IMAGENS DO BRASIL
Rio, 20 de outubro de 1883
Ontem acompanhamos o pobre Alessandro Salvatti à sua última morada. Não eram muitos os
amigos que acompanhavam o seu corpo, mas os poucos que o faziam, sentiam verdadeira dor,
porque ele era um homem estimável e excelente. Para os estrangeiros que vivem neste clima
mortal é uma triste coisa ver morrer em pouco mais de 48 horas um homem tão alegre e
robusto. Possa este fim nos ser poupado
Pobre Salvatti! Pais extremosos o aguardavam
na Itália, mulher e filhos por ele aguardam em vão, - o filho, o esposo, o pai não
voltará mais. Na terra estranha o depusemos, todos os sonhos futuros de glória e sucesso
se acabaram com as pulsações do seu coração. Assaltado por estes e semelhantes
pensamentos acompanhei ontem o carro mortuário pelo longo caminho de Santa-Teresa ao
cemitério de São João Batista, situado longe, em Botafogo, quase na Praia Vermelha. Sem
uma tão triste razão não teria vindo ao cemitério, pois por prazer ou curiosidade não
os visito, porque agora com tanta gente morrendo de febre amarela ou de varíola eles são
o reino dos micróbios, estes bichinhos que hoje aqui fazem tanto falar de si, como
antigamente na Alemanha os triquínios.
Mas como estive no cemitério, vou descrevê-lo. Devo dizer inicialmente que ele me deu a
impressão de inacabado, apesar da sua riqueza em mármores, da mesma maneira que o
cemitério de Pelotas, também rico em mármores, que não tem aquela poesia que os
ciprestes e os chorões emprestam aos campos do Senhor. Tenho uma certa afeição
por estes cemitérios, no qual reina uma calma sombria, onde os raios do sol são
quebrados pelas ramagens, e onde tudo convida ao último sono. É possível que eu fale
influenciado pelo lindo campo santo da minha cidade natal, com as suas grandes árvores e
os seus muros e túmulos cobertos de hera, ou por aquele velho cemitério do Rio Grande
onde antigamente foram enterrados os corpos dos meus primeiros camaradas mortos no Brasil,
mas a impressão que me fizeram todos esses monumentos de mármore, sobre os quais dardeja
o sol, foi desagradável. Como é muito mais poético um túmulo cercado de hera, num
canto sóbrio coberto de uma simples pedra e próximo a um chorão
Aqui tudo é frio
e comercial, brilhante mas prosaico, completamente prosaico e não se vê nada senão a
vaidade dos grandes da terra, que até depois da morte querem morar em casas de mármore.
Embora deva ser indiferente a um homem de razão o destino dado aos seus restos, não
posso conceber com simpatia a idéia de ser enterrado em semelhante cemitério. Teria
preferido muito mais ser cremado no forno crematório de Jurujuba, mesmo com o risco de
inaugurá-lo, pois ele até agora ainda não trabalhou. De resto a desagradável
impressão causada pelo São João Batista é melhorada pela circunstância de ser ele
dividido em quarteirões, que são cercados por altos muros. Aqui se sepulta primeiro na
terra, e quando fica completa uma camada, trazem nova terra e continuam sepultando.
Seguem-se assim camadas sobre camadas até à altura do muro. Este sistema, forçado pela
falta de espaço, para evitar a abertura dos velhos túmulos deve ser perigoso nestes
tempos de febre amarela, varíola, etc. No meio do cemitério há uma grande cruz, ao lado
da qual está o telheiro em que se depositam os cadáveres que são enterrados 24 horas
depois. A lei exige esta medida porque foram constatados vários casos de enterrados
vivos. É certo que não se ganhou grande coisa, pois os caixões são fechados e de
madeira (em vez de ser de lata e tela, como em Porto Alegre). trouxeram já caixões
europeus, ainda que por medo de contágio da febre amarela. Deixemos porém repousar os
mortos. Espero poder ainda regressar vivo ao Rio Grande, e faço portanto as observações
acima sem nenhuma segunda intenção.
(KOSERITZ, Carl von. Imagens
do Brasil. São Paulo, Martins; Editora da Universidade de São Paulo, 1972.
Biblioteca Histórica Brasileira)Autor
Carl von Koseritz nasceu em Dessau, Alemanha, em 1830, e faleceu repentinamente, no Rio
Grande do Sul, a 30 de maio de 1890. Veio para o Brasil aos 21 anos de idade, engajado na
qualidade de canhoneiro do 2º Regimento de Artilharia, na tropa mercenária organizada
por Sebastião do Rego Barros. Passou, com seus companheiros, alguns dias no Rio de
Janeiro, na caserna da Praia Vermelha, embarcando em seguida para o sul, de onde só
deveria voltar 32 anos depois, já transformado na principal personalidade da colônia
alemã e num jornalista e político que desfrutava de grande prestígio, mesmo fora dos
círculos alemães. |