Os primeiros anos
A 4 de setembro de 1939, nascia em
Igarapava, São Paulo, José Ramiro Sobrinho, o Pena Branca, primeiro filho de Dolores
Maria de Jesus, apelidada de Coitinha, e de Francisco da Silva. Três anos mais tarde,
nasce Ranulfo da Silva, o Xavantinho, em Cruzeiro dos Peixotos, zona rural de Uberlândia,
Minas Gerais, cidade para onde a família havia se mudado após o nascimento de José
Ramiro, e onde o pai possuía uma pequena lavoura e criava algumas cabeças de gado em
terras arrendadas. A mãe lavava roupa para fora, e ajudava o marido na lavoura. Nas horas
vagas, formavam uma dupla caipira, ele ao cavaquinho, e ela no vocal e na marcação do
ritmo, utilizando instrumentos que ela própria improvisava com cabaças de porongo e
colheres de pau. Os meninos aprendem seus primeiros acordes no cavaquinho de seu
Francisco.
No ano de 1950, após sofrer um golpe fraudulento de um compadre, morre Francisco da
Silva. Dona Coitinha e seus sete filhos passam a enfrentar uma vida nômade, trabalhando
em fazendas na região do Triângulo Mineiro. José Ramiro, então com 12 anos, assume
junto com a mãe a responsabilidade pela criação e sustento da família. Paralelamente,
dona Coitinha insistia na formação artística das crianças, pois considerava que a
música seria o único meio de libertá-los daquele cotidiano de trabalho semi-escravo e
embrutecedor. A mãe continuava a improvisar instrumentos, criando, inclusive, uma viola
feita de cabaça de porongo e sandálias velhas, cujas tiras de couro eram cortadas em
fios finíssimos e assumiam o lugar das cordas.
O início da carreira
Em 1953, durante os meses da entressafra,
José Ramiro passa a residir em Ituiutaba, também no Triângulo Mineiro, onde trabalha
como carregador em frigoríficos e armazéns. Nessa época, compra a sua primeira viola e
forma a dupla Zé Miranda e João do Campo, juntamente com Zé Pretinho. Na época da
safra, José Ramiro voltava para junto da família e continuava a trabalhar nas fazendas.
Nas horas de folga começava a ensaiar com Ranulfo. O trabalho nas plantações seguia o
sistema quase escravocrata, não recebiam salário em dinheiro, e sim em ordens de
pagamento ao armazém de secos e molhados da localidade.
Com o passar do tempo, os dois vão melhorando seu desempenho, e participam de folias de
reis, quermesses e bailes. Também era comum que os mutirões de finais de semana,
promovidos em auxílio de trabalhadores e pequenos agricultores, acabassem em uma
comemoração com comes e bebes, música e dança. Nessas ocasiões, os dois irmãos
cuidavam de animar a festa.

Em 1956 é desfeita a parceria de José
Ramiro com Zé Pretinho. Os dois irmãos ensaiam freqüentemente, desenvolvendo estilos
inspirados nas duplas caipiras correntes. José Ramiro com uma viola de craveia e Ranulfo
tocando um violão velho e emprestado de um amigo. Nesssa época, sonhando em conseguir
seu próprio violão, Ranulfo capinou a roça de um fazendeiro, que em troca, liberou para
ele um violão no armazém do lugarejo. Nessa época se apresentavam em clubes onde muitas
vezes os palcos eram formados de mesas reunidas. "A gente subia em cima da mesa para
cantar e embaixo o pessoal dançava", contou Xavantinho.
No início do ano de 1958, são chamados pela rádio Educadora de Uberlândia a participar
de um programa. O locutor pergunta o nome da dupla, e imediatamente José Ramiro responde
ser José e Ranulfo. O locutor responde então, que aquilo não era nome de dupla e sugere
que adotassem um apelido. Assim nasceu a dupla Peroba e Jatobá, que logo depois passaria
a ser Zé Miranda e Beira Mar. Pouco depois, mudam novamente para Xavante e Xavantinho,
uma homenagem ao índio brasileiro. Nessa época, os dois irmãos continuam paralelamente
a trabalhar como carregadores, empregos que possibilitaram a compra de violas novas, e
seguiam apresentando-se em todos os lugares, não recusando nenhum convite. Ranulfo
também começa a escrever suas primeiras letras.
A carreira toma rumo profissional e eles formam o Trio Pena
Branca, junto com o sanfoneiro Pinagi. Em 1964, o trio se apresenta em cidadezinhas no
interior do estado de Goiás. Seu estilo é diretamente influenciado pela dupla Vieira e
Vieirinha, e o quarteto formado por Pedro Bento, Zé da Estrada, Serrinha e Ramón Perez.
O repertório inclui canções típicas da zona rural de Minas Gerais, polcas paraguaias,
músicas do folclore boliviano e até toadas mexicanas. Mais tarde o trio se desfaz, mas
os irmãos Xavante e Xavantinho continuam a se apresentar, e concentram seu trabalho entre
o Triângulo Mineiro e a região Centro Oeste.
Arriscando a vida em São Paulo
Em 1968, Ramiro decide arriscar a sorte.
Durante uma chuvosa noite de inverno, ele e um motorista da transportadora onde trabalhava
tiveram que ir salvar a carga de um caminhão que havia caído numa ribanceira no canal de
São Simão, a caminho para São Paulo. Ao fim do resgate, Xavantinho decide continuar a
viagem, junto com o caminhão de socorro. Vai para São Paulo, como contou, "só com
a cara e a coragem e a roupa suja de lama no corpo. E promete ao irmão: Mano, um
dia vou tirar você daí".
Em São Paulo, continua a trabalhar na filial da transportadora, e é promovido a
entregador de encomendas. Prossegue com os ensaios nas horas de folga. Algum tempo depois,
Pena Branca vai para junto do irmão, trabalhando na mesma transportadora, como
carregador. Os dois vão morar em uma pensão no bairro do Canindé, onde aos domingos, a
proprietária, dona Judite, sempre fazia frango assado com macarrão. Pena Branca conta:
"Até hoje eu não sei passar um domingo sem frango assado". Os irmãos começam
a se apresentar em São Paulo. Em 1969, integram o grupo de músicos do Rei do Laço,
clube de divulgação da música caipira, freqüentado por figuras importantes do meio,
como Tonico e Tinoco, e os então iniciantes, Milionário e José Rico. Em 1970 conquistam
o quarto lugar em um festival promovido pela Rádio Cometa e são convidados a participar
da gravação de um compacto, com a música vitoriosa, Saudade. Mas, na hora que
vão receber o prêmio têm uma supresa
O nome definitivo
"Na hora que a gente foi receber o
prêmio um cara chegou pra nós e disse que Xavante era o nome artístico dele e estava
registrado. Quis vender o nome pra gente, mas nós não quisemos, eu então subi no palco
e avisei que a partir daquele momento nós seríamos Pena Branca e Xavantinho", conta
Pena Branca.
Em 1975, entram para a orquestra Coração de Viola, em Guarulhos. Ali não existia mais a
dupla Pena Branca e Xavantinho, era o grupo. Um dia, Inezita Barroso foi ensaiar com a
orquestra, olhou para os dois e disse: "Olha meninos, vocês têm um grande futuro,
mas vocês só acontecerão se saírem daqui". Pouco depois, Tonico e Tinoco foram
fazer um show em Barretos e pediram: "Queremos esses dois meninos com a gente".
No mesmo ano ainda, a dupla seria contratada para se apresentar na basílica de Aparecida
do Norte, nos finais de semana, em um coreto montado junto à linha do trem. Os shows eram
produzidos por Roberto de Oliveira, irmão de Renato Teixeira. |
O primeiro disco
Apesar do sucesso junto ao público, a dupla ainda não
havia conseguido gravar nenhum disco. Em 1979, o empresário Roberto de Oliveira, da WEA.
estava à procura de talentos que integrassem o projeto de um selo específico para
músicas regionais, o Rodeio. O convite para um teste de estúdio veio após uma
apresentação da dupla em Aparecida do Norte. Chegando ao estúdio, porém, uma
funcionária apressada informou que Roberto tinha viajado a negócios. Esperaram então,
que um funcionário os atendesse, de forma rude, e que depois de ouvir a música Que
Terreiro É Esse?, declarasse: "Não, essa aí não presta, o povo tem medo dessa
música. Canta outra". Cantaram, e novamente ouviram: "Essa aí é pior. Vocês
pegam essa viola de vocês e vão para casa ensaiar outras coisas, mudar o
repertório".
Durante esse tempo, seguindo o conselho de Roberto de Oliveira, se increveram no festival
MPB Shell de 1980, justamente com a música Que Terreiro É Esse?. Na noite da
apresentação, no Maracanãzinho, Rio de Janeiro, subiram ao palco acompanhados de
dezesseis violeiros da Orquestra de Guarulhos e um time de percusionistas. A platéia
acompanhou com palmas, e a música foi classificada para as finais. Durante o festival,
conhecem Renato Teixeira, Almir Sater, Diana Pequeno, Kapenga e muitas outras pessoas com
as quais criariam laços permanentes. Sobre o MPB Shell, Xavantinho disse: "Isso
significou muito pra gente, porque a gente enraizou por completo. Conhecemos culturas
diferentes e pessoas que interpretavam o Norte, o Nordeste, o Sul, o Sudoeste. Enfim,
entramos nesse festival e foi muito bom."
Meses mais tarde, ao se reencontrarem com Roberto de Oliveira, o empresário se
surpreendeu ao saber que os irmãos não haviam gravado o disco na Rodeio. A funcionária
responsável pelo selo teria descumprido totalmente as orientações do empresário, que
tratou de reparar o incidente o mais rápido possível, e assim foi lançado o primeiro
LP, Velha Morada, que incluía a música homônima e Que Terreiro É Esse?.Porém,
a música que mais chamou a atenção da crítica e do meio musical, foi a versão de Cio
da Terra, composta por Chico Buarque e Milton Nascimento.
A consagração
A partir daí começam os convites para programas de
televisão. O primeiro veio de Rolando Boldrin, que fez questão da presença de Pena
Branca e Xavantinho na estréia de Som Brasil, em 1981, programa levado ao ar pela Rede
Globo durante seis anos. Os irmãos contam que Boldrin colocou um carro da empresa para
conseguir localizá-los, encontrando Pena Branca em um quarto e cozinha em Guarulhos.
Ainda no mesmo ano, gravaram um outro Som Brasil com Milton Nascimento, cantando Cio da
Terra. Sobre esse episódio, contaram: "Naquele dia ficamos muito nervosos, mas
deu pra agüentar durante a gravação, só depois, no camarim, é que a gente não
agüentou a emoção e começou a chorar".
Em 1982, gravam o segundo disco, Uma Dupla Brasileira, produzido por Rolando
Boldrin, e viajam o Brasil inteiro dentro do projeto Som do Brasil. Durante este período,
assimilam novos ritmos, incorporando-os ao seu estilo musical. Nesse ano cantariam para
mais de cinqüenta mil pessoas, junto com Milton Nascimento, no show Trinta Anos da
Anistia Internacional, em Curitiba, realizado na pedreira Paulo Leminski, e que reuniu
vários artistas a fim de angariar fundos para a entidade. Sobre o show, Xavantinho
relembrou: "O que mais emocionou a gente foi quando cantamos Calix Bento e
vimos um camarada bem na frente, de joelhos e mãos postas, cantando junto e chorando! O
pessoal da televisão achou ele. Ele tinha 19 anos e tinha vindo de Florianópolis. Ele
contou que Eu vim para cantar com Pena Branca e Xavantinho".
O terceiro disco, Cio da Terra, só viria em 1987, na Continental, e agora
derrubando todas as barreiras entre música sertaneja e urbana. Gravaram Luiz Gonzaga,
Lupicínio Rodrigues, Tavinho Moura e Wagner Tiso, sempre com versões inovadoras. Durante
as gravações, em Belo Horizonte, Milton Nascimento falou aos irmãos: "Vamos fazer Cio
da Terra". E Xavantinho em entrevista à Viola Caipira (novembro de 1993),
relembraria:

"Eu não acreditava que o Milton ia cantar com a
gente. Eu falava
ai, meu Deus do céu
Depois eu fiquei com medo
porque ele ficou de colocar a voz e nós viemos embora. Eu achava que eles iam tirar a
voz; que eles iam achar alguma coisa errada e iam tirar a voz do Milton. Mas não, a coisa
se multiplicou pois daí entrou o Marcus Viana tocando, mais o pessoal do Clube da
Esquina. O Tavinho entrou também, com a música Peixinhos do Mar
Depois essa fita
veio para a Continental e saiu o disco. Esse disco é o nosso passaporte, é o nosso
cavalo de batalha. Cada dia que a gente canta Cio da Terra ele brilha mais!".
Em 1988, lançam Canto Violeiro, com a participação de Raimundo Fagner, Tião
Carreiro, Almir Sater e Oswaldinho do Acordeon. Nesse disco estão Penas do Tiê
(folclore com adaptação de Fagner), Calix Bento (folclore adaptado por Tavinho
Moura) e Eu, A Viola e Deus, de Rolando Boldrin. O disco seguinte, Cantadô de
Mundo Afora, conquistaria o prêmio Sharp de 1990 nas categorias de melhor disco,
melhor dupla e melhor música, Casa de Barro, de Xavantinho e Moniz. No fim desse
ano participam de vários especiais de final de ano nas redes de televisão.
Em 1992, novo prêmio Sharp de melhor disco, desta vez com o CD Ao Vivo em Tatuí,
junto com Renato Teixeira e produzido por Mário de Aratanha e Leo Stinghen, e que também
conquistou o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte na categoria de melhor
disco. Com este trabalho conquistariam em 1999, seu primeiro disco de ouro, recebido no
programa Viola, Minha Viola, da madrinha Inezita Barroso.
Violas e Canções veio em 1993, com toadas, batuques e folias de reis, e uma
versão de Ciúme, de Caetano Veloso. Nesse ano a dupla se apresenta nos Estados
Unidos, realizando shows em Nova Iorque, New Jersey, Pompano Beach, Miami e Boston. Em
1995 lançam Ribeirão Encheu, produzido por Tavinho Moura e Geraldo Vianna. No ano
seguinte é a vez de Pingo DÁgua, produção e direção musical de Kapenga
Ventura.
Em maio de 1997 conquistam o prêmio Sharp pela quinta vez na categoria melhor dupla
sertaneja, concorrendo com Chitãozinho e Xororó e João Mulato e Pardinho. O último
trabalho da dupla foi o CD Coração Matuto, lançado em 1998, novamente produção
e arranjos por Kapenga Ventura. No repertório estão Planeta Água, de Guilherme
Arantes, Engenho de Flores, de Josias Sobrinho e Lambada de Serpente, de
Cacaso e Djavan. E, mais uma vez a participação de Milton Nascimento em Morro Velho.
Xavantinho morreu no dia 8 de outubro de 1999, aos 58 anos, de insuficiência
respiratória e falência múltipla dos órgãos. Sua morte deixará uma lacuna enorme e
insubstituível na música brasileira. Segundo as palavras do crítico Mauro Dias, em
matéria de O Estado de São Paulo (09/10/1999): "A obra da dupla representa o
que há de melhor, mais digno e mais refinado na música sertaneja, sem concessão a
modismos ou injunções de mercado". Em todos nós fica a saudade, a lembrança e o
carinho a Pena Branca. 
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