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Ano II - novembro 1999 - nº 15

Sua revista com a cara e a alma brasileira


SUMÁRIO - EDIÇÃO 15
FESTANÇA
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PALHOÇA
Nosso Pai, a  última comunhão levada aos moribundos. As reminiscências de Mário Sette e seus tempos de menino em Recife.

"...aparecia quem soprasse, disfarçadamente aos ouvidos do cadáver uma recomendação para que fosse só e se esquecesse da terra". Leia Final de enterro.

"Para a alma do falecido não penar, de noite todos tiravam o luto". Tempo de luto, os costumes seguidos por quem perdia seus entes queridos.
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE

 

PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...


TEMPO DE LUTO

Hildegardes Viana


A história anda cheia de assentamento acerca da maneira dos povos traduzirem, publicamente sua dor pela perda dos seus entes amados. A Bíblia contando a vida dos hebreus cita várias vezes gente que rasgava as vestes e cobria a cabeça de cinzas, para que todos os vissem a sua mágoa. As lamentações mesmo constituindo lugar comum, tinham seu ponto de honra em tais momentos.

Os gregos ao que se sabe vestiam luto pelo menos nos funerais. Helenos e egípcios cultivaram o estranho costume de cortar as sombrancelhas para melhor prantear seus parentes afeiçoados. Os romanos conduziam com rigorismo o luto para as mulheres, embora fosse para os homens apenas uma obrigação moral. Em Roma, aliás, o azul era a cor de eleição para o luto na intenção dos descentes. Questão da época.

Não botar luto já foi ofensa grave ou manifestação de falta de decoro. Na atualidade quando não se usa mais luto por evidente ausência de ambiente para a persistência de tal uso, ainda se lêem nos jornais notícias de outros países onde ainda há quem rasgue a roupa, desnude o busto corte os cabelos ou se cubra de pesados véus. Também temos notícias de tonalidades diversas para exprimir sentimento pela morte de alguém, cores as mais imprevisíveis para quem foi acostumado a ver o preto como sinal de luto.

Já se pôs de luto e por todos. A ordem geral era "botar luto". A ética marcava os meses e os anos da duração do sentimento. Viúvo e viúva possuíam um código verdadeiro cinturão de aço, que quase tornava o cônjuge sobrevivente numa espécie de sombra do falecido. O luto tinha de ser fechado e fadado a continuar até o resto dos seus amargurados dias.

Luto fechado, no conceito reinante, consistia em vestido negro, negríssimo com gola subida, mangas compridas, e o comprimento da saia o mais fora da moda possível, longo, longo, muito longo. Barras de espesso crepe, preto retinto, recobriam a parte inferior da saia, subindo em recortes consoante o gosto de cada qual, pelo casaco invadindo a gola e punhos. Luvas pretas, sapatos pretos, cabo de guarda-sol preto. Isto para a mulher.

Para o homem era terno preto, camisa branca ou branca com riscas pretas, abotoaduras dos punhos e botões do peito da citada camisa bem pretinhos, gravata preta. Meias e botinas pretas. fumos pretos na manga do paletó preto. Era um nunca acabar de tanto preto. Além de tudo, o colete.

Havia o luto fechado sem ser pesado em que o crepe não aparecia nas vestes femininas sendo substituído por requifes também pretos. Quanto aos homens dispensava-se apenas o fumo do braço, mas tendo que conservar o que cobria a fita do chapéu.

Luto aliviado era mais ou menos o de hoje. Contas e argolas pretas é que não faltava em hipótese algumas. Contas e colares também por vezes, pulseiras jamais dispensadas mesmo pelas mulheres pouco vaidosas. Eram uns adereços feitos com vidrilhos e contas de formatos diversos, enfiadas em casa, de acordo com a fantasia ou habilidade de quem executasse o trabalho.

Luto de marido ou de mulher durava a vida toda, salvo se casasse de novo. Para pai e mãe um ano fechado sendo seis meses com crepe. Irmão e irmã obrigava a seis meses fechado e seis meses aliviado. Tios e sobrinhos, três meses fechado, três meses aliviado. Primos, compadres e amigos diletos três meses aliviado. Parente longe ou amigo por quem se precisasse dar uma satisfação ao público cabia um fumo no braço e outro no chapéu para os homens, contas e argolas pretas para as mulheres.

Havia o chorão. O chorão no luto de pai e mãe era preso ao chapéu de jeito que caísse sobre um dos ombros apenas. Cabe dizer que o chorão era um véu de gaze, voale ou outra fazenda mole. No luto de marido, o chorão caía sobre as costas, complementando o véu que cobria a face da viúva. Viúva não podia sair de cara descoberta. Se não tinha chapéu, envolvia a cabeça numa mantilha ou xale preto.

Viúva que aliviasse luto antes do tempo, sem obedecer três anos de completo negror, dava que falar. Se vestia lilás, roxo, cinza ou moldes muito no rigor da moda, demonstrava estar de casamento em vista ou ter sido desviuvada de forma ilícita.

Viúva honesta tinha de vestir preto e desistir de vida mundana. Se depois de certo tempo, dez ou quinze anos, freqüentava casas de amigas em dias de festa, ficava discretamente sentada no quarto da sala, sem participar das alegrias gerais. O viúvo também ficava obrigado à roupa preta e às mesmas obrigações de retiro.

Para a alma do falecido não penar, de noite todos tiravam o luto. Vestiam roupas claras, de preferência brancas, caso ficassem em casa. Na rua, continuava no mesmo. Quem se atrevia a sair sem luto? Também de noite não se falava nos mortos sem anteceder o nome de cada com um adjetivo: finado ou finada. Era um modo direto de dar a conhecer a qualquer alma a sua nova situação. Era uma sábia advertência ao espírito que estivesse, por acaso, circulando pelas imediações dos palestrantes. O fantasma que ouvisse alguém se referir ao Finado Fulano, ainda alimentaria dúvidas sobre já não pertencer vivos?

Gente de luto só podia escrever em papel tarjado de preto, com o respectivo envelope também no mesmo estilo. Tinta preta naturalmente. Tinta violeta ou azul impressionava mal. O preto era uma constante até certo ponto enervante, para quem não tivesse temperamento mórbido.

O luto caiu da moda. Primeiro foram os espíritas negando a morte; depois os comodistas afirmando que quem sente é o coração e não a roupa. Os eternos monarcas, hoje, reclamam a falta do preto nas vestes dos enlutados murmurando que quem morre é que perde a vida.

Sem chorões, sem crepes, sem papéis de correspondência tarjados de preto, com colares e argolas cinzentas, meio prateadas apenas, as mulheres agora só põem luto quando querem botar. O preto é uma cor como outra qualquer. Argolas pretas passaram a ser adorno comuns, sem nada ter com mortes ou sentimentos.

Dos homens já nem se fala. Luto traduzido na roupa caiu em desuso. Afinal é um estado de espírito. Não é uma voga ditada pelo último figurino. Que fim levou o fumo, aquele pedaço de fazenda preta do tipo jérsei no jeito de braçadeira, espécie de cartaz de anúncio de uma dor, nem sempre existente? Penou na manga dos casacos, nas copas dos chapéus. Com as crises de luto, refugiou-se na lapela de uns tantos medrosos da língua dos críticos. Terminou sumindo. Em falar no caso: que fim levou o fumo?

(VIANA, Hildegardes. A Bahia já foi assim – crônicas de costumes. 2ª ed. Brasília, Ed. GRD, 1979)

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