EDIÇÕES ANTERIORES
Ano I - novembro 1998 - nº 03

Sua revista com a cara e a alma brasileira


SUMÁRIO - EDIÇÃO 03
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA

Conheça também uma descrição da típica casa brasileira de meados do século XIX, pelos reverendos Kidder e Fletcher.

O francês Jean Baptiste Debret descreve o cerimonial da extrema-unção e os diversos tipos de esquifes, no Rio de Janeiro da primeira metade do século passado.

Às portas da morte. Costumes da Bahia antiga.

COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE

 

PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...


O CERIMONIAL DA EXTREMA-UNÇÃO

Jean-Baptiste Debret


• Prancha 12 (parte III)
Extrema-unção levada a um doente


Em um país como o Brasil, submetido desde o princípio à influência das hierarquias civis ou militares de seus conquistadores, coube naturalmente ao clero católico instituir, por analogia, uma série de subdivisões no cerimonial religioso, a fim de tornar diversamente tributárias a vaidade mundana e a devoção fervorosa, sistema comum a todos os cultos desde a mais alta antigüidade.

A administração da extrema-unção não é menos importante do ponto de vista pecunitário. Com efeito, quase sempre considerada como sinistra precursora da destruição de um ser querido, ela impõe, religiosamente, sacrifícios de dinheiro feitos até com ostentação, na esperança de consolar a alma do moribundo ou retê-la ainda, milagrosamente, durante mais alguns instantes na terra. A caridosa convicção de um filho virtuoso ou a simples demonstração puramente formal e hipócrita são igualmente tributárias desse culto mais ou menos pomposo.

Na sua maior simplicidade consiste essa cerimônia em um irmão carregando uma sineta e seguido de dois soldados de cabeça descoberta, com a arma virada em sinal de luto; vêm em seguida quatro outros irmãos, precedendo o padre, que caminha sob um pálio quadrado sustentado por um braço de ferro recurvado, preso a uma vara carregada por um irmão marchando imediatamente atrás do eclesiástico. Uma ou duas pessoas acompanham esse modesto cortejo. O segundo, um pouco mais nobre, difere apenas pelo pálio maior, de veludo carmesim com franjas de ouro. No terceiro, finalmente, o pálio é sustentado por seis varas, havendo também músicos negros e uma retaguarda militar.

Cada paróquia tem sua irmandade do Santíssimo, encarregada de escoltar o padre no momento de levar a extrema-unção a um doente. Essa assistência religiosa é solicitada na sacristia, onde se encontra sempre um irmão de plantão, a quem cabe despachar imediatamente um sineiro, que percorre as ruas adjacentes e reúne os irmãos disponíveis para esse dever religioso. Não conseguindo número suficiente, apelam para os soldados do posto militar mais próximo, o que faz com que a cruz, os candelabros e o pálio sejam quase sempre carregados por soldados vestidos momentaneamente com a opa carmesim. O cortejo mais decente comporta sempre um destacamento militar de oito homens mais ou menos, comandados por um oficial, todos de boné na mão, precedidos por um tambor e uma trombeta ou de um pífaro, conforme a arma. Quando, por acaso, isso ocorre num dia de festa celebrada especialmente na igreja cuja assistência é solicitada, o cortejo é acrescido solenemente de banda de música de negros, estacionada fora do pórtico e que se transforma então numa vanguarda composta de duas clarinetas, um triângulo, uma trombeta, um tambor e um bumbo. Nesse caso o destacamento militar fecha a marcha.

Sigamos agora o cortejo.

É difícil, confesso, ter uma idéia da horrível algazarra produzida pela música estridente e desafinada desses seis negros executando com entusiasmo valsas, alemandas, lundus, gavotas, recordações de baile, militarmente entrecortadas pela trombeta da retaguarda, que domina tudo com uma marcha cadenciada. A esse conjunto revoltante de melodias e ritmos contrários, junta-se ainda o movimento mais lento de um coro de vozes esganiçadas e fanhosas de uns trinta negros devotos, entoando as litanias intermináveis da Virgem. Essa inexplicável e indecisa mistura de instrumentos e vozes humanas acompanha-se ainda de um baixo contínuo de outro gênero: o carrilhão de cada uma das igrejas diante das quais passa o cortejo, ruído que se extingüe aos poucos, gradualmente, na medida em que os sineiros perdem de ouvido o som da sineta argentina do irmão encarregado de dar uma dupla badalada de minuto em minuto. Em resumo, esse inexprimível imbróglio de estilo e de harmonia, que tanto de perto como de longe irrita o sistema nervoso com sua barbárie revoltante, imprime com efeito um sentimento de pavor no coração do homem, mesmo bem-disposto; efeito calculado, sem dúvida, no rito primitivo, mas que hoje ridiculariza essa cerimônia e retira dela qualquer dignidade religiosa.

O cortejo chega finalmente à porta da casa do doente; permite-se a entrada somente às pessoas necessárias. Os portadores encostam no muro o pálio dobrado e a cruz; a escolta militar enfileira-se do outro lado da rua. A música dos negros e os cantores colocam-se de lado e recomeçam com todas as forças a executar suas contra-danças, enquanto outros cantam ao mesmo tempo as litanias da Virgem. Afirma-se que muitas vezes a eloqüência feliz e caridosa do padre vale-se desse barulho, embora bárbaro, para persuadir o moribundo de que já o céu se abre para recebê-lo e os anjos o anunciam com seu concerto harmonioso!

Doce ilusão, que embala a credulidade cristã de alguns. Terminado o ato religioso, o cortejo volta na mesma ordem, acrescido apenas de um parente próximo ou de um amigo que se une aos irmãos, de vela na mão, para acompanhar o cortejo até a sacristia. As pessoas da casa, ainda sufocadas pela fumaça do incenso, fecham as portas, e o moribundo expira na calma dessa atmosfera aromática. Mas essa lúgubre solenidade, em geral tardia, serve apenas de sinal para os preparativos do enterro.

• Prancha 26 (parte III)
Diversos tipos de esquifes

Distinguem-se nos serviços funerários brasileiros dois tipos de esquifes para exposição dos corpos, que são em geral enterrados com o rosto descoberto. O dignatário e o homem rico são depositados num caixão fechado por uma tampa de charneira; o citadino de medíocre fortuna é transportado num caixão sem tampa.

São os amadores que se encarregam da confecção dos caixões, cujo preço aumenta de acordo com o número e a largura dos galões de ouro e prata, finos ou falsos, à escolha, que os enriquecem.

As cores adotadas nos esquifes são: preto com galões de ouro e prata para os homens; carmesim ou vermelho-escuro com galões de ouro para as mulheres casadas ou viúvas; azul-celeste agaloado de prata para as moças; rosa ou azul-celeste agaloado de prata para as crianças de menos de oito anos, os anjinhos…

(DEBRET, Jean-Baptiste. Viagem pitoresca e histórica ao Brasil. São Paulo, Círculo do Livro, sd. 2 v. )

 

O autor
Em 1808, a família real portuguesa chega ao Brasil; oito anos depois, em 1816, sob o patrocínio de dom João VI, o Rio de Janeiro recebe a Missão Artística Francesa com o objetivo de fundar uma Academia de Belas Artes. Entre os seus membros mais ilustres, está Jean Baptiste Debret, um nome respeitado em toda a Europa.

Pintor, desenhista e gravador, Debret nasceu em Paris no dia 18 de abril de 1768. Pertencia à burguesia francesa culta e esclarecida; seu pai, escrivão do Tribunal de Paris, dedicava grande interesse à história natural e às artes. Debret fez seus primeiros estudos de pintura em Paris, viajou pela Itália para completar sua educação e, em 1785, cursou a Academia de Belas Artes, obtendo um prêmio de pintura.

Mais tarde, tornou-se professor de desenho da Escola Politécnica. Em 1798, participou do Salon de Paris, conquistando o segundo prêmio com o quadro O general Messeniano Aristomeno. Em 1816, engajou-se na missão artística, organizada a pedido de dom João VI, com destino ao Brasil.

A instalação da Academia de Belas Artes, no entanto, enfrentou vários obstáculos; o certo é que levou dez anos para conseguir uma sede definitiva. Temperamento combativo e trabalhador, Debret lançou-se a uma obra de observação e estudo da formação política e cultural da nova pátria.

Desenhista oficial da corte, fixou os costumes, usos e paisagens do Brasil, criando um documento histórico de importância fundamental para a recriação da nossa realidade na primeira metade do século XIX. Não se limitou à sua excepcional habilidade como desenhista; reuniu notas e organizou um vasto material sobre aspectos econômicos, políticos, sociais, geográficos, etc.

Durante os quinze anos que permaneceu no Brasil, desenvolveu um trabalho sem trégua. Sua objetividade e imparcialidade na fixação das características da vida brasileira causou escândalo na corte. Ao desenhar e descrever cenas da realidade em que vivia o escravo, despertou a inimizade e a oposição dos mais conservadores.

Em 1831, voltou para a França, levando seu aluno Manuel de Araújo Porto Alegre, para que este se aperfeiçoasse nos estudos. Três anos depois, publicou Viagem pitoresca e histórica ao Brasil. Ao retratar da vida da corte ao comércio de escravos, das cenas urbanas à riqueza da flora, dos costumes indígenas aos detalhes da arquitetura, Debret uniu, em seu trabalho, valor artístico e científico.

Jangada Brasil © 1998-2002