
Conheça também uma descrição da
típica casa brasileira de meados do século XIX, pelos reverendos Kidder
e Fletcher.
O
francês Jean Baptiste Debret descreve o cerimonial da extrema-unção
e os diversos tipos de esquifes, no Rio de Janeiro da primeira metade do século passado.
Às portas da morte. Costumes da Bahia antiga.
|
|
|
|
| PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a casa
em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes;
tipos populares... |
A CASA BRASILEIRA NA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XIX |
A casa da cidade não é um lugar
atraente: as cocheiras e as cavalariças ficam no primeiro andar, enquanto que a sala de
visitas, as alcovas e a cozinha ficam no segundo. Não é raro existir uma pequena área
ou pátio ocupando o espaço entre a cocheira e a cavalariça, e esse espaço separa, no
segundo andar, a cozinha da sala de jantar.
A gravura junto representa uma das mais velhas residências de cidade no Rio, o acesso à
escada se dá por uma grande porta pela qual a carruagem entra barulhentamente, nos dias
de festa e dias santos. À noite é fechada com grades de ferro, das dimensões das que
são usadas nas prisões. Todos os seus ferrolhos, trancas, fechaduras, ou outro qualquer
gênero de ferragem, parecem ter sido trazidos da seção pompeana do museu Bourbônico de
Nápoles. As paredes, compostas de blocos de pedras, cimentados por argamassa comum, são
tão espessas como as de uma fortaleza.
Durante o dia, entra-se pela grande porta e para-se no começo da escada; nenhuma aldraba
ou sineta anuncia a presença do visitante. É preciso que a gente bata com as mãos
juntas, rapidamente e, a não ser quando a família pertence à mais alta classe, pode-se
estar certo de ser saudado por um escravo, do alto da escada, com um "Quem é?".
Se acontece ver-se um amigo no balcão da janela, deve-se, havendo intimidade,
cumprimentar-se o mesmo tirando-lhe o chapéu, e também movendo-se rapidamente os dedos
da mão, como se se estivesse acenando para alguém.
O mobiliário da sala de visitas varia em preço, de acordo com o estilo adotado; mas, o
que se pode sempre esperar encontrar é um sofá forrado de palhinha, a um canto da sala e
três ou quatro cadeiras arrumadas em filas rigorosamente paralelas, estendendo-se de cada
uma das pontas do sofá até o meio da sala. Em sociedade, é próprio as senhoras
ocuparem o sofá, e os cavalheiros as cadeiras.
As residências urbanas, nas velhas cidades, pareceram-me excessivamente tristes, porém o
mesmo não pode ser dito das novas residências urbanas, das lindas "vilas"
suburbanas, cercadas por jardins, cobertos de folhagens, muitas flores e frutos pendentes.
Alguns trechos de Santa Teresa, Laranjeiras, Botafogo, Catumbi, Engenho Velho, Praia
Grande e São Domingos, não podem ser ultrapassados na beleza e pitoresco de suas casas.
Cito, em particular, as casas do senhor Máximo de Souza e do senhor Ginty.
Há diferentes classes sociais no Brasil, como em qualquer outro país, a descrição de
uma não podendo servir para as outras; mas, tendo esboçado a descrição da casa, devo
agora tentar descrever os moradores desde as crianças até os adultos.
A mãe brasileira quase invariavelmente entrega o seu filho a uma preta para ser criado.
Assim que as crianças se tornam muito incômodas ao conforto da senhora, são despachadas
para a escola; e coitado do pobre professor que tem que impôr-se a esse espécime
irrequieto do gênero humano! Acostumado a dominar suas amas pretas, e com a ilimitada
indulgência de seus pais, mete-se na cabeça tudo poder e dever fazer para frustar os
esforços feitos para discipliná-lo. Não fazem isso por maldade, mas por falta de
disciplina paterna. São afetivos e dóceis, embora impacientes e apaixonados, dotados de
inteligência, embora extremamente preguiçosos e incapazes de prolongada atenção.
Rapidamente adquirem uma tintura de conhecimentos: o francês e o italiano, são fáceis
para eles, por serem línguas irmãs da portuguesa. A música, o canto e a dança,
adaptam-se bem aos seus temperamentos volúveis; raramente tenho ouvido um amador italiano
cantar melhor do que os amadores do Rio de Janeiro e da Bahia. Pianos, vêem-se
abundantemente em cada rua, e ambos os sexos se tornam seus executantes consumados. A
ópera é mantida pelo governo, como na Europa, e os principais artistas vêm ao Brasil.
Thalberg triunfou no Rio de Janeiro antes de visitar Nova Iorque.
(Kidder, D. P.; Fletcher, J. C. O Brasil e os brasileiros; esboço histórico e
descritivo. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1941, v.1. Biblioteca
Pedagógica Brasileira, Série 5ª, v.205-A) |
|