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Ano III - novembro 2000 - nº 27

Sua revista com a cara e a alma brasileira


SUMÁRIO - EDIÇÃO 27
FESTANÇA
CANCIONEIRO

Incelências, excelências ou incelenças são cantos entoados à cabeceira dos moribundos, e crê-se que facilitam a entrada no céu. Incelências recolhidas no Estado de Pernambuco, por Valdemar Valente.

Merendins, a poesia funerária dos ciganos no Brasil.

Xácara à funesta morte de Dona Ana Faria e Souza, baseada em um triste fato ocorrido em 1710, em Recife.

IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE

CANCIONEIRO: Nesta seção, textos sobre música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios; romances; cantos religiosos; quadras, pasquins...


XÁCARA À FUNESTA MORTE DE DONA ANA FARIA E SOUZA

Pereira da Costa


I
Nesta fria sepultura
Jaz no verdor dos seus anos
Um sol, de amor por enganos
Uma estrela sem ventura
A todos causa amargura
Pesares tão desabridos
Escutem compadecidos
Neste lastimoso assunto
Quanto padeceu por junto
Em cinco lustros compridos

II
Recreio foi de seus pais
Com aplausos de formosa
Mas assemelhou-se à rosa
Pois pagou tributos tais:
Foram nelas tão iguais
Suas raras perfeições
Com tão belas proporções
Tanto garbo, tanto asseio
Que era da vista um enleio
Doce irmã dos corações

III
Quando adulta (oh! sorte escassa)
Intentam seus pais a casá-la
Soube o fado desviá-la
Para tão triste desgraça
Certa afeição a embaraça
Que foi para seu castigo
Pois sempre encontra o perigo
Quem foge ao paterno agrado
Comprando por tal pecado
Ter ao céu por inimigo

IV
Passaram mal quatro anos
(Pois não sei se o passou bem)
Que sempre foi um desdém
Paga de amores profanos
Porque a memória tiranos
Pensamentos gera e cria
Cuidando a outrem faria
Ou fará quanto lhe fez
E paga um amor cortês
Com tão baixa vilania

V
E assim sem causa o consorte
(Quem algum dia tal crera!)
Homem então, hoje fera
Lhe maquina crua morte
A triste em lance tão forte
Se lamenta lacrimosa
Dizendo: - Virgem piedosa
Amparai uma inocente
Filha, sim, pouco obediente
Porém nunca errada esposa

VI
Mal se crêem verdades puras
Onde a vingança conspira
Desculpa excessos da ira
Com erradas conjeturas
Mil aparentes figuras
Forma a fantasia errada
Vê-se a vista equivocada
Mil vezes no que se emprega
Quanto mais paixão tão cega
Que muitas vezes é nada

VII
Com notável sofrimento
Passou vinte e sete ias
De opróbios e tiranias
Sem ter pausa o seu tormento
Os prodígios cento a cento
Com eles o céu convida
Nada move a endurecida
De uma sogra desumana
Eleita esta tigre ircana
Para ser sua homicida

VIII
Oh! peitos vis, que ordinários
Da inocente sois algozes
A que crimes por atrozes
Vós resistes contrários
Deus deserda aos temerários
E detesta aos dissolutos
Porque estes tais como brutos
Em absurdos se recreiam
Mas dos males que semeiam
Colhem os merecidos frutos

IX
Enfim, nos últimos dias
Do segundo catrozeno
O não obrar o veneno
Que a forá das tiranias
Lhe deu logo as sangrias
Novamente lhe sinala
Mas não quis desampará-la
O sangue, abertas as veias
Oh! cordeiro que vozeias
E a ninguém teu balo abala

X
Já se viu ser instrumento
Para viver o cheirar
Aqui só cheira a matar
Do cheiro o apercebimento
Parece ter fundamento
O mistério que o moveu
Assim supunha eu
Para mostrar desta sorte
A que vai reinar no céu

XI
Quarta prova se lhe ordena
Largando a rédea ao desejo
Que por não manchar o pejo
A suspende a minha pena
Mas vendo que não a condena
Queres tu, Gezabel fera,
Persistindo mais austera
Ser a infame matadora
Para ser com tua nora
A mais iracunda Nera

XII
De Deus o quinto preceito
A não matar nos ensina
Outra vez se determina
A fazê-lo com efeito
Dá por perdido o direito
Com que o amor a enganava
Ana em prolixo tão brava
E vendo que expirar pode
Fervorosa a Deus acode
E em lágrimas se lava.

XIII
Sente de seu pai a injúria
Nos irmãos culpa a tibieza
Pois por lei da natureza
Não deviam por incúria
Deixá-la em tão grave fúria
Mas não tendo quem lhe valha
Suspiros ao vento espalha
Repetindo enternecida
Se espero a morte por vida
Vestir-me quero a mortalha

XIV
Toma o hábito e se alinha
Curiosa não, mas honesta
Por ser para o tempo esta
Libré a que lhe convinha
Esta seja a gala minha
Mil vezes foi repetido
Este é prezado vestido
De que se namora Deus
Se por causa de outros meus
Foi d’algum modo ofendido

XV
A um Cristo abraçada então
Companheiro inseparável
Se publica miserável
Pedindo esforço e perdão
- Meu Deus do meu coração
Lhe diz, amparo de aflitos
Temores tão inauditos
Tantas penas sejam pagas
Por vossas divinas chagas
Senhor meu de meus delitos

XVI
Com tais palavras na boca
Pedindo ao Senhor que a valha
Na garganta uma toalha
Lhe lança a tirana louca
Grave furor a provoca
Tendo por afronta sua
Que seu ódio não conclua
Com tal vida, expira aqui?
Olha, que tens contra tia
Deus irado, a espada nua

XVII
Só daqueles de ombro adusto
Vai ao sepulcro sem pompa
Porém da justiça a trompa
Arros, que causam susto
Deus que no obrar é justo
É juiz e é fiscal
Castiga e premia igual, -
Dando o que mais nos convém
Com que não espere bem
Quem obrou tão grande mal

XVIII
Um seu vizinho barbeiro
Capitão, e adulador
Foi este o maior traidor
Naquele lance posteiro
Este cruel carniceiro
Feito algoz desta inocente
Tão cega e barbaramente
Ajudou a dar-lhes a morte
Que aconselhou ao consorte
Fosse morta a delinqüente


(COSTA, Pereira da. Folclore pernambucano; subsídios para a história da poesia popular em Pernambuco. Recife, Arquivo Público Estadual, 1974)

Nota:
Desta xácara obteve Varnhagen uma versão incompleta, que publicou no seu Florilégio (t. I, p. 182) com o seguinte título: - 1710. Chácara fúnebre à sepultura de dona Ana de Faria assassinada por seu marido o alferes André Vieira de Melo, em Pernambuco.

Cotejando esta versão com a que damos agora, recolhida contemporaneamente por Manuel dos Santos e consignada na sua Narrativa histórica, notamos insignificantes alterações e a falta das estrofes IV, VIII, X, XVIII. É que Varnhagen apesar de publicar o seu Florilégio em Lisboa, não conhecia o inédito de Manuel dos Santos, existente na Torre do Tombo, de cujo original possuíamos uma cópia que se guardava na Secretaria do Governo, a qual, indevidamente oferecida por alguém ao imperador dom Pedro II em 1859, por ocasião da sua visita a Pernambuco, serviu para a impressão da obra, em 1890, na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

O triste acontecimento narrado nesta xácara teve lugar em 1710, e dele particularmente se ocupa Manuel dos Santos na sua mencionada Narrativa histórica.

Dona Ana de Faria e Souza era esposa de André Vieira de Melo, alferes do regimento de infantaria do Recife, filho de Bernardo Vieira de Melo, que tão importante papel representou no período da guerra dos Mascates, que explodiu naquele ano.

Trata-se, portanto, de um fato real, em que figuram nomes conhecidíssimos em nossa história, e sobre o qual - se chegaram a fazer por curiosos várias obras métricas, - dentre as quais escolheu o referido cronista a presente xácara - por narrar o fato com todas as suas circunstâncias, podendo servir de confirmação a tudo que nesse particular escreveu.

Dona Ana de Faria e Souza não somente no juízo do citado cronista, como também no de um outro escritor coevo, Loreto Couto, foi uma vítima inocente às mãos do seu próprio esposo ou talvez de sua sogra, - que nesta tragédia fez o primeiro papel de crueldade.

Sepultado o cadáver da infeliz senhora na igreja do convento de São Francisco de Ipojuca, dez anos depois, abrindo-se a sua sepultura, foi fama constante, refere Loreto Couto, - "se achara seu corpo fragrante e incorruto. Queria Deus com o privilégio da incorrução mostrar a inteireza da sua inocência?"

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