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Ano II - novembro 1999 - nº 15

Sua revista com a cara e a alma brasileira


SUMÁRIO - EDIÇÃO 15
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA

A arte das fazedeiras de redes no nordeste brasileiro.

A pesca da baleia na Bahia, no início do século XIX, descrita por L. F. de Tollenare.

Francisco de Melo Palheta e a história do café no Brasil, dois documentos históricos no Arquivo Público do Pará.

PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE

 

OFICINA - Nesta seção, textos sobre profissões; ferramentas; técnicas; agricultura, pecuária; artesanato; vendedores ambulantes; pregões...

A FAZEDEIRA DE REDES


Na verdade de quadros naturais que o Nordeste brasileiro apresenta agitam-se, num mundo vivo, indivíduos que, em associação com o meio encontram inúmeras formas de atividade, algumas originais, outras ainda remanescentes de antigas práticas que o tempo mesmo progresso ainda não conseguiram extinguir.

Parece que alguns usos e costumes se acham tão arraigados e são tão originais como forma de relação entre o homem e o meio, que dificilmente serão modificados. A antigüidade e a difusão do uso da rede de dormir – a cama da terra – enquadram–se na afirmação. A simplicidade do seu uso, facilidade de transporte e a sua perfeita integração ao clima quente das baixas latitudes, parecem assegurar, no Nordeste brasileiro, constância ilimitada do seu uso.

Supomos que está na forma da sua confecção o caminho por onde o seu "progresso" se introduzirá. É atualmente um artesanato especializado e difundido em todo o Nordeste e limites circunvizinhos mas já surgem em cidades como Fortaleza, teares mecânicos que estão industrializando sua confecção. Apesar disto, não cremos no desaparecimento do seu uso, conforme aconteceu em São Paulo nos primeiros séculos de sua história, mas somente a substituição do artesanato. Ségio Buarque de Hollanda (Caminhos e fronteiras, Ed. José Olímpio, 1957) estudando o assunto na área de Sorocaba e Cuiabá, anota que a contaminação pelos agentes da "modernização" que são a estrada de ferro e a página imprensa baniram o hábito mas aponta também um aspecto adverso do meio: o clima frio, de altitude. Direta ou indiretamente o Nordeste já sofreu tais influências o que nos induz aquelas conclusões.

Sua origem parece perfeitamente estabelecida. É autóctone, elemento da cultura material de várias tribos sul-americanas assimilado pelos colonizadores, conforme nos demonstra o citado autor. Sua difusão no Nordeste teve a colaboração ativa dos sacerdotes que, espalhando a técnica dos adventícios e entre as gerações que se sucederam tornaram hereditários o artesanato.

Foi na localidade piauense de Pedro II que encontramos o fabrico da rede de dormir numa de suas formas mais típicas. Localizada na zona central do estado, dista cerca de 50 quilômetros da rodovia Fortaleza-Teresina, eixo central de toda a circulação rodoviária da região. Fica um tanto à margem da circulação – o fundo de saco – nos dias atuais o que equivale dizer que Pedro II tem-se mantido isolada até bem pouco. Sua fama de produtora de redes é conhecida no Nordeste e, ainda que o artesanato não resulte substancial atividade econômica ele é ativo e movimenta a vida local. À primeira vista nada indica ao forasteiro a existência dessa atividade, mas um contato mais cuidadoso revelará a faina a que estão entregues dezenas de mulheres em seus casebres de barro, chão batido e cobertos de folha de palmeira. É a fazedeira de redes da terra, bem nordestina, guardando em seus traços a lembrança indígena; logo a entrada á guisa da sala, na branca parede de adobe, encosta o tear: um simples retângulo de madeira - pau d'arco – encaixada, tendo mais largura do que altura. Da trave superior, horizontal, desce o fiame da urdidura. De pé, a artesã executa o trabalho tecendo de baixo para cima – detalhe que lhe confere origem indígena. À meia altura do urdume passa o liço, fio em trama frouxa aparentando franja os fios, ora os de trás. Por aí a rendeira tem os fios separados e por entre eles, trabalhando agilmente com as mãos corre o fuso, transversalmente à urdidura. Da extremidade, volta, não sem antes bater o fio recém tramado com o facão, para dar consistência ao tecido. A espetadeira, vara dotada de pontas metálicas mantém distendido, o pano da rede já pronto. Como as lides caseiras apelam para ela, amiúde abandona o tear e por isso demora até dez dias para concluir o pano de rede. Outras trabalhando regularmente disseram fazer uma rede em dois dias. Tão logo tecem pano, cuidam do acabamento e da guarnição: nas extremidades vai o cardame que forma o punho da rede e o caréu por onde ficará pendida: na lateral as franjas miúdas prendem a varanda. Para isso precisa muito cuidado: o desenho do bordado da varanda e seu acabamento são importantes, valorizam a rede. Finalmente, pronta a rede ou as redes, aguarda o sábado – é o dia da feira. Na praça um grande tamboril, copado, cuida, como bom guardião, do êxito dos negócios. Cedo estará lá. Desde véspera estarão chegando as pequenas tropas de jegues, arqueados pelo peso dos surrões e bruacas, repletos de arroz, farinha, café em grão, cerâmica e também novelos de fios vindos de Sobral e Fortaleza.

A feira transforma a cidade: a pacatez que lhe deu aspecto desértico, durante a semana, desaparece. Na praça, à sombra do tamboril imenso, o povaréu negocia, as crianças brincam e as moças passeiam vestidas à domingueira. As rendeiras salientam-se dão nota à feira. Vestido estampado, vermelho ou amarelo. Pé no chão e, sob os braços ou sobre a cabeça, as redes. Oferecem de vários tipos: a de fio de caroá, tapuerana, coentro, de linha ou a popular. O preço e variável, as de linha ou tapuerana são mais caras, mas também o preço é sensível à lei da oferta e da procura. Ao fim da feira, por volta das 12 horas, uma popular pode ser adquirida por 400 cruzeiros. O regateio do freguês é obrigatório na compra: abre a rede, cuida da trama, repara na varanda, calcula o peso, pois deve ter levado, no mínimo 12 rolos de fio na sua feitura. A rendeira não perde tempo o negócio faz parte do seu trabalho e trata de convencer o freguês muitas vezes um motorista de caminhão que as leva para revenda em Fortaleza. Feito o negócio apurada a féria compra mantimentos e fio para outras redes e também vai até a tenda das novidades: sobre tosca mesa uma variedade de artigos de matéria plástica, anéis, brincos, imagens, perfumes e outras bugigangas, tudo num conjunto de vivo colorido que a encanta e atrai a vaidade feminina...

O fim da feira é melancólico. Os jegues carregados de mantimentos, tangidos, vão abandonando o local. Nos bares alguns permanecem alegres pela aguardente. O local vai ficando deserto e a cidade volta á rotina pacata e calma.

A fazedeira de redes, já a caminho do seu casebre vê passar mais um dia de festa, agora é preparar outras redes para outras feiras. Com os rolos de fio que comprou ou trocou está pensando no trabalho que espera: é preciso desfiar, tingir e preparar cordéis na corretilha para os punhos, armar o urdume no tear e recomeçar o trabalho, pois desta vez ela tem uma encomenda. Uma de linha esterlina branca, que lhe pode valer três mil cruzeiros.

(Tipos e aspectos do Brasil; excertos da Revista Brasileira de Geografia. 5ª ed. Rio de Janeiro, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Conselho Nacional de Geografia, 1949)

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