São os tupinambás mui sujeitos à doença das boubas, que se pegam uns aos outros mormente enquanto são meninos, porque se não guardam de nada; e
têm para si que as hão de ter tarde ou cedo, e que o bom é terem-nas enquanto são
meninos, os quais não fazem outro remédio senão fazê-las secar, quando lhe saem para
fora, o que fazem com as tingirem com jenipapo; e quando isto não basta, curam-lhes estas
bostelas das boubas com a folha de caraoba de cuja virtude temos já feito menção, e
como se estas bostelas secam, tem para si que estão deste mau humor , e na verdade não
tem dores nas juntas como se elas secam. Em alguns tempos e lugares mais que os outros
são estes índios doentes de terçãs e quartãs , que lhes nascem de andar pela calma.
Sem nada na cabeça e de quando estão mais suados se banharem com água fria, metendo-se
nos rios e nas fontes, muitas vezes ao dia pelo tempo de calma; ou quando trabalham, que
estão cansados e suados, ás quais febres não fazem nenhuma cura senão comendo uns
mingaus que sÃo uns caldos de farinha de carimã, como já fica dito que são muito leves
e sadios; e untam-se com água de jenipapo, com o que ficam todos tintos de preto ao que
tem grande devoção.Curam estes índios algumas
apostemas e bexigas com sumo de ervas de virtudes que há entre eles, com que fazem muitas
curas muito notáveis, como já fica dito atrás; e quando se sentem carregados da
cabeça, sarjam nas fontes e aos meninos sarjam-nos nas pernas, quando tem febre, mas em
seco; o que fazem as velhas com um dente de cotia muito agudo, que tem para isso.
Curam as grandes feridas e flechadas com umas ervas, de
cujas virtudes fica dito atrás no seu título; com as quais curam o cano, que se lhes
enche muitas vezes de câncer; e as flechadas penetrantes e outras feridas, de que se
vêem em perigo, curam por um estranho modo, fazendo em cima do fogo um leito de varas
largas umas das outras sobre as quais deitam os feridos, com as feridas boca abaixo em
cima desse fogo, pelas quais com a quentura se lhes sai todo o sangue que tem dentro e a
umidade; e ficam as feridas sem nenhuma umidade; as quais depois curam com óleo e o
bálsamo, ou ervas, de que já fizemos menção, com o que tem saúde poucos dias; e não
há entre este gentio médicos assinalados, mas são-no muito bons os recolhidos. Destes
índios andarem sempre nus, e das fregueirices que fazem dormindo no chão, são muitas
vezes doentes de corrimentos a que eles chamam caruaras, de que lhes doem as juntas, das
quais são os feiticeiros grandes médicos chupando-lhes com a boca o lugar onde lhes
dói, onde as vezes lhes metem os dentes, e tiram da boca algum pedaço de ferro, ou outra
coisa, que lhes metem na cabeça tirar daquele lugar onde chupavam, e que quando lhes
doía lhes saíra fora, onde lhes tingem com jenipapo, com que dizem que se acha logo bom.
(SOUZA, Gabriel Soares de. Tratado
descritivo do Brasil em 1587. 4ª ed. São Paulo, Companhia Editora Nacional e
Editora da USP, 1971. Brasiliana, v. 117)
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