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Ano II - novembro 1999 - nº 15

Sua revista com a cara e a alma brasileira


SUMÁRIO - EDIÇÃO 15
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU

Os encantos e as delícias da comida baiana, descritos por Odorico Tavares.

Antes do advento do fogão à gás, acender o fogo rapidamente era considerado preciosa prenda doméstica. A arte de acender o fogo.

Dos alimentos puramente africanos, um texto de Manuel Querino relacionando pratos africanos presentes até hoje na culinária brasileira.

PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE

 

COLHER DE PAU - Nesta seção, textos sobre receitas tradicionais; bebidas típicas; alimentos brasileiros; costumes à mesa; horta, pomar e criação; crenças, costumes e tabus relacionados à alimentação e alimentos...


DA ARTE DE ACENDER O FOGO

Hildegardes Viana


Ora direis – acender um fogo! Qual a dificuldade no caso? Torce-se a castanha do fogão. Chega-se ao acendedor elétrico e pronto. Qual a importância do acontecimento?

Fazer fogo já foi virtude doméstica. Doméstica primordial. Pelo menos até os idos da Segunda Guerra Mundial, quando o fogo alimentado por pó de serra foi considerado verdadeira obra prima do engenho humano. Na época faltando carvão e lenha, alguém inventou socar o pó de serra numa lata, deixando uma folga, um arremedo de periscópio ou respirador, para a chama que circulava livremente, uma vez ardido o lume. Uma janelinha aberta na base da lata ajudava o resto.

Acender o fogo (antes do fogão à gás) era, como já disse, prenda doméstica preciosa. A quase totalidade das residências possuía fogão a carvão ou à lenha. Fogões clássicos de tijolos, fogão Vargas, fogões econômicos, fogões com chapa de ferro. Todos alimentados a carvão ou a lenha. Os de lenha com caldeira e boeiro, como qualquer outro invento a vapor.

Alguns fogões possuíam bocas e fornalhas múltiplas. Embora outros apenas uma, para abanar e servir de borralho. Os de lenha tinham de 4 a 8 fornalhas, chapa de ferro com cobertura, a boca em sistema duplex, com porta e tudo. O primeiro a andar para a cinza recebia o nome de borralho, o segundo a boca propriamente dita, era para as achas. Nos de carvão as fornalhas ficavam encravadas nas paredes de barro.

Era o tempo do borralho e das verdadeiras borralheiras. O borralho era onde se podia assar batata doce e banana de são tomé sem incomodar o próximo nem sujar panelas. Mas o assunto não é fogões nem borralho. É fogo. Ou melhor, fazer fogo. O fogo que servia para definir o caráter de uma mulher. Quando se queria depreciar uma criatura do sexo feminino, velha ou moça, ressaltando sua inutilidade total, dizia-se logo – Não sabe acender um fogo! O fogo que era essencial á vida de um lar.

Aceso de manhãzinha era mantido por todo o dia, entrando pela noite, houvesse ou não o que cozinhar. Um caldeirão ou chaleira com água fervia borbulhava, secava e era renovado, durante as 24 horas do dia. Água quente numa casa era artigo indispensável. Em casos de azia, gases, palpitações, empachamentos, dores sem diagnósticos, cólicas renitentes, enfim tudo que fosse enfermidades, hoje curada com comprimidos, o chá medicinal era socorro. Nas vertigens, desmaios e desfalecimentos, água quente para os pés era imprescindível. Nos resfriados, defluxos e gripes, o escalda-pé era essencial. Não podia faltar água quente.

Hoje se manda brasa. Naquele tempo pedia-se brasa emprestada porque fazer o fogo era fogo. Conseguir que carvão ou lenha inflamasse não era tarefa das mais fáceis e agradáveis. Nem dependia da vontade do cidadão. Dependia da qualidade do carvão ou lenha, da força do abano, a maré estar vazando ou enchendo e da altura da lua.

Gente que achava bom e fácil, usava papel de jornal como estopim. Entupia o borralho com gazeta, punha o carvão na fornalha e chegava o fósforo. O resto era abano e mais abano. Abanadelas entre tosses e lágrimas. Querosene era recurso mais escolástico. Paninhos ou mesmo a cinza embebida no inflamável eram postos cuidadosamente sobre os bagos. Por vezes, o querosene, era substituído pelo sebo de carne verde derretido, trazendo igual rendimento com a vantagem de não sujar tanto as mãos. O aguxó era um odioso meio de fazer fogo. Feitos com as palhas de bagaceiras restante do fabrico do azeite de dendê resinoso, fumacento, elevava rapidamente uma chama capaz de atingir e inflamar qualquer carvão molhado duro ou cinzeiro mas empretecia as paredes rapidamente.

A era dos pavios e pirâmides industrializados não chegou a ter muita repercussão no desenvolvimento da ciência doméstica. O caso não era do combustível, e sim, do comburente. Carvão seco leve pegava fogo até álcool ou azeite doce. Para o fogo de lenha nutrido com lasquinhas de madeira, maravalhas, querosene, na beira das achas, tudo era recurso. Apenas, enquanto a chama não laborasse, sobrava fumaça dentro da casa. O cheiro de fumaça ficava impregnado em tudo, desencorajando qualquer esnobismo. Por isto uma mulher firmava conceito quando fazia fogo com o mínimo de abano e de fumaça. Repetia, então, a ladainha de todas as madrugadeiras: Levanto, acendo o fogo, vou varrer a sala de jantar, quando volto o fogo está pegado, boto a água do café para ferver e vou estender a mesa.

Felizes possuidores de fogões de gás liquefeito!

Como era penoso aquele tempo do carvão da lenha e do acender fogo!

(VIANA, Hildegardes. A Bahia já foi assim – crônicas de costumes. 2ª ed. Brasília, Ed. GRD, 1979)

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