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Ano II - novembro 1999 - nº 15

Sua revista com a cara e a alma brasileira


SUMÁRIO - EDIÇÃO 15
FESTANÇA
As impressões de Carl von Koseritz sobre um enterro realizado no cemitério de São João Batista no Rio de Janeiro, em 1883.

Os funerais e sepulturas entre os selvagens do Brasil do século XVI, por Jean de Léry.

Enterro de uma negra e Enterro do filho de um rei negro descritos pelo viajante francês Jean-Baptiste Debret, no Rio de Janeiro do século XIX.

O viajante americano Thomas Ewbank relaciona costumes e protocolos relacionados a um funeral no Brasil de meados do século XIX.
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE

 

FESTANÇA - Nesta seção, textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...


ENTERRO DE UMA NEGRA E ENTERRO DO FILHO DE UM REI NEGRO

Jean-Baptiste Debret


ENTERRO DE UMA NEGRA
DEBRET, Jean-Baptiste. Enterro de uma negraA única diferença que existe entre o acompanhamento de um enterro de uma negra e o de um homem da mesma raça reside no fato de o cortejo se constituir unicamente de mulheres, à exceção de dois carregadores, de um mestre de cerimônias e do tambor. Este carrega um caixote de madeira de tamanho médio, sobre o qual executa de vez em quando uma espécie de rufo lúgubre com as palmas das mãos; como esse caixote é carregado debaixo do braço, o tambor vê-se obrigado a agachar de quando em quando e colocá-lo sobre os joelhos para poder agir. Mas, assim que o cortejo o alcança, ele se lança de novo para a frente, a fim de ganhar terreno o que explica os intervalos entre os rufos, preenchidos aliás, pelas salmodias do cortejo feminino, cujos clamores mágicos incitam inúmeras compatriotas a se unirem ao enterro. Entre os moçambiques, as palavras do canto fúnebre são especialmente notáveis pelo seu sentido inteiramente cristão, pois, entre os outros, limitam-se a lamentações acerca da escravidão, ainda assim grosseiramente expressas.

Dou aqui o texto moçambique em português: "Nós estamos chorando o nosso parente, não enxerguemos mais, vai embaixo da terra até dia do juízo, hei de século seculorum amém."

Quando a defunta é de classe indigente, os parentes e os amigos aproveitam a manhã para transportar o corpo numa rede e depositá-la no chão junto ao muro de uma igreja ou perto da porta de uma venda. Aí, uma ou duas mulheres conservam acesa uma pequena vela junto à rede funerária e recolhem dos passantes caridosos módicas esmolas para completar a importância necessária às despesas de sepultura na igreja ou mais economicamente na Santa Casa de Misericórdia onde esse tipo de inumação custa três patacas, ficando o transporte por conta da instituição.

Essa exposição pública atrai infalivelmente os curiosos, sobretudo compatriotas da defunta, que também contribuem para o enterro. Pobres como ela, dão apenas, o mais das vezes, uma moeda de dez réis a menor moeda em circulação. Mas o número supre a modicidade do óbolo pois não há exemplo de indigente moçambique que fique sem sepultura por falta de dinheiro.

A cena se passa diante da Lampadosa, pequena igreja servida por um padre negro a assistida por uma confraria de mulatos.

O mestre de cerimônias negro, com uma vara na mão, vestindo uma dupla cota formada por lenços de cor e com sua rodilha à cabeça, faz parar o cortejo diante da porta, que só é aberta no momento da chegada, a fim de evitar a entrada da multidão de curiosos seus compatriotas. O tambor aproveita essa parada para fazer rufar seu instrumento, enquanto as negras depositam no chão os seus diversos fardos, a fim de acompanhar com palmas os cantos fúnebres em honra da defunta transportada na rede e acompanhada por oito parentes ou amiga íntimas, cada uma das quais pousa a mão sobre a mortalha.

A essa ruidosa pompa funerária junta-se o som de dois pequenos sinos, quase coberto pelo ranger dos gonzos enferrujados que os suportam. E a sombra da noite cobre todos esses detalhes com um véu fúnebre pois a cerimônia de acordo com os costumes brasileiros, só começa no fim do dia.

 

ENTERRO DO FILHO DE UM REI NEGRO

Não é extraordinário encontrem-se entre a multidão de escravos empregados no Rio de Janeiro, alguns grandes dignitários etiópicos e mesmo filhos de soberanos de pequenas tribos selvagens. É digno de nota que essas realezas ignoradas privadas de sua insígnias continuem veneradas por seus antigos vassalos, hoje companheiros de infortúnio no Brasil. Esses homens de bem, que na sua maioria prolongam sua carreira até a caducidade morrem em geral estimados por seus senhores.

É comum, quando dois pretos se encontram a serviço na rua, o súdito saudar respeitosamente o soberano de sua casta, beijar-lhe a mão e pedir-lhe a benção. Dedicado, confiando nos seus conhecimentos de seu rei, consulta-o nas circunstâncias difíceis. Quanto aos escravos nobres, graças à sua posição conseguem de seus súditos os meios suficientes para comprar a própria liberdade; e desde então empregam escrupulosamente toda a sua atividade no reembolso da dívida sagrada.

Retirado economicamente no porão de um beco qualquer cobre com seus andrajos a sua grandeza e revestido de suas insígnias reais, preside anualmente no seu pobre antro, as solenidades africanas de seus súditos. Ao morrer, ele é exposto estendido na sua esteira, com o rosto descoberto e a boca fechada por um lenço. Quando não possui nenhuma das peças de seu traje africano, o mais artista de seus vassalos supre a falha traçando no muro o retrato de corpo inteiro e de tamanho natural do monarca defunto no seu grande uniforme embelezado com todas as suas cores, obra prima artística ingênua servil imitação que estimula o zelo religioso de seus súditos solícitos em jogar água benta sobre o corpo venerado. O mais difícil para eles está em saírem, depois, do porão repleto de gente, a atravessarem a multidão de curiosos que estaciona à porta.

O defunto é visitado também por deputações das outras nações negras representadas cada qual por três dignitários: o diplomata, revestido de um colete, calças pretas, chapéu de bicos bastante seboso e mais ou menos rústico; o porta-bandeira, segurando um varapau comprido no alto do qual se desfralda um trapo de cor; e o capitão da guarda, armado de uma vareta enrolada numa fita estreita ou simplesmente enfeitada com um laço, limitando-se uniforme militar a uma simples calça para esconder a nudez. Cada deputação, ao chegar é introduzida pelo seu capitão de guarda, que faz o uso da arma para abrir passagem através da multidão; a delegação torna a sair da mesma maneira.

Embora nenhum ornamento funerário designe a porta da casa do defunto, pode ela ser reconhecida mesmo de longe, pelo grupo permanente de seus vassalos, que salmodiam, acompanhando-se ao som de instrumento nacionais poucos sonoros, mas reforçados pelas palmas dos que os cercam. Estas constituem de duas batidas rápidas e uma lenta ou de três rápidas e duas lentas, geralmente executadas com energia e conjunto. A esse ruído monótono que se prolonga desde amanhecer mistura-se por intervalos a detonação das bombas, e isso dura até seis ou sete horas da noite, quando se inicia a organização do cortejo funerário.

A procissão é aberta pelo mestre de cerimônias. Este sai da casa do defunto fazendo recuar a grandes bengaladas a multidão negra que obstrui a passagem; erguem-se o negro fogueteiro soltando as bombas e rojões e três ou quatro negros volteadores dando saltos mortais ou fazendo mil outras cabriolas para animar a cena. A esse espetáculo turbulento sucede a silenciosa saída dos amigos e das deputações, escoltando gravemente o corpo, carregado numa rede coberta por um pano mortuário. Finalmente, a marcha é fechada por alguns ajudantes armados de bengalas, que constituem a retaguarda e tem por fim manter a distância respeitosa os curiosos que a acompanham. O cortejo dirige-se para uma das quatro igrejas mantidas por irmandades negras: a Velha Sé, Nossa Senhora da Lampadosa, Nossa Senhora do Parto ou São Domingos.

Durante a cerimônia do enterro, o estrondo das bombas o ruído das palmas a harmonia surda dos instrumentos africanos acompanham os cantos dos nacionais de ambos os sexos e de todas as idades, reunidos na praça diante do pórtico da igreja.

Finalmente, terminada a cerimônia, os soldados da polícia dispersam a chibatada os últimos grupos de vadios, para que tudo termine dentro das normas brasileiras.

(DEBRET, Jean-Baptiste. Viagem pitoresca e histórica ao Brasil. São Paulo, Círculo do Livro, sd. 2 v.)

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