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| OFICINA
- Nesta seção, textos sobre profissões; ferramentas; técnicas; agricultura, pecuária;
artesanato; vendedores ambulantes; pregões... |
A PESCA DA BALEIA - (Pelo Recôncavo Baiano, 1817) |
Bahia. Domingo, 17 de agosto de 1817
Um dos espetáculos mais interessantes que oferece a residência na Bahia é o da pesca de
baleias. Esta pesca se faz no próprio ancoradouro e até no meio dos navios fundeados
diante da cidade. Pode-se apreciá-las das janelas de casa; mas, para melhor observá-la
cumpre transportar-se à praia que separa a cidade do cabo de Santo Antônio. É ali, em
diversas angras e do outro lado da ilha de Itaparica, que
estão situados os estabelecimentos em que os animais são desmembrados. Urge ter a boa
sorte de ali chegar na ocasião oportuna, e eu a tive... Todas as manhãs a baía se
guarnece de quarenta a cinqüenta chalupas, que se fazem de
vela em busca dos cetáceos; estes manifestam a sua presença na baía pelos seus jogos e
pelos jatos dágua que lançam pelas narinas.
As chalupas têm cerca de trinta e seis pés de comprimento, são muito esguias e têm a
popa construída igual à proa, a fim de poderem mais facilmente manobrar em todos os
sentidos.
Trazem um mastro com vela a dois terços de verga.
A tripulação consiste de dez homens, oito dos quais remadores, um patrão e um arpoador.
A armação compõe-se de várias chalupas, pois é preciso cercar a baleia que, evitando
uma, vai sair ao alcance da outra.
Esta a persegue à vela até poder feri-la.
O arpoador está colocado de pé na proa, tendo ao lado diversos ferros de prontidão;
leva um deles em riste e lança-o com vigor à distância de quinze a dezoito braças.
Não se pode julgar da força deste movimento, senão considerando que para ferir os
músculos do animal é preciso atravessar uma camada de toucinho de quinze polegadas de
espessura.
Logo que a baleia é ferida, colhe-se a vela.
O arco desprende-se da haste e fica preso à chalupa por uma corda, que se deixa correr
até a distância de umas vinte braças; cada um dos movimentos do animal ferido e furioso
arrasta a chalupa, e, visto a irregularidade destes movimentos, urge uma grande destreza
para evitar que soçobre.
O arpoador, sempre de pé na proa, indica ao patrão todos estes movimentos e este governa
de acordo; a luta perigosa entre o poderoso monstro e a frágil embarcação dura de
trinta minutos até três a quatro horas, e apresenta um espetáculo aterrador.
O arpoador repete os seus golpes, a baleia avermelha as águas com o seu sangue, dá
pancadas com a sua formidável cauda, arrasta a chalupa até duas e três léguas mar em
fora, e morre sem ter podido desembaraçar-se dos terríveis ferros que a prendem.
Assim que morre o animal, uma bandeira dá o sinal aos interessados que estão na praia;
prendem um forte cabo à baleia, arrastam-na a reboque depois de ter içado a vela, e vão
encalhá-la na bacia do estabelecimento em meio das aclamações da vizinhança.
A baleia que vi pescar foi reputada pequena e como tendo um ano de idade.
Tinha um pouco mais de quarenta pés de comprimento; as suas enormes mandíbulas também
mais de oito.
Infelizmente a maré enchia, e, conquanto a houvessem içado para terra com dois cabrestantes, não conseguiram pô-la inteiramente em seco, o que
me impediu de bem examiná-la toda. Tinha levado três arpoadas: um dos ferros curvou-se
de encontro a uma costela; levou quase duas horas a morrer. Apanhei no seu corpo alguns
destes moluscos chamados piolhos de baleia.
O corte principal é bastante rápido. Um negro armado de uma faca encabada numa haste de
três a quatro pés faz um talho longitudinal da cabeça à cauda; e depois outros
transversais no sentido das costelas; levanta pedaços de toucinho de duzentas a trezentas
libras, que outros negros retiram com croques. Todas as
partes graxas pertencem ao senhor; a musculosa ou a carne é
a recompensa dos negros da chalupa, que acham logo compradores para ela, pois a gente
pobre não a desdenha como alimento. É pouco atraente.
Não pude assistir ao corte até o fim porque a maré subia: parece que o levam até o
desossamento, porque vi carcaças de baleias anteriormente pescadas, completamente
desconjuntadas sobre a praia.
Os habitantes fazem assentos, das vértebras, e cercas com as costelas. O ferro do arpão
produz um ferimento de umas cinco polegadas, e pesa quase duas libras; é preso à madeira
da haste por meio de um simples alvado.
A preparação do zeite é muito rudimentar; corta-se a gordura em pedaços de cerca de
duas libras e colocam-se em caldeiras de ferro; a ação do fogo os faz fundir em menos de
uma hora. O estabelecimento que visitei tinha vinte e quatro caldeiras da capaciade de dez
tonéis; nele pode-se fundir uma baleia em menos de vinte e quatro horas. A construção
das fornalhas não é muito engenhosa; cada caldeira tem a sua fornalha e um conduto comum
serve a todas para escapamento da fumaça. Não sabem preparar aqui, nem o espermacete nem
as barbas.
Demasiado ocupado com a captura desta baleia, o chefe do estabelecimento não pôde
responder com regularidade às perguntas que lhe fiz. As informações que me deu sobre o
conjunto de operações da pesca e sobre os seus detalhes, são tão vagas e incoerentes
que me dispenso de consigná-las, aqui. Procurarei ulteriormente
outras mais exatas e fidedignas.
No dia em que vi esta pesca haviam arpoado sete baleias na Bahia, e na véspera quatro.
Foram dias muito felizes, porque, mesmo durante a estação própria, passam-se semanas
sem pescar uma só.
Há oito dias que três chalupas foram à pique, afogando-se os trinta homens que as
tripulavam.
(TOLLENARE, L. F. In Histórias
e Paisagens do Brasil, Coqueirais e chapadões. Organização de Diaulas Riedel,
São Paulo, Ed. Cultrix, 2ª edição.)
Autor
Depois de uma estada em Portugal, L. F. de Tollenare, natural de Nantes, viajou para
Pernambuco, em 1816, a fim de negociar com algodão, passando-se depois para a Bahia e
regressando à Europa em 1818. |
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