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Ano II - novembro 1999 - nº 15

Sua revista com a cara e a alma brasileira


SUMÁRIO - EDIÇÃO 15
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
Nosso Pai, a  última comunhão levada aos moribundos. As reminiscências de Mário Sette e seus tempos de menino em Recife.

"...aparecia quem soprasse, disfarçadamente aos ouvidos do cadáver uma recomendação para que fosse só e se esquecesse da terra". Leia Final de enterro.

"Para a alma do falecido não penar, de noite todos tiravam o luto". Tempo de luto, os costumes seguidos por quem perdia seus entes queridos.
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE

 

PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...


FINAL DE ENTERRO

Hildegardes Viana


A rua ficava coalhada de homens à proximidade da hora do enterro. Parentes conhecidos e vizinhos do morto. Todos os solenes, vestidos de preto, chapéu na mão, reunidos em rodinhas de quatro e cinco. Um mensageiro era expedido, de tantos em tantos minutos, para se certificar se o bonde mortuário já estava estacionado no desvio de linha mais próximo.

Havia bondes mortuários com formatos especiais, preços tabelados conforme a classe, com o fim exclusivo de levar caixões de defunto para o cemitério. Os cheios de cortinas e safenas, plumas e tapetes, eram para os ricos. Para os pobres existia o franguinho d’água quase nu de adornos com umas modestas safenas, que voavam quando o veículo corria nos trilhos. O bonde-misto, conduzindo ao mesmo tempo o defunto e os acompanhantes era ainda mais modesto. Para os remediados contava-se com um, discretamente, decorado, com laços e cortinas pretas que lhe davam um aspecto sinistro de morcegos.

Anunciada a chegada do bonde, se o padre já tivesse feito a encomendação debaixo de uma mal reprimida saraivada de ataques e gritos histéricos, era a hora da despedida para se fechar o caixão. Enquanto mulheres caíam, umas duras e caladas, outras gritando e se debatendo, duas ou três choravam mansamente.

Estas é que apaziguavam as que em pranto soltavam exclamações dolorosas. Vinha alguém, de olhos enxutos a atitudes resolutas para desamarrar o defunto. Retirado o lenço do queixo, as ataduras das mãos e dos tornozelos, aparecia quem soprasse, disfarçadamente aos ouvidos do cadáver uma recomendação para que fosse só e se esquecesse da terra. Em compensação gente inconsciente do que fazia, possessa pelo desespero iniciava a enunciação exaltada de várias frases que se resumiam no clássico -Vem me buscar. Em tais casos, era difícil tentar deter as expressões de dor.

O morto, a esta altura já estava encharcado de umidade das flores e dos pingos de água benta que todos que entravam deviam lhe aspergir. As velhas se faziam de ligeiras correndo com os copos de calmantes por entre toda aquela atrapalhada de choros, lamentações e dores. A um sinal convencionado as mulheres de saia carregavam as bandejas de flores e saíam para a calçada aguardando os acontecimentos.

Se o padre demorava de vir encomendar o corpo, se havia algum contratempo, o bonde ficava esperando, como de praxe, no desvio mais próximo, de jeito a não perturbar o escasso tráfego. Gente perguntava de si para si a causa do atraso. Dizia-se que o morto estava com pena de ir ou, o que era pior, pretendia levar alguém consigo.

Afinal, entre uma gargalhada infernal, uma confusão quase pandemônio, saía o féretro conduzindo, a passos lentos, pelos parentes mais próximos e amigos mais chegados. As janelas da vizinhança ficavam apinhadas de curiosos todos de roupas mudadas, pois logo em seguida teriam que fazer uma visita à família enlutada. Também as janelas da casa do enterro se enchiam de parentes, que ficavam acenando com um lenço ou apenas gritando um adeus.

Mal o caixão desocupava a sala, o armador tirava tudo quanto era seu, azucrinado pela voz de alguma velhota, que pedia para não esquecer também de tirar o prego que tivesse servido para pendurar a capela na porta. Se semelhante prego ficasse, todo mundo sabia daria azar e o armador iria ficar freguês fazendo enterros amiúde, naquela casa.

Outra velha pegava a vassoura e varria o resto do defunto, dos fundos da cozinha para a frente, jogando tudo para a rua. Portas afora. Só então, embora a grade de dentro permanecesse aberta, cerrava-se a porta principal a meio. Era o sinal de luto.

Terminado o enterramento, os convidados voltavam para renovar os sentimentos e ofercer os préstimos. Porém era sabido que representava um pretexto para entregar o defunto ao seu dono. Se, por acaso, a alma viesse atrás de alguém preferisse ficar com seus familiares, fazendo visagens ou que estivesse em moda, e não com o pobre coitado do convidado, que apenas cumpria um dever de cristão, acompanhando um pecador à sua última morada.

Enterro a pé era como ainda é. Para gente mais grande ou muito pequena. Como ainda hoje os graúdos tinham muito quem carregasse, como se ainda fosse pouco o bonde mortuário e os de acompanhantes, vazios seguiam na esteira devagar, de prontidão. Os pobres, sem apelação, sempre lutaram contra o calor e as distâncias para os cemitérios parando para um revezamento ou para matar o bicho em alguma vendola.

Nos enterros de pobres, as mulheres compareciam ajudando a carregar o corpo levado os topes de flores. Topes de flores era força de expressão. Apanhados de samambaias crótons e o que mais houvessem no quintal ou no terreno do ofertante. Dos dois leões para lá, virava baderna. O pessoal alto, destilando o defunto no passeio da vendola que ficava ao pé da ladeira do cemitério e tratava de cortar o cansaço com uma boa dose de bebida. Só então era vencida a ladeira e realizado o enterramento.

Também esses voltavam para entregar o defunto. Alegrados pelo álcool traziam problemas seríssimos para os que estivessem cuidando da casa do defunto. Mas, no fim, tudo serenava. Tudo acabava.


(VIANA, Hildegardes. A Bahia já foi assim – crônicas de costumes. 2ª ed. Brasília, Ed. GRD, 1979)

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