Na verdade de quadros naturais que o Nordeste brasileiro apresenta agitam-se, num mundo
vivo, indivíduos que, em associação com o meio encontram inúmeras formas de atividade,
algumas originais, outras ainda remanescentes de antigas práticas que o tempo mesmo
progresso ainda não conseguiram extinguir.Parece
que alguns usos e costumes se acham tão arraigados e são tão originais como forma de
relação entre o homem e o meio, que dificilmente serão modificados. A antigüidade e a
difusão do uso da rede de dormir a cama da terra enquadramse na
afirmação. A simplicidade do seu uso, facilidade de transporte e a sua perfeita
integração ao clima quente das baixas latitudes, parecem assegurar, no Nordeste
brasileiro, constância ilimitada do seu uso.
Supomos que está na forma da sua confecção o caminho
por onde o seu "progresso" se introduzirá. É atualmente um artesanato
especializado e difundido em todo o Nordeste e limites circunvizinhos mas já surgem em
cidades como Fortaleza, teares mecânicos que estão industrializando sua confecção.
Apesar disto, não cremos no desaparecimento do seu uso, conforme aconteceu em São Paulo
nos primeiros séculos de sua história, mas somente a substituição do artesanato.
Ségio Buarque de Hollanda (Caminhos e fronteiras, Ed. José Olímpio, 1957)
estudando o assunto na área de Sorocaba e Cuiabá, anota que a contaminação pelos
agentes da "modernização" que são a estrada de ferro e a página imprensa
baniram o hábito mas aponta também um aspecto adverso do meio: o clima frio, de
altitude. Direta ou indiretamente o Nordeste já sofreu tais influências o que nos induz
aquelas conclusões.
Sua origem parece perfeitamente estabelecida. É autóctone, elemento da cultura material de várias tribos
sul-americanas assimilado pelos colonizadores, conforme nos demonstra o citado autor. Sua
difusão no Nordeste teve a colaboração ativa dos sacerdotes que, espalhando a técnica
dos adventícios e entre as gerações que se sucederam
tornaram hereditários o artesanato.
Foi na localidade piauense de Pedro II que encontramos o
fabrico da rede de dormir numa de suas formas mais típicas. Localizada na zona central do
estado, dista cerca de 50 quilômetros da rodovia Fortaleza-Teresina, eixo central de toda
a circulação rodoviária da região. Fica um tanto à margem da circulação o
fundo de saco nos dias atuais o que equivale dizer que Pedro II tem-se mantido
isolada até bem pouco. Sua fama de produtora de redes é conhecida no Nordeste e, ainda
que o artesanato não resulte substancial atividade econômica ele é ativo e movimenta a
vida local. À primeira vista nada indica ao forasteiro a existência dessa atividade, mas
um contato mais cuidadoso revelará a faina a que estão
entregues dezenas de mulheres em seus casebres de barro, chão batido e cobertos de folha
de palmeira. É a fazedeira de redes da terra, bem nordestina, guardando em seus traços a
lembrança indígena; logo a entrada á guisa da sala, na branca parede de adobe, encosta o tear: um simples retângulo de madeira - pau
d'arco encaixada, tendo mais largura do que altura. Da trave superior, horizontal,
desce o fiame da urdidura. De pé, a artesã executa o trabalho tecendo de baixo para cima
detalhe que lhe confere origem indígena. À meia altura do urdume passa o liço,
fio em trama frouxa aparentando franja os fios, ora os de trás. Por aí a rendeira tem os
fios separados e por entre eles, trabalhando agilmente com as mãos corre o fuso,
transversalmente à urdidura. Da extremidade, volta, não sem antes bater o fio recém
tramado com o facão, para dar consistência ao tecido. A espetadeira, vara dotada de
pontas metálicas mantém distendido, o pano da rede já pronto. Como as lides caseiras apelam para ela, amiúde abandona o tear e por isso
demora até dez dias para concluir o pano de rede. Outras trabalhando regularmente
disseram fazer uma rede em dois dias. Tão logo tecem pano, cuidam do acabamento e da
guarnição: nas extremidades vai o cardame que forma o punho da rede e o caréu por onde
ficará pendida: na lateral as franjas miúdas prendem a varanda. Para isso precisa muito
cuidado: o desenho do bordado da varanda e seu acabamento são importantes, valorizam a
rede. Finalmente, pronta a rede ou as redes, aguarda o sábado é o dia da feira.
Na praça um grande tamboril, copado, cuida, como bom guardião, do êxito dos negócios.
Cedo estará lá. Desde véspera estarão chegando as pequenas tropas de jegues, arqueados
pelo peso dos surrões e bruacas,
repletos de arroz, farinha, café em grão, cerâmica e também novelos de fios vindos de
Sobral e Fortaleza.
A feira transforma a cidade: a pacatez que lhe deu
aspecto desértico, durante a semana, desaparece. Na praça, à sombra do tamboril imenso,
o povaréu negocia, as crianças brincam e as moças passeiam vestidas à domingueira. As
rendeiras salientam-se dão nota à feira. Vestido estampado, vermelho ou amarelo. Pé no
chão e, sob os braços ou sobre a cabeça, as redes. Oferecem de vários tipos: a de fio
de caroá, tapuerana, coentro, de linha ou a popular. O preço e variável, as de linha ou
tapuerana são mais caras, mas também o preço é sensível à lei da oferta e da
procura. Ao fim da feira, por volta das 12 horas, uma popular pode ser adquirida por 400
cruzeiros. O regateio do freguês é obrigatório na compra:
abre a rede, cuida da trama, repara na varanda, calcula o peso, pois deve ter levado, no
mínimo 12 rolos de fio na sua feitura. A rendeira não perde tempo o negócio faz parte
do seu trabalho e trata de convencer o freguês muitas vezes um motorista de caminhão que
as leva para revenda em Fortaleza. Feito o negócio apurada a féria
compra mantimentos e fio para outras redes e também vai até a tenda das novidades: sobre
tosca mesa uma variedade de artigos de matéria plástica, anéis, brincos, imagens,
perfumes e outras bugigangas, tudo num conjunto de vivo colorido que a encanta e atrai a
vaidade feminina...
O fim da feira é melancólico. Os jegues carregados de
mantimentos, tangidos, vão abandonando o local. Nos bares alguns permanecem alegres pela
aguardente. O local vai ficando deserto e a cidade volta á rotina pacata e calma.
A fazedeira de redes, já a caminho do seu casebre vê
passar mais um dia de festa, agora é preparar outras redes para outras feiras. Com os
rolos de fio que comprou ou trocou está pensando no trabalho que espera: é preciso
desfiar, tingir e preparar cordéis na corretilha para os punhos, armar o urdume no tear e
recomeçar o trabalho, pois desta vez ela tem uma encomenda. Uma de linha esterlina
branca, que lhe pode valer três mil cruzeiros.
(Tipos e aspectos do Brasil; excertos da Revista
Brasileira de Geografia. 5ª ed. Rio de Janeiro, Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística, Conselho Nacional de Geografia, 1949) |