Dentre os nossos costumes populares, mais generalizados e ainda existentes no Brasil, um
dos mais líricos e religiosamente belos em sua simpleza são as procissões de preces,
essas romarias propiciatórias empreendidas por famílias e habitantes de uma localidade,
com o fim de obter do céu intervenção benéfica contra calamidades públicas, que
assolam, circunscritas a terra e o homem.A nota
desses costumes derivados das primitivas idades da igreja, é de ordinário vibrada nos
templos pelos respectivos vigários, e daí repercute sonora e desoladora por toda uma
vila, um termo, uma cidade.
Nos tempos de seca, quando o sol, que reanima a natureza
mata a planta e os viventes; quando os crepúsculos assemelham-se a fornalhas de cobre
candente que abrasam as estradas e os campos; e a fome e a morte levantam-se das
plantações que torram, das fontes sem água como órbitas vazadas, do fumo que ondula em
espirais fantásticas das matas que se incendeiam, os sacerdotes e o povo refugiam-se em
Deus.
Desde pela manhã, os vigários das freguesias da roça
exortavam os fiéis e as ladainhas, as sagradas orações à Virgem, a penitência serviam
de intermediárias entre o Criador e a Criatura, no pleno domínio da desesperança dos
dias funestos.
Se no lugar devastado havia mais igrejas, à tarde, as
procissões encontravam-se, seguidas de grande multidão. Os penitentes açoitavam-se; as
mulheres caminhavam descalças e de cabelos soltos, as imagens trocavam-se nos templos,
permanecendo ausentes de seus altares até a queda da primeira chuva.
Esses atos religiosos, essas rogações para pedir chuva,
anunciados depois da leitura dos pregões pelo pároco da freguesia eram na pluralidades
das vezes realizados exclusivamente pelo povo, que acudia espontâneo a aplacar o castigo
do céu por meio de demonstrações humildes, de sacrifícios dolorosos, de rezas
específicas.
E os agricultores contritos associavam-se a esses
deveres, todas as condições se nivelaram diante de uma idéia que pedia perdão, que
ciliava-se penitente em presença do aniquilamento progressivo que se abatia sobre a terra
como um pirata que rouba e assassina à meia-noite!
Na província do Rio de janeiro onde localizamos esta
cena, as preces que falamos, além do relevo propriamente religioso, isto é, do que se
passava na igreja, apresentavam saliências de características popular, em cuja
superfície plana refletiam-se os tons quentes e variados das pinturas de gênero.
No começo das secas, quando uma atmosfera de forno
prenunciava a destruição, os vigários no fim da Missa e em breves prédicas,
preparavam o espírito de seus paroquianos para a iniciação das preces, que alguns dias
mais tardes se faziam ouvir lamentosas no recinto dos templos e na extensão quase deserta
das estradas.
Do púlpito terminada a celebração do domingo ou
acabada, como dissemos, a leitura de proclamas, muitos deles aconselhavam ao povo que
saísse em procissão com as sua imagens privativas auxiliando-se destarte
nos deveres da fé, nas súplicas fecundas ao altíssimo para a extinção do flagelo.
Então a consciência cristã, no remanso do lar,
compenetrada de suas culpas e atribuindo a intensidade inextinguível da seca a verdadeiro
e provado castigo, recolhia em si mesma, procurando atenuar tantos males com a devoção
mais íntima e profundamente sincera.
A manifestação externa desse sentimento, a forma
clássica debaixo da qual palpitava esse pensamento perfumado de incenso do santuário,
era caprichosa e original, sobressaindo pelo maravilhoso do espetáculo, pelo fantástico
da visão.
Desde logo, à beira das estradas ou no meio das matas,
descobriam luzes que se moviam, vultos que circulavam na sala, sombras que trepavam em
bancos, em cadeiras, pregando colchas, suspendendo arcadas de flores acima da portadas.
Eram as famílias que armavam as suas casas de taipa,
preparavam seus andores para as preces ambulantes.
No quarto, em frente à entrada de portas abertas, os
oratórios de lamparinas acesas, sobressaíam de um fundo agaloado,
semeado de estrelinhas douradas com apanhados de fofos de paninho enlaçados de fitas.
No centro das referidas salas amanheciam os pequenos
andores rodeados de velas, vistosos de planejamento
bizarramente coloridos, entremeados de rendas e orlados de trancelins de vários matizes.
Continuamente, ao escurecer, os vizinhos e convidados
enchiam as casas, e um ou outro figurante capital do cortejo vinha lá de dentro para
incorporar aos préstitos que sem delongas, punham-se em marcha.
E o céu puro e límpido; nem uma nuvem branca toldava o
esplendor das estrelas que brilhavam na imensidade, parecendo soltas no éter azul e
cristalizado.
O ar abafava, as exalações dos pauis apegavam-se às
vestiduras da noite, os sapos, pulando nos caminhos inchavam o papo amarelento, martelavam
as forjas nos brejais, nas furnas das pedras ao relento.
Aqui e ali ouvia-se o grito do bacurau
que estrebuchava nas garras de ferro da coruja...
Por essas horas, as procissões de preces, adiantadas em
seu percurso apercebiam ao longe em núcleos luminosos nas elipses de fogo avermelhado que
planavam no além...
De repente um grande foco concentrava subdividindo após
o tomando direções múltiplas.
Eram as procissões que se encontravam em uma curva, que
paravam por instantes, apartavam ao coro das rezas dos benditos entoados pelos penitentes
em trânsito.
De quando em quando, um carro de boi sulcava a estrada
sufocando nos guinchos estrídulos as vozes dos religiosos, concerto da piedosa serenata
da multidão campesina em suas orações populares.
Depois, uma daquelas auréolas luzentes, um daqueles
grupos remotos desdobrava-se em luzes isoladas, vencia a extensão, achegava-se.
E o canto interpretando o voto comum, tradicional em
certas paragens à oportunidade do momento, ecoava pungitivo e prolongado carregando ainda
mais o terror daquelas almas em sua peregrinação lustral:
Virgem Santa dos Remédios,
Que a todos remediais,
Nós que somos pecadores,
Cada vez pecamos mais.
Rainha de eterna glória,
Mãe de Deus, doce e clemente,
Daí-nos água que nos molhe,
Daí-nos pão que nos sustente.
E pelos vales e serras, os ecos - órgão das florestas
acompanhavam as preces súplicas ferventes, reboando
na imensidade!
A procissão desfilando nos caminhos não tinha pompas
solenes, mas uma pragmática estabelecida.
Os leves andores levados geralmente por moças ou
meninas, seguidos de velhos e crianças, de escravos e livres, adiantavam-se na noite,
escoltados de pessoas descalças por penitência, de senhoras de cabelos esparsos sobre as
espáduas, de indivíduos votivamente maltrapilhos, que
acentuavam com mais vigor o arrependimento de suas culpas, motivadoras também do
providencial castigo.
E das pequenas velas de cera que ardiam flores de
fogo daquela procissão espectral aclarava-se o cortejo e a senda, prosseguindo as
rogações cantadas em que as vozes mais ásperas contrastavam com as melodias suaves e as
dissonâncias agradáveis das vozes infantis:
Compadecei-vos, Senhora,
De nossos prantos e dores,
Morremos à toda sede,
Porque somos pecadores.
Pedimos a vós, Senhora,
Dona da terra e do mar,
Refrigério para o corpo,
Graça para vos amar.
A esses rumores as aves acordavam tontas nos matagais
silentes, as saracuras despertavam quebros nos mangues borbulhantes e os insetos zumbiam
em fanfarra lôbrega na obscuridade iluminada das capoeiras densas.
E a procissão passavam seguia, sumia-se, recolhendo-se
bem tarde.
De volta trocavam às vezes os santos que pernoitavam em
casas diferentes e lá iam, seu destino pulverizando de luzes pequenas zonas de trevas.
Chegando os penitentes a domicílio, apenas a turba de
acompanhantes dispersava-se e os graciosos andores ocupavam determinados lugares nas salas
iluminadas, cada família fazia modesta ceia antes e depois da qual o desejo e a
impaciência transpareciam nos semblantes e materializavam-se nas ações.
Aqui era uma moça que, chegando à porta e estendendo a
mão, dizia que já chuviscava; ali, um roceiro que olhava para o céu e aspirava a terra
farejando chuva, acolá um indivíduo qualquer que afirmava achar-se ele iminente,
apontando para uma nuvenzinha solitária e perdida, descobrindo estrelas que não estavam,
antes...
Entretanto, porém, alguma coisa de extraordinário se
dava por aquelas ocasiões. Testemunhas autênticas e insuspeitas confirmam não ser
estranho que, com a primeira procissão de preces, verdadeiros dilúvios desabassem
inesperadamente sem que uma leve aragem, um sinal obscuro apenas os houvessem
prenunciado...
E era belo de ver-se aqueles penitentes, aquele povo
robustecido em sua fé, abrir caminho ao marulho das enxurradas ao soprar rijo da ventania
resguardando as suas imagens deslumbrado pelos relâmpagos forrados de negro da tormenta!
E a enormidade estourava!...
(MORAES FILHO, Melo. Festas
e tradições populares do Brasil. Belo Horizonte, Editora Itatiaia, 1979.
Reconquista do Brasil, 55) |