
|
|
| CANCIONEIRO: Nesta seção, textos sobre
música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios;
romances; cantos religiosos; quadras, pasquins... |
Alexandre José de Melo
Morais Filho |
Como as aves que vagueiam
No seio da noite escura,
Assim serão meus suspiros
Sobre a tua sepultura.
Eu sou triste como o luto
Que cobre os tenros filhinhos,
Que na pobreza perderam
Da terna mãe os carinhos.
Dizem que almas não morrem,
São imortais... não têm fim...
A minha faz exceção,
Stá morta dentro de mim!
Eu sou a tocha do morto
Com a luz já quase extinta,
Ou como a negra mortalha
Que por preta não se pinta.
Brilhava em céu azulado...
Negra nuvem me toldou...
Por perder quem me seguia,
Minhalma aflita chorou.
De tanta terra enfeitada,
A terra que menos brilha,
É a porção que hoje cobre
Os restos de minha filha!
Erguei-vos flores da noite,
Tristes rosas da manhã;
Velem umas sobre as outras
O túmulo de minha irmã.
Sempre foste minha estrela;
Eu com gosto te seguia;
Na tormenta te apagaste,
Fiquei sozinho e sem guia.
Envolto em tua mortalha
Meu coração tu levaste,
Antes contigo se fosse
A vida que me deixaste.
Morreste silencioso,
De ninguém te despediste;
Do mundo nada quiseste,
Ao mundo nada pediste.
A minha alma não morreu,
Desfaleceu no transporte,
Na ocasião do gemido
Que meu irmão deu na morte.
Ó minha irmã Felisberta,
Se com a nossa mãe falares,
Não contes meus sofrimentos
Pra não lhe dar mais pesares.
Desabrochou de manhã,
De tarde se despediu;
Fiquei na noite sombria
Por onde ela sumiu.
Meu filho, nada te fiz...
Por me faltar a ventura,
Foste pedir agasalho
Na terra da sepultura.
Minha mãe, entre seus filhos
Se lembre de mim um dia,
Que dos ramos que eles formam
Eu sou a flor mais sombria.
Descansa, esposo querido,
A par de Deus tão divino;
Pede-he, sim, que melhore
O meu infeliz destino.
Quando morreu minha Rosa,
O mundo ficou sem luz;
Porém ficou minha mãe
Pra carregar minha cruz.
Num ermo triste, isolado
Eu choro minha orfandade,
Pois assim deve fazer
Quem tem sualma em saudade.
Eu sou triste como é triste
A sombria parasita,
Que sobre a terra do morto
Sua sombra deposita.
Pede a Deus por tua mãe
Meu pobre filho querido,
Que sobre a terra ela fica
Com o coração tão sentido.
Da terra voaste ao céu
Pra gozar a claridade;
Pede, esposo, ao criador
Tenha de mim caridade.
Às vezes pareço crer,
Quando a terra flores dá,
Serem as cópias fiéis
Das flores que existem lá.
Sou triste como a caveira
No cemitério rolando,
Que vai com o correr do tempo
Em negro pó se tornando.
Sobre a tua sepultura
Um frouxo raio da lua
Parece a gota do pranto
Celeste, na terra tua.
Tu foste nuvem dourada,
Mas o sol te dissipou;
Como guardavas minhalma
Contigo de desmanchou.
No canteiro de minhalma
Plantei roxa maravilha,
Ao depois que te perdi
Adoro mais tua filha.
Sou triste como a tesoura
Que corta a negra mortalha,
Ou da cova a dura terra
Que sobre o morto se espalha.
Quem chorará no sepulcro
De quem na vida foi só?
De quem tantas vezes triste
De si mesmo teve dó?
Quebrem-se os selos da campa,
De um Deus o poder e brilho;
Vem, Maria, abençoar
Tua afilhada e teu filho!
Se queres saber se eu choro,
Me empresta a tua mortalha,
Com ela enxuga o meu pranto
E o nosso filho agasalha.
Debaixo d aterra fria
Contra o teu rosto de dó,
Mais aumenta a minha pena
O me lembrar que estás só.
As saudades que te trago
Foram da terra arrancadas,
Mas que tenho por ti
Então nalma enraizadas;
Ao passo que as que te trouxe
Como tu morrem também,
Minhalma por infeliz
Bebe vida nas que tem.
Dorme, dorme, meu bom pai.
Descansa onde a estrela brilha,
Que ao tronco de Deus irão
As preces de tua filha.
Se morreste para o mundo,
Não morreste para mim;
Eu seguirei teus caprichos
Até meus dias dar fim.
Os meus prazeres morreram
Quando morreu minha bela;
Dão hoje causa e meu pranto
Saudades que tenho dela.
Ó flores que junto à campa
De meu filho vicejais,
Sede fiéis transmissoras
Dos meus doloridos ais!
Ao filho que a mão da morte
Roubou com desgosto tanto,
Contai as tristezas minhas,
Meu sentimento e meu pranto!
Aqui descansam os restos
De meu filhinho adorado,
- Botão de flor de minhalma
Tão rudemente arrancado.
Sorriam flores no prado,
Tu lutavas na agonia;
Antes da tarde morreste,
As flores no fim do dia.
Pra resistir tua falta
Minhalma não tem coragem,
Só se iludido pensar
Que não perdi tua imagem.
E além da sentida morte
O sentimento vigora
Feliz dos restos mortais
Que sobre eles se chora.
Foste a arca de esperança,
Fosse a flor do meu esmero;
Depois que pra o céu voaste,
Nem arca, nem flores quero.
Já que não posso morrer
Contigo, minha Adelaide,
Aceita o pranto sem fim
De uma perpétua saudade.
Ao levantar tua campa
Tua imagem esperei;
Foi ilusão do desejo,
Só teus ossos encontrei.
Não são as galas do mundo
Nem os ricos mausoléus,
São a virtude, a constância
Que levam alma aos céus.
Nem mesmo sei o que sou
Pela dor que sinto agora,
Bem pareço a sombra escura
Dum ser que viveu outrora.
Tristonha morada, guarda
De meu bem sua figura,
Que os meus suspiros rodeiam
Sua triste sepultura.(MORAIS FILHO, Alexandre
José de Melo. Ciganos no Brasil e Cancioneiro dos ciganos.
Belo Horizonte / São Paulo, Editora Itatiaia / Editora da Universidade de São Paulo,
1981. Reconquista do Brasil, 59) |
|