
Conheça o trabalho, as técnicas, os
segredos e a vida das lavadeiras da Bahia.
Saiba
um pouco sobre o padre Machado, figura lendária e popular da
cidade do Recife.
Os jangadeiros do litoral nordestino descritos por Lindalvo Bezerra
dos Santos.
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| OFICINA
- Nesta seção, textos sobre profissões; ferramentas; técnicas; agricultura, pecuária;
artesanato; vendedores ambulantes; pregões... |
AS LAVADEIRAS FAZIAM ASSIM |
Era fácil identificar uma lavadeira. A
visão de uma mulher descalça, com uma trouxa de roupa à cabeça, nos dias de
segunda-feira, era trivial. Andava pelas ruas, saias meio arregaçadas, seguida a curta
distância por um filho ou filha de pouca idade, carregando galhos secos miúdos ou pontas
de madeiras de desmancho reunidos num feixe. Esta era a mulher que levava roupa para a
fonte, tipo que está gradativamente desaparecendo. Era a lavadeira, profissional de um
dos mais duros e penosos trabalhos que se possa imaginar.
As lavadeiras podiam ser classificadas de várias formas: as que lavavam na casa da patroa
e as que lavavam na fonte; as que lavavam por peça e as que lavavam por mês; as que
apenas lavavam e as que lavavam e passavam, além das que lavavam e engomavam. Havia uma
casta das especializadas que desempenhavam roupa de homem. Lavavam e engomavam
exclusivamente punhos e colarinhos, peitilhos e camisas de peito duro, calça e coletes
brancos, ternos e duques de brim. Estas se recusavam sistematicamente a lavar e engomar
fronhas, toalhas de mesa, guardanapos e paninhos. Da mesma forma que umas tantas que executavam
peças masculinas, engomando e brunindo se negavam a lavar. Recebia tudo já limpo, lavado
ao seu gosto, não admitindo encardidos nem manchas que pudessem desmerecer o seu
engomado. Só queriam a tarefa de botar goma e meter o ferro.
Cabe aqui uma explicação. Meter o ferro era a expressão usada quando a roupa era
em grande quantidade ou muito difícil de engomar. Bater o ferro era repassar a
roupa espessa ou cheia de pregões, necessitando ser umedecida e requerendo muita força
no braço para coadjuvar a ação do ferro. Passar a ferro era alisar roupa sem
goma, como hoje ainda se usa dizer. Brunir era puxar o lustro num engomado duro e
brilhante, carecendo de um ferro especial denominado brunidor.
As que lavavam na casa da patroa, isto é, na casa dama, dormiam fora,
não tendo um horário muito rígido. Em lares organizados, em que havia dia e hora para
tudo, a lavadeira tinha dias pré-estabelecidos para molhar a roupa. Em outras,
entretanto, era uma inferneira, toda hora descendo roupa para lavar.
Se, em algumas residências, as pias de cimento, chamadas lavanderias, eram bem
construídas, até que o serviço não era dos piores. Mas, se era para lavar no banheiro
ou no tempo, sem gamela nem lugar para quarar, a situação não era de
causar inveja. Com muito jeito e algum empenho, o trabalho ia sendo feito mais ou menos a
contento das partes.
A lavadeira que se empregava nas casas tinha a vantagem de comer melhor ou, pelo menos,
comer, na hora certa, comida de gente. Não gastava dinheiro com sabão nem precisava de
procurar lenha. Tinha a desvantagem de não poder recusar esta ou aquela peça por ser
muito pesada ou difícil de lavar.
A que lavava na fonte, por peça, fazia suas exigências e tentava modos malcriados. Fazia
o que queria. A que lavava por mês (à razão de trouxas) estava mais sujeita à
exploração. As patroas pechincheiras mandavam mais roupas do que o combinado na hora do
ajuste.
Quem ia para a fonte comia da maneira mais frugal possível. Carne do sertão assada na
brasa com farófia de água quente ou fria; bacalhau assado regado com a porção de
vinagre e azeite doce que o homem da venda botava misturado na vasilha. Umas poucas
levavam o feijão dormido. O mais provável era, na lida da lavagem, esquecer de
comer.
As que levavam a roupa para a fonte iam buscar a trouxa de segunda-feira. Entregavam, no
sábado, tudo pronto, salvo contratempo de chuva ou doença, bem como quando lhes pediam
uma peça ou outra para determinado dia. Algumas viviam chorando adiantamento,
alegando necessidade de comprar sabão, anil ou um latão novo para a fervura. Nunca
confessava que o dinheiro era para a quarta de bacalhau ou de carne do sertão que
constituía o cardápio habitual.
Ontem, como hoje, as mãos de quem lavava sofriam injúrias terríveis. Roupas grossas ou
muito sujas exigiam longa esfrega, rasgando as cutículas, fazendo nascer espigas.
A potassa do sabão irritava a pele e os problemas surgiam. Os dedos começavam a inchar,
infeccionavam em volta da unha, supuravam. Os dedos despelavam, e a unha apodrecia, caía.
O terrível unheiro continuava resistindo a tudo, produzindo vergões e ínguas, parentas
próximas da erisipela.
Durante todo o sofrimento, sem deixar de lavar, a lavadeira experimentava tudo quanto
estivesse ao seu alcance. Mandava rezar. Punha emplastos para amadurecer o pus.
Basilicão, cabeça de quiabo pisado com sabão virgem, papa de farinha crua com azeite
doce, hortelã grosso pisado, mastruço com folha da costa pisados juntamente com um pouco
de alho, sumo de urtiga com pó de nariz eram as mezinhas mais usadas.
Para queimar o unheiro, evitando que repetisse, utilizavam o recurso de chapear
com azeite doce fervido com alho, fezes humanas (de preferência ferrado de menino
pagão). Apalpar galinha várias vezes ao dia e expôr o dedo ao rescaldo de qualquer
fervura eram catalogados entre os tratamentos julgados infalíveis. A falta de resguardo
de boca e a necessidade constante de estar com as mão na água dificultavam a cura. Mas
as lavadeiras não desanimavam e viviam a sua vida torturada de pobre, presas às
técnicas primitivas de lavar.
Ainda as lavadeiras:
Era antes das máquinas de lavar, quando toda família
tinha sua lavadeira. Na segunda-feira, alguém esvaziava a cesta de roupa suja,
despejando-a no chão, inspecionando meticulosamente, peça por peça, depois de especular
o interior dos bolsos e catar agulhas e alfinetes esquecidos nas golas dos
vestidos. Ia formando pequenos montes de lençóis, toalhas, cobertas, fronhas,
guardanapos, toalhas de banho e assim por diante, tendo cuidado de cosicar algum rasgão.
Só as pessoas descuidadas mandavam roupas descosidas ou rasgadas para a lavadeira. Era
uma forma de poupança, levando em conta que as peripécias de lavagem aumentariam o
estrago já existente.
Terminada a contagem e feito o rol, punha tudo dentro de uma toalha ou lençol mais
resistente, fazendo a trouxa com as pontas amarradas. A lavadeira chegava, ouvia as
reclamações acerca da roupa limpa que tinha entregue no sábado. Desculpava-se ou
justificava-se, como podia, as faltas, os desbotados de sol, as manchas adquiridas, os
rasgões e poídos, despedindo-se com mesuras e promessas.
Em casa, quando era conscienciosa, tornava a contar toda a roupa, separando as brancas das
de cor. Como a maioria era analfabeta, a contagem era realizada segundo o código herdado
das tias da Costa: "este é mais três zirimão, aquele mais dois
zirimão, este zirimão de lá, este sem zirimão". Só então começava
verdadeiramente a operação de lavagem. Em tempo: zirimão queria dizer irmão
ou igual.
Ir para a fonte podia significar uma fonte pública ou as muitas existentes por todas
as roças da cidade; uma cisterna no próprio terreno ou apenas os gamelões ou alguidares
enormes cheios de água carregada de onde parecesse mais conveniente. As roupas eram
postas de molho para largar a poeira, escorridas, e depois jogadas na barrela.
A barrela resultava de uma mistura de cinza e sebo de carne verde preparada a fogo
lento e depois dissolvida em água quente, apenas, esperta. Havia outro tipo com a
potassa comprada na loja de ferragem e uns pingos de querosene.
Quem não adotava a barrela é porque preferia o sabão cru. O método
consistia em espremer bem toda a umidade da peça, correr o sabão nas partes mais
imundas, enrolar o pano sobre si, tudo muito bem apertado e deixar de parte para amolecer,
até a hora de esfregar.
Uma roupa, até ser posta para enxugar, passava por várias peripécias. Se havia peças
com nódoas ou manchas, estas eram tratadas em primeiro lugar. Para manchas de tintas
(pois aquele era o tempo áureo da tinta líquida preta, azul, verde, vermelha ou
violeta), sal de cozinha, sumo de limão e muito sol resolviam. Lavadeira que não gostava
de perder tempo usava a fava conhecida por biribiri. Diziam que apodrecia o tecido,
mas este era um problema que competia à patroa arcar. Para manchas de ferrugem, sumo de
cebola e muito sol ou sumo de batata inglesa e ferro quente. Para as de sangue, água
fervente e depois, sabão cru. Para as de leite ou azeite, apenas uma boa verdura. Para as
de mofo, um tanto de sumo de agrião e leite de mamão numa dosagem exata. Para as de
tanino de banana, não havia jeito. Para as de caju bastava apenas ter paciência e deixar
a safra terminar.
Depois de corrido o sabão na peça, a esfregadela também tinha suas técnicas.
Havia quem usasse rama de melão-de-são-caetano, folha de mamoeiro, folha de bilreiro,
folha de quitoco, folha de cardamomo ou de nativo, além do patchuli para ajudar a tirar o
sujo. As lavadeiras sem consciência recorriam à barba do coco seco, à bucha de
lavar prato ou à palha de milho seco como esfregão, pouco se lhes dando se rasgasse ou
rompesse a roupa alheia.
Usavam também esfregar com as mãos e bater na pedra o pano que parecesse não
querer largar o sujo. Entre as esfregações e batidos, a roupa acabava no carador ou quarador
para o sol esquentar. No quarador ou na lata de fervura. Fervura que tinha
seus percalços, trazendo aborrecimentos quando queimava, estragava, desbotava ou encolhia
o tecido ou agarrava a nódoa que não tinha sido vista antes. Fervura com patchuli
deixava a roupa cheirosa, mas separava casais; com quitoco esfriava as naturezas
dos rapazes; com bilreiro, afastava os olhos maus e os sonhos ruins.
A água da chuva servia para ferver a roupa, embora cortasse o sabão. Da mesma
forma que roupa branca que ficava no quarador, recebendo chuva ou sereno, ficava
mais branca do que exposta ao sol. Mas roupa que fosse enxaguada com água de chuva ou
apanhasse chuvisco, já secando, tinha um cheiro enjoativo e parecia dura, tão
dura como qualquer outra que não se tivesse enxaguado direito.
O melhor de tudo é que, com tanto cansaço, não era raro a roupa, depois de seca, ficar
encardida ou com o sujo agarrado. Diziam que o mal era da fervura, do mal-enxaguado, do
mal-anilado, da falta de cuidado de esfregar, pondo no quarador peças com todo o
sujo embebidas no sabão.
Um dia para molhar a roupa; um dia para secar; o resto da semana para engomar ou
passar, esta era a regra para as que lavavam em casa dama. Mas as lavadeiras de
fonte lavavam a semana toda para poder botar para secar, se o sol resolvesse desaparecer e
chuva ficasse renitente. Então, embolavam uma semana com a outra, não entregando a
trouxa no sábado determinado, perdendo o conceito obtido e sem ter jeito a dar.
Perseguidas pela chuva e pelos unheiros, vivendo uma vida de trabalheira e
mau-passadio, mesmo assim elas aturavam e ficavam velhas. Asmáticas, reumáticas,
cardíacas, mas sempre dispostas a lavar uma roupinha leve. As lavadeiras cumpriam seu
fado sem grandes apaixonamentos. Nada de queixas, nada de lamúrias. Que é que elas iriam
fazer? Se se nascia lavadeira, lavadeira se tinha de morrer.
(Viana, Hildegardes. A
Bahia já foi assim; crônicas de costumes. 2ª ed. Brasília, Ed. GRD, 1979)
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Você diz que rola pedra
Rola pedra nem por isso,
No dia que eu tô à toa,
Rola pedra pra patroa.
Você diz que rola pedra
Rola pedra nem por isso,
No dia que eu tô à toa,
Rola pedra no serviço.
Canto das lavadeiras da fazenda Redenção (Botucatu, SP)
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O lamento da lavadeira
(Nilo Chagas, Monsueto Menezes e João Vieira Filho)
Ô, dona Maria!
Olha a roupa, dona Maria
Ai, meu deus!
Tomara que não me farte água!
Sabão, um pedacinho assim
A água, um pinguinho assim
O tanque, um tanquinho assim
A roupa, um montão assim
Para lavar a roupa da minha sinhá
Para lavar a roupa da minha sinhá
Quintal, um quintalzinho assim
A corda, uma cordinha assim
O sol, um solzinho assim
A roupa, um montão assim
Para secar a roupa da minha sinhá
Para secar a roupa da minha sinhá
A sala, uma salinha assim
A mesa, uma mesinha assim
O ferro, um ferrinho assim
A roupa, um montão assim
Para passar a roupa da minha sinhá
Para passar a roupa da minha sinhá
Trabalho, um tantão assim
Cansaço, é bastante sim
A roupa, um montão assim
Dinheiro, um tiquinho assim
Para lavar a roupa da minha sinhá
Para lavar a roupa da minha sinhá
Já vai, peste! |
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