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Ano I - novembro 1998 - nº 03

Sua revista com a cara e a alma brasileira


SUMÁRIO - EDIÇÃO 03
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU

Eduardo Frieiro descreve como era feita a alimentação dos escravos nas fazendas de Minas Gerais.

O cerimonial da refeição d’El-Rei dom João IV.

O angu de fubá, prato de grande sustância e acompanhamento indispensável do frango ao molho pardo com quiabo. Conheça também o poema de Bernardo Guimarães satirizando o nome da freguesia da Madre de Deus do Angu.

PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE

 

COLHER DE PAU - Nesta seção, textos sobre receitas tradicionais; bebidas típicas; alimentos brasileiros; costumes à mesa; horta, pomar e criação; crenças, costumes e tabus relacionados à alimentação e alimentos...


O CERIMONIAL DA REFEIÇÃO D'EL REI DOM JOÃO IV

Luís da Câmara Cascudo


Acabada a audiência, vai sua majestade comer, e se o fizer em público assistirão os títulos, oficiais da casa, e mais pessoas que têm lugar nas audiências públicas, e na mesma forma em que estão nelas. A casa em que sua majestade deve comer será de ordinário a do primeiro docel, a respeito de quem entra, e segundo a capacidade desta casa ou da outra em que sua majestade comer, poderão ter entrada mais pessoas que as que entram nas audiências.

LIII: Ao vedor da semana toca mandar vir as iguarias a tempo que às onze horas estejam na copa; e como tudo estiver prestes darão recado a sua majestade, e querendo-o fazer o mordomo mor, achando-se presente, o poderá fazer.

LIV: As iguarias hão de vir acompanhadas da cozinha para a copa do vedor da semana, o qual virá sempre descoberto, ainda que seja título. Virão também com elas o guarda resposta, e o servidor da toalha da semana, e trá-las-ão os moços da câmara entre duas fileiras de soldados da guarda, e por onde quer que passarem, tirarão os chapéus todas as pessoas que as encontrarem, e que estiverem por onde elas forem parando, e desviando-se do caminho, ainda que sejam título.

LV: A mesa porão os resposteiros da copa, para o que terão uma esteira de verão, e alcatifa de inverno que será na largura e comprimento, de modo que a mesa fique posta na ponta da alcatifa, para que o trinchante, e oficiais da mesa não fiquem com os pés postos nela, e só o ficarão os moços fidalgos que estão de joelhos chegados à cadeira. Se na casa houver docel, se porá debaixo dele. Tanto que a mesa estiver posta, e nela se puser o saleiro, e o pão, ou alguma cousa de comer, assistirá o manteeiro da mesma casa, até que sua majestade vá para a mesa, porque a ele toca dar conta do que ali se puser de comida; e tanto que a mesa estiver posta não se cobrirá nenhuma pessoa das que estiver na casa, ainda que seja título, e menos passearão, ou se assentarão.

LVI: Chegado sua majestade à mesa, sairá a benzê-la o capelão mor com dois capelães domarios daquela semana; e em sua ausência o bispo da capela, e na de ambos o sumilher da quartina da semana.

LVII: Tanto que se acabar a benção chegará o resposteiro mor a cadeira para se sua majestade sentar, e acabada a mesa a tornará a afastar, e depois de assentado acenará sua majestade aos títulos para se cubrirem, e assim eles como os oficiais da casa, e mais pessoas que ali têm lugar o irão tomar. Na mesma forma em que o fazem nas audiências, tirado o vedor, porque se porá à parte direita de sua majestade defronte do canto da mesa; mas não tão chegado à ela como os oficiais que servem à mesa, e com os pés fora da alcatifa, e o mestre sala se porá da outra banda da mesma forma.

LVIII: Os médicos hão de ficar no outro topo da mesa da banda esquerda, entre ela e os oficiais da casa.

LIX: Depois de sua majestade estar sentado há de o vedor chegar à porta da casa em que sua majestade comer, donde virão dois porteiros da cana, e de trás deles tornará o vedor; e logo o manteeiro com o prato de água às mãos na mão direita levantada com ele até o ombro, e na esquerda o gomil defronte da cintura, e assim virá com o rosto na mesa, e os porteiros chegarão um pouco afastados dela, e fazendo sua mesura, se apartarão cada um para sua banda; e o vedor passando a diante chegará até junto da alcatifa, onde fará sua mesura, e se tornará para o seu lugar.

LX: O trinchante há de estar encostado à parede com os mais oficiais da casa, e tanto que os porteiros da cana, e vedor vierem perto da mesa se sairá do seu lugar, e virá meter entre o vedor e manteeiro; e como o vedor fizer sua mesura se porá no meio da mesa que é o lugar que lhe toca, mas não se arrimará nem porá as mãos nela. O manteeiro se porá à mão esquerda do trinchante do mesmo modo chegado à mesa, e lhe entregará o prato, e gomil, e o trinchante o beijará e chegará a sua majestade com a mão esquerda, e com a direita deitará água com o gomil; e tanto que sua majestade lavar as mãos tornará o prato, e o gomil ao manteeiro, e ele o entregará a um resposteiro da copa. De trás do manteiro alguma cousa para a parte de fora estará o escrivão da cozinha. A toalha para sua majestade limpar as mãos trará um moço da câmara num prato, e a dará ao vedor, e ele a deitará a sua majestade, e sua majestade a torna ao manteeiro depois que se alimpa, e ele a tomará num prato, e a mesma cerimônia se fará na água às mãos do fim da mesa.

LXI: Antes das iguarias irem para a mesa, tomará o vedor da semana a salva, para o que um resposteiro da copa porá num prato pequeno à roda umas fatias de pão delgadas e do tamanho de um dedo, e o chegará ao vedor tendo-o na mão, e não no pondo na copa; e ele com as fatias irá tocando em cada uma das iguarias, e provando-as.

LXII: Lavadas as mãos, e feita a salva irão as iguarias para a mesa, indo diante delas o prestes, e de trás dele o servidor da toalha da semana com uma deitada ao pescoço, e uma iguaria nas mãos, e de trás dele os moços da câmara, e pondo-as na mesa, e o manteeiro irá passando algumas para a sua parte, e acomodando-as de modo que caibam. As que El Rei quer comer, pede ao trinchante, e ele tirará do prato a que El Rei lhe disser; e quando El Rei não disser nada, escolherá a que lhe parecer melhor, e o chegará a El Rei, e tornará a tirar os mesmos pratos em que El Rei comeu, e os dará ao manteeiro, ele aos moços da câmara, mas os pratos em que El Rei deitar os ossos, ou cousas semelhantes, tirará o manteeiro, e não o trinchante.

LXIII: Os moços fidalgos assistirão à mesa de joelhos junto a cadeira de sua majestade de uma banda e da outra sobre a alcatifa, e se alevantarão no fim da mesa depois de água às mãos, e a dois deles dará o manteeiro os abanos quando chegarem as iguarias.

LXIV: Acabadas as iguarias, irá o vedor à porta da casa buscar os doces que trará numa confiteira e guarda reposte, e em um prato grande com uma toalha por cima, e diante do vedor virão dois porteiros da cana, assim como quando vem a água às mãos, e pondo o guarda reposte a confiteira com o mesmo prato na mesa a descobrirá, e o trinchante a chegará à sua majestade; e tanto que sua majestade acabar de comer os doces, e repartir alguns com os moços fidalgos, a tornará a entregar ao guarda reposte que a levará.

LXV: O copeiro mor estará junto à mesa além do manteeiro, e tanto que sua majestade lhe pedir de beber, irá à casa de fora onde está a copa, e diante dele se lançará a bebida no púcaro e ali mesmo diante dele tomará o copeiro pequeno a salva na forma extraordinária, e dará o púcaro ao copeiro mor, que o levará na mão direita, e a salva na esquerda, e irão diante o copeiro pequeno, e os porteiros da cana fazendo praça até chegar à mesa da banda esquerda ou da que estiver desocupada, onde o copeiro pequeno tirará a sapa do púcaro, e a terá com a mão alçada bem defronte do ombro estando de joelhos, e o copeiro mor, também de joelhos, lançará uma pequena de bebida na salva, e provando-a, dará o púcaro a El Rei tendo a salva debaixo dele, e como sua majestade bebe, lhe torna o copeiro dar o púcaro ao copeiro pequeno, que então se levantará, e pondo-lhe a sapa que tem na mão, o levará; e o copeiro mor fazendo sua mesura três passos atrás se tornará ao seu lugar; o guarda reposte e o copeiro pequeno assistirão na casa da copa enquanto sua majestade comer, para onde virão tanto que nela estiver a confiteira, ou comida.

LXVI: Acabado de comer chegará o trinchante um prato de cortar a sua majestade, e lança nele a faca, colher, garfo, guardanapo em que sua majestade se alimpou, e pão que lhe sobejou, e o manteeiro porá neste tempo na mesa um prato grande em que o trinchante virará o que tirou El Rei, com o que nele lhe pôs, e logo em outro prato de cortar porá as suas facas, garfo, colher, e guardanapo, e o tirará o manteeiro, e o dará a um moço da câmara, e depois levantará o trinchante a primeira toalha, e o manteeiro a porá no mesmo prato grande; e dará aos que servem à mesa. Neste tempo se levantarão os moços fidalgos, e se afastarão da mesa, e virá o manteeiro com água às mãos na forma em que se faz ao princípio, e logo o vedor do seu topo, e o trinchante do outro levantarão a última toalha, e recolhendo-a o manteeiro num prato grande, a entregará a um reposteiro da copa, que estará detrás dele, e fazendo sua mesura sairá, e o reposteiro mor virá afastar a cadeira, e o capelão mor a dar as graças, tudo na forma já referida, e os oficiais todos acompanharão a sua majestade até a sua câmara, ou casa onde parar, e ali fazendo sua mesura se recolherão.

LXVII: Se alguma pessoa neste tempo mandar alguma cousa a sua majestade, o vedor se chegará mais perto da mesa, e lho dirá.

LXVIII: Esta forma é a que se guarda quando sua majestade come em público ordinariamente, porém sendo em dia de maior festa assim como nos dias das Páscoas, no de Reis, no de consoada de Natal, ou em outro que por alguma ocasião peça maior solenidade, se acrescentará que as primeiras e últimas iguarias, e fruta acompanham os porteiros da cana, e logo os das maças, e dois reis de armas arautos e passavantes, e de trás deles o porteiro mor, vedor, e mestre sala na forma que fica dito, todos descobertos, ainda que sejam títulos, e no último lugar o mordomo mor coberto, e assim irá até quando quiser fazer a mesura junto de El Rei, e nesta solenidade leva a sua insígnia ao ombro.

LXIX: Sucedendo que sua majestade coma carne em dia de peixe deve pôr-se a mesa numa casa mais dentro da costumada, não entrarão os porteiros da cana, assistirão somente os oficiais da casa; o vedor irá, e virá à porta, sem os porteiros, e as outras cerimônias; e só quando vier a fruta então poderá entrar as pessoas que tem lugar nas comidas públicas.

LXX: Nas ocasiões de nojo assistirão à mesa os oficiais, e os moços da câmara, da guarda-roupa trarão as iguarias da copa até à mesa, e da mesa as tornarão a levar; e os moços da câmara as trarão da cozinha à copa, na forma que fica dito.

LXXI: Estando sua majestade doente em cama, virá a comida acompanhada na forma referida; o camareiro mor e só o que dá de comer; e porque não há mesa, não servem os oficias; no aposento em que sua majestade estiver deitado, entrará somente o mordomo mor, e os gentis-homens da câmara se sua majestade os tiver, e o gentil-homem da semana ou dia que servir a S. A. ou aos infantes: tem também entrada o estribeiro mor no dia que sua majestade comungar, e o mordomo mor da rainha; e todos baterão primeiro que entrem.

LXXII: Tanto que sua majestade acaba de comer se fecharão todas as portas do paço, e só ficará aberta a da primeira sala, e no verão à três horas da tarde, e no inverno, às duas irão os porteiros cada um para a que tiver à sua conta, e as terão fechadas, dando as entradas na forma apontada.

(Regimento dos Ofícios da Casa Real Del Rei Dom João o IV. Dom Antônio Caetano de Souza. Provas da história genealógica da Casa Real portuguesa, tomo IV, II parte, 403-408. Coimbra, 1950. L. In: CASCUDO, Luís da Câmara. História da alimentação no Brasil. Belo Horizonte / São Paulo, Editora Itatiaia / Editora da Universidade de São Paulo, 1983. Reconqusita do Brasil (nova série), v. 79-80)

 

Dom João IV, rei de Portugal, fundador da dinastia de Bragança, nasceu em Vila Viçosa, em 1604 e morreu em Lisboa, em 1656. No Brasil, durante seu reinado, Maurício de Nassau, então governador das possessões holandesas, atacou a Bahia e estendeu seus domínios para o norte, até o Maranhão, e para o sul, até Sergipe.

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