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Ano II - novembro 1999 - nº 15

Sua revista com a cara e a alma brasileira


SUMÁRIO - EDIÇÃO 15
FESTANÇA
As impressões de Carl von Koseritz sobre um enterro realizado no cemitério de São João Batista no Rio de Janeiro, em 1883.

Os funerais e sepulturas entre os selvagens do Brasil do século XVI, por Jean de Léry.

Enterro de uma negra e Enterro do filho de um rei negro descritos pelo viajante francês Jean-Baptiste Debret, no Rio de Janeiro do século XIX.

O viajante americano Thomas Ewbank relaciona costumes e protocolos relacionados a um funeral no Brasil de meados do século XIX.
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE

 

FESTANÇA - Nesta seção, textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...


UM FUNERAL

Thomas Ewbank


9 de fevereiro de 1846

Hoje é aniversário de Santa Apolônia, uma daquelas santas que, após deixar a terra, continuam sempre a abençoá-la. Não existem dores mais cruciantes que aquelas que cura. "Advogada contra tosse", cura dor de dentes. São-lhes oferecidos aqui maxilares de cera.

J. recebeu um convite para assistir aos funerais da condessa J. às 6 horas da tarde. Nas orlas da carta viam-se símbolos de morte e no centro, uma urna amortalhada sob a qual aparecia a versão lusitana do universal adágio de Horácio:

Entra com passo igual pelas ufanas
Casas dos reis, e míseras choupanas

Voltando de um passeio encontrei a procissão funerária: uma longa série de carros seguida de vinte cavaleiros que levavam velas acesas; seguia-os elegante carruagem tirada por quatro cavalos, com boleeiro de libré clara, e dentro dela, o ataúde, cujas extremidades saíam um pouco para fora das portas. Seguiam-se carruagens com criados vestidos de branco e vermelho, com o cocheiro e os criados suando sob enormes chapéus triangulares ornados de penas vermelhas Não fossem o caixão e as velas, e nada haveria que indicasse um funeral.

Em conversas durante esta noite e outras subseqüentes, foram mencionadas particularidades relativas a costumes funerários, que podem perfeitamente ser reproduzidas aqui.

Logo que uma pessoa morre, são fechadas as portas e janelas, sendo essa, ao que se diz, a única ocasião que é fechada a porta de entrada de uma residência brasileira. Chama-se então o agente funerário, a quem se manda preparar um funeral de tantos mil-réis, pois o preço é graduado conforme o aparato. Daí por diante, tudo é deixado por sua conta. O cadáver é sempre colocado na melhor sala, onde permanece raras vezes mais de 36 horas e não muitas vezes mais de 24 horas, período de tempo exigido pela lei. Se o defunto era casado, pendura-se na porta da rua uma cortina de pano preto e dourado; para solteiro as cores são lilás e preto; para as crianças, branco ou azul e dourado.

Os caixões para casados são invariavelmente pretos, mas nunca para os jovens; para estes são vermelhos, escarlates ou azuis. Os padres são sepultados ou levados até o túmulo em caixões com uma grande cruz pintada, o que não é permitido aos leigos. Na verdade, poucas pessoas, ricas ou pobres, são realmente enterradas em caixões, cuja principal utilidade é levar os cadáveres até o cemitério, depois do que são devolvidos com os demais aparatos ao agente funerário.

Preocupados com as roupas enquanto vivos, os brasileiros são enterrados com seus melhores trajes, salvo quando outros são preferidos por motivos religiosos. Formalistas ao máximo, impõem etiqueta mesmo aos mortos. Estes devem seguir para o outro mundo em atitudes e trajes convenientes: as mulheres casadas com vestido preto, véu preto, braços cruzados e as mãos descansando no cotovelo oposto; as solteiras, vestidas de branco, véus e grinalda de flores brancas, as mãos fechadas como em adoração, com folhas de palmas entre elas. As mãos dos homens e meninos são cruzadas sobre o peito, e, se não forem ocupadas por outros símbolos, coloca-se nelas uma pequena taça que é retirada antes do caixão descer para o túmulo. Os que desempenhavam qualquer autoridade são vestidos com trajes oficiais, os padres com suas vestes, os soldados com seus uniformes, os membros de irmandades com suas alvas, as irmãs das sociedades religiosas com a indumentária apropriada; assim, por exemplo, as da Ordem do Carmo em hábito preto, capa azul e uma fita azul na cabeça. A senhora enterrada hoje era dama de honor da Imperatriz. A roupa com que foi sepultada era o "vestuário das damas de honor". "E o que pode ser isso?’ – perguntei. "Um vestido de seda branca bordado a ouro, uma cauda de seda verde igualmente decorada, um penacho de penas de avestruz, colar, bracelete, brincos, etc.". Era um vestuário próprio para impressionar os monarcas do mundo, mas não para assegurar saudações especiais do Rei das Sombras. (A condessa era jovem, sadia e estava divertindo-se uma hora antes de morrer).

As crianças de menos de 10 ou 11 anos são vestidas de frades, freiras, santos e anjos. Quando se veste de São João o cadáver de um menino, coloca-se uma pena em uma das mãos e um livro na outra. Quando é enterrado como São José, um bordão coroado de flores toma o lugar da pena, pois José tinha um cajado que florescia como o de Aarão. A criança que tem o mesmo nome que São Francisco ou Santo Antônio usa geralmente como mortalha um hábito de monje e capuz. Para os maiores, São Miguel Arcanjo é o modelo. Veste-se então o pequeno cadáver com uma túnica, uma saia curta presa por um cinto, um capacete dourado (de papelão dourado) e apertadas botas vermelhas, com a mão direita apoiada sobre o punho de espada. As meninas representam "madonas" e outras figuras populares. Quando são necessários anéis de cabelo suplementares, o agente funerário os fornece, assim como rouge para as faces e pó para o pescoço e os braços.

Era costume antigamente conduzir os cadáveres de crianças em pé em procissão pelas ruas e, a não ser pelos olhos fechados, dificilmente um estranho podia acreditar que estivesse morta a criança que via à sua frente, com faces coradas, cabelos voando ao vento, meias e sapatos de seda, as vestes resplandecentes de pedras preciosas, tendo um ramo de palma na mão e descansando a outra com perfeita naturalidade em algum suporte artificial. Mas como podia ser o corpo sustentado em vertical? "Geralmente nesses casos" – explicou-me a senhora P., que muitas vezes auxiliou tais cerimônias, "uma cruz de madeira é fixada na plataforma, prendendo-se o corpo a ela por meio de fitas amarradas nos tornozelos, nos joelhos, sob os braços e no pescoço". Há 25 anos esse procedimento era comum, mas agora limita-se principalmente ao interior.

Nenhum parente próximo acompanha o cadáver até o cemitério. O caixão é entregue na porta aos amigos, aos quais é confiada a deposição final e respeitosa do falecido. Não se oferecem jamais comidas ou bebidas.

Após o falecimento de pai, mãe, marido, esposa, filho ou folha, a casa fica fechada durante sete dias, no decorrer dos quais os sobreviventes entregam-se a suas lamentações particulares, vestindo em seguida luto por 12 meses. Por ocasião da morte de irmãos ou irmãs, a casa fica fechada 4 dias e o período de luto é de 4 meses. No quarto ou sétimo dia, os enlutados assistem a uma missa e depois voltam a tratar de sua vida. No caso de primos em primeiro grau, tios e tias, a regra estabelecida é usar luto durante 2 meses; para primos em segundo grau, durante um mês; outros parentes, de 5 a 8 dias. de acordo com um costume antigo, os sobreviventes podem ser obrigados a respeitar a morte dessa forma, segundo o grau de consangüinidade. Os pobres, com auxílio de amigos e às vezes vendendo os móveis ou roupas de que podem dispor, conseguem seguir o hábito geral.

Às vezes, gastam-se grandes quantidades de dinheiro em roupas e jóias para o morto. Em geral, os bordados, borlas, cordões, lantejoulas, tiaras, etc. são de pechisbeque ou ouropel, mas em alguns casos enterram-se com o cadáver metal puro e jóias verdadeiras. O custo dos funerais varia entre cinqüenta a mil dólares. Alguns, chegam ao extremo de pôr luto na igreja da paróquia. Quando o falecido possui uma carruagem, é geralmente usada para conduzi-lo ao cemitério, em seu último passeio. Para evitar as despesas de um carro-fúnebre, as pessoas de pouco recursos freqüentemente pedem emprestado o carro de um amigo. Não há muito tempo, um carro fúnebre, todo de veludo, penas e ouro, foi importado da França e alguns dias depois um homem rico perdeu sua esposa. Gastou 1.500 dólares no funeral, sem contar as roupas de luto, e para dar importância à cerimônia, alugou o carro fúnebre por 22 dólares.

As viúvas nunca tiram o luto, a não ser quando tornam a casar-se. Até recentemente, nunca eram vistas dançando, o que até seria considerado escandaloso, mesmo que tivessem perdido o esposo muito tempo antes. Ainda agora, os velhos sacodem a cabeça e repetem um antigo provérbio: "As viúvas devem sempre chorar seu primeiro amor e nunca aceitar um segundo".. Queixam-se da degeneração moderna e do desaparecimento da velha virtude portuguesa.. Os jovens, porém, afirmam que são tão bons quanto seus avoengos e insistem em que se as viúvas raramente se mantém agora nesse estado, o mesmo sucedia antigamente, como indica claramente o provérbio: "Viúva rica casada fica". Os cachos de uma pequena flor purpúrea são aqui conhecidos por lágrimas de viúva. Tais flores florescem apenas uma vez por ano e logo murcham.

Uma senhora residente nas vizinhanças ficou viúva recentemente e por instigação de um novo pretendente a sua mão, induziu seu filho único, rapaz de 18 anos, a entrar para um convento, sob o pretexto de, em sua infância, tê-lo dedicado dessa maneira a Deus, além de que poderia por esse meio livrar a alma de seu pai do Purgatório. Tendo o jovem consentido, a viúva e seu amante legal entregam-se agora aos prazeres com as riquezas do falecido e do filho. Os viúvos contudo não são muito melhores. Falaram-me sobre um vizinho que perdeu a esposa e chorou desesperadamente durante 4 dias.. Seus amigos, alarmados, levaram-no a um baile, onde encontrou uma moça, com a qual casou dois meses mais tarde.

Quando o cadáver de um esposo é amortalhado, o uso exige que sua companheira sobrevivente apareça aos amigos que a vêm consolar, com vestido de cauda e touca de lã preta, véu de crepe, um leque em uma das mãos e um lenço na outra. A velha senhora P., que deve conhecer bem as coisas, diz que o mouchoir muitas vezes esconde sorrisos tanto quanto lágrimas. Salientou também que algumas viúvas não têm motivos para chorar, pois sua perda não constitui absolutamente perda alguma. As viúvas que choram mais alto, segundo observou, são as que se conformam mais depressa; mencionou o caso de uma senhora que, no quarto dia, ouvindo dizer que tanto a sua beleza como sua saúde estavam sendo prejudicadas, ergueu os olhos e disse ingenuamente: "Se é assim, eu vou parar!" E foi o que fez. O caso é paralelo ao do rico herdeiro que, inclinando-se sobre o caixão do pai, exclamou: "Pai, chorarei por você mais tarde; agora não posso."

As visitas de condolências são realizadas com as formalidades da moda. As pessoas que não as fazem vestidas de luto são consideradas desrespeitosas. Trajes inteiramente pretos representam uma condição sine qua non para os visitantes de ambos os sexos, e, a não ser para os vizinhos mais próximos, a etiqueta exige uma carruagem e um criado de libré. Os brasileiros esclarecidos reconhecem os males de tais extravagâncias dispendiosas e, como em outros países, fazem esforços para reformá-las.

Com exceção da água benta, tudo o mais é cobrado pelo padre: batismos e enterros tanto quanto casamentos. Embora o falecido não seja enterrado no distrito onde vive, os emolumentos são cobrados da mesma forma. A paróquia da Glória tem um cemitério bastante insuficiente na igreja da Lapa e muitos paroquianos são enterrados alhures. Nestes casos, o vigário acompanha o enterro em um carro logo atrás daquele em que vai o cadáver, seguindo-o até o seu destino. Ao chegar, inclina-se diante de seu reverendo irmão, a cujos cuidados entrega o cadáver, de acordo com as regras eclesiásticas ou civis. Em seguida, retira-se, recebendo o emolumento legal de 20 mil réis, sendo que os ricos freqüentemente dão mais. Antes da transferência, é necessário obter o certificado de óbito dado pelo médico e fazê-lo rubricar pelo vigário, que para isso recebe 2 mil réis e muitas vezes até 20 mil réis.

Qualquer coisa que tenham sido em vida, os leigos são sempre proveitosos para os padres quando deixam de viver. Missas, muitas ou poucas, são oferecidas em sua intenção; e as missas são sempre pagas. O preço habitual de uma, mandada rezar pela família logo após o enterro, é dois dólares. Os ricos naturalmente, não estão limitados a isso. Para as missas subseqüentes, faz-se um acordo especial. J. contou ter sido, com outro senhor, executor das últimas vontades de um conhecido que deixara 500 mil réis para serem gastos em missas por intenção de sua alma. Combinaram com um padre, como é habitual, o preço de cada uma. Toda missa, para ser eficaz precisa ser oficiada em jejum e antes de meio-dia. No caso mencionado, devia ser celebrada apenas uma missa por dia e em intenção exclusiva da alma do falecido. Muito pouco tempo depois, o padre apresentou sua conta, passou logo um recibo e perguntou pelo dinheiro. Foram levantadas objeções por não haver decorrido sequer metade do tempo necessário para cumprir honestamente sua parte do acordo. O padre insistiu, porém, em que tudo foi convenientemente feito. Relutaram, mas finalmente pagaram-no.

(EWBANK, Thomas. A vida no Brasil; ou Diário de uma visita à terra do cacaueiro e das palmeiras. Belo Horizonte / São Paulo, Editora Itatiaia / Editora da Universidade de São Paulo, 1976. Reconquista do Brasil, 26)

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