A história anda cheia de assentamento acerca da maneira dos povos traduzirem,
publicamente sua dor pela perda dos seus entes amados. A Bíblia contando a vida dos
hebreus cita várias vezes gente que rasgava as vestes e cobria a cabeça de cinzas, para
que todos os vissem a sua mágoa. As lamentações mesmo constituindo lugar comum, tinham
seu ponto de honra em tais momentos.Os gregos ao
que se sabe vestiam luto pelo menos nos funerais. Helenos e egípcios cultivaram o
estranho costume de cortar as sombrancelhas para melhor prantear seus parentes
afeiçoados. Os romanos conduziam com rigorismo o luto para as mulheres, embora fosse para
os homens apenas uma obrigação moral. Em Roma, aliás, o azul era a cor de eleição
para o luto na intenção dos descentes. Questão da época.
Não botar luto já foi ofensa grave ou manifestação de
falta de decoro. Na atualidade quando não se usa mais luto por evidente ausência de
ambiente para a persistência de tal uso, ainda se lêem nos jornais notícias de outros
países onde ainda há quem rasgue a roupa, desnude o busto corte os cabelos ou se cubra
de pesados véus. Também temos notícias de tonalidades diversas para exprimir sentimento
pela morte de alguém, cores as mais imprevisíveis para quem foi acostumado a ver o preto
como sinal de luto.
Já se pôs de luto e por todos. A ordem geral era
"botar luto". A ética marcava os meses e os anos da duração do sentimento.
Viúvo e viúva possuíam um código verdadeiro cinturão de aço, que quase tornava o
cônjuge sobrevivente numa espécie de sombra do falecido. O luto tinha de ser fechado
e fadado a continuar até o resto dos seus amargurados dias.
Luto fechado, no conceito reinante, consistia em
vestido negro, negríssimo com gola subida, mangas compridas, e o comprimento da saia o
mais fora da moda possível, longo, longo, muito longo. Barras de espesso crepe, preto
retinto, recobriam a parte inferior da saia, subindo em recortes consoante o gosto de cada
qual, pelo casaco invadindo a gola e punhos. Luvas pretas, sapatos pretos, cabo de
guarda-sol preto. Isto para a mulher.
Para o homem era terno preto, camisa branca ou branca com
riscas pretas, abotoaduras dos punhos e botões do peito da citada camisa bem pretinhos,
gravata preta. Meias e botinas pretas. fumos pretos na manga do paletó preto.
Era um nunca acabar de tanto preto. Além de tudo, o colete.
Havia o luto fechado sem ser pesado em que o
crepe não aparecia nas vestes femininas sendo substituído por requifes também pretos.
Quanto aos homens dispensava-se apenas o fumo do braço, mas tendo que conservar o que
cobria a fita do chapéu.
Luto aliviado era mais ou menos o de hoje.
Contas e argolas pretas é que não faltava em hipótese algumas. Contas e colares também
por vezes, pulseiras jamais dispensadas mesmo pelas mulheres pouco vaidosas. Eram uns
adereços feitos com vidrilhos e contas de formatos diversos, enfiadas em casa, de acordo
com a fantasia ou habilidade de quem executasse o trabalho.
Luto de marido ou de mulher durava a vida toda, salvo se
casasse de novo. Para pai e mãe um ano fechado sendo seis meses com crepe. Irmão e irmã
obrigava a seis meses fechado e seis meses aliviado. Tios e sobrinhos, três meses
fechado, três meses aliviado. Primos, compadres e amigos diletos três meses aliviado.
Parente longe ou amigo por quem se precisasse dar uma satisfação ao público cabia um fumo
no braço e outro no chapéu para os homens, contas e argolas pretas para as mulheres.
Havia o chorão. O chorão no luto de pai e mãe
era preso ao chapéu de jeito que caísse sobre um dos ombros apenas. Cabe dizer que o
chorão era um véu de gaze, voale ou outra fazenda mole. No luto de marido, o chorão
caía sobre as costas, complementando o véu que cobria a face da viúva. Viúva não
podia sair de cara descoberta. Se não tinha chapéu, envolvia a cabeça numa mantilha ou
xale preto.
Viúva que aliviasse luto antes do tempo, sem obedecer
três anos de completo negror, dava que falar. Se vestia lilás, roxo, cinza ou moldes
muito no rigor da moda, demonstrava estar de casamento em vista ou ter sido desviuvada de
forma ilícita.
Viúva honesta tinha de vestir preto e desistir de vida
mundana. Se depois de certo tempo, dez ou quinze anos, freqüentava casas de amigas em
dias de festa, ficava discretamente sentada no quarto da sala, sem participar das alegrias
gerais. O viúvo também ficava obrigado à roupa preta e às mesmas obrigações de
retiro.
Para a alma do falecido não penar, de noite todos
tiravam o luto. Vestiam roupas claras, de preferência brancas, caso ficassem em casa. Na
rua, continuava no mesmo. Quem se atrevia a sair sem luto? Também de noite não se falava
nos mortos sem anteceder o nome de cada com um adjetivo: finado ou finada. Era um modo
direto de dar a conhecer a qualquer alma a sua nova situação. Era uma sábia
advertência ao espírito que estivesse, por acaso, circulando pelas imediações dos
palestrantes. O fantasma que ouvisse alguém se referir ao Finado Fulano, ainda
alimentaria dúvidas sobre já não pertencer vivos?
Gente de luto só podia escrever em papel tarjado de
preto, com o respectivo envelope também no mesmo estilo. Tinta preta naturalmente. Tinta
violeta ou azul impressionava mal. O preto era uma constante até certo ponto enervante,
para quem não tivesse temperamento mórbido.
O luto caiu da moda. Primeiro foram os espíritas negando
a morte; depois os comodistas afirmando que quem sente é o coração e não a roupa. Os
eternos monarcas, hoje, reclamam a falta do preto nas vestes dos enlutados murmurando que
quem morre é que perde a vida.
Sem chorões, sem crepes, sem papéis de correspondência
tarjados de preto, com colares e argolas cinzentas, meio prateadas apenas, as mulheres
agora só põem luto quando querem botar. O preto é uma cor como outra qualquer. Argolas
pretas passaram a ser adorno comuns, sem nada ter com mortes ou sentimentos.
Dos homens já nem se fala. Luto traduzido na roupa caiu
em desuso. Afinal é um estado de espírito. Não é uma voga ditada pelo último
figurino. Que fim levou o fumo, aquele pedaço de fazenda preta do tipo jérsei
no jeito de braçadeira, espécie de cartaz de anúncio de uma dor, nem sempre existente?
Penou na manga dos casacos, nas copas dos chapéus. Com as crises de luto, refugiou-se na
lapela de uns tantos medrosos da língua dos críticos. Terminou sumindo. Em falar no
caso: que fim levou o fumo?
(VIANA, Hildegardes. A
Bahia já foi assim crônicas de costumes. 2ª ed. Brasília, Ed. GRD,
1979) |