A noiva da
meia-noite
Diz que uma moça foi assassinada e enterrada na estrada de São Paulo, em baixo de uma
ficheira, perto da ponte do Piracicamirim. E ninguém sabia de nada; a família tinha ela
por sumida.
Todos os dia, à meia-noite, ela diz que aparecia no parque da Escola Agrícola, vestida
de noiva, e tocava o sino de entrada de serviço dos empregados.
Todos os guardas-noturnos da escola chegaram a ver ela, que ficava o tempo todo passeando
no parque. Só um, mais corajoso, chegou perto dela e perguntou o que que ela queria. Ela, então, disse para ele:
- Fui morta e enterrada aqui perto. Quero que o senhor
diga aos estudantes que desenterrem o meu corpo e levem no cemitério, que eu quero
descansar num lugar santo.
O guarda contou pros estudantes e eles foram até na ficheira. Cavaram e acharam ali a
ossada e mandaram ela pro cemitério.
A moça, então, deixou de aparecer.
(Benedito Ferraz)
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O susto
Numa cidade tinha dois moços que eram muito amigos e não se largavam nunca, pra cima e
pra baixo nos seus passeios.
Tinham a fama de serem muito brincalhões e o costume deles era fazer graças e malvadezas
em velórios, dando sempre um jeito de assustar alguém. Tinham gosto nesse negócio e
chegavam até a faltar com o respeito com algumas famílias, coisa que já tinha dado
algumas dores de cabeça pra eles, mas não se endireitavam de nenhum jeito.
Era só chegar de noite, paravam na praça e já perguntavam pro povo que estava ali onde
é que tinha morrido gente. E já iam pra lá, já imaginando a graça ou susto que iam
fazer no velório.
Uma ocasião tinha morrido um frade do convento lá daquela cidade e eles logo já deram a
cara no velório do frade. Mas a turma dos "irmãos" ali já sabia da fama deles
e ficaram de olho aberto pra ver o que é que eles iam inventar daquela vez.
Diz que um dos frades falou pra outro:
- Nós precisamos dar uma lição nesses dois.
E cochicharam num canto, lá numa conversa deles.
Lá pelas tantas, bem tarde da noite, estavam no velório só esses dois frades que tinham
combinado um negócio, e os dois moços.
Um dos frades falou pra eles:
- Será que vocês não queriam ir buscar uma cuia de água lá no poço pra nós?
Os dois foram e no caminho já iam pensando que na volta é que eles iam fazer a
brincadeira deles com os dois frades.
Mas os dois frades tiraram o defunto do caixão e puseram ele sentado numa cadeira e um
deles entrou no caixão, fingindo que era o defunto. E o outro, então se escondeu.
Os moços chegaram com a cuia!
- Olhe. Tá aqui a água.
Mas o defunto, sentado na cadeira ali, ficou bem quieto.
E os moços falam outra vez pra eles da água.
Daí, o que estava no caixão se levanta e fala:
- A água é aqui pra mim, moços.
E o outro, escondido ali atrás da porta, vai e desliga depressa a luz e dá um grito
alto.
Sei dizer que foi um berreiro e uma correria que não te conto nada!
E dizem que os moços, depois dessa, largaram mão daquele costume deles de assustar os
outros.
(José Maria Saes Rosa)
(FERNANDES, Waldemar Iglesias. Oitenta
e duas estórias populares colhidas em Piracicaba. Conselho Estadual de Cultura,
São Paulo, 1971. Coleção Folclore) |
a Sampaio Freire
Vai-se levar à villa o corpo de nhá Cota,
balouçando na rede a uma vara amarrada...
Sai o acompanhamento. E a família devota
abre o oratório e reza à Mãe Inmaculada.
Segue o cortejo além, na silenciosa rota,
e o viúvo torturado - alma triste, enlutada -
encosta-se à porteira e, suspirando, nota
o cortejo a sumir lá na curva da estrada.
A tristeza poisou sobre a humilde palhoça;
foi-se o tempo feliz, o tempo das bonanças,
e com ele se foi a doce paz da roça.
Já não se ouvem no lar os cantos de esperenças;
vêm de dentro da pobre e entristecida choça,
rumores de soluço e o chora das crianças.
(PIRES, Cornélio. Musa
caipira / As estrambóticas aventuras do Joaquim Bentinho (o Queima-Campo).
Prefeitura Municipal de Tietê, 1985) |
Estava sobrando uma
Tinha numa cidade seis amigos que se davam muito e
só andavam juntos.
Um deles, uma vez, arranjou uma namorada que morava num sítio bem longe; pra ir lá
precisava andar num estradão bem escuro e ainda por cima passava bem no meio dum
cemitério. Os amigos viviam caçoando do moço, perguntando pra ele se ele não enjoava
de ir e voltar toda noite naquela bruta escuridão e, ainda por cima, atravessar um
cemitério.
O moço não fazia conta da conversa deles e ia sempre ver a namorada e não tinha medo de
nada do que viesse a aparecer ou tentar ele, quando passava por lá.
Os outros cinco, que eram muito pândegos, tiveram uma idéia de assustar ele. Foram na
loja, compraram bastante pano branco e foram até na casa dum alfaiate, conhecido deles, e
pediram pro alfaiate fazer daquele pano cinco camisolas bem compridas e com um gorro que
cobrisse a cabeça inteira e ficasse só dois buracos pros olhos. E contaram pro alfaiate
o que iam fazer: iam combinar uma noite, ir tudo pro cemitério, e, na hora que o colega
passasse, iam pregar um susto nele.
Mas o alfaiate, que era muito amigo daquele que ia ser assustado, vai e conta o negócio
pro moço. Ele então diz pro alfaiate que fizesse outra roupa daquela, igualzinha pra
ele.
Então, no dia combinado, os cinco moços com todos aqueles camisolões, parecendo
assombração mesmo, vão tudo pro cemitério, mais ou menos na horinha que o outro ia
passar, voltando do namoro. E um deles fala:
- Olhe. Nós somos em cinco. Vocês dois ficam ali, atrás daquele túmulo. Eu e mais
você dois ficam ali na árvore...
Mas nisso, todos os cincos dão um berro e correram que não foi vida! Viram que não
estavam em cinco: tinha no meio uma assombração a mais. Aquilo foi um tal de
correr que não te conto nada!
Passou uma temporada, um dia todos estavam juntos, e um deles falou pro moço:
- Bem que os antigos sempre falavam que não presta abusar... - e contou o negócio que
eles queriam fazer ele e a lição que tomaram depois.
Mas o moço caiu na risada e contou que o alfaiate tinha falado tudo pra ele e aquela
assombração tinha sido ele mesmo.
(José Maria Saes Rosa)
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O Aleijado
Um aleijado, um preto e um moleque foram um dia roubar corrente no cemitério.
Primeiro o aleijado pulou o muro, depois foi o moleque e depois foi o preto.
Mas quando os três estavam lá dentro, diz que apareceu uma assombração.
O moleque e o preto saíram correndo e, quando estavam na rua, ficaram com dó do aleijado
e foram buscar ele.
Mas não acharam ele e pensaram que a assombração tinha pegado.
Depois foram na casa do aleijado. Fazia tempo que ele estava lá.
(Benedito Antônio Ferraz Filho, Tinho) |