EDIÇÕES ANTERIORES
Ano II - novembro 1999 - nº 15

Sua revista com a cara e a alma brasileira


SUMÁRIO - EDIÇÃO 15
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA

A arte das fazedeiras de redes no nordeste brasileiro.

A pesca da baleia na Bahia, no início do século XIX, descrita por L. F. de Tollenare.

Francisco de Melo Palheta e a história do café no Brasil, dois documentos históricos no Arquivo Público do Pará.

PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE

 

OFICINA - Nesta seção, textos sobre profissões; ferramentas; técnicas; agricultura, pecuária; artesanato; vendedores ambulantes; pregões...

A PESCA DA BALEIA - (Pelo Recôncavo Baiano, 1817)

L. F. Tollenare


Bahia. Domingo, 17 de agosto de 1817

Um dos espetáculos mais interessantes que oferece a residência na Bahia é o da pesca de baleias. Esta pesca se faz no próprio ancoradouro e até no meio dos navios fundeados diante da cidade. Pode-se apreciá-las das janelas de casa; mas, para melhor observá-la cumpre transportar-se à praia que separa a cidade do cabo de Santo Antônio. É ali, em diversas angras e do outro lado da ilha de Itaparica, que estão situados os estabelecimentos em que os animais são desmembrados. Urge ter a boa sorte de ali chegar na ocasião oportuna, e eu a tive... Todas as manhãs a baía se guarnece de quarenta a cinqüenta chalupas, que se fazem de vela em busca dos cetáceos; estes manifestam a sua presença na baía pelos seus jogos e pelos jatos d’água que lançam pelas narinas.

As chalupas têm cerca de trinta e seis pés de comprimento, são muito esguias e têm a popa construída igual à proa, a fim de poderem mais facilmente manobrar em todos os sentidos.

Trazem um mastro com vela a dois terços de verga.

A tripulação consiste de dez homens, oito dos quais remadores, um patrão e um arpoador.

A armação compõe-se de várias chalupas, pois é preciso cercar a baleia que, evitando uma, vai sair ao alcance da outra.

Esta a persegue à vela até poder feri-la.

O arpoador está colocado de pé na proa, tendo ao lado diversos ferros de prontidão; leva um deles em riste e lança-o com vigor à distância de quinze a dezoito braças.

Não se pode julgar da força deste movimento, senão considerando que para ferir os músculos do animal é preciso atravessar uma camada de toucinho de quinze polegadas de espessura.

Logo que a baleia é ferida, colhe-se a vela.

O arco desprende-se da haste e fica preso à chalupa por uma corda, que se deixa correr até a distância de umas vinte braças; cada um dos movimentos do animal ferido e furioso arrasta a chalupa, e, visto a irregularidade destes movimentos, urge uma grande destreza para evitar que soçobre.

O arpoador, sempre de pé na proa, indica ao patrão todos estes movimentos e este governa de acordo; a luta perigosa entre o poderoso monstro e a frágil embarcação dura de trinta minutos até três a quatro horas, e apresenta um espetáculo aterrador.

O arpoador repete os seus golpes, a baleia avermelha as águas com o seu sangue, dá pancadas com a sua formidável cauda, arrasta a chalupa até duas e três léguas mar em fora, e morre sem ter podido desembaraçar-se dos terríveis ferros que a prendem.

Assim que morre o animal, uma bandeira dá o sinal aos interessados que estão na praia; prendem um forte cabo à baleia, arrastam-na a reboque depois de ter içado a vela, e vão encalhá-la na bacia do estabelecimento em meio das aclamações da vizinhança.

A baleia que vi pescar foi reputada pequena e como tendo um ano de idade.

Tinha um pouco mais de quarenta pés de comprimento; as suas enormes mandíbulas também mais de oito.

Infelizmente a maré enchia, e, conquanto a houvessem içado para terra com dois cabrestantes, não conseguiram pô-la inteiramente em seco, o que me impediu de bem examiná-la toda. Tinha levado três arpoadas: um dos ferros curvou-se de encontro a uma costela; levou quase duas horas a morrer. Apanhei no seu corpo alguns destes moluscos chamados piolhos de baleia.

O corte principal é bastante rápido. Um negro armado de uma faca encabada numa haste de três a quatro pés faz um talho longitudinal da cabeça à cauda; e depois outros transversais no sentido das costelas; levanta pedaços de toucinho de duzentas a trezentas libras, que outros negros retiram com croques. Todas as partes graxas pertencem ao senhor; a musculosa ou a carne é a recompensa dos negros da chalupa, que acham logo compradores para ela, pois a gente pobre não a desdenha como alimento. É pouco atraente.

Não pude assistir ao corte até o fim porque a maré subia: parece que o levam até o desossamento, porque vi carcaças de baleias anteriormente pescadas, completamente desconjuntadas sobre a praia.

Os habitantes fazem assentos, das vértebras, e cercas com as costelas. O ferro do arpão produz um ferimento de umas cinco polegadas, e pesa quase duas libras; é preso à madeira da haste por meio de um simples alvado.

A preparação do zeite é muito rudimentar; corta-se a gordura em pedaços de cerca de duas libras e colocam-se em caldeiras de ferro; a ação do fogo os faz fundir em menos de uma hora. O estabelecimento que visitei tinha vinte e quatro caldeiras da capaciade de dez tonéis; nele pode-se fundir uma baleia em menos de vinte e quatro horas. A construção das fornalhas não é muito engenhosa; cada caldeira tem a sua fornalha e um conduto comum serve a todas para escapamento da fumaça. Não sabem preparar aqui, nem o espermacete nem as barbas.

Demasiado ocupado com a captura desta baleia, o chefe do estabelecimento não pôde responder com regularidade às perguntas que lhe fiz. As informações que me deu sobre o conjunto de operações da pesca e sobre os seus detalhes, são tão vagas e incoerentes que me dispenso de consigná-las, aqui. Procurarei ulteriormente outras mais exatas e fidedignas.

No dia em que vi esta pesca haviam arpoado sete baleias na Bahia, e na véspera quatro. Foram dias muito felizes, porque, mesmo durante a estação própria, passam-se semanas sem pescar uma só.

Há oito dias que três chalupas foram à pique, afogando-se os trinta homens que as tripulavam.


(TOLLENARE, L. F. In Histórias e Paisagens do Brasil, Coqueirais e chapadões. Organização de Diaulas Riedel, São Paulo, Ed. Cultrix, 2ª edição.)

Autor
Depois de uma estada em Portugal, L. F. de Tollenare, natural de Nantes, viajou para Pernambuco, em 1816, a fim de negociar com algodão, passando-se depois para a Bahia e regressando à Europa em 1818.

Jangada Brasil © 1998-2002