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Almanaque: Nesta seção, textos sobre variedades; frases de pára-choques de caminhões; passatempos; provérbios; curiosidades; pregões de ambulantes; causos; anedotas; folclore de botequim; latrinália; escritos em papel-moeda; anedotas; charadas...


- Pena Branca e Xavantinho: História; Discografia; Depoimentos; Músicas.

- Causos de Minas por Eurico de Andrade

- Cornélio Pires:  O Truco.

- Etimologia de Finados.

- No Estradão.

- Provérbios.

- Anedotas históricas.

- Pregão.

Pena Branca e Xavantinho
História   Depoimentos   Discografia    Letras

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"...as cenas da roça, das praças das pequenas cidades, do desolado do campo, de encontro e do desencontro amoroso. E ainda, a saudade, a solidariedade, a dor da perda, a alegria do próprio cantar. E mais: o rio e a rosa, o riso e a rolinha, a romaria e os romeiros - imagens que irrigam o fundo das coisas. Pena Branca e Xavantinho reanimam a gente através da música, essa que é uma das formas mais misteriosas e também mais poderosas de mexer com a matéria da memória..."

(J. Jota de Moraes. Revista Globo Rural, novembro de 1994)

História

Os primeiros anos

A 4 de setembro de 1939, nascia em Igarapava, São Paulo, José Ramiro Sobrinho, o Pena Branca, primeiro filho de Dolores Maria de Jesus, apelidada de Coitinha, e de Francisco da Silva. Três anos mais tarde, nasce Ranulfo da Silva, o Xavantinho, em Cruzeiro dos Peixotos, zona rural de Uberlândia, Minas Gerais, cidade para onde a família havia se mudado após o nascimento de José Ramiro, e onde o pai possuía uma pequena lavoura e criava algumas cabeças de gado em terras arrendadas. A mãe lavava roupa para fora, e ajudava o marido na lavoura. Nas horas vagas, formavam uma dupla caipira, ele ao cavaquinho, e ela no vocal e na marcação do ritmo, utilizando instrumentos que ela própria improvisava com cabaças de porongo e colheres de pau. Os meninos aprendem seus primeiros acordes no cavaquinho de seu Francisco.

No ano de 1950, após sofrer um golpe fraudulento de um compadre, morre Francisco da Silva. Dona Coitinha e seus sete filhos passam a enfrentar uma vida nômade, trabalhando em fazendas na região do Triângulo Mineiro. José Ramiro, então com 12 anos, assume junto com a mãe a responsabilidade pela criação e sustento da família. Paralelamente, dona Coitinha insistia na formação artística das crianças, pois considerava que a música seria o único meio de libertá-los daquele cotidiano de trabalho semi-escravo e embrutecedor. A mãe continuava a improvisar instrumentos, criando, inclusive, uma viola feita de cabaça de porongo e sandálias velhas, cujas tiras de couro eram cortadas em fios finíssimos e assumiam o lugar das cordas.

 

O início da carreira

Em 1953, durante os meses da entressafra, José Ramiro passa a residir em Ituiutaba, também no Triângulo Mineiro, onde trabalha como carregador em frigoríficos e armazéns. Nessa época, compra a sua primeira viola e forma a dupla Zé Miranda e João do Campo, juntamente com Zé Pretinho. Na época da safra, José Ramiro voltava para junto da família e continuava a trabalhar nas fazendas. Nas horas de folga começava a ensaiar com Ranulfo. O trabalho nas plantações seguia o sistema quase escravocrata, não recebiam salário em dinheiro, e sim em ordens de pagamento ao armazém de secos e molhados da localidade.

Com o passar do tempo, os dois vão melhorando seu desempenho, e participam de folias de reis, quermesses e bailes. Também era comum que os mutirões de finais de semana, promovidos em auxílio de trabalhadores e pequenos agricultores, acabassem em uma comemoração com comes e bebes, música e dança. Nessas ocasiões, os dois irmãos cuidavam de animar a festa.

Em 1956 é desfeita a parceria de José Ramiro com Zé Pretinho. Os dois irmãos ensaiam freqüentemente, desenvolvendo estilos inspirados nas duplas caipiras correntes. José Ramiro com uma viola de craveia e Ranulfo tocando um violão velho e emprestado de um amigo. Nesssa época, sonhando em conseguir seu próprio violão, Ranulfo capinou a roça de um fazendeiro, que em troca, liberou para ele um violão no armazém do lugarejo. Nessa época se apresentavam em clubes onde muitas vezes os palcos eram formados de mesas reunidas. "A gente subia em cima da mesa para cantar e embaixo o pessoal dançava", contou Xavantinho.

No início do ano de 1958, são chamados pela rádio Educadora de Uberlândia a participar de um programa. O locutor pergunta o nome da dupla, e imediatamente José Ramiro responde ser José e Ranulfo. O locutor responde então, que aquilo não era nome de dupla e sugere que adotassem um apelido. Assim nasceu a dupla Peroba e Jatobá, que logo depois passaria a ser Zé Miranda e Beira Mar. Pouco depois, mudam novamente para Xavante e Xavantinho, uma homenagem ao índio brasileiro. Nessa época, os dois irmãos continuam paralelamente a trabalhar como carregadores, empregos que possibilitaram a compra de violas novas, e seguiam apresentando-se em todos os lugares, não recusando nenhum convite. Ranulfo também começa a escrever suas primeiras letras.

A carreira toma rumo profissional e eles formam o Trio Pena Branca, junto com o sanfoneiro Pinagi. Em 1964, o trio se apresenta em cidadezinhas no interior do estado de Goiás. Seu estilo é diretamente influenciado pela dupla Vieira e Vieirinha, e o quarteto formado por Pedro Bento, Zé da Estrada, Serrinha e Ramón Perez. O repertório inclui canções típicas da zona rural de Minas Gerais, polcas paraguaias, músicas do folclore boliviano e até toadas mexicanas. Mais tarde o trio se desfaz, mas os irmãos Xavante e Xavantinho continuam a se apresentar, e concentram seu trabalho entre o Triângulo Mineiro e a região Centro Oeste.

Arriscando a vida em São Paulo

Em 1968, Ramiro decide arriscar a sorte. Durante uma chuvosa noite de inverno, ele e um motorista da transportadora onde trabalhava tiveram que ir salvar a carga de um caminhão que havia caído numa ribanceira no canal de São Simão, a caminho para São Paulo. Ao fim do resgate, Xavantinho decide continuar a viagem, junto com o caminhão de socorro. Vai para São Paulo, como contou, "só com a cara e a coragem e a roupa suja de lama no corpo. E promete ao irmão: ‘Mano, um dia vou tirar você daí’".

Em São Paulo, continua a trabalhar na filial da transportadora, e é promovido a entregador de encomendas. Prossegue com os ensaios nas horas de folga. Algum tempo depois, Pena Branca vai para junto do irmão, trabalhando na mesma transportadora, como carregador. Os dois vão morar em uma pensão no bairro do Canindé, onde aos domingos, a proprietária, dona Judite, sempre fazia frango assado com macarrão. Pena Branca conta: "Até hoje eu não sei passar um domingo sem frango assado". Os irmãos começam a se apresentar em São Paulo. Em 1969, integram o grupo de músicos do Rei do Laço, clube de divulgação da música caipira, freqüentado por figuras importantes do meio, como Tonico e Tinoco, e os então iniciantes, Milionário e José Rico. Em 1970 conquistam o quarto lugar em um festival promovido pela Rádio Cometa e são convidados a participar da gravação de um compacto, com a música vitoriosa, Saudade. Mas, na hora que vão receber o prêmio têm uma supresa…

O nome definitivo

"Na hora que a gente foi receber o prêmio um cara chegou pra nós e disse que Xavante era o nome artístico dele e estava registrado. Quis vender o nome pra gente, mas nós não quisemos, eu então subi no palco e avisei que a partir daquele momento nós seríamos Pena Branca e Xavantinho", conta Pena Branca.

Em 1975, entram para a orquestra Coração de Viola, em Guarulhos. Ali não existia mais a dupla Pena Branca e Xavantinho, era o grupo. Um dia, Inezita Barroso foi ensaiar com a orquestra, olhou para os dois e disse: "Olha meninos, vocês têm um grande futuro, mas vocês só acontecerão se saírem daqui". Pouco depois, Tonico e Tinoco foram fazer um show em Barretos e pediram: "Queremos esses dois meninos com a gente". No mesmo ano ainda, a dupla seria contratada para se apresentar na basílica de Aparecida do Norte, nos finais de semana, em um coreto montado junto à linha do trem. Os shows eram produzidos por Roberto de Oliveira, irmão de Renato Teixeira.

O primeiro disco

Apesar do sucesso junto ao público, a dupla ainda não havia conseguido gravar nenhum disco. Em 1979, o empresário Roberto de Oliveira, da WEA. estava à procura de talentos que integrassem o projeto de um selo específico para músicas regionais, o Rodeio. O convite para um teste de estúdio veio após uma apresentação da dupla em Aparecida do Norte. Chegando ao estúdio, porém, uma funcionária apressada informou que Roberto tinha viajado a negócios. Esperaram então, que um funcionário os atendesse, de forma rude, e que depois de ouvir a música Que Terreiro É Esse?, declarasse: "Não, essa aí não presta, o povo tem medo dessa música. Canta outra". Cantaram, e novamente ouviram: "Essa aí é pior. Vocês pegam essa viola de vocês e vão para casa ensaiar outras coisas, mudar o repertório".

Durante esse tempo, seguindo o conselho de Roberto de Oliveira, se increveram no festival MPB Shell de 1980, justamente com a música Que Terreiro É Esse?. Na noite da apresentação, no Maracanãzinho, Rio de Janeiro, subiram ao palco acompanhados de dezesseis violeiros da Orquestra de Guarulhos e um time de percusionistas. A platéia acompanhou com palmas, e a música foi classificada para as finais. Durante o festival, conhecem Renato Teixeira, Almir Sater, Diana Pequeno, Kapenga e muitas outras pessoas com as quais criariam laços permanentes. Sobre o MPB Shell, Xavantinho disse: "Isso significou muito pra gente, porque a gente enraizou por completo. Conhecemos culturas diferentes e pessoas que interpretavam o Norte, o Nordeste, o Sul, o Sudoeste. Enfim, entramos nesse festival e foi muito bom."

Meses mais tarde, ao se reencontrarem com Roberto de Oliveira, o empresário se surpreendeu ao saber que os irmãos não haviam gravado o disco na Rodeio. A funcionária responsável pelo selo teria descumprido totalmente as orientações do empresário, que tratou de reparar o incidente o mais rápido possível, e assim foi lançado o primeiro LP, Velha Morada, que incluía a música homônima e Que Terreiro É Esse?.Porém, a música que mais chamou a atenção da crítica e do meio musical, foi a versão de Cio da Terra, composta por Chico Buarque e Milton Nascimento.

A consagração

A partir daí começam os convites para programas de televisão. O primeiro veio de Rolando Boldrin, que fez questão da presença de Pena Branca e Xavantinho na estréia de Som Brasil, em 1981, programa levado ao ar pela Rede Globo durante seis anos. Os irmãos contam que Boldrin colocou um carro da empresa para conseguir localizá-los, encontrando Pena Branca em um quarto e cozinha em Guarulhos.

Ainda no mesmo ano, gravaram um outro Som Brasil com Milton Nascimento, cantando Cio da Terra. Sobre esse episódio, contaram: "Naquele dia ficamos muito nervosos, mas deu pra agüentar durante a gravação, só depois, no camarim, é que a gente não agüentou a emoção e começou a chorar".

Em 1982, gravam o segundo disco, Uma Dupla Brasileira, produzido por Rolando Boldrin, e viajam o Brasil inteiro dentro do projeto Som do Brasil. Durante este período, assimilam novos ritmos, incorporando-os ao seu estilo musical. Nesse ano cantariam para mais de cinqüenta mil pessoas, junto com Milton Nascimento, no show Trinta Anos da Anistia Internacional, em Curitiba, realizado na pedreira Paulo Leminski, e que reuniu vários artistas a fim de angariar fundos para a entidade. Sobre o show, Xavantinho relembrou: "O que mais emocionou a gente foi quando cantamos Calix Bento e vimos um camarada bem na frente, de joelhos e mãos postas, cantando junto e chorando! O pessoal da televisão achou ele. Ele tinha 19 anos e tinha vindo de Florianópolis. Ele contou que ‘Eu vim para cantar com Pena Branca e Xavantinho’".

O terceiro disco, Cio da Terra, só viria em 1987, na Continental, e agora derrubando todas as barreiras entre música sertaneja e urbana. Gravaram Luiz Gonzaga, Lupicínio Rodrigues, Tavinho Moura e Wagner Tiso, sempre com versões inovadoras. Durante as gravações, em Belo Horizonte, Milton Nascimento falou aos irmãos: "Vamos fazer Cio da Terra". E Xavantinho em entrevista à Viola Caipira (novembro de 1993), relembraria:

"Eu não acreditava que o Milton ia cantar com a gente. Eu falava… ‘ai, meu Deus do céu…’ Depois eu fiquei com medo porque ele ficou de colocar a voz e nós viemos embora. Eu achava que eles iam tirar a voz; que eles iam achar alguma coisa errada e iam tirar a voz do Milton. Mas não, a coisa se multiplicou – pois daí entrou o Marcus Viana tocando, mais o pessoal do Clube da Esquina. O Tavinho entrou também, com a música Peixinhos do Mar… Depois essa fita veio para a Continental e saiu o disco. Esse disco é o nosso passaporte, é o nosso cavalo de batalha. Cada dia que a gente canta Cio da Terra ele brilha mais!".

Em 1988, lançam Canto Violeiro, com a participação de Raimundo Fagner, Tião Carreiro, Almir Sater e Oswaldinho do Acordeon. Nesse disco estão Penas do Tiê (folclore com adaptação de Fagner), Calix Bento (folclore adaptado por Tavinho Moura) e Eu, A Viola e Deus, de Rolando Boldrin. O disco seguinte, Cantadô de Mundo Afora, conquistaria o prêmio Sharp de 1990 nas categorias de melhor disco, melhor dupla e melhor música, Casa de Barro, de Xavantinho e Moniz. No fim desse ano participam de vários especiais de final de ano nas redes de televisão.

Em 1992, novo prêmio Sharp de melhor disco, desta vez com o CD Ao Vivo em Tatuí, junto com Renato Teixeira e produzido por Mário de Aratanha e Leo Stinghen, e que também conquistou o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte na categoria de melhor disco. Com este trabalho conquistariam em 1999, seu primeiro disco de ouro, recebido no programa Viola, Minha Viola, da madrinha Inezita Barroso.

Violas e Canções veio em 1993, com toadas, batuques e folias de reis, e uma versão de Ciúme, de Caetano Veloso. Nesse ano a dupla se apresenta nos Estados Unidos, realizando shows em Nova Iorque, New Jersey, Pompano Beach, Miami e Boston. Em 1995 lançam Ribeirão Encheu, produzido por Tavinho Moura e Geraldo Vianna. No ano seguinte é a vez de Pingo D’Água, produção e direção musical de Kapenga Ventura.

Em maio de 1997 conquistam o prêmio Sharp pela quinta vez na categoria melhor dupla sertaneja, concorrendo com Chitãozinho e Xororó e João Mulato e Pardinho. O último trabalho da dupla foi o CD Coração Matuto, lançado em 1998, novamente produção e arranjos por Kapenga Ventura. No repertório estão Planeta Água, de Guilherme Arantes, Engenho de Flores, de Josias Sobrinho e Lambada de Serpente, de Cacaso e Djavan. E, mais uma vez a participação de Milton Nascimento em Morro Velho.

Xavantinho morreu no dia 8 de outubro de 1999, aos 58 anos, de insuficiência respiratória e falência múltipla dos órgãos. Sua morte deixará uma lacuna enorme e insubstituível na música brasileira. Segundo as palavras do crítico Mauro Dias, em matéria de O Estado de São Paulo (09/10/1999): "A obra da dupla representa o que há de melhor, mais digno e mais refinado na música sertaneja, sem concessão a modismos ou injunções de mercado". Em todos nós fica a saudade, a lembrança e o carinho a Pena Branca.
Ilustração da contra-capa de Violas e Canções

 

Veja também:

Depoimentos
Discografia
Letras

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