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Ano I - novembro 1998 - nº 03

Sua revista com a cara e a alma brasileira


SUMÁRIO - EDIÇÃO 03
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU

Eduardo Frieiro descreve como era feita a alimentação dos escravos nas fazendas de Minas Gerais.

O cerimonial da refeição d’El-Rei dom João IV.

O angu de fubá, prato de grande sustância e acompanhamento indispensável do frango ao molho pardo com quiabo. Conheça também o poema de Bernardo Guimarães satirizando o nome da freguesia da Madre de Deus do Angu.

PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE

 

COLHER DE PAU - Nesta seção, textos sobre receitas tradicionais; bebidas típicas; alimentos brasileiros; costumes à mesa; horta, pomar e criação; crenças, costumes e tabus relacionados à alimentação e alimentos...


ANGU

Eduardo Frieiro


O angu de fubá, prato de grande sustância, indispensável na alimentação do roceiro, está igualmente presente na mesa do habitante dos centros urbanos. O mineiro prepara-o preferencialmente sem sal, ao contrário por exemplo, do paulista, que o usa mais comumente com sal. Atribui-se tal preferência do mineiro à extrema escassez de sal em Minas Gerais durante o século XVIII. Dos dois alimentos principais e às vezes únicos da população das Gerais, o feijão e o milho, era este o que podia dispensar o sal na forma habitual de angu. Impunha-se pois o uso do angu sem sal. Invenção de mineiro? Seria preciso prová-lo. O problema do abastecimento do sal foi muito grave no país em toda a fase colonial, esta é que é a verdade...

O sabor do angu pode ser muito melhorado se acrescido de torresmos ou lingüiça. Adicione-se-lhe a erva picadinha, afogada, e têm-se a tríade tradicional: feijão, angu e couve.

(FRIEIRO, Eduardo. Feijão, angu e couve. Belo Horizonte / São Paulo, Editora Itatiaia / Editora da Universidade de São Paulo, 1982. Reconquista do Brasil (nova série), v. 72)

- A receita do angu de fubá:

Leve ao fogo uma panela com água; deixe ferver, tempere com uma colher de gordura derretida e sal a gosto. Feito isso, junte devagarinho fubá amarelo, bem fino ou mimoso, mexendo sempre para não encaroçar, até que tome uma boa consistência e que comece a desgrudar da panela. Tire então do fogo e vire o angu sobre um prato fundo, molhado. Ao servir, vire novamente sobre outro prato fundo. Pode-se fazer também sem tempero, isto é, sem gordura e sal, para acompanhar pratos.

O angu é acompanhamento obrigatório de um tradicional prato da culinária mineira:

FRANGO AO MOLHO PARDO COM QUIABO

- 3 frangos que perfaçam um total de três quilos
- o sangue dos frangos, bem batido com 1/2 copo de vinagre para que não coagule
- 2 limões
- 2 folhas de louro
- 2 cebolas grandes
- 1 dente de alho
- 1/2 copo de óleo
- 100g de toucinho defumado bem magro
- 4 tomates grandes e maduros, sem pele nem sementes
- sal e pimenta

Para os quiabos:
- 2 quilos de quiabos pequenos e tenros
- 2 colheres de sopa de óleo
- 1 cebola média
- 1 dente de alho
- 2 colheres de sopa de vinagre

Limpe os frangos, lave e corte em pedaços não muito pequenos. Tempere com o caldo coado dos limões, sal e pimenta, e deixe tomar gosto por quinze minutos. Pique o toucinho e frite no óleo. Quando os torresmos estiverem quase prontos, misture com as cebolas raladas ou batidinhas e com o alho picado e espere alourar.

Refogue então os pedaços de frango escorridos, até que comecem a tostar. Prove o sal e a pimenta e misture com os tomates bem amassados. Junte o louro, molhe com três copos de água quente, espere ferver, abaixe o fogo e tampe. Cozinhe até que os frangos estejam macios, porém sem soltar dos ossos.

Durante o cozimento, acrescente mais água quente, pois no final deve-se obter não menos que quatro copos de molho espesso.

Quando os frangos estiverem quase no ponto ideal, misture bem com o sangue batido com o vinagre e deixe em fogo brando por mais quinze minutos, para apurar o molho.

Para os quiabos: lave, enxuge e suprima as extremidades. Com o auxílio de uma faca, sempre limpa e seca, corte-os em rodelinhas não muito finas. Esquente o óleo e doure a cebola batidinha e o alho picado. Refogue os quiabos e tempere com sal e pimenta. Misture com o vinagre, para cortar a baba, mexa bem, espere evaporar e molhe com um copo de água quente. Os quiabos devem ficar macios e completamente sem molho.

Parecer da Comissão de Estatística a respeito
da Freguesia da Madre-de-Deus-do-Angu

(Bernardo Guimarães)

Diga-me cá, meu compadre,
Se na sagrada escritura
Já encontrou, porventura,
Um Deus que tivesse madre?
Não pode ser o Deus-Padre,
Nem tão pouco o Filho-Deus;
Só se é o Espírito Santo
De que falam tais judeus.
Mas esse mesmo, entretanto,
De que agora assim se zomba,
Deve ser pombo, e não pomba,
Segundo os cálculos meus.

Para haver um Deus com madre,
Era preciso um Deus fêmea;
Mas isto é forte blasfêmia;
Que horroriza mesmo a um padre.
Por mais que a heresia ladre,
Esse dogma tão cru,
— De um Deus de madre de angu, —
Não é obra de cristão,
E não passa de invenção
Dos filhos de Belzebu.

E, se há um Deus do Angu,
Pergunto: — Por que razão
Não há um Deus do Feijão,
Seja ele cozido ou cru?
De feijão se faz tutu,
Que não é mau bocadinho;
Mas não se seja mesquinho:
Como o feijão sem gordura
É coisa que não se atura
Deve haver Deus do Toicinho.

Desta tríplice aliança
Nascerá uma trindade,
Com que toda a humanidade
Há de sempre encher a pança;
Porém, para segurança,
Como o angu é dura massa,
E o feijão nunca tem graça
Regado com água fria,
Venha para a companhia
Também um Deus da Cachaça.

Mas segundo a opinião
De uma minha comadre,
Nunca houve um Deus de madre,
Nem de angu, nem de feijão.
Tem ela toda a razão.
Pelos raciocínios seus,
Que são conforme aos meus,
Isto é questão de panela,
E Deus não deve entrar nela,
E nem ela entrar em Deus.

E, portanto, aqui vai uma emenda,
Que tudo remenda:

Vai aqui oferecida
Uma emenda supressiva:
Suprime a madre, que é viva,
Fica o angu, que é comida.
A Comissão — convencida
Pelos conselhos de um padre,
Que conversou com a comadre —
Propõe que, desde este dia,
Chame-se a tal freguesia
A do Angu de Deus, sem Madre.

(Madre-de-Deus-do-Angu foi um distrito da região do Sul de Minas Gerais. Bernardo Guimarães zomba do nome da freguesia e satiriza os deputados pela futilidade de discutirem a mudança do nome dessa freguesia. A antiga freguesia  chama-se hoje Madre-de-Deus-de-Minas, e fica entre Caxambu e Barbacena.)

SAIBA MAIS:
A vida e a obra de Bernardo Guimarães

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