
Papai, conte a história daquela cruizinha
tão triste, tão sozinha
no pé da ladêra
com seus braço aberto, chorosa, coitada!
na bêra da istrada
qui vai pra rebêra
Me conte o motivo daquilo que vejo
me faça o desejo
me faça a vontade
Pois lá tenho visto muié saluçando
e a cruz infeitando
de reza e sodade
Papai me arresponda! Me conte, me diga
se a histora é intriga
o qui foi qui se deu?
Eu, vendo a cruizinha, sinto uma cansêra
no pé da ladêra
quem foi qui morreu?
- Se é tu nesta vida que mais eu confio
iscuta, meu fio
meu fio querido
Que, imbora eu sintindo uma dô no meu peito
eu vou com respeito
fazê teu pidido
Aquela cruizinha, na bêra da istrada
qui veve infeitada
cum tanta fulô...
aponta o passado de um crime de ispanto
de luto e de pranto
de raiva e de horrô
A mão da disgraça só pranta veneno
naquele terreno
cum feia treição
ainda no tempo qui eu era minino
um monstro assarsino
matou Zé Morão
O mostro assarsino era um rico orguioso
e o moço bondoso
era seu moradô
Morreu de desgraça, naquele diserto
e agora tá perto
de Nosso Sinhô
Ele era sortêro, rapaiz inda novo
quirido do povo
do nosso sertão
Repare o motivo da grande caipora
e veja na histora
quem tinha razão
Um ano ele tinha uma roça tão boa
qui arguma pessoa
dizia a brincá:
Quem vê essa roça depressa conhece
qui o dono parece
qui vai se casá
Na roça bonita fejão bagiava
o mio já tava
criando caroço
E o rico, soberbo, mandou seu criado
botá todo gado
na roça do moço
Morão, com aquilo, ficô cum disgosto
e munto disposto
saiu sem demora
Abriu a portêra, correu apressado
tangeu todo o gado
da roça pra fora
Foi logo falá sobre aquela questão
e dixe: Patrão
o sinhô tenha dó
num quêra fazê minha sorte misquinha
aquela rocinha
custou meu suó
Pur Nossa Sinhora não bote o seu gado
naquele roçado
qui tanto custô
E o rico orguioso ficô gaguejando
ficô rismungando
cum grande rancô
Vortô sem resposta, o rapaz pensativo
pruquê sem motivo
se achava o patrão
De cara inrusgada, danado, trumbudo
zangado, sisudo
formando questão
A mãe do agregado, um nervoso sintia
e sempre dizia:
- Meu fio querido
saímo, qui o monstro já qué fazê guerra
Por causa da terra
morreu meu marido
Meu fio, esta noite, quando eu já durmia
sonhei qui nóis ia
sofrê prijuízo
E, perto da nossa chupana de paia
o rasga-mortaia
passô dando aviso
- Mamãe, eu não posso perdê meu trabaio
daqui eu num saio
daqui num me mudo
Saí sem distino.. qui sorte essa nossa!
deixando uma roça
repreta de tudo!
Razão ele tinha, cum toda certeza
fazia defesa
do prope roçado
Porém da viúva, os consêio era certo
pois tava bem perto
do mau resurtado
Depois de dez dia, no pé da ladêra
fazendo trinchêra
de um rompe-gibão
O rico orguioso, bandido, patife
de tiro de rife
matô Zé Morão
O monstro foi preso, mas nada sofreu
alguém protegeu
sua grande maliça
pois ele era rico. O maió fazendêro
cum muito dinheiro
logrô a justiça
A pobre viúva, chorando, coitada
dizia maguada:
"Perdi meu incosto"
De tanto pensá no seu fio defunto
ficô sem assunto
morreu de disgosto
Contei toda história, de cena horrorosa
da morte assombrosa
de um moço de bem
Repara, meu fio, quanto é disgraçado
o pobre coitado
qui terra não tem
Meu fio quirido, tu óia pra cruz
e pede a Jesus
o maió protetô
e à Vige Maria, rainha quirida
pra nunca na vida
tu sê moradô
(Patativa do Assaré, Cante lá que eu canto cá)
|

O voto deve ser rigorosamente secreto. Só
assim, afinal, o eleitor não terá vergonha de votar no seu candidato.
A origem do ditado "Macaco velho não mete a mão em combuca"
Existe no Brasil uma árvore, chamada sapucáia, muito conhecida pelas suas qualidades
medicinais, cujo fruto é uma combuca, dentro da qual encontram-se pencas de castanhas.
Quando o fruto amadurece, as castanhas ficam soltas e vão caindo, com o balouçar dos
galhos, por uma abertura que se abre na parte central e inferior da combuca. As castanhas
da sapucáia são muito apreciadas pelos pequenos animais e particularmente os macacos.
Estes costumam meter a mão pela abertura estreita para retirar as castanhas. A mão
fechada e cheia de castanhas, naturalmente, aumenta de volume e então acontece que o
macaco não pode retirá-la e fica preso. A liberdade só é recobrada, quando, exausto,
abre a mão e solta as castanhas. Esta pequena trágedia, porém, só acontece aos macacos
novos, que não tem experiência da vida. Os macacos velhos não metem a mão em
combuca...

Não sou Mike Tyson, mas se você me
bater eu o amasso
Chicote se não for usado, vira pedaço de couro
Eu sou macho! Uso shampoo que arde nos olhos
Tristeza é ter uma sogra de nome Esperança, porque Esperança é a última que
morre
Mulher é igual a pipoca, é só dar um pulinho, já está na boca do povo
Em terra de cego, quem tem um olho é caolho
Mulher, patrão e cachaça, em qualquer canto se acha
Sogro rico e porco gordo, só dão lucro quando morrem
Suba na vida, mas não derrube a minha
Mulher feia é igual a trator, só presta para trabalhar

Explicando
- Mecê cunhece o Cerrado?
É lugá bão?
- Uai! nhô Bento.
Aquilo lá, vae de vento
im pôpa. É um lugá bençuado
Tudo lá, tem prosperado
Só veno que diantamento
de lá já tem mais sordado!...
- E escola, tem lá, nhá Dinha?
- Fexô, proquê já num tinha
mais marphabético
- O que?!
Mecê me bota fernético
O que é isso de marphabético?
- Uéi-me!... É quem num sabe lê!
(COSTA, Fontoura. Matutices. São Paulo, Companhia Editora
Nacional, 1931)

Pudor de patriota
No seu hotel de Paris, possuía Eduardo Prado um criado inglês, o Humphyes, que,
pouco a pouco, aprendeu o português, e se transformou em mordomo do suntuoso globe-trotter.
Certo dia, ao entrar nos apartamentos de Eduardo, encontrou-o um amigo a trancar,
discreto, os jornais brasileiros recebidos naquela manhã.
- Ainda não os leste?
E Eduardo, confuso:
- Não é por isso; é que tenho vergonha de Humphyes. Não quero que ele saiba do que se
passa, agora, na terra do seu amo!
(ARINOS, Afonso. Discurso de recepção na Academia Brasileira de Letras)
A venda do filho
A 10 de novembro de 1840 penetravam a bordo do patacho Saraiva, ancorado a pouca
distância do cais, na baía, um pretinho de dez anos, e que seria mais tarde o poeta e
abolicionista Luiz Gama, o pai deste, homem branco, e jogador, que o tivera de uma
preta-mina, e o dono de uma casa de tavolagem, de nome Quintela.
Enquanto o menino se distraía com os marinheiros, os dois entram em entendimento com o
capitão, e retornam o bote que os trouxera. Ao vê-los partir, o negrinho corre, chega à
escada, e grita:
- Meu pai? meu pai? não me leva?
- Eu volto já, para te levar, - informou o miserável.
E o menino, compreendendo tudo, num ímpeto de dor e de revolta:
- Meu pai, o senhor me vendeu!...
E era verdade. Foi assim vendido, que Luiz Gama veio para o Rio, e foi escravo, do Rio
para São Paulo.
(FREIRE, Cândido. Revista do Brasil, nº 60, 1920)
(CAMPOS, Humberto de. O Brasil anedótico; frases históricas que resumem
a crônica do Brasil-Colônia, do Brasil-Império e do Brasil-República. 3ª ed.
Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1940)

Quem anda muito depressa passa por cima do que
precisa.
Quem apanha de mulher não se queixa a delegado.
Quem aproveita o farelo não esperdice o fubá.
Quem carrega é que sabe o peso que pega.
Quem menos pode é quem paga o bode.
Quem não tem dinheiro não beija santo.
Quem foge não diz para onde vai.
Quem passou o inverno nu, passa o verão que é mais quente. |