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Ano II - novembro 1999 - nº 15

Sua revista com a cara e a alma brasileira


SUMÁRIO - EDIÇÃO 15
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA

Melo Moraes Filho descreve as procissões e as preces para pedir chuva.

Veja como os índios tupinambás se curavam das suas enfermidades, no Brasil do século XVI. Um texto de Gabriel Soares de Souza.

Fantasmas e assombrações. Santas almas benditas, de Luís da Câmara Cascudo.

CATAVENTO
ALMANAQUE

 

PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...


PRECES PARA PEDIR CHUVA

Melo de Morais Filho


Dentre os nossos costumes populares, mais generalizados e ainda existentes no Brasil, um dos mais líricos e religiosamente belos em sua simpleza são as procissões de preces, essas romarias propiciatórias empreendidas por famílias e habitantes de uma localidade, com o fim de obter do céu intervenção benéfica contra calamidades públicas, que assolam, circunscritas a terra e o homem.

A nota desses costumes derivados das primitivas idades da igreja, é de ordinário vibrada nos templos pelos respectivos vigários, e daí repercute sonora e desoladora por toda uma vila, um termo, uma cidade.

Nos tempos de seca, quando o sol, que reanima a natureza mata a planta e os viventes; quando os crepúsculos assemelham-se a fornalhas de cobre candente que abrasam as estradas e os campos; e a fome e a morte levantam-se das plantações que torram, das fontes sem água como órbitas vazadas, do fumo que ondula em espirais fantásticas das matas que se incendeiam, os sacerdotes e o povo refugiam-se em Deus.

Desde pela manhã, os vigários das freguesias da roça exortavam os fiéis e as ladainhas, as sagradas orações à Virgem, a penitência serviam de intermediárias entre o Criador e a Criatura, no pleno domínio da desesperança dos dias funestos.

Se no lugar devastado havia mais igrejas, à tarde, as procissões encontravam-se, seguidas de grande multidão. Os penitentes açoitavam-se; as mulheres caminhavam descalças e de cabelos soltos, as imagens trocavam-se nos templos, permanecendo ausentes de seus altares até a queda da primeira chuva.

Esses atos religiosos, essas rogações para pedir chuva, anunciados depois da leitura dos pregões pelo pároco da freguesia eram na pluralidades das vezes realizados exclusivamente pelo povo, que acudia espontâneo a aplacar o castigo do céu por meio de demonstrações humildes, de sacrifícios dolorosos, de rezas específicas.

E os agricultores contritos associavam-se a esses deveres, todas as condições se nivelaram diante de uma idéia que pedia perdão, que ciliava-se penitente em presença do aniquilamento progressivo que se abatia sobre a terra como um pirata que rouba e assassina à meia-noite!

Na província do Rio de janeiro onde localizamos esta cena, as preces que falamos, além do relevo propriamente religioso, isto é, do que se passava na igreja, apresentavam saliências de características popular, em cuja superfície plana refletiam-se os tons quentes e variados das pinturas de gênero.

No começo das secas, quando uma atmosfera de forno prenunciava a destruição, os vigários no fim da Missa e em breves prédicas, preparavam o espírito de seus paroquianos para a iniciação das preces, que alguns dias mais tardes se faziam ouvir lamentosas no recinto dos templos e na extensão quase deserta das estradas.

Do púlpito terminada a celebração do domingo ou acabada, como dissemos, a leitura de proclamas, muitos deles aconselhavam ao povo que saísse em procissão com as sua imagens privativas auxiliando-se destarte nos deveres da fé, nas súplicas fecundas ao altíssimo para a extinção do flagelo.

Então a consciência cristã, no remanso do lar, compenetrada de suas culpas e atribuindo a intensidade inextinguível da seca a verdadeiro e provado castigo, recolhia em si mesma, procurando atenuar tantos males com a devoção mais íntima e profundamente sincera.

A manifestação externa desse sentimento, a forma clássica debaixo da qual palpitava esse pensamento perfumado de incenso do santuário, era caprichosa e original, sobressaindo pelo maravilhoso do espetáculo, pelo fantástico da visão.

Desde logo, à beira das estradas ou no meio das matas, descobriam luzes que se moviam, vultos que circulavam na sala, sombras que trepavam em bancos, em cadeiras, pregando colchas, suspendendo arcadas de flores acima da portadas.

Eram as famílias que armavam as suas casas de taipa, preparavam seus andores para as preces ambulantes.

No quarto, em frente à entrada de portas abertas, os oratórios de lamparinas acesas, sobressaíam de um fundo agaloado, semeado de estrelinhas douradas com apanhados de fofos de paninho enlaçados de fitas.

No centro das referidas salas amanheciam os pequenos andores rodeados de velas, vistosos de planejamento bizarramente coloridos, entremeados de rendas e orlados de trancelins de vários matizes.

Continuamente, ao escurecer, os vizinhos e convidados enchiam as casas, e um ou outro figurante capital do cortejo vinha lá de dentro para incorporar aos préstitos que sem delongas, punham-se em marcha.

E o céu puro e límpido; nem uma nuvem branca toldava o esplendor das estrelas que brilhavam na imensidade, parecendo soltas no éter azul e cristalizado.

O ar abafava, as exalações dos pauis apegavam-se às vestiduras da noite, os sapos, pulando nos caminhos inchavam o papo amarelento, martelavam as forjas nos brejais, nas furnas das pedras ao relento.

Aqui e ali ouvia-se o grito do bacurau que estrebuchava nas garras de ferro da coruja...

Por essas horas, as procissões de preces, adiantadas em seu percurso apercebiam ao longe em núcleos luminosos nas elipses de fogo avermelhado que planavam no além...

De repente um grande foco concentrava subdividindo após o tomando direções múltiplas.

Eram as procissões que se encontravam em uma curva, que paravam por instantes, apartavam ao coro das rezas dos benditos entoados pelos penitentes em trânsito.

De quando em quando, um carro de boi sulcava a estrada sufocando nos guinchos estrídulos as vozes dos religiosos, concerto da piedosa serenata da multidão campesina em suas orações populares.

Depois, uma daquelas auréolas luzentes, um daqueles grupos remotos desdobrava-se em luzes isoladas, vencia a extensão, achegava-se.

E o canto interpretando o voto comum, tradicional em certas paragens à oportunidade do momento, ecoava pungitivo e prolongado carregando ainda mais o terror daquelas almas em sua peregrinação lustral:

Virgem Santa dos Remédios,
Que a todos remediais,
Nós que somos pecadores,
Cada vez pecamos mais.

Rainha de eterna glória,
Mãe de Deus, doce e clemente,
Daí-nos água que nos molhe,
Daí-nos pão que nos sustente.

E pelos vales e serras, os ecos - órgão das florestas – acompanhavam as preces súplicas ferventes, reboando na imensidade!

A procissão desfilando nos caminhos não tinha pompas solenes, mas uma pragmática estabelecida.

Os leves andores levados geralmente por moças ou meninas, seguidos de velhos e crianças, de escravos e livres, adiantavam-se na noite, escoltados de pessoas descalças por penitência, de senhoras de cabelos esparsos sobre as espáduas, de indivíduos votivamente maltrapilhos, que acentuavam com mais vigor o arrependimento de suas culpas, motivadoras também do providencial castigo.

E das pequenas velas de cera que ardiam – flores de fogo daquela procissão espectral – aclarava-se o cortejo e a senda, prosseguindo as rogações cantadas em que as vozes mais ásperas contrastavam com as melodias suaves e as dissonâncias agradáveis das vozes infantis:

Compadecei-vos, Senhora,
De nossos prantos e dores,
Morremos à toda sede,
Porque somos pecadores.

Pedimos a vós, Senhora,
Dona da terra e do mar,
Refrigério para o corpo,
Graça para vos amar.

A esses rumores as aves acordavam tontas nos matagais silentes, as saracuras despertavam quebros nos mangues borbulhantes e os insetos zumbiam em fanfarra lôbrega na obscuridade iluminada das capoeiras densas.

E a procissão passavam seguia, sumia-se, recolhendo-se bem tarde.

De volta trocavam às vezes os santos que pernoitavam em casas diferentes e lá iam, seu destino pulverizando de luzes pequenas zonas de trevas.

Chegando os penitentes a domicílio, apenas a turba de acompanhantes dispersava-se e os graciosos andores ocupavam determinados lugares nas salas iluminadas, cada família fazia modesta ceia antes e depois da qual o desejo e a impaciência transpareciam nos semblantes e materializavam-se nas ações.

Aqui era uma moça que, chegando à porta e estendendo a mão, dizia que já chuviscava; ali, um roceiro que olhava para o céu e aspirava a terra farejando chuva, acolá um indivíduo qualquer que afirmava achar-se ele iminente, apontando para uma nuvenzinha solitária e perdida, descobrindo estrelas que não estavam, antes...

Entretanto, porém, alguma coisa de extraordinário se dava por aquelas ocasiões. Testemunhas autênticas e insuspeitas confirmam não ser estranho que, com a primeira procissão de preces, verdadeiros dilúvios desabassem inesperadamente sem que uma leve aragem, um sinal obscuro apenas os houvessem prenunciado...

E era belo de ver-se aqueles penitentes, aquele povo robustecido em sua fé, abrir caminho ao marulho das enxurradas ao soprar rijo da ventania resguardando as suas imagens deslumbrado pelos relâmpagos forrados de negro da tormenta!

E a enormidade estourava!...

(MORAES FILHO, Melo. Festas e tradições populares do Brasil. Belo Horizonte,  Editora Itatiaia, 1979. Reconquista do Brasil, 55)

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