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Ano II - novembro 1999 - nº 15

Sua revista com a cara e a alma brasileira


SUMÁRIO - EDIÇÃO 15
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA

Nosso Pai, a  última comunhão levada aos moribundos. As reminiscências de Mário Sette e seus tempos de menino em Recife.

"...aparecia quem soprasse, disfarçadamente aos ouvidos do cadáver uma recomendação para que fosse só e se esquecesse da terra". Leia Final de enterro.

"Para a alma do falecido não penar, de noite todos tiravam o luto". Tempo de luto, os costumes seguidos por quem perdia seus entes queridos.

COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE

 

PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...


NOSSO PAI

Mário Sette


Na calma da tarde o sino da matriz começava a tocar vagarosamente. Todo o bairro traduzia, por muito conhecidas, aquelas chamadas lentas, tristes, repetidas, numa expressão de dever penoso a cumprir. E logo, dentro de casa, uma mulher interrompendo o engomado, murmurava:

- Vai sair Nosso Pai!

Corria à janela uma das filhas moças. Olhava, observava a igreja defronte. Pela porta do centro, de todo aberta, entravam alguns homens, irmãos do Santíssimo Sacramento ou almas piedosas, quando não, espíritos mórbidos que gostavam de testemunhar as aflições alheias.. Iam tomar capas para acompanhar o viático.

Bisbilhotando, sem se virar para trás, a mocinha satisfazia a curiosidade materna:

- Seu Hemetério da botica já foi.

– Aquele, Deus me perdoe, fareja defunto…

- E seu André do mocotó, com o major Terêncio das Alvarengas.

– Ah! Esse tem obrigação. É secretário da irmandade.

– Agora chegou padre Augusto.

– Coitadinho! Não descansa uma hora. Vive puxando mesmo! Uma freguesia destas! É capaz de entisicar.

– Xi! Mamãe! Sabe quem entrou na matriz? Aquele homem que roubou a mulher do capitão da polícia…

- Ele pensa que bota areia nos olhos de Nosso Senhor. Apois sim. Daqui mais praqui.

E a engomadeira, depois de sentar o ferro nas brasas do fogão, batia com a mão aberta num ombro e no outro.

Os sinos repicam.. Ela sempre dá uma fugidinha à janela, não obstante ter de entregar a roupa de uma freguesa do beco dos Ferreiros, à boquinha da noite. Mesmo porque precisava fazer umas compras na Ribeira da Boa Vista e ir beijar os pés do Bom Jesus dos Pobres Aflitos, em São Gonçalo. Era a sua devoção. Mas o Nosso Pai ia sair. Queria vê-lo.

Descem a escadaria da matriz os primeiros irmãos, de opas vermelhas. Um segura a cruz de metal, o outro a caldeirinha. Seguem-se mais seis ou sete homens também paramentados, trazendo círios ou pegando na umbela cor de ouro. O vigário vai de mãos postas, com uma casula vistosa, apertando contra o peito a sagrada partícula. Um meninote toca com força a sineta.

Dlen! Dlen! Dlen!

As almas se comovem. Transeuntes estacam, descobrem-se, dobram os joelhos. O boleeiro de um bonde contém os animais e breca o carro. Tira o boné de oleado. O cortejo passa. A campainha vibra bem alto, tangida pela criança que faz daquela romagem de consolo, de piedade, um motivo de festa e de distração para os seus doze anos. Sempre as mágoas de um servindo de alegria de outrem…

Numa varanda de madeira, uma moradora de cabelos soltos, matiné branco e saia de chitas, indaga da vizinha que enrola às pressas o cocó:

- Para quem será, heim, Feliciana?

- Eu maldo que seja para dona Carlota. Anda tão bamba! Derna que o filho foi pra Canudos…

- E não voltou até hoje! Aquele maldito Antônio Conselheiro dá cabo de todo o nosso 14.

– Se dá! Não torna nem a música. Tão boa, heim? Pois eu maldo que é para ela mesma. Teve um ataque outro dia.

– Me lembro também de Nola. Botou tanto sangue pela boca!

- E ela não foi para Chã de Carpina?

- Foi, não. Olhe, repare, tomou para as bandas da casa de dona Carlota. É pra ela, coitada!

Defrontando mil comentários o viático atravessava as ruas. Gente mais que se descobre; olhos que se baixam; mãos que batem nos peitos. Na imaginação de todos se representa a cena sombria do agonizante, num leito de rico ou de pobre, num chalé vistoso ou numa casa térrea, à espera da hóstia divina que lhe abrirá as portas do céu.

E a campainha vibrando, vibrando…

Dlen! Dlen! Dlen!

Era assim o Nosso Pai no meu tempo de menino e de rapaz. Hoje já não sai com tanta solenidade.

Maior pompa teve em época mais remota de que falam os cronistas e os avós. O Santíssimo vinha à rua quase numa procissão. Cruz alçada, irmandades, pálio. E a massa do povo que o acompanhava contrita, rezando, penitenciando-se.

À sua passagem a vida da cidade como que paralizava. Forros e escravos ajoelhavam-se e permaneciam nessa atitude de recolhimento e humildade até o cortejo sumir-se. Se havia algum quartel perto a sentinela bradava:

- Às armas!

Formava a guarda com toque de continência e apresentação de carabinas. E o oficial de dia destacava um pelotão com os respectivos corneteiros e tambores que seguiam o viático, numa marcha batida, até o recolher. Às vezes saía tarde – de noite – com as lanternas acesas, pelas ruas escuras, mais tristes, mais dolentes, mais lúgubres.

Inda me lembro de uma frase irônica de meu avô paterno:

- Quem sou eu para acompanhar Nosso Pai fora de horas?

(SETTE, Mário. Maxambombas e maracatus. 3ª ed. Rio de Janeiro, Casa do Estudante Brasileiro, 1958)

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