Prancha 12 (parte III)
Extrema-unção levada a um doente
Em um país como o Brasil, submetido desde o princípio à influência das hierarquias
civis ou militares de seus conquistadores, coube naturalmente ao clero católico
instituir, por analogia, uma série de subdivisões no cerimonial religioso, a fim de
tornar diversamente tributárias a vaidade mundana e a devoção fervorosa, sistema comum
a todos os cultos desde a mais alta antigüidade.
A administração da extrema-unção não é menos importante do ponto de
vista pecunitário. Com efeito, quase sempre considerada como sinistra precursora da
destruição de um ser querido, ela impõe, religiosamente, sacrifícios de dinheiro
feitos até com ostentação, na esperança de consolar a alma do moribundo ou retê-la
ainda, milagrosamente, durante mais alguns instantes na terra. A caridosa convicção de
um filho virtuoso ou a simples demonstração puramente formal e hipócrita são
igualmente tributárias desse culto mais ou menos pomposo.
Na sua maior simplicidade consiste essa cerimônia em um irmão carregando uma sineta e seguido de dois soldados de cabeça descoberta, com a arma virada em sinal de
luto; vêm em seguida quatro outros irmãos, precedendo o padre, que caminha sob um pálio
quadrado sustentado por um braço de ferro recurvado, preso a uma vara carregada por um
irmão marchando imediatamente atrás do eclesiástico. Uma ou duas pessoas acompanham
esse modesto cortejo. O segundo, um pouco mais nobre, difere apenas pelo pálio
maior, de veludo carmesim com franjas de ouro. No terceiro, finalmente, o pálio é
sustentado por seis varas, havendo também músicos negros e uma retaguarda militar.
Cada paróquia tem sua irmandade do Santíssimo, encarregada de escoltar o padre no
momento de levar a extrema-unção a um doente. Essa assistência religiosa é solicitada
na sacristia, onde se encontra sempre um irmão de plantão, a quem cabe despachar
imediatamente um sineiro, que percorre as ruas adjacentes e reúne os irmãos disponíveis
para esse dever religioso. Não conseguindo número suficiente, apelam
para os soldados do posto militar mais próximo, o que faz com que a cruz, os candelabros
e o pálio sejam quase sempre carregados por soldados vestidos momentaneamente com a opa
carmesim. O cortejo mais decente comporta sempre um destacamento militar de oito homens
mais ou menos, comandados por um oficial, todos de boné na mão, precedidos por um tambor
e uma trombeta ou de um pífaro, conforme a arma. Quando, por acaso, isso ocorre num dia
de festa celebrada especialmente na igreja cuja assistência é solicitada, o cortejo é
acrescido solenemente de banda de música de negros, estacionada fora do pórtico e que se
transforma então numa vanguarda composta de duas clarinetas, um triângulo, uma trombeta,
um tambor e um bumbo. Nesse caso o destacamento militar fecha a marcha.
Sigamos agora o cortejo.
É difícil, confesso, ter uma idéia da horrível algazarra produzida pela música
estridente e desafinada desses seis negros executando com entusiasmo valsas, alemandas,
lundus, gavotas, recordações de baile, militarmente entrecortadas pela trombeta da
retaguarda, que domina tudo com uma marcha cadenciada. A esse conjunto revoltante de melodias e ritmos contrários, junta-se ainda o movimento mais lento de um
coro de vozes esganiçadas e fanhosas de uns trinta negros devotos, entoando as litanias
intermináveis da Virgem. Essa inexplicável e indecisa mistura de instrumentos e vozes
humanas acompanha-se ainda de um baixo contínuo de outro gênero: o carrilhão de cada
uma das igrejas diante das quais passa o cortejo, ruído que se extingüe aos poucos,
gradualmente, na medida em que os sineiros perdem de ouvido o som da sineta argentina do
irmão encarregado de dar uma dupla badalada de minuto em minuto. Em resumo, esse
inexprimível imbróglio de estilo e de harmonia, que tanto de perto como de longe irrita
o sistema nervoso com sua barbárie revoltante, imprime com efeito um sentimento de pavor
no coração do homem, mesmo bem-disposto; efeito calculado, sem dúvida, no rito
primitivo, mas que hoje ridiculariza essa cerimônia e retira dela qualquer dignidade
religiosa.
O cortejo chega finalmente à porta da casa do doente; permite-se a entrada somente às
pessoas necessárias. Os portadores encostam no muro o pálio dobrado e a cruz; a escolta
militar enfileira-se do outro lado da rua. A música dos negros e os cantores colocam-se
de lado e recomeçam com todas as forças a executar suas contra-danças, enquanto outros
cantam ao mesmo tempo as litanias da Virgem. Afirma-se que muitas vezes a eloqüência
feliz e caridosa do padre vale-se desse barulho, embora bárbaro, para persuadir o
moribundo de que já o céu se abre para recebê-lo e os anjos o anunciam com seu concerto
harmonioso!
Doce ilusão, que embala a credulidade cristã de alguns. Terminado o ato religioso, o
cortejo volta na mesma ordem, acrescido apenas de um parente próximo ou de um amigo que
se une aos irmãos, de vela na mão, para acompanhar o cortejo até a sacristia. As
pessoas da casa, ainda sufocadas pela fumaça do incenso, fecham as portas, e o moribundo
expira na calma dessa atmosfera aromática. Mas essa lúgubre solenidade, em geral tardia,
serve apenas de sinal para os preparativos do enterro.
Prancha 26 (parte III)
Diversos tipos de esquifes
Distinguem-se nos serviços funerários
brasileiros dois tipos de esquifes para exposição dos corpos, que são em geral
enterrados com o rosto descoberto. O dignatário e o homem rico são depositados num
caixão fechado por uma tampa de charneira; o citadino de medíocre fortuna é
transportado num caixão sem tampa.
São os amadores que se encarregam da confecção dos caixões, cujo preço aumenta de
acordo com o número e a largura dos galões de ouro e prata, finos ou falsos, à escolha,
que os enriquecem.
As cores adotadas nos esquifes são: preto com galões de ouro e prata para os homens;
carmesim ou vermelho-escuro com galões de ouro para as mulheres casadas ou viúvas;
azul-celeste agaloado de prata para as moças; rosa ou azul-celeste agaloado de prata para
as crianças de menos de oito anos, os anjinhos
(DEBRET, Jean-Baptiste. Viagem
pitoresca e histórica ao Brasil. São Paulo, Círculo do Livro, sd. 2 v. )
O autor
Em 1808, a família real portuguesa chega ao Brasil; oito anos depois, em 1816, sob o
patrocínio de dom João VI, o Rio de Janeiro recebe a Missão Artística Francesa com o
objetivo de fundar uma Academia de Belas Artes. Entre os seus membros mais ilustres, está
Jean Baptiste Debret, um nome respeitado em toda a Europa.
Pintor, desenhista e gravador, Debret nasceu em Paris no dia 18 de abril de 1768.
Pertencia à burguesia francesa culta e esclarecida; seu pai, escrivão do Tribunal de
Paris, dedicava grande interesse à história natural e às artes. Debret fez seus
primeiros estudos de pintura em Paris, viajou pela Itália para completar sua educação
e, em 1785, cursou a Academia de Belas Artes, obtendo um prêmio de pintura.
Mais tarde, tornou-se professor de desenho da Escola Politécnica. Em 1798, participou do
Salon de Paris, conquistando o segundo prêmio com o quadro O general Messeniano
Aristomeno. Em 1816, engajou-se na missão artística, organizada a pedido de dom
João VI, com destino ao Brasil.
A instalação da Academia de Belas Artes, no entanto, enfrentou vários obstáculos; o
certo é que levou dez anos para conseguir uma sede definitiva. Temperamento combativo e
trabalhador, Debret lançou-se a uma obra de observação e estudo da formação política
e cultural da nova pátria.
Desenhista oficial da corte, fixou os costumes, usos e paisagens do Brasil, criando um
documento histórico de importância fundamental para a recriação da nossa realidade na
primeira metade do século XIX. Não se limitou à sua excepcional habilidade como
desenhista; reuniu notas e organizou um vasto material sobre aspectos econômicos,
políticos, sociais, geográficos, etc.
Durante os quinze anos que permaneceu no Brasil, desenvolveu um trabalho sem trégua. Sua
objetividade e imparcialidade na fixação das características da vida brasileira causou
escândalo na corte. Ao desenhar e descrever cenas da realidade em que vivia o escravo,
despertou a inimizade e a oposição dos mais conservadores.
Em 1831, voltou para a França, levando seu aluno Manuel de Araújo Porto Alegre, para que
este se aperfeiçoasse nos estudos. Três anos depois, publicou Viagem pitoresca e
histórica ao Brasil. Ao retratar da vida da corte ao comércio de escravos, das
cenas urbanas à riqueza da flora, dos costumes indígenas aos detalhes da arquitetura,
Debret uniu, em seu trabalho, valor artístico e científico.
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