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| FESTANÇA - Nesta seção, textos sobre
festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas;
instrumentos musicais... |
DE COMO TRATAM OS SELVAGENS... OS FUNERAIS |
DE COMO TRATAM OS
SELVAGENS OS SEUS DOENTES, DOS FUNERAIS E SEPULTURAS E DO MODO DE CHORAR OS SEUS DEFUNTOS
(capítulo XIX) Terminando minhas observações acerca
dos selvagens da América, direi como tratam os seus doentes e os assistem em seus
últimos momentos ao aproximar-se a morte natural.
Se acontece cair doente algum deles, logo mostra a um amigo a parte do corpo em que sente
mal e esta é imediatamente chupada pelo companheiro ou por algum pajé, embusteiro de
gênero diverso dos caraíbas a que me referi no capítulo em que tratei de sua religião
e que corresponde aos nossos barbeiros ou médicos. E tais pajés lhes fazem crer não
somente qie os curam mas ainda que lhes prolongam a vida.
Além das febres e doenças comuns, às quais, em razão do clima saudável estão menos
sujeitos do que nós, sofrem os nossos americanos de uma moléstia incurável denominada pian
e que tem por causa a luxúria, embora tenha visto meninos tão atacado dessa doença, que
se pareciam com variolosos. Transformando-se o mal em pústulas mais grossas do que o
polegar, que se espalham por todo o corpo, os indivíduos que o contraem ficam recobertos
de marcas que se conservam durante a vida toda, tal como entre nós ocorre aos engalicados e cancerosos que se contagiaram na torpeza e na impudicícia. Com efeito, vi nesse
país um intérprete natural de Ruão que, tendo chafurdado na obscenidade com as
raparigas da terra, recebeu tão amplo e merecido salário que tinha o corpo coberto de pians
e o rosto desfigurado a ponto de parecer com um desses leprosos em quem as cicatrizes se
tornam indeléveis. É essa a moléstia mais perigosa do
Brasil.
Os americanos têm por hábito, após a sucção da parte doente do corpo, nada dar aos
doentes acamados a menos que o peçam. E se não o fazem ficam às vezes um mês inteiro
sem comer e, por mais grave que seja a doença, nada impede os que estão com saúde de
dançarem, cantarem, beberem e se divertirem com grande bulha
em torno da vítima, a qual, consciente de que de nada adiantaria lastimar-se, se conforma
em ouvir a algazarra silenciosamente. Todavia se ocorre morrer o doente, principalmente em
se tratando de um bom chefe de família, converte-se a cantoria em súbito pranto e tal
barulho fazem que se nos encontrarmos em uma aldeia onde tenha morrido alguém não nos
será possível fechar os olhos para dormir. As mulheres sobretudo se exaltam nas
lamentações e gritam tão alto que mais parecem cães ou lobos a uivarem.
Berram umas, arrastando a voz: "Morreu quem era tão valente e tantos prisioneiros
nos dava a devorar!"
E outras replicam no mesmo tom: "Era bom caçador e excelente pescador."
E outras acrescentam: "Que bravo matador de perôs e margaiá era ele,
e como nos vingava". E assim, excitando-se mutuamente e se abraçando, não cessam a
ladainha de seus louvores enquanto o cadáver estiver presente e dizem por miúdo, tudo o
que em vida o defunto praticou.
Dizem que as mulheres de Béarn fazendo do vício virtude, assim cantam no pranto erguido
em presença de seus maridos defuntos: La mi amon, la mi amon, cara rident, oeil de
splendom; cama leugé, bel dansadou; lo me balen, lo mes burbat; mati depes; fort
tard au lheit, o que quer dizer: meu amor, meu amor, cara risonha, olhos brilhantes,
perna ligeira, bom dançarino, homem valente, madrugador; cedo de pé, tarde na cama. E
afirmam que as mulheres da Gasconha acrescentam: Vere, vere, ô le bet renegadon, ô le
bet jougadom quhere, ou seja: Ai de mim, ai de mim, que lindo renegado, que belo
jogador era ele. Assim fazem as nossas americanas repetindo a cada estância o estribilho: "Morreu, morreu, aquele que agora carpimos".
E os homens a isso respondem dizendo: "Em verdade não o veremos mais, a não ser
quando formos para além das montanhas, onde como nos ensinam os nossos caraíbas,
dançaremos com eles".
Tal cerimônia dura em geral apenas meio dia, pois não conservam mais tempo os cadáveres
insepultos.
Depois de aberta a cova, não comprida como as nossas mas redonda e profunda como um tonel
de vinho, curvam o corpo e amarram os braços em torno das pernas, enterrando-o quase de
pé. Se o finado é pessoa de destaque sepultam-no na própria casa, envolvido em sua
rede, juntamente com os seus colares, plumas e outros objetos de uso pessoal. É verdade
que também os antigos se comportavam do mesmo modo e José nos diz que muitas coisas
foram depositadas no túmulo de Davi; por outro lado vários historiadores profanos se
referem a preciosas jóias que eram enterradas com os seus donos e apodreciam com o
cadáver. Sem ir tão longe, direi que os índios do Peru, terra contígua a dos
brasileiros, enterram com seus reis e caciques grande quantidade de ouro e pedras
preciosas. Muitos entre os prisioneiros espanhóis que estiveram nesse país ficaram
riquíssimos violando os túmulos e roubando o que podiam encontrar. E a esses avarentos
bem se poderia aplicar o dístico que, segundo Plutarco, a rainha Semíramis mandara
gravar na sua sepultura: "Quem quer que seja o rei ansioso por dinheiro, abrindo este
meu túmulo tire o quanto quiser". Aberto o sepulcro, porém, em vez de ouro se
encontrava outra inscrição: "Se não fosses um miserável faminto de ouro, jamais
teria violado cadáveres em busca de tesouros".
Voltando aos nossos tupinambás, direi que depois que entraram em contato com os franceses
já não enterram mais coisas de valor como costumavam fazer; mantêm porém uma
superstição muito extravagante, como vereis.. Acreditam firmemente que se Anhangá
não encontrar alimentos preparados junto das sepulturas desenterrará e comerá o
defunto; por isso colocam, na primeira noite depois de sepultado o cadáver, grandes alguidares de farinha, aves, peixes e outros alimentos e potes de cauim e continuam a prestar esse serviço verdadeiramente
diabólico ao defunto, até que apodreça o corpo. Desse erro era muito difícil
demovê-los, porquanto os intérpretes normandos que nos haviam precedido no país,
imitando os sacerdotes Baal a que aludem as Escrituras, confirmavam os selvagens na
supersticiosa crença a sim de se aproveitarem, à noite, da pitança
excelente; e nunca nos foi possível levar os selvagens a compreender que os alimentos
depositados não eram consumidos por Anhangá. Mas esse absurdo não me parece muito
diferente da insânia dos rabinos ou da de Pausânias.
Sustentam com efeito os rabinos que o defunto fica pertencendo a um diabo a que chamam
Zabel e que, segundo o Levítico, é o príncipe do deserto; e para confirmar o erro,
interpretam a seu modo a passagem bíblica em que se diz à serpente: "Tu comerás
terra por todo o tempo de tua vida".
Afirmam eles que o nosso corpo é feito do limo e do pó da terra, que constitui a carne
da serpente; portanto fica-lhe sujeito até transformar-se em natureza espiritual.
Pausânias também se refere a outro diabo chamado Eurinomo, que, segundo os intérpretes
dos Delfos, devorava a carne dos mortos até os ossos.
Já mostramos no capítulo precedente como os selvagens renovam e transferem suas aldeias
de uns para outros lugares. Quanto às sepulturas costumam colocar pequenas coberturas de
folhas de pindoba de modo a que os viandantes reconheçam a localização dos cemitérios
e a que as mulheres lenhadoras, ao se lembrarem de seus maridos, desatem a chorar com
gritos de se ouvirem à distância de meia légua.
Como acompanhei os selvagens até o túmulo, rematarei aqui as minhas observações acerca
dos costumes dessa gente. Todavia poderão os leitores encontrar ainda alguma coisa a
respeito no colóquio seguinte que compus na América com a ajuda de um intérprete muito
senhor da língua do país não só por ali ter estado sete ou oito anos mas ainda por
tê-la estudado e confrontado com o idioma grego do qual os tupinambás tiraram algumas
palavras como poderão observar os que a entendem.
(LÉRY, Jean de. Viagem
à terra do Brasil. Belo Horizonte; São Paulo, Editora Itatiaia; Editora da
Universidade de São Paulo, 1980. Reconquista do Brasil (nova série), 10) |
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