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Ano II - novembro 1999 - nº 15

Sua revista com a cara e a alma brasileira


SUMÁRIO - EDIÇÃO 15
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA

Melo Moraes Filho descreve as procissões e as preces para pedir chuva.

Veja como os índios tupinambás se curavam das suas enfermidades, no Brasil do século XVI. Um texto de Gabriel Soares de Souza.

Fantasmas e assombrações. Santas almas benditas, de Luís da Câmara Cascudo.

CATAVENTO
ALMANAQUE

 

PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...


QUE TRATA DE COMO SE ESTE GENTIO CURA EM SUAS ENFERMIDADES

Gabriel Soares de Souza


São os tupinambás mui sujeitos à doença das boubas, que se pegam uns aos outros mormente enquanto são meninos, porque se não guardam de nada; e têm para si que as hão de ter tarde ou cedo, e que o bom é terem-nas enquanto são meninos, os quais não fazem outro remédio senão fazê-las secar, quando lhe saem para fora, o que fazem com as tingirem com jenipapo; e quando isto não basta, curam-lhes estas bostelas das boubas com a folha de caraoba de cuja virtude temos já feito menção, e como se estas bostelas secam, tem para si que estão deste mau humor , e na verdade não tem dores nas juntas como se elas secam. Em alguns tempos e lugares mais que os outros são estes índios doentes de terçãs e quartãs , que lhes nascem de andar pela calma. Sem nada na cabeça e de quando estão mais suados se banharem com água fria, metendo-se nos rios e nas fontes, muitas vezes ao dia pelo tempo de calma; ou quando trabalham, que estão cansados e suados, ás quais febres não fazem nenhuma cura senão comendo uns mingaus que sÃo uns caldos de farinha de carimã, como já fica dito que são muito leves e sadios; e untam-se com água de jenipapo, com o que ficam todos tintos de preto ao que tem grande devoção.

Curam estes índios algumas apostemas e bexigas com sumo de ervas de virtudes que há entre eles, com que fazem muitas curas muito notáveis, como já fica dito atrás; e quando se sentem carregados da cabeça, sarjam nas fontes e aos meninos sarjam-nos nas pernas, quando tem febre, mas em seco; o que fazem as velhas com um dente de cotia muito agudo, que tem para isso.

Curam as grandes feridas e flechadas com umas ervas, de cujas virtudes fica dito atrás no seu título; com as quais curam o cano, que se lhes enche muitas vezes de câncer; e as flechadas penetrantes e outras feridas, de que se vêem em perigo, curam por um estranho modo, fazendo em cima do fogo um leito de varas largas umas das outras sobre as quais deitam os feridos, com as feridas boca abaixo em cima desse fogo, pelas quais com a quentura se lhes sai todo o sangue que tem dentro e a umidade; e ficam as feridas sem nenhuma umidade; as quais depois curam com óleo e o bálsamo, ou ervas, de que já fizemos menção, com o que tem saúde poucos dias; e não há entre este gentio médicos assinalados, mas são-no muito bons os recolhidos. Destes índios andarem sempre nus, e das fregueirices que fazem dormindo no chão, são muitas vezes doentes de corrimentos a que eles chamam caruaras, de que lhes doem as juntas, das quais são os feiticeiros grandes médicos chupando-lhes com a boca o lugar onde lhes dói, onde as vezes lhes metem os dentes, e tiram da boca algum pedaço de ferro, ou outra coisa, que lhes metem na cabeça tirar daquele lugar onde chupavam, e que quando lhes doía lhes saíra fora, onde lhes tingem com jenipapo, com que dizem que se acha logo bom.

(SOUZA, Gabriel Soares de. Tratado descritivo do Brasil em 1587. 4ª ed. São Paulo, Companhia Editora Nacional e Editora da USP, 1971. Brasiliana, v. 117)

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