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Ano I - novembro 1998 - nº 03

Sua revista com a cara e a alma brasileira


SUMÁRIO - EDIÇÃO 03
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA

Conheça o trabalho, as técnicas, os segredos e a vida das lavadeiras da Bahia.

Saiba um pouco sobre o padre Machado, figura lendária e popular da cidade do Recife.

Os jangadeiros do litoral nordestino descritos por Lindalvo Bezerra dos Santos.

PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE

 

OFICINA - Nesta seção, textos sobre profissões; ferramentas; técnicas; agricultura, pecuária; artesanato; vendedores ambulantes; pregões...

JANGADEIROS

Lindalvo Bezerra dos Santos


Do mesmo modo que o gaúcho em seu cavalo, na campanha, constitui o mais interessante e quase lendário tipo humano do Brasil meridional, o jangadeiro em sua jangada, no litoral nordestino, impressiona logo o observador, escrevendo cotidianamente uma página de heroísmo que somente as águas do oceano registram.

Valentes, generosos, deles partiu, no Ceará, com o jangadeiro Francisco José do Nascimento, o primeiro protesto contra o tráfico negreiro: "No porto do Ceará, não se embarcarão mais escravos."

Estes verdadeiros dragões do mar são tripulantes de embarcações muito simples: as jangadas. São pescadores que afrontam o mar do nordeste, e vão tão longe que os grandes transatlânticos, não raro, os encontram, baloiçantes, em sua rota.

Vive esta gente unicamente do produto da pesca: seus hábitos e costumes estão mais ligados ao mar do que ao continente. A aventura diária demora, em regra, do amanhecer à tardinha, quando na praia mesma vendem o peixe que trouxeram. Outras vezes a duração é maior; prolonga-se por dias; os homens chegam esgotados, mas o samburá vem provido. A família não é pequena e se reúne à partida e à chegada do chefe. O jangadeiro forma um escasso agrupamento litorâneo, típico das praias do norte, desde à Bahia até o Ceará.

Habitam sóbrias e rústicas choupanas ou casinholas de taipa perdidas nos coqueirais. O teto é geralmente de palmas de coqueiro. Outras há totalmente feitas de palha. Também se encontram algumas com paredes de palha e cobertura de telhas.

A jangada assemelha-se em alguns pontos à totora, canoa encontradiça no lago Titicaca, nos altiplanos bolivianos. Constroem-na – a jangada – com cinco troncos de piúva (ipê) ou de jangadeira apeíba (Tibourbou, AUBL.), conhecida também por pau-de-janga. Este conjunto, chamado lastro, cujas dimensões mais comuns são sete metros de comprimento por dois de largura, quando formado por cinco elementos representa a construção clássica, havendo, no entanto, também com seis. Estas cinco peças são ligadas entre si por outras, da mesma madeira e bem delgadas, que atravessam o lastro de lado a lado, variando o seu número. Mais para a proa é fincado o mastro que, após atravessar o banco de vela, repousa na carlinga, uma tábua com furos para colocar-se o mesmo à feição. Cosida numa corda, e por ela presa ao mastro, fica a vela, feita com várias faixas de algodãozinho, de forma triangular isósceles, cuja base se prende àquele. Para abrir a vela e mantê-la nesta posição há um pau de nome retranca ou tranca, conforme a região, e que se apóia no mastro mediante uma forquilha. Entre os numerosos apetrechos duma jangada, destacam-se: o samburá, cesto de boca apertada e feito de cipó ou taquara, destinado a guardar o peixe; o banco de governo, simples tábua sustentada por quatro paus; a quimanga, vasilha na qual levam o alimento (farinha, banana, rapadura, peixe assado) havendo uma para o sal; para a água usam um barrilote; o remo de governo em forma de grande pá, utilizado como leme e dois outros pequenos para propulsão; a bolina, prancha de madeira fincada no centro da jangada, próximo ao mastro, e que mergulha no mar, à guisa de quilha; o tauaçu, interessantíssima âncora, constante duma pedra furada e pequenos paus a ela amarrados servindo de dentes.

O preparo da vela diz-se limar: o pano é submetido a um tratamento de sangue de peixe, ou limo de pau, e água salgada, seguido da exposição ao sereno, o que lhe confere maior durabilidade. No ângulo superior da vela vai a inscrição da colônia a que pertence o jangadeiro e o nome da embarcação.

Em geral, a tripulação compõe-se de três homens, vestidos com roupas simples, mas apropriadas para resistir à água salgada: tecido de algodãozinho tornado mais resistente por um tratamento com mangue e casca de murici; na cabeça, um chapéu de palha e por cima deste, às vezes, um oleado.

Há mais um tipo de jangada, conhecido por paquete, sem vela, pequena e impulsionada a remo. A embarcação quando descansa na praia, repousa sobre roletes feitos de troncos de coqueiro que a permitem deslizar, sem grande dificuldade; à saída, a operação é fácil, mas na chegada torna-se penosa, tanto pelo cansaço dos tripulantes como pelo maior peso da embarcação que vem encharcada. Nos dois momentos, entretando, as pessoas que estão próximas acodem para auxiliar a manobra. O produto da pescaria está sujeito ao imposto do dízimo, satisfeito logo à chegada. O jangadeiro não tem dificuldade em vender o pescado, pois na praia o aguardam os revendedores e consumidores.

O jangadeiro batiza suas embarcações graciosas e leves com nomes leves e graciosos: Ligeira, Duvidosa, Carinhosa, Veloz. À tarde, quando no horizonte aparecem as velas diminutas, a garotada na praia diverte-se em identificá-las, anunciando-as aos gritos. Algumas, só mesmo o olhar e o coração da esposa podem reconhecer. Mas é raro suceder uma infelicidade; o barco é muito estável e a tripulação hábil e corajosa.

Quanto à origem deste tipo de barco, sabe-se que era conhecido dos tupis (com ausência de vela), que o usavam nos rios ou rente à costa, sendo impulsionados à força de remo, varejão ou unicamente levado pela correnteza. O complexo da vela parece ser contribuição do europeu e, assim, o jangadeiro teria herdado de seus avós um e outro elemento: do seu antepassado português ganharia o conhecimento da vela e o destemor pelo mar; da sua avó índia traria a jangada.

O fato é que o jangadeiro constitui no nordeste um tipo original, emprestando à paisagem uma feição própria. As jangadas, pequenas e frágeis, oscilando no mar alto, oferecem um contraste que ressalta o lado heróico. E este tipo de caboclo audaz e despreocupado do perigo tem já merecido a consagração do seu valor nos versos cantantes dos poetas, principalmente dos bardos nordestinos.

Gostam os jangadeiros de contar as suas proezas, algumas tão ingênuas quanto fantasiosas, fato comumente observados entre homens que levam uma vida afanosa e de aventura. De suas lendas e histórias poder-se-ia compôr uma das mais interessantes coleções.


(Santos, Lindalvo Bezerra dos. Tipos e aspectos do Brasil; excertos da Revista Brasileira de Geografia. 5ª ed. Rio de Janeiro, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Conselho Nacional de Geografia, 1949)

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