veste é uma capa, através da qual
se vê seu peito nu e nele gravada esta palavra: caritas. Longos corredores ligados ao
edifício justificam esta inscrição; de cada lado, percebem-se numerosos quartos para os
enfermos, que se fazem levar a este local, para serem curados por intercessão do santo.
Se, depois de haver examinado os ex-votos quereis entrar
na capela para visitar os túmulos encontra-se um imenso números de habitantes
pertencentes a todas as classes da sociedade que assistem à celebração da missa. Da
capela passa-se a um grande jardim rodeado por um claustro; é neste lugar que se avista
grande número de catacumbas com seus caixões de forma diversas e tamanhos diferentes.
Estão dispostos junto às paredes e no mesmo jardim; alguns são notáveis por sua
pequenez, enquanto muitos há que se poderiam comparar a uma grande cenotáfio. Todos tem
chave e fechadura, e sobre as tampas se podem ler diversas inscrições algo semelhantes
aos nossos epitáfios. As fórmulas não variam quase, e para elas há termos consagrados,
que mais particularmente lembram que são ossadas de pessoas defuntas que assim se
conservam: efetivamente, estas espécies de ataúdes só contêm ossos.
O uso, no Rio de janeiro e em São Salvador, é enterrar
os corpos em cal, e quando a carne se acha completamente consumida por este meio,
limpam-nos com cuidado, e recolhem-nos num caixão, cuja chave se entrega à família.
Estes caixões não tem quase semelhança com os nossos ataúdes da Europa; como já
dissemos, são de diferentes dimensões; e se examinam seus ornamentos exteriores, mal se
pode, à primeira vista, atribuir a alguns deles a lúgubre finalidade que efetivamente
têm. Imediatamente depois que os caixões se fecham, são depositados em nichos abertos
na parede ao longo dos claustros, ou em diferentes partes da igreja. Mas, durante a
comemoração anual que aqui lembramos, são tirados dessas espécies de jazidos e ficam
expostos à veneração das pessoas que os vêm visitar.
Erigem-se junto às paredes espécies de cenotáfios,
sobre os quais depositam alguns desses ataúdes. São ornados de Panos de veludos ou cetim
bordados em ouro e prata; e esta riqueza, que nada tem de fúnebre, apresenta um contraste
bastante singular com o objeto da cerimônia.
(DENIS, Ferdinand. Brasil.
Ed. Itatiaia) |