A rua ficava coalhada de homens à proximidade da hora do enterro. Parentes conhecidos e
vizinhos do morto. Todos os solenes, vestidos de preto, chapéu na mão, reunidos em
rodinhas de quatro e cinco. Um mensageiro era expedido, de tantos em tantos minutos, para
se certificar se o bonde mortuário já estava estacionado no desvio de linha mais
próximo.Havia bondes mortuários com formatos
especiais, preços tabelados conforme a classe, com o fim exclusivo de levar caixões de
defunto para o cemitério. Os cheios de cortinas e safenas, plumas e tapetes, eram para os
ricos. Para os pobres existia o franguinho dágua quase nu de adornos com umas
modestas safenas, que voavam quando o veículo corria nos trilhos. O bonde-misto,
conduzindo ao mesmo tempo o defunto e os acompanhantes era ainda mais modesto. Para os
remediados contava-se com um, discretamente, decorado, com laços e cortinas pretas que
lhe davam um aspecto sinistro de morcegos.
Anunciada a chegada do bonde, se o padre já tivesse
feito a encomendação debaixo de uma mal reprimida saraivada de ataques e gritos
histéricos, era a hora da despedida para se fechar o caixão. Enquanto mulheres caíam,
umas duras e caladas, outras gritando e se debatendo, duas ou três choravam mansamente.
Estas é que apaziguavam as que em pranto soltavam
exclamações dolorosas. Vinha alguém, de olhos enxutos a atitudes resolutas para
desamarrar o defunto. Retirado o lenço do queixo, as ataduras das mãos e dos tornozelos,
aparecia quem soprasse, disfarçadamente aos ouvidos do cadáver uma recomendação para
que fosse só e se esquecesse da terra. Em compensação gente inconsciente do que fazia,
possessa pelo desespero iniciava a enunciação exaltada de várias frases que se resumiam
no clássico -Vem me buscar. Em tais casos, era difícil tentar deter as
expressões de dor.
O morto, a esta altura já estava encharcado de umidade
das flores e dos pingos de água benta que todos que entravam deviam lhe aspergir. As
velhas se faziam de ligeiras correndo com os copos de calmantes por entre toda aquela
atrapalhada de choros, lamentações e dores. A um sinal convencionado as mulheres de saia
carregavam as bandejas de flores e saíam para a calçada aguardando os acontecimentos.
Se o padre demorava de vir encomendar o corpo, se havia
algum contratempo, o bonde ficava esperando, como de praxe, no desvio mais próximo, de
jeito a não perturbar o escasso tráfego. Gente perguntava de si para si a causa do
atraso. Dizia-se que o morto estava com pena de ir ou, o que era pior, pretendia levar
alguém consigo.
Afinal, entre uma gargalhada infernal, uma confusão
quase pandemônio, saía o féretro conduzindo, a passos lentos, pelos parentes mais
próximos e amigos mais chegados. As janelas da vizinhança ficavam apinhadas de curiosos
todos de roupas mudadas, pois logo em seguida teriam que fazer uma visita à família
enlutada. Também as janelas da casa do enterro se enchiam de parentes, que ficavam
acenando com um lenço ou apenas gritando um adeus.
Mal o caixão desocupava a sala, o armador tirava tudo
quanto era seu, azucrinado pela voz de alguma velhota, que pedia para não esquecer
também de tirar o prego que tivesse servido para pendurar a capela na porta. Se
semelhante prego ficasse, todo mundo sabia daria azar e o armador iria ficar freguês
fazendo enterros amiúde, naquela casa.
Outra velha pegava a vassoura e varria o resto do
defunto, dos fundos da cozinha para a frente, jogando tudo para a rua. Portas afora. Só
então, embora a grade de dentro permanecesse aberta, cerrava-se a porta principal a meio.
Era o sinal de luto.
Terminado o enterramento, os convidados voltavam para
renovar os sentimentos e ofercer os préstimos. Porém era sabido que representava um
pretexto para entregar o defunto ao seu dono. Se, por acaso, a alma viesse atrás de
alguém preferisse ficar com seus familiares, fazendo visagens ou que estivesse em moda, e
não com o pobre coitado do convidado, que apenas cumpria um dever de cristão,
acompanhando um pecador à sua última morada.
Enterro a pé era como ainda é. Para gente mais grande
ou muito pequena. Como ainda hoje os graúdos tinham muito quem carregasse, como se ainda
fosse pouco o bonde mortuário e os de acompanhantes, vazios seguiam na esteira devagar,
de prontidão. Os pobres, sem apelação, sempre lutaram contra o calor e as distâncias
para os cemitérios parando para um revezamento ou para matar o bicho em alguma vendola.
Nos enterros de pobres, as mulheres compareciam ajudando
a carregar o corpo levado os topes de flores. Topes de flores era força de
expressão. Apanhados de samambaias crótons e o que mais houvessem no quintal ou no
terreno do ofertante. Dos dois leões para lá, virava baderna. O pessoal alto,
destilando o defunto no passeio da vendola que ficava ao pé da ladeira do cemitério e
tratava de cortar o cansaço com uma boa dose de bebida. Só então era vencida a ladeira
e realizado o enterramento.
Também esses voltavam para entregar o defunto. Alegrados
pelo álcool traziam problemas seríssimos para os que estivessem cuidando da casa do
defunto. Mas, no fim, tudo serenava. Tudo acabava.
(VIANA, Hildegardes. A
Bahia já foi assim crônicas de costumes. 2ª ed. Brasília, Ed. GRD,
1979)
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