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Ano I - novembro 1998 - nº 03

Sua revista com a cara e a alma brasileira


SUMÁRIO - EDIÇÃO 03
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA

Conheça também uma descrição da típica casa brasileira de meados do século XIX, pelos reverendos Kidder e Fletcher.

O francês Jean Baptiste Debret descreve o cerimonial da extrema-unção e os diversos tipos de esquifes, no Rio de Janeiro da primeira metade do século passado.

Às portas da morte. Costumes da Bahia antiga.

COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE

 

PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...


ÀS PORTAS DA MORTE

Hildegardes Viana


Ilustração de autor ignorado, in Luiz Edmundo. O Rio de Janeiro do tempo dos vice-reis.Ao primeiro sinal de agravamento dos males de um enfermo, providenciava-se incontinenti uma mudança de ares. Não faltava casa de amigo prestimoso ou parente devotado. Ficasse ou não em sua própria residência, pessoa da família ou vizinho prestativo saía avisando pelas portas dos conhecidos que fulano estava desenganado ou se concluindo. A casa se enchia de gente prestimosa e curiosa. Assim, a confusão aumentava juntamente com a despesa.

Velhas e mais velhas, fichu preto enrolado na cabeça ou em volta do pescoço, arrastando atrás de si netos ou afilhados encapetados, surgiam como num passe de mágica. Antigas serviçais vinham pessoalmente ou mandavam suas filhas para ajudar. Uma tomava conta da roupa do doente, lavando, fervendo e passando. Outra arrumava tudo para quando chegasse a hora de vestir o cadáver. (Se se tratava de virgem, moça ou velha, preparava-se-lhe uma mortalha de fazenda branca). Uma terceira tomava conta do preparo da comida, pois a esta altura a cozinheira estava deslocada, ajudando a carregar o doente, a abanar o enfermo, se fosse caso de moléstia de coração. Na sala de jantar, uma turma desocupada desfiava um rosário de casos de doenças e morte, indiferente aos olhares fulminantes dos que se esbofavam servindo de enfermeiros.

Um cheiro forte de incenso queimado com alcatrão espalhava-se por toda a casa, disfarçando a morrinha que por acaso houvesse.

Vale lembrar o banho do enfermo, verdadeiro espetáculo para quem estivesse de parte. Preparada a bacia ou gamelona de madeira com água morna e bastante álcool ou cachaça dentro, posto de reserva um bule de café sobre o rescaldo para se conservar quente, um pelotão iniciava um terrível cerimonial que consistia na remoção do padecente. A mudança da roupa de cama era mais rápida que o banho, que transcorria entre vertigens e corre-corres. O pobre coitado só não morria dentro d’água, porque Deus não era servido.

Uma vez molhado, muito mal esfregado, enxuto duvidosamente, envolto numa nuvem de talco simples, as escaras (se as tivesse) tratadas com goma seca e protegidas com folhas de bananeira, o paciente tornava aos seus lençóis, cheirando a patchuli, revirando os olhos, arquejando, engulindo o caldo ou leite que ainda lhe permitissem tomar. O café servia para os demais se reconfortarem de tão insano labor.

Quanto tempo durava aquilo? Uns penavam, noites e dias, sem conhecer ninguém, esperando não se sabia por quem, para pedir perdão. Se ficava em tal estado, sem poder se mexer por si, sendo virado pela mão dos outros, providenciava-se uma bacia d’água para debaixo da cama. Acreditava-se que a umidade desprendida evitava que o doente ficasse ferido com as tão temidas escaras. Quase sempre só se lembravam de tal recurso depois de o padecente já não ter onde se ferir.

Na classe dos que pensavam situavam-se os que não tinham forças para morrer. Para espantar a fraqueza, aparecia uma mão bondosa que cismava de lhes introduzir, por entre os dentes, alentadas colheradas de mingau de cachorro (água, farinha de guerra e alho) ou pingo de leite. Tossindo, se engasgando, felizes os que morriam logo.

Havia também uma prática tida como infalível, infelizmente pouco difundida. Infelizmente, não. Felizmente pouco difundida, a manobra consistia encontrar alguém de cotovelo roliço, o que não era difícil numa época em que a gordura imperava. Alguém fornido de carnes era conduzido para junto do paciente e lá ficava, durante certo tempo, de braços flexionados, a friccionar a sua boca do estômago com o citado cotovelo, lentamente, com o intuito de lhe emprestar forças.

Morrer não era simples. Causavam dó os que, com todo o tino, iam-se consumindo pouco a pouco ouvindo comentários levianos das visitas dando palpites sobre os teres e deixas, muitas ocasiões nem se confessando para morrer contritos. Estes eram os que se extinguiam como passarinhos, nem dando tempo a que se pusesse a vela na mão.

Vez por outra, determinados moribundos urrravam horas seguidas, reviravam os olhos, gastavam velas e mais velas, não se resolvendo a dar o último suspiro. Faziam dois, três termos, escandalizando os que estavam impacientes à sua volta.

Fazer o termo era como uma definição de que era chegada realmente a hora suprema. O doente ia lá em cima dar as contas a Deus, e depois, voltava para o arranco final. Aos estremeções e gemidos, estrebuchando ou sereno, depois do termo todos morriam. Havia quem garantisse que da calha do telhado saía uma fumacinha, que nada mais era que a alma que se desprendera. Chover nesse momento era sinal de remissão dos pecados.

Neste ponto dos acontecimentos, os gritos de ataque já tinham transformado a casa num pandemônio. Caía uma velhota junto da cama, outra no corredor, uma sirigaita ficava onde estivesse, enquanto uma quarta ou quinta personagem guinchava e se debatia, rolando pelo chão. Era um acode-acode terrível, um aqueta-acomoda indescritível. Não se sabia se se cuidava do morto ou das indesejáveis criaturas nervosas. Como era de praxe e o povo estava mais do que acostumado, a todo aquele reboliço correspondia pronto, tudo correndo mais ou menos. Recorria-se ao arsenal de frascos de água de flor ou de melissa, água de colônia ou vinagre de Lisboa. Em forma de calmante ou em fricções, cada qual cumpria o seu dever.

A dor da morte trazia problemas seríssimos. Havia defuntos que esvaziavam os intestinos e a bexiga, obrigando a quem estivesse incumbido de mudar suas vestes a apelar rápido para um banho nem sempre rápido. Todas as velhas eram convocadas para a faxina final. Terminado o asseio, se o cadáver era muito pesado, muito mole ou ameaçava endurecer depressa, rasgavam-se as costas de suas roupas e faziam-lhe um arranjo, sabido como era que iria para o caixão com lençol e tudo.

Era de praxe cochichar ao ouvido do morto. Ordens e súplicas enérgicas. Defunto muito duro ou muito mole tinha de atender aos pedidos que lhe fizessem mudar de comportamento. Do mesmo jeito que se obrigava a levar os vícios de fulano ou sicrano. Vestido, com o queixo, pés e mãos amarrados, o corpo era inspecionado para se ver se estava composto. Não podia ser enterrado com roupas alheias para não causar atrasos. Se tudo estava em ordem, então era coberto com uma colcha até a hora do caixão chegar.

Se morria em casa que não a sua, em geral, acomodado bem ou mal em uma marquesa ou sofá, era transportado sem formalidades especiais, por carregadores comuns, pegados ali por perto ou em algum canto mais próximo. Em tais circunstâncias, as reações da vizinhança eram as mais imprevisíveis. O normal era o oferecimento de préstimos e a curiosidade em saber como tinha sido o passamento. Porém o vizinho que estava com comemoração festiva engatilhada para aquela noite, ao se inteirar da chegada do defunto, tomava a atitude que melhor lhe parecia. Uns resolviam ignorar, dando sua festa e perdendo a amizade e simpatias gerais. Alguns davam a festa, procurando antes um parente ou amigo do falecido para apresentar suas razões e desculpas. Para que o doente fora morrer logo naquela data? Com tanta despesa feita, era impossível uma transferência.

E a vida continuava com um enterro aqui e uma festa ali.

(Viana, Hildegardes. A Bahia já foi assim – crônicas de costumes. 2ª ed. Brasília, Ed. GRD, 1979)

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