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Ano III - novembro 2000 - nº 27

Sua revista com a cara e a alma brasileira


SUMÁRIO - EDIÇÃO 27
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU

O leite de coco, um dos mais populares condimentos utilizados no Brasil e em diversas outras partes do mundo. Um texto de Luís da Câmara Cascudo.

Uma receita, em versos, do modo de se preparar o chimarrão.

"A refeição principal consta de um jantar ao meio-dia, por ocasião da qual o chefe da casa, sua esposa e filhos às vezes se reúnem ao redor da mesa...", Convites a jantar no Brasil do século XIX, pelo viajante John Luccock

PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE

 

COLHER DE PAU - Nesta seção, textos sobre receitas tradicionais; bebidas típicas; alimentos brasileiros; costumes à mesa; horta, pomar e criação; crenças, costumes e tabus relacionados à alimentação e alimentos...


CONVITES A JANTAR

John Luccock


(...) A família em geral fica na varanda, na parte de trás da casa, lugar em que se acha quase tão isolada do mundo como se se encontrasse nas profundas de uma floresta. As mulheres, sentadas em roda, na postura costumeira, costuram, fazem meia, renda, bordados ou coisas semelhantes, enquanto que os homens se encostam a tudo quanto possa servir para isso ou ficam a vaguear de quarto e quarto. É ali também que tomam suas refeições, usando de uma velha tábua colocada sobre dois cavaletes, um par de tamboretes de pau para completar e, quando existem dessas coisas, uma ou duas cadeiras. A refeição principal consta de um jantar ao meio-dia, por ocasião da qual o chefe da casa, sua esposa e filhos às vezes se reúnem ao redor da mesa; é mais comum que a tomem no chão, caso em que a esteira da dona da casa é sagrada, ninguém se aproximando dela senão os favoritos reconhecidos. As virtualhas constam de sopa, em que há grande abundância de legumes, carne seca e feijão de várias qualidades. Em lugar de pão, usam de farinha de mandioca; esta, quando úmida, é servida em cabaças ou terrinas; quando seca, em cestas, sendo comida em pequenos pratos de Lisboa. Somente os homens usam faca; mulheres e crianças se servem dos dedos. As escravas comem ao mesmo tempo, em pontos diversos da sala, sendo que por vezes suas senhoras lhes dão um bocado com as próprias mãos. Quando há sobremesa, consta ela de laranjas, bananas e umas outras poucas frutas.

As cozinhas em geral possuem uma vasta chaminé aberta e um forno; o fogão tem cerca de dez pés de comprimento, cinco de largo e três de alto; o seu corpo consiste de uma sucessão de divisões de tijolo. Essas divisões têm cerca de dois pés de comprimento, podendo-se fazer fogo isoladamente em cada uma delas; por cima das que estão sendo usadas colocam-se tijolos ou pedras, deixando abertos ou vazios de modo a que o calor possa atingir a panela, que em geral é de barro, de fabricação local. Não se usam grelhas, nem trempes, nem guarda-fogos; tais utensílios seriam tidos por supérfluos e incômodos. Para atiçar o fogo, usa-se de uma espécie de leque feito de folhas de palmeira, que supre perfeitamente o efeito de um fole. A mesa de cozinha consta de um sólido bloco de madeira, fixado numa das extremidades da cozinha, tendo por cima umas poucas prateleiras. Sobre uma banqueta, adrede construída, acham-se potes contendo água, sempre pronta para dela se beber ou fazer outro uso qualquer; e por cima deles há uma concha, feita de um coco vazio, que serve para tirar água dos potes e de copo para os escravos.


(LUCCOCK, John. Notas sobre o Rio de Janeiro e partes meridionais do Brasil. Belo Horizonte / São Paulo, Editora Itatiaia / Editora da Universidade de São Paulo, 1975. Reconquista do Brasil, 21)

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