Acabada a audiência, vai sua majestade comer, e se o fizer em público assistirão os
títulos, oficiais da casa, e mais pessoas que têm lugar nas audiências públicas, e na
mesma forma em que estão nelas. A casa em que sua majestade deve comer será de
ordinário a do primeiro docel, a respeito de quem entra, e segundo a capacidade desta
casa ou da outra em que sua majestade comer, poderão ter entrada mais pessoas que as que
entram nas audiências.
LIII: Ao vedor da semana toca mandar vir as iguarias a tempo que às onze horas estejam na
copa; e como tudo estiver prestes darão recado a sua majestade, e querendo-o fazer o
mordomo mor, achando-se presente, o poderá fazer.
LIV: As iguarias hão de vir acompanhadas da cozinha para a copa do vedor da semana, o
qual virá sempre descoberto, ainda que seja título. Virão também com elas o guarda
resposta, e o servidor da toalha da semana, e trá-las-ão os moços da câmara entre duas
fileiras de soldados da guarda, e por onde quer que passarem, tirarão os chapéus todas
as pessoas que as encontrarem, e que estiverem por onde elas forem parando, e desviando-se
do caminho, ainda que sejam título.
LV: A mesa porão os resposteiros da copa, para o que terão uma esteira
de verão, e alcatifa de inverno que será na largura e comprimento, de modo que a mesa
fique posta na ponta da alcatifa, para que o trinchante, e oficiais da mesa não fiquem
com os pés postos nela, e só o ficarão os moços fidalgos que estão de joelhos
chegados à cadeira. Se na casa houver docel, se porá debaixo dele. Tanto que a mesa
estiver posta, e nela se puser o saleiro, e o pão, ou alguma cousa de comer, assistirá o
manteeiro da mesma casa, até que sua majestade vá para a mesa, porque a ele toca dar
conta do que ali se puser de comida; e tanto que a mesa estiver posta não se cobrirá
nenhuma pessoa das que estiver na casa, ainda que seja título, e menos passearão, ou se
assentarão.
LVI: Chegado sua majestade à mesa, sairá a benzê-la o capelão mor com dois capelães
domarios daquela semana; e em sua ausência o bispo da capela, e na de ambos o sumilher da
quartina da semana.
LVII: Tanto que se acabar a benção chegará o resposteiro mor a cadeira para se sua
majestade sentar, e acabada a mesa a tornará a afastar, e depois de assentado acenará
sua majestade aos títulos para se cubrirem, e assim eles como os oficiais da casa, e mais
pessoas que ali têm lugar o irão tomar. Na mesma forma em que o fazem nas audiências,
tirado o vedor, porque se porá à parte direita de sua majestade defronte do canto da
mesa; mas não tão chegado à ela como os oficiais que servem à mesa, e com os pés fora
da alcatifa, e o mestre sala se porá da outra banda da mesma forma.
LVIII: Os médicos hão de ficar no outro topo da mesa da banda esquerda, entre ela e os
oficiais da casa.
LIX: Depois de sua majestade estar sentado há de o vedor chegar à porta
da casa em que sua majestade comer, donde virão dois porteiros da cana, e de trás deles
tornará o vedor; e logo o manteeiro com o prato de água às mãos na mão direita
levantada com ele até o ombro, e na esquerda o gomil defronte da cintura, e assim virá
com o rosto na mesa, e os porteiros chegarão um pouco afastados dela, e fazendo sua
mesura, se apartarão cada um para sua banda; e o vedor passando a diante chegará até
junto da alcatifa, onde fará sua mesura, e se tornará para o seu lugar.
LX: O trinchante há de estar encostado à parede com
os mais oficiais da casa, e tanto que os porteiros da cana, e vedor vierem perto da mesa
se sairá do seu lugar, e virá meter entre o vedor e manteeiro; e como o vedor fizer sua
mesura se porá no meio da mesa que é o lugar que lhe toca, mas não se arrimará nem
porá as mãos nela. O manteeiro se porá à mão esquerda do trinchante do mesmo modo
chegado à mesa, e lhe entregará o prato, e gomil, e o trinchante o beijará e chegará a
sua majestade com a mão esquerda, e com a direita deitará água com o gomil; e tanto que
sua majestade lavar as mãos tornará o prato, e o gomil ao manteeiro, e ele o entregará
a um resposteiro da copa. De trás do manteiro alguma cousa para a parte de fora estará o
escrivão da cozinha. A toalha para sua majestade limpar as mãos trará um moço da
câmara num prato, e a dará ao vedor, e ele a deitará a sua majestade, e sua majestade a
torna ao manteeiro depois que se alimpa, e ele a tomará num prato, e a mesma cerimônia
se fará na água às mãos do fim da mesa.
LXI: Antes das iguarias irem para a mesa, tomará o vedor da semana a salva, para o que um
resposteiro da copa porá num prato pequeno à roda umas fatias de pão delgadas e do
tamanho de um dedo, e o chegará ao vedor tendo-o na mão, e não no pondo na copa; e ele
com as fatias irá tocando em cada uma das iguarias, e provando-as.
LXII: Lavadas as mãos, e feita a salva irão as iguarias para a mesa, indo diante delas o
prestes, e de trás dele o servidor da toalha da semana com uma deitada ao pescoço, e uma
iguaria nas mãos, e de trás dele os moços da câmara, e pondo-as na mesa, e o manteeiro
irá passando algumas para a sua parte, e acomodando-as de modo que caibam. As que El Rei
quer comer, pede ao trinchante, e ele tirará do prato a que El Rei lhe disser; e quando
El Rei não disser nada, escolherá a que lhe parecer melhor, e o chegará a El Rei, e
tornará a tirar os mesmos pratos em que El Rei comeu, e os dará ao manteeiro, ele aos
moços da câmara, mas os pratos em que El Rei deitar os ossos, ou cousas semelhantes,
tirará o manteeiro, e não o trinchante.
LXIII: Os moços fidalgos assistirão à mesa de joelhos junto a cadeira de sua majestade
de uma banda e da outra sobre a alcatifa, e se alevantarão no fim da mesa depois de água
às mãos, e a dois deles dará o manteeiro os abanos quando chegarem as iguarias.
LXIV: Acabadas as iguarias, irá o vedor à porta da casa buscar os doces que trará numa
confiteira e guarda reposte, e em um prato grande com uma toalha por cima, e diante do
vedor virão dois porteiros da cana, assim como quando vem a água às mãos, e pondo o
guarda reposte a confiteira com o mesmo prato na mesa a descobrirá, e o trinchante a
chegará à sua majestade; e tanto que sua majestade acabar de comer os doces, e repartir
alguns com os moços fidalgos, a tornará a entregar ao guarda reposte que a levará.
LXV: O copeiro mor estará junto à mesa além do manteeiro, e tanto que sua majestade lhe
pedir de beber, irá à casa de fora onde está a copa, e diante dele se lançará a
bebida no púcaro e ali mesmo diante dele tomará o copeiro pequeno a salva na forma
extraordinária, e dará o púcaro ao copeiro mor, que o levará na mão
direita, e a salva na esquerda, e irão diante o copeiro pequeno, e os porteiros da cana
fazendo praça até chegar à mesa da banda esquerda ou da que estiver desocupada, onde o
copeiro pequeno tirará a sapa do púcaro, e a terá com a mão alçada bem defronte do
ombro estando de joelhos, e o copeiro mor, também de joelhos, lançará uma pequena de
bebida na salva, e provando-a, dará o púcaro a El Rei tendo a salva debaixo dele, e como
sua majestade bebe, lhe torna o copeiro dar o púcaro ao copeiro pequeno, que então se
levantará, e pondo-lhe a sapa que tem na mão, o levará; e o copeiro mor fazendo sua
mesura três passos atrás se tornará ao seu lugar; o guarda reposte e o copeiro pequeno
assistirão na casa da copa enquanto sua majestade comer, para onde virão tanto que nela
estiver a confiteira, ou comida.
LXVI: Acabado de comer chegará o trinchante um prato de cortar a sua majestade, e lança
nele a faca, colher, garfo, guardanapo em que sua majestade se alimpou, e pão que lhe
sobejou, e o manteeiro porá neste tempo na mesa um prato grande em que o trinchante
virará o que tirou El Rei, com o que nele lhe pôs, e logo em outro prato de cortar porá
as suas facas, garfo, colher, e guardanapo, e o tirará o manteeiro, e o dará a um moço
da câmara, e depois levantará o trinchante a primeira toalha, e o manteeiro a porá no
mesmo prato grande; e dará aos que servem à mesa. Neste tempo se levantarão os moços
fidalgos, e se afastarão da mesa, e virá o manteeiro com água às mãos na forma em que
se faz ao princípio, e logo o vedor do seu topo, e o trinchante do outro levantarão a
última toalha, e recolhendo-a o manteeiro num prato grande, a entregará a um reposteiro
da copa, que estará detrás dele, e fazendo sua mesura sairá, e o reposteiro mor virá
afastar a cadeira, e o capelão mor a dar as graças, tudo na forma já referida, e os
oficiais todos acompanharão a sua majestade até a sua câmara, ou casa onde parar, e ali
fazendo sua mesura se recolherão.
LXVII: Se alguma pessoa neste tempo mandar alguma cousa a sua majestade, o vedor se
chegará mais perto da mesa, e lho dirá.
LXVIII: Esta forma é a que se guarda quando sua majestade come em público
ordinariamente, porém sendo em dia de maior festa assim como nos dias das Páscoas, no de
Reis, no de consoada de Natal, ou em outro que por alguma ocasião peça maior solenidade,
se acrescentará que as primeiras e últimas iguarias, e fruta acompanham os porteiros da
cana, e logo os das maças, e dois reis de armas arautos e passavantes, e de trás deles o
porteiro mor, vedor, e mestre sala na forma que fica dito, todos descobertos, ainda que
sejam títulos, e no último lugar o mordomo mor coberto, e assim irá até quando quiser
fazer a mesura junto de El Rei, e nesta solenidade leva a sua insígnia ao ombro.
LXIX: Sucedendo que sua majestade coma carne em dia de peixe deve pôr-se a mesa numa casa
mais dentro da costumada, não entrarão os porteiros da cana, assistirão somente os
oficiais da casa; o vedor irá, e virá à porta, sem os porteiros, e as outras
cerimônias; e só quando vier a fruta então poderá entrar as pessoas que tem lugar nas
comidas públicas.
LXX: Nas ocasiões de nojo assistirão à mesa os oficiais, e os moços da câmara, da
guarda-roupa trarão as iguarias da copa até à mesa, e da mesa as tornarão a levar; e
os moços da câmara as trarão da cozinha à copa, na forma que fica dito.
LXXI: Estando sua majestade doente em cama, virá a comida acompanhada na forma referida;
o camareiro mor e só o que dá de comer; e porque não há mesa, não servem os oficias;
no aposento em que sua majestade estiver deitado, entrará somente o mordomo mor, e os
gentis-homens da câmara se sua majestade os tiver, e o gentil-homem da semana ou dia que
servir a S. A. ou aos infantes: tem também entrada o estribeiro mor no dia que sua
majestade comungar, e o mordomo mor da rainha; e todos baterão primeiro que entrem.
LXXII: Tanto que sua majestade acaba de comer se fecharão todas as portas do paço, e só
ficará aberta a da primeira sala, e no verão à três horas da tarde, e no inverno, às
duas irão os porteiros cada um para a que tiver à sua conta, e as terão fechadas, dando
as entradas na forma apontada.
(Regimento dos Ofícios da Casa Real Del Rei Dom
João o IV. Dom Antônio Caetano de Souza. Provas da história genealógica da Casa Real
portuguesa, tomo IV, II parte, 403-408. Coimbra, 1950. L. In: CASCUDO, Luís da Câmara. História
da alimentação no Brasil. Belo Horizonte / São Paulo, Editora Itatiaia /
Editora da Universidade de São Paulo, 1983. Reconqusita do Brasil (nova série), v.
79-80)
Dom João IV, rei de Portugal, fundador
da dinastia de Bragança, nasceu em Vila Viçosa, em 1604 e morreu em Lisboa, em 1656. No
Brasil, durante seu reinado, Maurício de Nassau, então governador das possessões
holandesas, atacou a Bahia e estendeu seus domínios para o norte, até o Maranhão, e
para o sul, até Sergipe. |