O jote era um dos jogos mais movimentados e preferidos pela garotada de Natal.
Escolhida a mancha (lugar onde o jote não pode pegar ninguém), tiravam a sorte
para saber quem iria ser o jote. O jote fica na mancha (é sempre uma calçada
determinada), e todas as outras crianças saem correndo, para longe. Quando estão fora da
vista do jote, geralmente noutra rua ou no fundo de um parque ou jardim, gritam todas:
- Jote!
Outros meninos preferiam gritar:
- Jote caracanhote, mãe de carcote!
Então o jote sai da mancha para pegar os meninos. O primeiro a ser tocado passa a ser o
jote na vez seguinte.
Quando o jote é perverso, muitos meninos tímidos se refugiam na mancha. Então o jote os
convoca declamando:
- Carocinho de feijão!
Quem não sair da mancha é o cão!
E os meninos disparam na carreira, porque ninguém quer ser o cão, isto é, o diabo...
Do vocábulo jote - corrente na nossa
linguagem infantil, - não temos nenhuma notícia esclarecedora em torno de sua origem. O Pequeno
dicionário brasileiro da língua portuguesa não registra a voz. Todavia, Juan Afonso
Carrizo, no seu Cancioneiro popular de la Rioja, insere várias notas sobre o termo
jôte ou jóte, que é, na Argentina, um "pajarraco carnívoro de alas negras que
comumente llamamos de cuervo en Salta, Tucumán, Santiago, Catamarca y grand parte de
Jujuy e La Rioja". Informa ainda que o professor Eugénio Giacomelli escreveu uma
monografia sobre El Jote e na qual descreve minuciosamente o animal. Outro autor,
Lenz, que estudou profundamente a voz sob o ponto de vista lingüístico, esclarece que Jote
é nome vulgar de "un ballinazo negro, común en la mayor parte de Sudamérica".
Já o professor Emiliano J. MacDonagh, - citado por Carrizo, - nos dá extensa notícia
sobre a voz Jote, afirmando que o nome se aplica a duas ou mais espécies de ave.
Seja corvo, galinha ou condor, a identidade das vozes (jôte, no Brasil, jote
ou jóte na Argentina), parece esclarecer a origem do vocábulo no Brasil. O jote
do nosso jogo popular seria o bicho que vem comer as crianças - o corvo, talvez, -
e por isso todos correm para não ser apanhados. Fica, todavia, o problema aberto aos
filólogos e mestres, que poderão dar melhor explicação para a voz popular
norte-rio-grandense.(MELO, Veríssimo de. Folclore
infantil; acalantos, parlendas, adivinhas, jogos populares, cantigas de roda.
Belo Horizonte, Editora Itatiaia, sd. Biblioteca de Estudos Brasileiros, 20) |