EDIÇÕES ANTERIORES
Ano III - novembro 2000 - nº 27

Sua revista com a cara e a alma brasileira


SUMÁRIO - EDIÇÃO 27
FESTANÇA
CANCIONEIRO

Incelências, excelências ou incelenças são cantos entoados à cabeceira dos moribundos, e crê-se que facilitam a entrada no céu. Incelências recolhidas no Estado de Pernambuco, por Valdemar Valente.

Merendins, a poesia funerária dos ciganos no Brasil.

Xácara à funesta morte de Dona Ana Faria e Souza, baseada em um triste fato ocorrido em 1710, em Recife.

IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE

 

CANCIONEIRO: Nesta seção, textos sobre música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios; romances; cantos religiosos; quadras, pasquins...


INCELÊNCIAS

Valdemar Valente


Prática do catolicismo popular relativamente freqüente em Pernambuco, no interior de modo especial, é a das incelências. As incelências, também chamadas de excelências ou incelenças, são cantos entoados à cabeceira dos moribundos ou dos mortos. Uma espécie de ritual de velório, com benditos e as frases apenas rimadas. São práticas que escapam da ortodoxia cristã, ainda usadas com freqüência em Pernambuco. Gonçalves Fernandes diz que "as excelências são cantadas ao pé do morto, enquanto os benditos são cantados à sua cabeça". Getúlio César diz que a excelença facilita a entrada no céu, sendo as frases rimadas sempre em número de 1 a 12, quando se trata de adulto, e, de 1 até 9, quando é criança. A seguinte incelença merece ser registrada:

Uma incelença que nossa Senhora deu a nosso sinhô.
Essa incelença é de grande valô.

Assim cantam duas, três, até doze incelenças. O número doze representa o número dos apóstolos de Cristo.

A música é sempre a mesma, monótona e lúgubre.

Esta outra incelença segue no mesmo refrão:

Já é uma hora, os anjos vinhero te vê
E ele vai, e ele vai, e ele vai também com você
.

Em seguida:

Uma incelença que nos deu senhô Deus
Sinhora da Graça livrai-me da peste. Ave Maria
.

Segundo Getúlio César, esta incelença faz pensar no medo da morte sem preparo religioso:

Uma incelença à virge da Conceição
Deus não permita que eu morra sem confissão.

Aqui, um exemplo que as cantadeiras consideram complicado:

Uma incelença da estrela matrona;
Galho de alecrim, rosa manjerona
De portas em portas, de ruas em ruas
Meu Deus padecendo sem culpa nenhuma
.

As excelenças começam no cerimonial de fazer quarto e se prolongam no acompanhamento do cortejo fúnebre até o cemitério. As cantadeiras são, às vezes, acompanhadas de carpideiras, isto é, mulheres especialmente contratadas e pagas para chorar o defunto.


Na saída do enterro cantam a excelença da despedida, que tem também a função de preparar o morto;

Lá vem uma alma,
Pisando no chão
Vai dizendo à outra:
Ou que buracão.

Esse buracão
É a sepultura;
Essa terra fria
É a cobertura.

Uma incelença
Que nos deu no paraíso
Adeus, irmão, adeus
Até o dia de juízo.

(VALENTE, Valdemar. Folclore brasileiro; Goiás. Funarte, 1979)

Jangada Brasil © 1998-2002