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Ano II - novembro 1999 - nº 15

Sua revista com a cara e a alma brasileira


SUMÁRIO - EDIÇÃO 15
FESTANÇA
As impressões de Carl von Koseritz sobre um enterro realizado no cemitério de São João Batista no Rio de Janeiro, em 1883.

Os funerais e sepulturas entre os selvagens do Brasil do século XVI, por Jean de Léry.

Enterro de uma negra e Enterro do filho de um rei negro descritos pelo viajante francês Jean-Baptiste Debret, no Rio de Janeiro do século XIX.

O viajante americano Thomas Ewbank relaciona costumes e protocolos relacionados a um funeral no Brasil de meados do século XIX.
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE

 

FESTANÇA - Nesta seção, textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...


ENTERRO

Carl von Koseritz


IMAGENS DO BRASIL

Rio, 20 de outubro de 1883

Ontem acompanhamos o pobre Alessandro Salvatti à sua última morada. Não eram muitos os amigos que acompanhavam o seu corpo, mas os poucos que o faziam, sentiam verdadeira dor, porque ele era um homem estimável e excelente. Para os estrangeiros que vivem neste clima mortal é uma triste coisa ver morrer em pouco mais de 48 horas um homem tão alegre e robusto. Possa este fim nos ser poupado… Pobre Salvatti! Pais extremosos o aguardavam na Itália, mulher e filhos por ele aguardam em vão, - o filho, o esposo, o pai não voltará mais. Na terra estranha o depusemos, todos os sonhos futuros de glória e sucesso se acabaram com as pulsações do seu coração. Assaltado por estes e semelhantes pensamentos acompanhei ontem o carro mortuário pelo longo caminho de Santa-Teresa ao cemitério de São João Batista, situado longe, em Botafogo, quase na Praia Vermelha. Sem uma tão triste razão não teria vindo ao cemitério, pois por prazer ou curiosidade não os visito, porque agora com tanta gente morrendo de febre amarela ou de varíola eles são o reino dos micróbios, estes bichinhos que hoje aqui fazem tanto falar de si, como antigamente na Alemanha os triquínios.

Mas como estive no cemitério, vou descrevê-lo. Devo dizer inicialmente que ele me deu a impressão de inacabado, apesar da sua riqueza em mármores, da mesma maneira que o cemitério de Pelotas, também rico em mármores, que não tem aquela poesia que os ciprestes e os chorões emprestam aos campos do Senhor. Tenho uma certa afeição por estes cemitérios, no qual reina uma calma sombria, onde os raios do sol são quebrados pelas ramagens, e onde tudo convida ao último sono. É possível que eu fale influenciado pelo lindo campo santo da minha cidade natal, com as suas grandes árvores e os seus muros e túmulos cobertos de hera, ou por aquele velho cemitério do Rio Grande onde antigamente foram enterrados os corpos dos meus primeiros camaradas mortos no Brasil, mas a impressão que me fizeram todos esses monumentos de mármore, sobre os quais dardeja o sol, foi desagradável. Como é muito mais poético um túmulo cercado de hera, num canto sóbrio coberto de uma simples pedra e próximo a um chorão… Aqui tudo é frio e comercial, brilhante mas prosaico, completamente prosaico e não se vê nada senão a vaidade dos grandes da terra, que até depois da morte querem morar em casas de mármore. Embora deva ser indiferente a um homem de razão o destino dado aos seus restos, não posso conceber com simpatia a idéia de ser enterrado em semelhante cemitério. Teria preferido muito mais ser cremado no forno crematório de Jurujuba, mesmo com o risco de inaugurá-lo, pois ele até agora ainda não trabalhou. De resto a desagradável impressão causada pelo São João Batista é melhorada pela circunstância de ser ele dividido em quarteirões, que são cercados por altos muros. Aqui se sepulta primeiro na terra, e quando fica completa uma camada, trazem nova terra e continuam sepultando. Seguem-se assim camadas sobre camadas até à altura do muro. Este sistema, forçado pela falta de espaço, para evitar a abertura dos velhos túmulos deve ser perigoso nestes tempos de febre amarela, varíola, etc. No meio do cemitério há uma grande cruz, ao lado da qual está o telheiro em que se depositam os cadáveres que são enterrados 24 horas depois. A lei exige esta medida porque foram constatados vários casos de enterrados vivos. É certo que não se ganhou grande coisa, pois os caixões são fechados e de madeira (em vez de ser de lata e tela, como em Porto Alegre). trouxeram já caixões europeus, ainda que por medo de contágio da febre amarela. Deixemos porém repousar os mortos. Espero poder ainda regressar vivo ao Rio Grande, e faço portanto as observações acima sem nenhuma segunda intenção.


(KOSERITZ, Carl von. Imagens do Brasil. São Paulo, Martins; Editora da Universidade de São Paulo, 1972. Biblioteca Histórica Brasileira)

Autor
Carl von Koseritz nasceu em Dessau, Alemanha, em 1830, e faleceu repentinamente, no Rio Grande do Sul, a 30 de maio de 1890. Veio para o Brasil aos 21 anos de idade, engajado na qualidade de canhoneiro do 2º Regimento de Artilharia, na tropa mercenária organizada por Sebastião do Rego Barros. Passou, com seus companheiros, alguns dias no Rio de Janeiro, na caserna da Praia Vermelha, embarcando em seguida para o sul, de onde só deveria voltar 32 anos depois, já transformado na principal personalidade da colônia alemã e num jornalista e político que desfrutava de grande prestígio, mesmo fora dos círculos alemães.

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