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Ano III - novembro 2000 - nº 27

Sua revista com a cara e a alma brasileira


SUMÁRIO - EDIÇÃO 27
FESTANÇA
O dia de Finados, por Luís da Câmara Cascudo.

O dia dos mortos no Rio de Janeiro, pelo viajante Ferdinand Denis.

Jean-Baptiste Debret descreve um cavaleiro de Cristo exposto em seu ataúde.

"Descrevamos o que se dava, no começo deste século, na Cadeia Velha e Valongo, em uma casa dessa gente, por ocasião da morte de um deles..." A morte e os ciganos no Brasil, por Melo Morais Filho.
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE

 

FESTANÇA - Nesta seção, textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...


O DIA DOS MORTOS NO RIO DE JANEIRO

Ferdinand Denis


No Rio, e em muitas cidades do Brasil, o dia dos mortos é objeto de uma cerimônia verdadeiramente imponente, durante a qual é impossível não se experimentar alguma comoção. É sobretudo a grande de São Francisco de Paula que mais se distingue nesta solenidade.

Esta igreja, que também se chama Caritas, é célebre entre as do Brasil, não só pelos milagres atribuídos à imagem do seu patrono, que se supõe restituir a vida aos moribundos mas é também afamada pela espécie de proteção que São Francisco concede aos ossos dos mortos que não pode salvar. Se quiserdes entrar na capela tereis de passar por uma longa galeria, cujas muralhas estão cobertas de tabuletas votivas e de quadros representando pessoas enfermas em seus leitos, ou indivíduos sofrendo diversos acidentes. A todos São Francisco aparece, descendo do céu sobre uma nuvem. Consta que ele livra sempre do perigo aqueles a quem desta maneira se mostra; e, em baixo de cada tabuletas vê-se escrito: "Milagre que fez São Francisco de Paula". Uma destas tabuletas votivas representa um cálculo extraído por operação da pedra. Nada é mais variado aliás, que estes ex-votos. Pernas, braços, cabeças. Seios e outras partes do corpo humano, executamos em cera com espantosa veracidade, estão pendurados nas paredes e entre estas representações anatômicas, há verdadeiramente algumas de excelente imitação. Um grande retrato do santo, pintados com as feições de um velho com uma comprida barba, aparece por entre estas tabuletas votivas. Sua única veste é uma capa, através da qual se vê seu peito nu e nele gravada esta palavra: caritas. Longos corredores ligados ao edifício justificam esta inscrição; de cada lado, percebem-se numerosos quartos para os enfermos, que se fazem levar a este local, para serem curados por intercessão do santo.

Se, depois de haver examinado os ex-votos quereis entrar na capela para visitar os túmulos encontra-se um imenso números de habitantes pertencentes a todas as classes da sociedade que assistem à celebração da missa. Da capela passa-se a um grande jardim rodeado por um claustro; é neste lugar que se avista grande número de catacumbas com seus caixões de forma diversas e tamanhos diferentes. Estão dispostos junto às paredes e no mesmo jardim; alguns são notáveis por sua pequenez, enquanto muitos há que se poderiam comparar a uma grande cenotáfio. Todos tem chave e fechadura, e sobre as tampas se podem ler diversas inscrições algo semelhantes aos nossos epitáfios. As fórmulas não variam quase, e para elas há termos consagrados, que mais particularmente lembram que são ossadas de pessoas defuntas que assim se conservam: efetivamente, estas espécies de ataúdes só contêm ossos.

O uso, no Rio de janeiro e em São Salvador, é enterrar os corpos em cal, e quando a carne se acha completamente consumida por este meio, limpam-nos com cuidado, e recolhem-nos num caixão, cuja chave se entrega à família. Estes caixões não tem quase semelhança com os nossos ataúdes da Europa; como já dissemos, são de diferentes dimensões; e se examinam seus ornamentos exteriores, mal se pode, à primeira vista, atribuir a alguns deles a lúgubre finalidade que efetivamente têm. Imediatamente depois que os caixões se fecham, são depositados em nichos abertos na parede ao longo dos claustros, ou em diferentes partes da igreja. Mas, durante a comemoração anual que aqui lembramos, são tirados dessas espécies de jazidos e ficam expostos à veneração das pessoas que os vêm visitar.

Erigem-se junto às paredes espécies de cenotáfios, sobre os quais depositam alguns desses ataúdes. São ornados de Panos de veludos ou cetim bordados em ouro e prata; e esta riqueza, que nada tem de fúnebre, apresenta um contraste bastante singular com o objeto da cerimônia.

(DENIS, Ferdinand. Brasil. Ed. Itatiaia)

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