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Ano II - novembro 1999 - nº 15

Sua revista com a cara e a alma brasileira


SUMÁRIO - EDIÇÃO 15
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU

Os encantos e as delícias da comida baiana, descritos por Odorico Tavares.

Antes do advento do fogão à gás, acender o fogo rapidamente era considerado preciosa prenda doméstica. A arte de acender o fogo.

Dos alimentos puramente africanos, um texto de Manuel Querino relacionando pratos africanos presentes até hoje na culinária brasileira.

PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE

 

COLHER DE PAU - Nesta seção, textos sobre receitas tradicionais; bebidas típicas; alimentos brasileiros; costumes à mesa; horta, pomar e criação; crenças, costumes e tabus relacionados à alimentação e alimentos...


DOS ALIMENTOS PURAMENTE AFRICANOS


Ilustração de autor ignorado, in EDMUNDO, Luís, O Rio de Janeiro no tempo dos vice-reisSão estes os principais alimentos de que o africano fazia abundantemente uso, entre nós, e são, hoje em dia, preparados pelos seus descendentes, com a mesma perfeição:

Acaçá

Deita-se o milho com água em vaso bem limpo, isento de quaisquer resíduos, até que se lhe altere a consistência. Nestas condições, rala-se na pedra, passa-se numa peneira ou urupema e, ao cabo de algum tempo, a massa fina adere ao fundo do vaso, pois, nesse processo, se faz uso de água para facilitar a operação.

Escoa-se a água, deita-se a massa no fogo com outra água, até cozinhar em ponto grosso.

Depois, com uma colher de madeira, com que é revolvida no fogo, retiram-se pequenas porções que são envolvidas em folhas de bananeira, depois de ligeiramente aquecidas ao fogo.


Acarajé

A principal substância empregada é o feijão fradinho, depositado em água fria até que facilite a retirada do envoltório exterior, sendo o fruto ralado na pedra.

Isto posto, revolve-se a massa com uma colher de madeira e, quando a massa toma a forma de pasta, adicionam-se-lhe, como temperos, a cebola e o sal ralados.

Depois de bem aquecida uma frigideira de barro, aí se derrama certa quantidade de azeite-de-cheiro (azeite de dendê) e, com a colher de madeira, vão-se deitando pequenos nacos da massa, e com um ponteiro ou garfo são rolados na frigideira até cozer a massa. O azeite é renovado todas as vezes que é absorvido pela massa, a qual toma exteriormente a cor do azeite. Ao acarajé acompanha um molho, preparado com pimenta-malagueta seca, cebola e camarões, moído tudo isso na pedra e frigido em azeite-de-cheiro, em outro vaso de barro.


Arroz-de-hauçá

Cozido o arroz n’água sem sal, mexe-se com a colher de madeira até que se torne delido, formando um só corpo, e, em seguida, adiciona-se um pouco de pó-de-arroz para assegurar a consistência.

Prepara-se, depois, o molho em que entram como substâncias a pimenta-malagueta seca, cebola e camarões, tudo ralado na pedra.

Leva-se o molho ao fogo com azeite-de-cheiro e um pouco d’água, até que esta se evapore.

Como complemento ao arroz-de-hauçá, o africano frigia pequenos pedaços de carne de charque que eram espalhados sobre o arroz juntamente com o molho.


Efó

Corta-se a folha conhecida vulgarmente por língua de vaca ou a mostarda e deita-se ao fogo a ferver com pouca água. Isto feito, escoa-se a água, espreme-se a massa daí resultante e coloca-se de novo na mesma vasilha com cebola, sal, camarões, pimenta-malagueta seca, tudo ralado conjuntamente na pedra, e, finalmente, o azeite-de-chieiro.

Prepara-se também o efó com peixe assado, ou com garoupa, caso em que esta é cozida à parte.

Ainda mais: como o peixe é assado sem sal, ralam-se os respectivos temperos, em quantidade suficiente, e leva-se tudo ao fogo. O africano empregava ainda a folha de taioba no preparo do efó.


Caruru

Em seu preparo observa-se o mesmo processo do efó, podendo ser feito de quiabos, mostarda ou de taioba, ou de oió, ou de outras gramíneas que a isso se prestem, como sejam as folhas dos arbustos conhecidos, nesta capital (Bahia), por unha-de-gato, bertalha, bredo de Santo Antônio, capeba, etc., às quais se adicionam a garoupa, o peixe assado ou a carne de charque e um pouco d’água que se não deixa secar ao fogo. O caruru é ingerido com acaçá ou farinha de mandioca.


Ecuru

Preparado o feijão fradinho como se fez com o acarajé, coloca-se pequena quantidade em folhas de bananeira, à maneira do acaçá, e cozinha-se em banho-maria, isto é, sobre gravetos colocados no interior de uma panela com água.

Depois de pronta, a massa é diluída em mel de abelhas ou num pouco de azeite-de-cheiro com sal.

É uma verdadeira farofa.


Xin-xin

Morta a galinha, depena-se, lava-se bem, depois de retirados os intestinos, e corta-se em pequenos pedaços.

Deitam-se na vasilha ou panela para cozinhar com sal, alho e cebola ralados.

Logo que a galinha estiver cozida, adicionam-se camarões secos em quantidade, sal, se for preciso, cebola, sementes ou pevides de abóbora ou melancia, tudo ralado na pedra, e o azeite-de-dendê.


Bolas de inhame

Despido da casca, lava-se o inhame com limão e coze-se com pouco sal. Em seguida é pisado em pilão e da massa se formam bolas grandes, que são servidas com caruru ou efó.


Bobó de inhame

Corta-se o inhame em pequenos pedaços, leva-se ao fogo com água e finalmente tempera-se com o efó.


Feijão de azeite (humulucu)

Cozido o feijão fradinho, tempera-se com cebola, sal, alguns camarões, sendo todas estas substâncias raladas na pedra, adicionando-se, ao mesmo tempo, o azeite de cheiro.

A iguaria só é retirada do fogo depois de cozidos os temperos.


Aluá

O milho demorado n’água, depois de três dias, dá a esta um sabor acre, de azedume, pela fermentação. Coa-se a água, adicionam-se pedaços de rapadura e, diluída esta, tem-se bebida agradável e refrigerante.

Pelo mesmo processo se prepara o aluá ou aruá da casca do abacaxi.


Dengué

É o milho branco cozido, ao qual se junta um pouco de açúcar.


Ebó

É preparado com milho branco pilado. Depois de cozido, certas tribos africanas adicionavam-lhe azeite-de-cheiro e outras o ori.

Outro processo: misturam-se o milho e o feijão fradinho torrado e, com um pouco d’água, deitam-se a ferver; depois, juntam-se dal e azeite-de-cheiro.


Latipá ou Amori

Era feito com as folhas inteiras da mostardeira, as quais, depois de fervidas, temperavam como o efó e deitavam em frigir no azeite-de-cheiro.


Abará

Põe-se o feijão fradinho em vaso com água até que permita desprendê-lo da casca, e depois de ralado na pedra com cebola e sal, junta-se um pouco de azeite-de-cheiro, revolvendo-se tudo com uma colher de madeira.

Finalmente, envolvem-se pequenas quantidades em folhas de bananeira, como se faz com o acaçá, e coze-se a banho-maria.


Aberém

Prepara-se o milho como se fora para o acaçá e dele se fazem umas bolas semelhantes às de bilhar, que são envolvidas em folhas secas de bananeira, aproveitando-se a fibra que se retira do tronco para atar o aberém.

É servido com caruru e também com mel de abelhas.Dissolvido n’água com açúcar, é excelente refrigerante.

Havia ainda o aberém preparado com açúcar, cujas bolas, do tamanho de um limão, eram ingeridas sem outro qualquer elemento adocicado.


Massa

Rala-se o arroz, cozinha-se e formam-se pequenas bolas que se envolvem em polvilho de arroz. São também refrigerantes, dissolvidas em água com açúcar.

O preto muçulmano, porém, frigia estas bolas de arroz no azeite-de-cheiro, ou no mel de abelhas, constituindo essa iguaria verdadeira preciosidade, em suas cerimônias religiosas.


Ipete

O inhame descascado, cortado miúdo, fervido até perder a consistência, é temperado com azeite-de-cheiro, camarões, cebola e pimenta, estes últimos ralados na pedra.


Ado

É o milho torrado reduzido a pó e temperado com azeite-de-cheiro, podendo-se-lhe juntar o mel de abelhas.


Olubó

Descacscada e cortada a raiz da mandioca, em fatias muito delgadas, são estas postas a secar ao sol.

Na ocasião precisa, são essas fatias levadas ao pilão, e aí trituradas e passadas em peneira ou urupema. A água a ferver, derramada sobre o pó, produz o olubó, que é uma espécie de pirão.


Oguedê

É a banana denominada da terra frita no azeite-de-cheiro.


Efun-oguedê

Prepara-se com a banana de São Tomé, não amadurecida de todo, descascada, cortada em fatias e deitada ao sol para secar.

Dias depois pisa-se, no pilão, passa-se na peneira e obtém-se a farinha chamada – efun-oguedê.


Éran-patere

É um naco de carne verde, bem fresca, salgada e frita no azeite-de-cheiro.

***

Os africanos ainda condimentavam as suas refeições com o ataré (pimenta-da-costa), em quantidade muito reduzida; com o iru, fava de um centímetro de diâmetro, usada em quantidade diminuta; com o pejerecum ou bejerecum, outra fava de quatro centímetros de comprimento por dez milímetros de espessura, empregada no tempero do caruru; com o ierê, semente semelhante à do coentro e usada como tempero do caruru, do peixe e da galinha.

Faziam ainda os africanos largo emprego do egussi (pevide de abóbora ou melancia) no condimento de certas iguarias.

O africano, em geral, era sóbrio no uso de bebidas alcoólicas; não se davam ao vício da embriaguez, mas no dendezeiro extraíam generoso vinho.

Para esse fim, na parte superior do tronco dessa palmeira, faziam uma incisão e colocavam um pedaço de bambu para servir de escoadouro da seiva. Ao líquido que caía em uma cabaça aí amarrada, davam o nome de vinho de dendê.

Posteriormente, na Bahia, foi o vinho posto a fermentar e filtrado antes de engarrafado, e isso lhe imprimia certa potência alcoólica e característica, sem embargo do paladar agradável e saboroso.


(QUERINO, Manuel. A arte culinária na Bahia. In. CARNEIRO, Edison. Antologia do negro brasileiro. Ediouro)

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