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| CANCIONEIRO: Nesta seção, textos sobre
música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios;
romances; cantos religiosos; quadras, pasquins... |
Prática do catolicismo popular relativamente freqüente em Pernambuco, no interior de
modo especial, é a das incelências. As incelências, também chamadas de excelências
ou incelenças, são cantos entoados à cabeceira dos moribundos ou dos mortos. Uma
espécie de ritual de velório, com benditos e as frases apenas rimadas. São práticas
que escapam da ortodoxia cristã, ainda usadas com freqüência em Pernambuco. Gonçalves
Fernandes diz que "as excelências são cantadas ao pé do morto, enquanto os
benditos são cantados à sua cabeça". Getúlio César diz que a excelença
facilita a entrada no céu, sendo as frases rimadas sempre em número de 1 a 12, quando se
trata de adulto, e, de 1 até 9, quando é criança. A seguinte incelença merece ser
registrada:
Uma incelença que nossa Senhora deu a nosso sinhô.
Essa incelença é de grande valô.
Assim cantam duas, três, até doze incelenças. O número doze representa o número
dos apóstolos de Cristo.
A música é sempre a mesma, monótona e lúgubre.
Esta outra incelença segue no mesmo refrão:
Já é uma hora, os anjos vinhero te vê
E ele vai, e ele vai, e ele vai também com você.
Em seguida:
Uma incelença que nos deu senhô Deus
Sinhora da Graça livrai-me da peste. Ave Maria.
Segundo Getúlio César, esta incelença faz pensar no medo da morte sem preparo
religioso:
Uma incelença à virge da Conceição
Deus não permita que eu morra sem confissão.
Aqui, um exemplo que as cantadeiras consideram complicado:
Uma incelença da estrela matrona;
Galho de alecrim, rosa manjerona
De portas em portas, de ruas em ruas
Meu Deus padecendo sem culpa nenhuma.
As excelenças começam no cerimonial de fazer quarto e se prolongam no
acompanhamento do cortejo fúnebre até o cemitério. As cantadeiras são, às vezes,
acompanhadas de carpideiras, isto é, mulheres especialmente contratadas e pagas para
chorar o defunto.
Na saída do enterro cantam a excelença da despedida, que tem também a função de
preparar o morto;
Lá vem uma alma,
Pisando no chão
Vai dizendo à outra:
Ou que buracão.
Esse buracão
É a sepultura;
Essa terra fria
É a cobertura.
Uma incelença
Que nos deu no paraíso
Adeus, irmão, adeus
Até o dia de juízo.
(VALENTE, Valdemar. Folclore
brasileiro; Goiás. Funarte, 1979)
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