
Conheça o trabalho, as técnicas, os
segredos e a vida das lavadeiras da Bahia.
Saiba
um pouco sobre o padre Machado, figura lendária e popular da
cidade do Recife.
Os jangadeiros do litoral nordestino descritos por Lindalvo Bezerra
dos Santos.
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| OFICINA
- Nesta seção, textos sobre profissões; ferramentas; técnicas; agricultura, pecuária;
artesanato; vendedores ambulantes; pregões... |
Lindalvo Bezerra dos
Santos |
Do mesmo modo que o gaúcho em seu cavalo, na campanha, constitui o mais interessante e
quase lendário tipo humano do Brasil meridional, o jangadeiro em sua jangada, no litoral
nordestino, impressiona logo o observador, escrevendo cotidianamente uma página de
heroísmo que somente as águas do oceano registram.
Valentes, generosos, deles partiu, no Ceará, com o jangadeiro Francisco José do
Nascimento, o primeiro protesto contra o tráfico negreiro: "No porto do Ceará,
não se embarcarão mais escravos."
Estes verdadeiros dragões do mar são tripulantes de embarcações muito simples: as
jangadas. São pescadores que afrontam o mar do nordeste, e vão tão longe que os grandes
transatlânticos, não raro, os encontram, baloiçantes, em sua rota.
Vive esta gente unicamente do produto da pesca: seus hábitos e costumes estão mais
ligados ao mar do que ao continente. A aventura diária demora, em regra, do amanhecer à
tardinha, quando na praia mesma vendem o peixe que trouxeram. Outras vezes a duração é
maior; prolonga-se por dias; os homens chegam esgotados, mas o samburá vem
provido. A família não é pequena e se reúne à partida e à chegada do chefe. O
jangadeiro forma um escasso agrupamento litorâneo, típico das praias do norte, desde à
Bahia até o Ceará.
Habitam sóbrias e rústicas choupanas ou casinholas de taipa perdidas nos coqueirais. O
teto é geralmente de palmas de coqueiro. Outras há totalmente feitas de palha. Também
se encontram algumas com paredes de palha e cobertura de telhas.
A jangada assemelha-se em alguns pontos à totora, canoa encontradiça no lago
Titicaca, nos altiplanos bolivianos. Constroem-na a jangada com cinco
troncos de piúva (ipê) ou de jangadeira apeíba (Tibourbou, AUBL.), conhecida
também por pau-de-janga. Este conjunto, chamado lastro, cujas dimensões mais comuns são
sete metros de comprimento por dois de largura, quando formado por cinco elementos
representa a construção clássica, havendo, no entanto, também com seis. Estas cinco
peças são ligadas entre si por outras, da mesma madeira e bem delgadas, que atravessam o
lastro de lado a lado, variando o seu número. Mais para a proa é fincado o mastro que,
após atravessar o banco de vela, repousa na carlinga, uma tábua com furos
para colocar-se o mesmo à feição. Cosida numa corda, e por ela presa ao mastro, fica a
vela, feita com várias faixas de algodãozinho, de forma triangular isósceles, cuja base
se prende àquele. Para abrir a vela e mantê-la nesta posição há um pau de nome retranca
ou tranca, conforme a região, e que se apóia no mastro mediante uma forquilha.
Entre os numerosos apetrechos duma jangada, destacam-se: o samburá, cesto de boca
apertada e feito de cipó ou taquara, destinado a guardar o peixe; o banco de governo,
simples tábua sustentada por quatro paus; a quimanga, vasilha na qual levam o
alimento (farinha, banana, rapadura, peixe assado) havendo uma para o sal; para a água
usam um barrilote; o remo de governo em forma de grande pá, utilizado como leme e dois
outros pequenos para propulsão; a bolina, prancha de madeira fincada no centro da
jangada, próximo ao mastro, e que mergulha no mar, à guisa de quilha; o tauaçu,
interessantíssima âncora, constante duma pedra furada e pequenos paus a ela amarrados
servindo de dentes.
O preparo da vela diz-se limar: o pano é submetido a um tratamento de sangue de
peixe, ou limo de pau, e água salgada, seguido da exposição ao sereno, o que lhe
confere maior durabilidade. No ângulo superior da vela vai a inscrição da colônia a
que pertence o jangadeiro e o nome da embarcação.
Em geral, a tripulação compõe-se de três homens, vestidos com roupas simples, mas
apropriadas para resistir à água salgada: tecido de algodãozinho tornado mais
resistente por um tratamento com mangue e casca de murici; na cabeça, um chapéu de palha
e por cima deste, às vezes, um oleado.
Há mais um tipo de jangada, conhecido por paquete, sem vela, pequena e
impulsionada a remo. A embarcação quando descansa na praia, repousa sobre roletes feitos
de troncos de coqueiro que a permitem deslizar, sem grande dificuldade; à saída, a
operação é fácil, mas na chegada torna-se penosa, tanto pelo cansaço dos tripulantes
como pelo maior peso da embarcação que vem encharcada. Nos dois momentos, entretando, as
pessoas que estão próximas acodem para auxiliar a manobra. O produto da pescaria está
sujeito ao imposto do dízimo, satisfeito logo à chegada. O jangadeiro não tem
dificuldade em vender o pescado, pois na praia o aguardam os revendedores e consumidores.
O jangadeiro batiza suas embarcações graciosas e leves com nomes leves e graciosos: Ligeira,
Duvidosa, Carinhosa, Veloz. À tarde, quando no horizonte aparecem as
velas diminutas, a garotada na praia diverte-se em identificá-las, anunciando-as aos
gritos. Algumas, só mesmo o olhar e o coração da esposa podem reconhecer. Mas é raro
suceder uma infelicidade; o barco é muito estável e a tripulação hábil e corajosa.
Quanto à origem deste tipo de barco, sabe-se que era conhecido dos tupis (com ausência
de vela), que o usavam nos rios ou rente à costa, sendo impulsionados à força de remo,
varejão ou unicamente levado pela correnteza. O complexo da vela parece ser
contribuição do europeu e, assim, o jangadeiro teria herdado de seus avós um e outro
elemento: do seu antepassado português ganharia o conhecimento da vela e o destemor pelo
mar; da sua avó índia traria a jangada.
O fato é que o jangadeiro constitui no nordeste um tipo original, emprestando à paisagem
uma feição própria. As jangadas, pequenas e frágeis, oscilando no mar alto, oferecem
um contraste que ressalta o lado heróico. E este tipo de caboclo audaz e despreocupado do
perigo tem já merecido a consagração do seu valor nos versos cantantes dos poetas,
principalmente dos bardos nordestinos.
Gostam os jangadeiros de contar as suas proezas, algumas tão ingênuas quanto
fantasiosas, fato comumente observados entre homens que levam uma vida afanosa e de
aventura. De suas lendas e histórias poder-se-ia compôr uma das mais interessantes
coleções.
(Santos, Lindalvo Bezerra dos. Tipos e aspectos do Brasil; excertos da Revista
Brasileira de Geografia. 5ª ed. Rio de Janeiro, Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística, Conselho Nacional de Geografia, 1949) |
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